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Reportagem Especial

Empregos no Brasil - Oferta em alta, qualificação em baixa (5'21'')

  • Empregos no Brasil - Oferta em alta, qualificação em baixa (5'21'')

Cerca de 19 milhões de trabalhadores serão contratados este ano, segundo uma pesquisa do Ipea, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Mas quase 17 milhões de vagas serão ocupadas por pessoas que serão demitidas este ano.

E, apesar da criação de quase 2 milhões de novos empregos, a oferta total de trabalhadores, agora incluindo os recém-formados e o estoque atual de desempregados sem a qualificação necessária, chega a quase 25 milhões de pessoas. Portanto, há um contingente de trabalhadores que precisa de treinamento e experiência.

A pesquisa do Ipea mostra que as áreas que vão gerar mais vagas são comércio e reparação, indústria e alojamento e alimentação. Estas áreas e mais a da construção civil devem sofrer até com problemas de escassez de trabalhadores em alguns estados.

Para o presidente do Ipea, Márcio Pochmann, os números mostram várias coisas, mas um problema antigo que se destaca é a alta rotatividade da mão-de-obra:

"Temos um problema no nosso modo de ver que é a elevada rotatividade da mão-de-obra, o fato de 16 milhões de pessoas serem demitidas no Brasil a cada ano para depois serem novamente recontratadas, denota a necessidade de revisarmos o nosso sistema de relações de trabalho que faz com que as demissões sejam muito fáceis no Brasil e levem a uma relação de trabalho descomprometida de maneira geral, fazendo com que o empregado não confie muito no empregador e o empregador não confie muito no empregado. E o risco de um investimento na capacitação do trabalhador ser considerado custo e não investimento para a empresa porque corre o risco desta empresa perder este trabalhador qualificado ou até mesmo o próprio trabalhador não identificar a sua própria qualificação como sendo algo necessário porque ele está sempre rodando, sempre passando por diferentes postos de trabalho".

Pochmann afirma ainda que a retomada do crescimento econômico deve beneficiar todos os setores de maneira genérica, mas ele mostra que existe uma tendência de aumento acentuado no setor de serviços:

"Então, nós teremos um ano cuja estimativa de geração de 2 milhões de postos de trabalho será muito importante não apenas para consolidar a recuperação da economia nacional, mas também fortalecer determinados setores cujo emprego vinha sendo menos importante; mas não há dúvida que o setor de serviços, respondendo por mais de 70% das vagas, este é o setor que tende a ocupar crescentemente os próximos trabalhadores. Então é um setor que merece uma atenção especial do ponto de vista da importância que tem ele para a geração de empregos no Brasil".

Mas a principal questão a ser enfrentada no aumento da empregabilidade da população é mesmo a da qualificação. O país vem investindo mais em educação e conta com programas públicos como os montados pelo chamado Sistema S, que treina pessoas para diversos setores, mas principalmente para o comércio e a indústria.

Há divergência entre os especialistas se existe qualificação suficiente para quem procura, mas o professor de Economia da UnB, Carlos Alberto Ramos, não tem dúvida de que esta deve ser uma polítca de Estado:

"Basicamente é uma política de Estado. Você não pode deixar a formação profissional nas mãos do setor privado porque vai ser um investimento que necessariamente vai estar aquém do desejado".

De qualquer forma, a urgência a necessidade de obter os profissionais que necessita tem feito com que várias empresas busquem seus próprios programas de qualificação, como afirma a presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos, Leila Nascimento.

"Como as empresas precisam de uma atualização rápida, elas estão criando as suas universidades corporativas, elas estão se aproximando mais do sistema S, estão se comunicando mais com as universidades e com as escolas técnicas no sentido de construir currículos e cursos que atendam a essas necessidades".

O diretor de Operações da Confederação Nacional da Indústria, Rafael Lucchesi, explica, porém, que a principal dificuldade é a educação básica. Enquanto os trabalhadores europeus têm, em média, 12 anos de escolaridade, os brasileiros têm cinco:

"Nós contratamos japoneses porque esta é a média de escolaridade da força de trabalho no Japão. E a indústria brasileira como está premida pela competição, pelos novos processos intensivos em tecnologia e inovação, então ela contrata pessoas com elevada escolaridade. E aí cria uma assimetria com a oferta da escolaridade média da população brasileira".

Para Leila Nascimento, o país precisa se planejar logo para evitar soluções como a importação de mão-de-obra. Segundo ela, o fenônemo pode ser verificado na época da constituição das novas empresas de telecomunicações no país que substituiram o sistema estatal.

De Brasília, Sílvia Mugnatto.

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