Reportagem Especial

Especial Marchinhas 5 - A renovação do repertório (09'32'')

Publicação: 08/02/2010 - 00:00

  • Especial Marchinhas 5 - A renovação do repertório (09'32'')

"E no entanto, é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade..."

O ressurgimento das marchinhas de carnaval não veio acompanhado apenas do culto aos grandes sucessos do passado. As velhas marchinhas mantêm o lugar cativo no embalo dos foliões pelas ruas do Brasil afora, mas, ao mesmo tempo, o repertório voltou a se renovar, depois de uma certa estagnação verificada nas últimas décadas do século passado. João Roberto Kelly, considerado o último dos grandes compositores de marchinhas ainda vivo, também já percebeu esse fenômeno e se revela entusiasmado com a renovação.

"Aqui no Rio de Janeiro, todos esses movimentos de bloco estão nessa linha de reviver, misturando a saudade com os tempos modernos. Isso nos dá aqui um caldeamento cultural muito importante. Garotos que, anos atrás, estavam só na onda da discoteque, hoje estão no samba, estão com o tamborim na mão, estão querendo cantar marchinha, estão querendo reviver muita coisa que está dentro da alma deles. Talvez eles ainda não tivessem posto para fora e, agora, o carnaval está fazendo com que isso aconteça".

E essa renovação, às vezes, se apresenta apenas por meio de mudanças no ritmo das tradicionais marchinhas. É o que costumam fazer os foliões do Monobloco, em desfiles e ensaios no Rio, e em apresentações em todo o país.

"Olha a cabeleira do Zezé"
"Olha a cabeleira do Zezé
Será que ele é, será que ele é?..."

O cantor e compositor Pedro Luiz, fundador do Monobloco, explica essa transformação rítmica das marchinhas.

"Ás vezes, a gente usa mais o sotaque das marchinhas mesmo e, às vezes, mistura com o funk, que é um fenômeno tipicamente dos morros do Rio de Janeiro e que casa muito bem com a levada das marchinhas. Dá para cantar as marchinhas todas no ritmo desse funk oriundo das favelas do Rio de Janeiro. A gente utiliza mais a transformação de coisas tradicionais com um sotaque um pouquinho mais contemporâneo".

"Mulata iê iê iê"
"Mulata bossa nova
Caiu no hully gully
E só dá ela
Iê iê iê iê iê iê iê iê
Na passarela..."

Também preocupado com a renovação do repertório, mas sem perder o estilo tradicional das marchas, o Rancho Carnavalesco Flor do Sereno já lançou um CD com músicas inéditas e agora prepara outro para 2011, quando a agremiação estará completando 10 anos de culto às marchas-rancho.

"As velhas canções são lindas
E as novas serão bem vindas
Até me comovo de ver sangue novo
Fazer nosso povo cantar..."

O Flor do Sereno é oriundo do tradicional bar Bip-Bip de Copacabana, reduto de boêmios saudosos do samba de raiz e de marchas autênticas, como esse "Rancho Novo", composto em 2007 pelos sambistas Paulo César Pinheiro e Maurício Carrilho. Dono do Bip-Bip e um dos fundadores do Rancho Flor do Sereno, Alfredo Melo, celebra a propagação de outros blocos e ranchos semelhantes pela cidade e afirma categoricamente: "não pode existir carnaval sem marcha".

"A marcha é importantíssima para o carnaval. Eu sempre brinquei muito carnaval e a marcha até nos descansa um pouco. A gente vem de um samba: ´ba-ba-ba-ba-ba´. Aí, daqui a pouco, vem ´Bandeira branca, amor...´ Aí, você descansa, toma fôlego. Eu acho muito bacana surgirem esses blocos, porque carnaval é um negócio espontâneo, carnaval é para o povo".

"A lira de Brasília"
"A lira de Brasília, ô abre alas, vai passar
A lira de Brasília faz sorrir e faz sonhar..."

Esse processo de revitalização do repertório das marchinhas de carnaval se verifica em todas as cidades que preservam o democrático carnaval de rua. Na capital federal, por exemplo, o bloco Pacotão arrasta milhares de foliões pela principal avenida comercial da cidade, há mais de 30 anos. O Pacotão surgiu como resistência irreverente à ditadura militar e até hoje mantém a tradição de desfilar na contramão da avenida e de criticar os políticos.

Nesse ano em que Brasília completa meio século de vida, Paulão de Varadero, autor das marchinhas mais debochadas do bloco, decidiu compor uma exaltação em forma de marcha-rancho para afirmar que "o Pacotão é a lira que sacode a multidão" e faz o povo de Brasília esquecer a desilusão.

"Escuto o eco de tambores, caixas e clarins
A marcação do surdo, o repicar dos tamborins
O ronco da cuíca, os repeniques, os agogôs
O bloco horrorizando os corruptos chinfrins
O Pacotão é mesmo assim
Explode o coração dentro de mim.."

Em Pernambuco, a cadenciada marcha de bloco e o frenético frevo-canção também se renovam por meio do repertório de Alceu Valença, da orquestra Spok Frevo, dos compositores dos blocos de Recife e Olinda e de pesquisadores do ritmo, como o músico Antônio Nóbrega, um dos autores do frevo "Minervina".

"Quem nunca viu amor assim tão roxo...
Vai fazer fuxico quando ver Minervina.
Desvergonhada, não conhece alvoroço,
Na hora H é minha estrela matutina..."

As cidades históricas de Minas Gerais também querem ver o dia a dia interiorano retratado no repertório das marchinhas. Diamantina, Ouro Preto, Mariana, São João del Rey, Tiradentes e Sabará já cultuam os grandes clássicos do passado e decidiram agora incentivar a produção local de novas marchas, como conta o secretário de cultura de São João del Rey, Ralph Justino.

"Aqui, já tem uma boa tradição de bons compositores. Do ano passado para esse ano, o nosso estímulo foi muito grande para tentar ver se novos autores também criam marchinhas atuais, compostas por autores de São João del Rey. É um trabalho nosso de incentivo para cada ano haver mais novidades nesse sentido".

"Sou índio louro com pinta de negão
Eu tenho todas raças misturadas com tesão..."

Outro grande incentivo à renovação do repertório é o Concurso Nacional de Marchinhas Carnavalescas, promovido pela Fundição Progresso, no Rio de Janeiro. A competição é aberta a compositores de todo o país e tem atraído até nomes do pop rock nacional, como Eduardo Dusek, autor de "Índio louro com pinta de negão", que a gente ouve ao fundo.

Desde a primeira edição, em 2005, o concurso também promove bailes, desfiles e gravação de CDs em que as marchinhas são protagonistas absolutas. Vencedor de 2009, Edu Krieger avalia que o brasileiro tem o dom nato para a composição de marchinhas.

"Eu acho que existe uma vocação do brasileiro para compor marchinha, porque o brasileiro é bastante debochado, no bom sentido, trata os assuntos de uma forma politicamente incorreta naturalmente, tem essa vocação para fazer essa crônica bem humorada, que é a marchinha".

"Agora já era o juízo final
Bendita baderna, livrai-nos do mal
Relaxa, Pai nosso, libera geral
Sem culpa ou remorso
Hoje é carnaval..."

"Bendita Barderna", a marchinha de Edu Krieger vencedora do festival da Fundição Progresso, debocha do comportamento humano, assim como fizeram várias outras marchinhas e frevos antigos. E a receita desse processo de renovação tem sido essa mesma: mirar-se nos exemplos do passado para tentar reproduzir marchas cada vez mais ricas em crítica social, irreverência, melodia e até poesia.

De Brasília, José Carlos Oliveira

"Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando seu canto de paz
Seu canto de paz..."

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

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