Rádio Câmara

Reportagem Especial

Terapia comunitária - A cura pela fala (07'08)

  • Terapia comunitária - A cura pela fala (07'08)

A história da terapia comunitária começa há 22 anos. No ambulatório de psiquiatria do hospital da Universidade Federal do Ceará, pacientes do Pirambu vinham em busca de alívio para as suas angústias.

O Pirambu é uma favela de Fortaleza com 280 mil pessoas. Enquanto iam dois ou três pacientes por vez, o psiquiatra Adalberto Barreto ia fazendo os encaixes.

Mas um dia apareceram oito pessoas, e o médico resolveu fazer o caminho inverso. Naquela semana, ele foi ao encontro da comunidade.

"Na quinta-feita, quando eu vi, tinha trinta e tantas pessoas. Todas atrás de um remédio, todas querendo um remédio controlado, porque era depressão, era sofrimento. Quando eu cheguei aqui me deparei e vi que a maioria das demandas era sofrimento, não era patologia, não era uma doença. E eu me dei conta então que talvez nós, instituições, estejamos medicalizando o sofrimento."

Aos poucos, o psiquiatra e antropólogo foi desenhando um modelo terapêutico diferente, onde foi construído um espaço de escuta do sofrimento cotidiano.

Em rodas de pessoas da mesma comunidade, as pessoas falam de seus problemas e apontam possíveis soluções. Adalberto Barreto argumenta que a fala tem a capacidade de prevenir doenças.

"Vamos falar com a boca pra não falar com depressão, não falar com insônia, não falar com gastrite. Quando a boca cala, os órgãos falam, e quando a boca fala, os órgãos saram. Então estamos reduzindo o estresse de pessoas que talvez daqui a alguns anos teriam que fazer alguma cirurgia ou ter algum problema cardiológico."

Adalberto Barreto destaca que não é contra a medicação na psiquiatria. Os casos graves de depressão e ansiedade muitas vezes pedem remédios sim. Mas ele destaca que o estresse dos dias de hoje só tem aumentando a angústia das pessoas, e esse sofrimento não desaparece com medicação. Mas pode ser aliviado com acolhimento e quando as pessoas percebem que podem encontrar alternativas por elas próprias.

Kelly Espíndola freqüentou um grupo de terapia em Brasília por quatro anos e hoje é instrutora dessa roda. Ela conta que a troca de experiências ajudou a clarear as suas escolhas.

"Eu fui descobrindo que muitas pessoas tinham a vida muito parecida com a minha. As dores podiam ser diferentes, mas o contexto, por mais diferente que fosse, ele tinha uma semelhança. E aí eu ia vendo uma pessoa que foi descobrindo um caminho X, outra Y e eu fui traçando também o meu. Fui simplificando a minha vida."

A terapia comunitária já começa a ser estudada nas universidades. Como instrumento de apoio social, até o momento não se encontram contestações sobre a sua eficácia.

A proposta da terapia não é ser a solução dos problemas ou a cura de patologias psiquiátricas, mas sim uma rede de apoio para os sofrimentos da vida.

Maurino Bertoldo é psicólogo e terapeuta comunitário em Governador Valadares, Minas Gerais. Ele aponta que as rodas de terapia oferecem estratégias para enfrentar a mágoa que vem do abandono do parceiro, da família e mesmo do abandono social.

"A solidão, o se sentir sozinho, abandonado, marginalizado, ou seja, à margem de todo um processo social, isso é um grande sofrimento pra maior parte das pessoas. O sentir que ela está em grupo, que o grupo a entende, que o grupo não está ali pra dar conselho mas está ali para ajudar no que ela precisar, que ela pode desabafar, ela não vai ser condenada, não vai ser julgada, isso é um fator já de cura de todo um processo tanto físico e psíquico mas também social."

Maurino Bertoldo conta que a terapia comunitária o tocou pois viu pessoas começando a enfrentar os problemas com dignidade. E mais do que isso, sem esperar que a solução venha do médico ou do governo.

"Aos poucos, vão se criando redes solidárias de auto-ajuda, de busca de empregos, de como conseguir medicamentos, onde eu posso exercer o meu direito, fazer a justiça acontecer, isso de maneira muito mais tranquila, serena, sem ficar se lamuriando, se lamentando e achando que alguém tem que fazer algo por ela. Ela descobre que ela pode fazer por si e pode contar com a ajuda daquela comunidade que está ali."

Os grupos de terapia comunitária chegaram às associações de bairro, igrejas, órgãos públicos, escolas ou mesmo debaixo das árvores. Hoje, as rodas estão espalhadas por todo o país e já ultrapassaram fronteiras.

Profissionais de países como Suíça, França e Uruguai conheceram a técnica no Brasil e iniciaram grupos no exterior.

Nos estados, existem 36 centros de formação de terapeutas que já capacitaram mais de 15 mil instrutores. E os terapeutas comunitários não precisam ter nenhuma formação anterior, como uma faculdade.

As rodas se mostram tão eficazes que o programa Saúde da Família treinou profissionais e agentes comunitários para atuarem como instrutores, algo comemorado por Marli Olina de Souza, presidente da Associação Brasileira de Terapia Comunitária.

"Para terapeuta comunitário, o nosso remédio é a pessoa poder falar. Levar o divã pro povão foi uma coisa fantástica. As pessoas realmente poderem ser acolhidas, olhadas, a gente olhar a pessoa e não através dela. Acho que isso vai melhorar bastante essa questão da auto estima e da saúde mental das pessoas."

Lourdinha Rocha mora em Beberibe, no Ceará, que fica a 90 quilômetros de Fortaleza. Ela é professora e passou de paciente a instrutora de uma roda de terapia.

Lourdinha fala que o respeito pela vida do outro é fundamental para que as pessoas possam se expressar livremente.

"Eu falo assim: não é segredo, mas a gente também não vai comentar o problema de ninguém no meio da rua, porque as pessoas de fora não vão entender. E depois de três anos e meio a gente não escuta um comentário na rua a respeito do problema que é colocado na terapia. Quando os adultos perguntam como é a terapia, eu respondo: vá lá que você conhece."

Segui o conselho de Lourdinha e fui conhecer uma roda de terapia. Esse momento você acompanha na reportagem de amanhã.

De Brasília, Daniele Lessa

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

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