Reportagem Especial

Terapia comunitária - As diversas possibilidades (8'04'')

Publicação: 15/09/2009 - 00:00

  • Terapia comunitária - As diversas possibilidades (8'04'')

A terapia comunitária foi idealizada pela psiquiatra Adalberto Barreto há pouco mais de 20 anos. Naquele momento, o ambulatório de psiquiatria da Universidade Federal do Ceará passou a receber cada vez mais pacientes de comunidades pobres em busca de um remédio para o sofrimento.

A terapia comunitária surgiu como um espaço de escuta e busca de soluções para os problemas do dia-a-dia - o filho que se envolveu com drogas, o marido que perdeu o emprego, o casamento que acabou, a violência das cidades, o medo.

Em 2007, uma pesquisa ouviu 12 mil pessoas que participam de rodas de terapia comunitária, em 12 estados. O estudou mostrou que 88% das pessoas disseram que resolveram suas questões na própria terapia. Apenas 12% precisou ser encaminhada ao serviço público de saúde para atendimento psiquiátrico.

Com essas informações na mão, o Ministério da Saúde firmou convênio para treinamento de terapeutas comunitários.

Carmen de Simoni é coordenadora do Programa Nacional de Práticas Integrativas e Complementares do Ministério da Saúde. Ela destaca que a população busca o serviço de saúde para aliviar o sofrimento cotidiano.

"O foco é o estresse cotidiano, é o desemprego, que são coisas que não são resolvíveis pelo sistema oficial de saúde, mas sim as repercussões que isso tem. Mas isso gera sofrimento e gera a busca de um encontro com o serviço de saúde para minimizar esse sofrimento que muitas vezes não está em uma ordem física e nem mental."

Em 2008, foram 1050 terapeutas treinados em 15 estados. Metade deles são agentes comunitários de saúde, o que reforça ainda mais o laço com a comunidade local.

Carmen de Simoni estima que neste mesmo ano foram realizadas cerca de 6 mil rodas dentro do programa Saúde da Família.

"Isso significa, multiplicado por 20, que é mais ou menos o número de pessoas que a gente encontra, quase 120 mil pessoas, ou mais, que foram acolhidas no seu sofrimento cotidiano, porque é isso que a terapia comunitária faz."

Para 2009, o esperado é treinar o mesmo número de terapeutas para atuar dentro do Saúde da Família. Mas é um engano pensar que a terapia comunitária funciona apenas para comunidades mais pobres.

Atualmente existem grupos em bairros de classe média e órgãos públicos. Afinal de contas, uma das coisas mais democráticas do mundo é o sofrimento, que atinge a todos, mesmo que de forma diferente.

Em Governador Valadares, Minas Gerais, o governo passou a criar rodas de terapia comunitária entre os servidores da educação e da saúde.

Maurino Bertoldo é psicólogo e acompanha alguns desses grupos. Ele aponta que a terapia comunitária é uma maneira de cuidar do estresse de quem deveria cuidar do sofrimento da população nos hospitais e centros de saúde.

"Como eu vou dar um acolhimento se já estou exausto emocionalmente, se já não tenho mais aquela paciência, se eu já estou comprometido com os meus próprios problemas, então, às vezes eles não dão conta. Então, esse processo de atender e cuidar dos cuidadores, especialmente na área de saúde, é para resgatar esse desejo e a força que o servidor público tem."

Maurino Bertoldo destaca que a terapia pode ser um caminho que ajude o servidor a ver com outros olhos o cidadão que busca atendimento.

"Cada pessoa que é atendida ele atende de um jeito diferente, porque agora eu estou falando com uma pessoa que também é como eu, tem suas dores e seus amores. Isso está sendo uma descoberta muito interessante para o servidor nosso. Da mesmo forma como ele precisa, quem chega para ser atendido também precisa. Quando ele se permite ser cuidado, ele começa a se preparar para cuidar do outro, e isso acontece em uma roda de terapia."

Francisca Elizabeth de Souza é assistente social e trabalha no sistema penitenciário há 26 anos. Na Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do Amazonas, ela vem desenvolvendo ações de terapia comunitária com pessoas condenadas a penas alternativas e também com homens e mulheres de presídios.

Ela destaca que os grupos melhoram a tensão que bastante elevada nesses ambientes, algo que se reflete inclusive na queda do número de conflitos e rebeliões.

"Não que a gente vá interferir no que eles vão fazer ou deixem de fazer. Ele mesmo vai chegando a uma compreensão que alguma coisa precisa mudar e essa alguma coisa tem que começar dele, não dos funcionários, não do juiz, não na família que está lá fora. Ele começa a perceber que os conflitos muitas vezes ele mesmo cria dentro dele. O nosso trabalho tem resultado por isso. Chega um ponto que ele diz: sabe que é verdade, agora que percebi que não sou só eu que estou aqui dentro, a família não é só a minha que está sofrendo lá fora, eu errei."

Os grupos de terapia comunitária são abertos a qualquer pessoa interessada. Mas as mulheres são vistas com mais freqüência nas rodas. Seja por terem mais facilidade em aceitar que precisam de ajuda, seja por vivenciarem problemas muito particulares, as mulheres buscam mais a terapia.

A presidente da Associação Brasileira de Terapia Comunitária, Marli de Souza, diz ter verificado que o sofrimento afetivo gera doenças para as mulheres.

"Eu fiz uma pesquisa porque eu ouvi uma fala do Dr. Adalberto Barreto há muito anos, ele dizia que as mulheres que não tinham a sua vida afetiva bem resolvida, elas adoeciam os órgãos de prazer. Daí fui fazer uma pesquisa e realmente encontrei muita somatização, mulheres que tem nódulos de mama, sangramentos, miomas e por aí afora."

Marli aponta que as rodas de terapia comunitária, ou simplesmente rodas de TC, podem ser uma maneira de as mulheres se descobrirem melhor no mundo. Ao compartilhar experiências, elas se sentem mais fortes.

"Nesse trabalho se faz o empoderamento das mulheres. A gente que dá o poder ao outro. Nós damos poder ao marido, à situação inclusive política, né? Semana passada em Santa Catarina em um curso e aí uma esposa disse que chegou em casa depois de uma roda de TC e o marido brigou com ela, e ela disse: ah não, depois de uma coisa tão gostosa que eu estava fazendo, um grupo tão maravilhoso de acolhida, não vou permitir que tu faças isso. Eu achei bárbaro. São as pessoas podendo dizer: eu não quero isso pra mim."

É importante lembrar que a proposta da terapia comunitária não é ser a solução dos problemas ou a cura de patologias psiquiátricas, mas sim uma rede de apoio para os sofrimentos da vida.

Em casos graves de ansiedade, depressão e outros transtornos, o correto é sempre buscar o serviço especializado.

A maneira mais fácil de saber se existe um grupo de terapia comunitária na sua região é perguntando. Afinal de contas, as rodas acontecem dentro das comunidades.

Nesses tempos de tanta pressa, parar um pouco para ver e ouvir o outro pode ser um caminho de cura pra si próprio.

De Brasília, Daniele Lessa

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