Rádio Câmara

Reportagem Especial

Terapia comunitária - Por dentro do tratamento (07'33'')

  • Terapia comunitária - Por dentro do tratamento (07'33'')

Estamos em uma sala de aula de um centro de atendimento social do governo. A cidade é Taguatinga, no Distrito Federal. Nesse lugar, todo sábado, às oito e meia da manhã, uma roda de terapia comunitária acontece.

A quantidade de pessoas varia a cada semana, e nesse dia não são muitos. Sete pessoas sentadas no círculo.

A instrutora Kelly Espíndola começa os trabalhos com um alongamento bem suave. Os braços se esticam, as mãos tocam o rosto. De repente, a sensação do que é ter um corpo, como explica a dona de casa Magda Cristina.

"Tem um trabalho terapêutico que é você entrar em contato com você mesmo. Eu mesma tinha muita dificuldade no toque. Quando você vai começando, eu fui começando a me tocar, e fui permitindo às vezes um abraço do outro. Aquele momento final do abraço eu acho super interessante, quando alguém vinha pra perto de mim eu já fazia assim, né? Hoje eu já sinto assim mais afetuosidade. Aí no princípio, você vai passando a mão em você, vou passando a mão em mim, me sentindo mesmo, vou cuidando de mim, gostando de mim."

O toque em si mesmo abre as reuniões e o toque no outro finaliza o trabalho. Quando tudo termina, a roda se fecha em uma grande abraço onde o corpo das pessoas balança de leve.

Braços nos ombros ou na cintura do companheiro. É uma onda suave atravessando a todos. Mas ainda tem muita reunião antes do final. E a parte que vem a seguir ao alongamento é uma surpresa.

Nesse momento, os aniversários são lembrados e as pessoas contam das coisas boas a serem comemoradas e agradecidas.

"A gente sempre tem uma lista de reclamações enorme. Se eu parar pra pensar, o primeiro dia que eu cheguei aqui eu lembro ainda. Quando chegou nessa parte, vamos agradecer, como eu vim no intuito de tratar alguma coisa que não me agradava, eu estava com toda aquela lista prontinha na minha cabeça, tudo que me desagradou naquela semana, tudo de mal estar que eu sentia. E quando veio essa parte, eu estava assim totalmente despreparada pra ela. Eu comecei a valorizar as pequenas coisas, poxa, realmente, tem sempre alguma coisa boa."

Que bom seria se fossem apenas coisas boas. Mas logo depois é o momento de lembrar a razão das pessoas estarem ali, naquele momento.

São angústias, medos e dúvidas. Cada pessoa pode resumir uma questão que está lhe ocupando a vida. Um fala da ansiedade que a separação lhe trouxe, outra fala da dificuldade em tomar decisões, outro conta que não consegue valorizar o que faz de bom na vida.

E assim a roda gira e para em todos que queiram falar. Depois disso, todos votam em um único tema. É possível votar no próprio assunto, mas, nessa reunião, ninguém fez isso.

Todos se identificaram com um assunto do companheiro ao lado. E essa pessoa que teve o tema escolhido, pode falar por uns 15 minutos. Janildo Souza freqüenta as reuniões há mais de três anos, e conta como a fala do outro ajuda o seu próprio caminho.

"A fala é fantástica porque eu fico ouvindo e começo a aplicar isso na minha vida. É um atalho que eu tenho para a maturidade. Eu ouço uma história de fulano, de beltrano, e fico refletindo naquilo. O que eu tenho a ver com aquilo, o que tenho que parece, o que preciso fazer pra melhorar naquele aspecto da vida. Então antecipo, encurto o caminho da maturidade e em consequência eu fico mais feliz. E estar feliz é tudo de bom, com as minhas coisas, as minhas decisões, a minha vida. Eu consegui até emagrecer."

As outras pessoas da roda podem fazer perguntas a quem está colocando o seu problema. Mas ninguém dá conselho.

São apenas perguntas, algumas difíceis de serem respondidas. Quem está se abrindo ao grupo pára, pensa, vez por outra diz que não sabe. Depois disso, quem fala se aquieta e escuta os companheiros.

As pessoas que já estiveram naquela situação narrada contam como atravessaram o problema, o que fizeram para superar o sofrimento.

É permitido sugerir uma música, um verso, uma história que mostre a questão de outro ângulo. E uma coisa importante, as pessoas sempre falam usando a palavra eu. A ideia é dividir coisas vividas e não simplesmente opiniões sobre o assunto.

A instrutora Kelly Espíndola freqüentou a terapia por quatro anos antes de fazer o curso para ser terapeuta. Ela fala como a troca de experiências ajudou em sua busca individual.

"Quando eu vejo algo que eu estou passando e o que o outro já passou, eu posso falar pra mim mesma e falar: olha, esse lado eu posso ir mas tem esse resultado. É ele que eu quero? Aqui eu via muito isso. Está muito vinculado ao problema familiar, não tem como fugir. Aí eu olhava as situações e falava: não, isso eu não estou a fim de experimentar mais, e aí fui me reeducando."

Hoje, Kelly trabalha no grupo de forma voluntária. Para ela, é uma maneira de retribuir tudo aquilo que continua recebendo ao estar nas rodas.

"O trabalho voluntário acaba fortalecendo a minha identidade. Eu vou me simplificando também vou vendo que aquilo que eu fazia um drama tão grande, ele não era tão grande assim, vou resignificando a minha vida. Às vezes eu estava achando que uma coisa era de uma forma, aí um colega fazia uma pergunta ou contava a história dele e eu conseguia resumir a minha história, reescrever de uma forma diferente. Pra mim vale muito ser voluntária. Eu estou devolvendo ao grupo aquilo que o grupo me dá diariamente."

Os assuntos tratados na roda são fortes, e ao mesmo tempo são assuntos de todos os dias da vida das pessoas. Às vezes alguém chora. A pessoa do lado oferece um abraço, ela aceita apenas se quiser. No fim das contas, depois do abraço, todos voltam para as suas vidas, os problemas não somem por mágica.

Mas Janilson, que é chamado no grupo de Jan, fala que o grupo lhe lembra que a vida é resultado de escolhas. E uma dessas escolhas é assumir a própria vida em vez de esperar que os outros façam isso.

"Enquanto eu tô(sic) doente, tem sempre alguém para me dar uma canjinha, pra ter dó de mim, ah coitadinho, tá doente. E se eu ficar bom, quem é que vai querer me cuidar, quem vai querer me dengar? Então, tem gente que não quer ser curada, tem gente que não sabe se dengar, não denga a si próprio, não cuide de si próprio, então ele precisa de alguém pra cuidar dele."

O que se vê naquela roda é que naquele momento, todos cuidam de todos, para que ao longo da semana, cada um assuma a responsabilidade de cuidar de si. Com a diferença de não se sentir sozinho ao longo do caminho.

É importante lembrar que a proposta da terapia não é ser a solução dos problemas ou a cura de patologias psiquiátricas, mas sim uma rede de apoio para os sofrimentos da vida. Em casos graves de ansiedade e depressão, o correto é sempre buscar o serviço especializado.

De Brasília, Daniele Lessa

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

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