Reportagem Especial

Amazônia Azul - As espécies ameaçadas pela pesca (06'56")

Publicação: 07/09/2009 - 00:00

  • Amazônia Azul - As espécies ameaçadas pela pesca (06'56")

José Alberto Lima, ou simplesmente Beto, é pescador no litoral leste do Ceará. Filho de pescadores, ele cresceu em meio a um movimento contra a especulação imobiliária na Prainha do Canto Verde, município de Beberibe.

Hoje, aos 35 anos, Beto coordena o Movimento Nacional dos Pescadores, e fala com propriedade sobre a realidade da pesca nas águas brasileiras.

"A gente que cresceu nesse mundo da pesca como pescador e filho de pescador, eu posso dizer que a gente sente muito a crise. Hoje os nossos cardumes aqui na região tá bem mais pouco, principalmente de lagosta. A gente conhece vários companheiros, principalmente alguns jovens, que migraram para outros estados como São Paulo, Amazonas, para trabalhar nas indústrias, nas firmas de mineração. Pra nós é muito doloroso. Ao mesmo tempo também, a gente vê alguns companheiros em outras comunidades que estão lá pescando, mas estão em situação muito difícil, com muitos conflitos, principalmente aqui no Ceará, que nós temos o problema da pesca da lagosta e tem um grupo de pescadores que pesca de forma predatória, que desafia os pescadores que pescam de forma legal, então há um desespero quanto à crise de pesca"

O desespero citado por Beto encontra explicação nos números. Os peixes, crustáceos e moluscos estão ficando mais raros não apenas nas águas brasileiras, mas em todo o planeta.

Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação - FAO -, 80% das populações mundiais de peixes estão plenamente exploradas ou sobre-exploradas.

O analista ambiental do Ibama, José Dias, enumera as espécies que correm mais risco de desaparecer das águas e, consequentemente, da mesa dos brasileiros.

"Além da sardinha, nós temos todas as pescarias de camarões do Sudeste/Sul altamente comprometidas, tanto a pesca do camarão rosa, quanto a do sete-barbas, do branco. Temos também a pesca dos peixes demessais de profundidade: castanha, corvina, pescada-olhuda, pescadinha-real, que estão em pleno uso, ou mesmo ameaçadas. Temos o caso das tainhas no Sudeste/Sul. No Nordeste, problemas sérios com as lagostas, que vivem numa situação de extrema instabilidade em função da sobrepesca. A situação também é crítica com o pargo. Temos também a pesca de camarão do Norte e a piramutaba. A piramutaba a gente também vem recuperando a sua produção, mas esteve em situação crítica. Essas espécies representam a grande quantidade de pescados do Brasil"

Assim como o órgão das Nações Unidas para alimentação, José Dias defende um urgente trabalho de ordenamento para recuperar os estoques pesqueiros.

Coordenador-geral de Pesca Industrial do Ministério da Pesca, Fabiano Rosa considera que uma das respostas para atender a demanda crescente, mesmo com a escassez de pescados, é o cultivo, tecnicamente conhecido como aquicultura.

Ele garante que o país aprendeu com os erros cometidos principalmente na criação de camarões, atividade tida como fortemente degradante dos ambientes costeiros.

"O aumento da produção a qualquer custo traz impactos negativos e significativos pra própria atividade produtiva. Você não pode ter, de uma hora pra outra, uma produção de um organismo que não existia naquele ambiente e de forma muito acelerada. Tudo isso hoje vem sendo dosado. Hoje, o que já se tem estabelecido é o cultivo de camarão, da tilápia, bastante difundido nas áreas continentais, água doce. Mais recentemente o Ministério da Pesca tem trabalhado numa linha de desenvolver a produção do beijupirá, que é uma espécie nativa, isso é muito importante. Diferentemente do salmão do Chile, que é uma espécie introduzida, o Brasil tá apostando no desenvolvimento desse cultivo de peixe marinho com uma espécie brasileira. Vem também no sentido de minimizar o impacto de se introduzir uma espécie de fora, que pode, de alguma forma, trazer prejuízos para aquele local onde está sendo inserido"

Apesar dos esforços para se alcançar uma produção sustentável, são fortes as críticas à intenção de se aumentar o consumo de pescados no Brasil.

O próprio analista ambiental do Ibama, José Dias, considera estranho que um mesmo órgão, no caso o Ministério da Pesca, seja responsável por expandir a produção e também definir limites de uso dos recursos naturais.

A coordenadora da Campanha Oceanos do Greenpeace, Leandra Gonçalves, vai além.

"O grande problema disso tudo é que esse Ministério da Pesca foi criado, na verdade o problema não é se criar um ministério, mas sim como esse ministério observa os estoques pesqueiros, que é pela visão produtivista. O que o Greenpeace propõe é que os estoques pesqueiros sejam olhados pelo fato da conservação da biodiversiadde, que é a gente possa sempre estar pescando, mas pescando melhor"

Leandra defende a suspensão da pesca das espécies mais ameaçadas como forma de dar tempo para que elas se recuperarem.

O oceanógrafo da Universidade de São Paulo, Roberto Ávila, também avalia que o momento deveria ser de mais cuidado com as nossas riquezas marinhas.

"O Ministério da Pesca tem que tomar cuidado com os subsídios, porque o subsídio facilita os pescadores a pescar mais. Só que pescar mais, nos recursos que já estão em decadência, significa prejudicar mais. O momento é recuperar estoques pelo menos nos níveis que a gente tinha antes e ordenar essa exploração pesqueira, porque não adianta construir barco e botar barco para pescar mais porque vai chegar uma hora que não vai ter mais nada. E o pescador vai estar em situação cada vez pior. A gente já tem visto que a frota comercial tem chegado cada vez mais próximo da costa, onde tem os berçários já estão pescasdo ali, você imagina o resultado disso, os peixes não têm tempo nem de crescer pra atingir o tamanho e a idade pra começar a se reproduzir. Fora isso, os métodos de pesca que são altamente predatórios, como as redes de arrasto de fundo, elas são comparadas a um arado que passa no fundo do mar capturando tudo que tem pela frente, destruindo inclusive os organismos que estão no substrato, que são importantes para o retorno do nutriente no ambiente marinho, então os elos da cadeia trófica estão sendo destruídos"

Mas o histórico da pesca no Brasil não é feito apenas de experiências negativas. A recuperação dos estoques de sardinha é um exemplo de que é possível reverter um cenário de escassez.

No fim dos anos 80, a produção anual do pescado chegou a 80 mil toneladas. Quase dez anos depois, após medidas como fixação do período do defeso, o número saltou para 120 mil toneladas. Porém, com os bons resultados, as regras afrouxaram e, no ano 2000, o setor registrou o pior volume da sua história: foram 17 mil toneladas de sardinha, redução que chegou a 90% em comparação à década de 70.

O esforço de gestão foi retomado e, agora, a produção está em torno de 60 mil toneladas.

Estima-se que a atividade de pesca e derivados gere 800 mil empregos que, direta e indiretamente, sustentam cerca de 4 milhões de pessoas.

De Brasília, Mônica Montenegro

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