Reportagem Especial

Amazônia Azul - A farmácia do futuro está submersa (07'53")

Publicação: 07/09/2009 - 00:00

  • Amazônia Azul - A farmácia do futuro está submersa (07'53")

Você pode morar a centenas de quilômetros do litoral, mas certamente tem um pouquinho do mar na sua casa.

Os exemplos vão desde o sal marinho usado na
cozinha, a gasolina que move seu carro, até cosméticos e medicamentos potentes.

É por isso que muitos pesquisadores apostam que a farmácia do futuro está sob os oceanos. Várias espécies já são usadas com esse fim, como alguns tipos de esponjas marinhas. Elas contêm substâncias com propriedades anti-virais que, sintetizadas, são usadas no tratamento da Aids, da herpes e do câncer.

Apesar da grande biodiversidade, o Brasil ainda não conseguiu desenvolver nenhum fármaco a partir de espécies marinhas.

Para o químico Roberto Berlinck, da Universidade de São Paulo, as dificuldades de se pesquisar em alto-mar e a falta de especialistas fazem com que essa área de conhecimento ainda seja pouco explorada, mas muito promissora.

"Existe um analgésico extremamente potente, descoberto a partir de um caramujo marinho que tem várias toxinas e uma delas mostrou uma atividade analgésica tão forte quanto a morfina, que é um medicamento usado pra pacientes terminais de câncer, que têm muita dor. E esse medicamento tem uma vantagem sobre a morfina porque ele não causa dependência. Cada vez mais, tem-se procurado conhecer espécies de micro-organismos marinhos, porque os micro-organismos do ambiente terrestre já foram muito pesquisados, então existe um grande interesse em se conhecer muito melhor a microbiologia marinha, objetivando a descoberta e o desenvolvimento de substâncias com potencial de aplicação médica"

A biodiversidade marinha do Brasil não é desconhecida apenas em seu potencial biotecnológico. Nossas águas abrigam espécies comerciais de altíssimo valor, como o caranguejo-rei, que pode chegar a 3 kg.

Sua presença era desconhecida pelos brasileiros, mas embarcações japonesas saíam do outro lado do mundo já sabendo que valia a pena explorar a nossa costa.

O oceanógrafo da Universidade de São Paulo, Roberto Ávila, participou durante quatro anos de um amplo mapeamento para identificar o potencial pesqueiro do país.

O trabalho, coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente e batizado de Revizee, trouxe muitas surpresas, pois os pesquisadores nunca tinham ido tão longe.

"Os projetos anteriores chegaram a até 200 m de profundidade. Com o Revizee nós chegamos em até 2.000 metros. No primeiro cruzeiro de pesquisa a gente saiu sem saber o que ia encontrar lá fora. As pessoas tinham aquela ideia: nós temos um litoral tão imenso, devemos ter então muitos peixes a serem explorados. E tivemos uma surpresa um pouco decepcionante neste aspecto: não temos grandes estoques, mas temos uma biodiversidade muito grande. Temos espécies novas e novas ocorrências. Tivemos surpresas muitos grandes com relação a alguns recursos, como caranguejos de profundidade, uma espécie que não era explorada no Brasil e, de repente, no início do programa Revizee teve a presença de um navio fábrica do Japão pescando toneladas desse recurso, um recurso de alto valor econômico. Depois vieram outras embarcações para pescar algumas espécies que também a gente não conhecia, como o peixe-sapo, ou peixe-diabo, uma espécie de alto valor comercial na Europa e foi muito explorado nas nossas águas"

Iniciado em 1995, o Revizee seguiu até 2006 com o envolvimento de 300 pesquisadores ligados a universidades e instituições de pesquisa.

Concluído o mapeamento sobre os recursos marinhos da costa brasileira, teve início então o Programa Revimar, que pretende gerar informações contínuas a partir do monitoramento dos recursos vivos presentes nos nossos mares.

O que acontece no mar afeta setores econômicos que vão além do comércio exterior, da biotecnologia ou da extração de recursos pesqueiros.

É o caso da agricultura, como explica o comandante da Marinha Flávio Giacomazi.

"Nós temos um programa que faz o monitoramento oceonográfico e climatológico na área do Atlântico Sul. Esses dados nos possibilitam ter melhores previsões meteorológicas que vão contribuir para o planejamento de plantios das safras no Brasil. Os dados do mar, da nossa Amazônia Azul, têm uma influência muito grande sobre o clima brasileiro, além de que esses dados podem antecipar a ocorrência de fenômenos extremos que possam afetar o Brasil, como o caso do ciclone antitropical que tivemos em 2004 na região de Santa Catarina"

As pesquisas são fundamentais também para a preservação de espécies, como os albatrozes. A captura acidental de aves marinhas por barcos pesqueiros é frequente, matando os animais e reduzindo a produtividade da pesca.

Mas a bióloga e coordenadora do Projeto Albatroz, Tatiana Neves, garante que é simples evitar que isso ocorra.

"O espinhel é uma linha longa, de 80 km de comprimento, com cerca de 1.200 anzóis espalhados ao longo dessa linha. São anzóis grandes pra pegar peixe de grande porte. O pescador coloca a isca no anzol, geralmente a lula argentina, que é um item alimentar muito importante para os albatrozes também, então eles vão botando a isca no anzol e jogando uma a uma. Esse anzol com isca ele boia um pouco antes de afundar. A ave não sabe que tem um anzol dentro daquela comida, ela acaba mergulhando pra pegar e fica presa, ela é arrastada pra baixo viva ainda. Uma morte bem cruel e muito fácil de ser evitada. Algumas soluções já foram apontadas, como a instalação do tori line, tipo um espantalho marinho, como se fossem postes presos na popa da embarcação e ele vem arrastando uma linha longa, de cento e poucos metros de comprimento e uma série de fitas penduradas. Aquilo espanta as aves da área aonde a isca ainda está próxima à superfície"

Nas pesquisas, o uso de toriline reduziu em 60% a captura de albatrozes e aumentou a produção pesqueira em 15%, ao reduzir o ataque das aves às iscas.

Os pesquisadores também olham para o mar pensando no seu potencial para geração de energia. Um dos grupos de pesquisa está na Universidade Federal do Rio de Janeiro, que programa para o início de 2010 a inauguração de uma usina de energia das ondas no Ceará, próxima ao Porto do Pecém.

O engenheiro e gerente do projeto, Eliab Beserra, explica, no entanto, que toda a costa brasileira tem potencial para esse tipo de tecnologia.

"Quanto mais ao sul do país, as ondas são mais energéticas. Quanto mais ao norte, as ondas são mais fracas. Mas existe um outro fator interessante: quanto mais ao norte as ondas no Brasil são mais regulares e quanto mais ao sul menos previsíveis. Ou seja, a gente tem vantagens no Brasil tanto ao norte quanto ao sul. No sul do Brasil seria muito interessante fazer a geração de energia para se colocar na rede elétrica, porque aí temos os grandes potenciais contidos nas ondas. Com relação a outras regiões do Brasil, o nordeste, a gente tem um problema na transmissão. Nesses casos então eu acho que fica muito adequado o atendimento de comunidades isoladas ou comunidades cujo atendimento seja precário em função de estarem na ponta da rede"

Portugal abriga a primeira experiência comercial neste sentido. O Parque de Ondas da Aguçadoura foi inaugurado em setembro de 2008, gerando energia para cerca de 15 mil famílias apenas na primeira fase do projeto.

De Brasília, Mônica Montenegro

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