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Reportagem Especial

Reprise: Ajuda Humanitária 2 - Cruz Vermelha é sinônimo de ajuda humanitária no mundo (10'01")

  • Reprise: Ajuda Humanitária 2 - Cruz Vermelha é sinônimo de ajuda humanitária no mundo (10'01")

"Deve-se sempre distinguir população e bens civis dos objetivos militares. Os feridos devem ser assistidos e a vida e a integridade dos prisioneiros têm de ser respeitadas. São proibidas as armas que causam sofrimentos excessivos e perdas inúteis. O pessoal médico e de saúde deve ser respeitado, assim como seu emblema, símbolo dessa proteção. Comitê Internacional da Cruz Vermelha".

Sinônimo de ajuda humanitária no mundo, a Cruz Vermelha está presente hoje em 186 países, prestando socorro às vítimas de guerras e de desastres naturais. A organização foi fundada pelo comerciante suíço Henri Dunant, em 1863. A motivação surgiu durante uma viagem de negócios que Dunant fez à Itália em plena Batalha de Solferino, na qual italianos e franceses lutaram lado a lado contra os austríacos. De repente, o comerciante se vê no meio dos horrores da guerra, testemunha o sofrimento de soldados e da população civil, fica inconformado com a situação e decide organizar um serviço de primeiros socorros.

"O comerciante está horrorizado. Ao cair da noite, centenas de soldados feridos, agonizantes e mortos estão espalhados pelo campo. O serviço médico das tropas está sobrecarregado. Soldados exaustos e ensanguentados de ambos os lados não podem sequer reerguer-se e encontrar o caminho de volta até suas tropas. A ajuda agora é crucial. Dunant improvisa um hospital dentro da igreja do vilarejo, onde os mortos e feridos podem receber os cuidados em paz. Dunant e os moradores - mulheres e idosos - tentam ajudar da melhor forma possível. Eles cuidam tanto dos franceses quanto dos austríacos, muitas vezes anotando mensagens ditadas no leito de morte como último adeus às famílias dos soldados. Eles trabalham incansavelmente, dia e noite, para cuidar das vítimas".

Estava plantada alí a semente de uma grande organização internacional de socorro humanitário. Atualmente, existem 186 sociedades nacionais da Cruz Vermelha. Aqui, por exemplo, a Cruz Vermelha Brasileira é uma sociedade civil de socorro voluntário de natureza filantrópica e sem fins lucrativos. Há ainda a Federação Internacional, que articula o trabalho das sociedades nacionais, e o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, que tem ações mais específicas de difusão do Direito Humanitário Internacional e de socorro em áreas de conflito armado.

A primeira das Convenções de Genebra, em 1864, já reconheceu a cruz vermelha em fundo branco como símbolo de ajuda humanitária em campos de guerra. Hoje, também são aceitos os emblemas de uma lua crescente vermelha, para os países muçulmanos, e um cristal vermelho, para as nações que preferirem um símbolo mais religiosamente neutro. O emblema - seja a cruz, o crescente ou o cristal vermelho - identifica as equipes de socorro para impedir que elas sejam confundidas com inimigos. Porém, existe o risco de ativistas da ajuda humanitária tornarem-se alvos de ataques. Membro do CICV, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, o suíço-chileno Felipe Donoso já esteve em áreas de conflito armado em Angola, Moçambique, Burundi, Congo, Sudão, Quênia, Haiti, Filipinas e Caxemira, no norte da Índia. Até hoje, Donoso lamenta a morte de companheiros empenhados na ajuda humanitária.

"Quando eu estava no Burundi, em 1996, houve três colegas meus que foram mortos num ataque indiscriminado dirigido contra o CICV por um dos beligerantes nesse conflito armado. Essa foi certamente uma das maiores tragédias: perder três colegas de uma maneira tão injusta e tão violenta. O nosso trabalho se faz, em geral, em situações onde o ser humano está em condições de tragédia".

Mas não é o medo que alimenta a ação dos 97 milhões de ativistas da Cruz Vermelha espalhados pelo mundo. Muito mais intenso do que qualquer receio do perigo em meio às guerras é o sentimento de solidariedade que, na maioria das vezes, traz a felicidade tanto para quem ajuda quanto para quem é ajudado, conforme conta Felipe Donoso.

"Na verdade, é um trabalho no meio da tragédia, mas também é um trabalho que traz muita satisfação porque você pode se aproximar muito do ser humano e do valor fundamental do ser humano que é a vida, o amor de suas famílias, de seus queridos. E nisso, vê-se muita felicidade também: felicidade de sair de uma situação, felicidade de reencontrar um familiar perdido, felicidade de ter um filho que tem uma resposta médica, felicidade de ter esperança".

Depois de cuidar da ajuda humanitária em guerras civis da África e da Ásia, Felipe Donoso veio para o Brasil como chefe de projeto do Comitê Internacional da Cruz Vermelha. Foi parar nos Complexos do Alemão e da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro. Esse conjunto de favelas costuma ocupar as manchetes policiais por ser cenário de confrontos violentos entre policiais, traficantes de drogas e milicianos. No meio do fogo cruzado, fica a imensa maioria de moradores inocentes. Na avaliação do experiente Felipe Donoso, o conflito armado em área urbana, como a do Rio, é pior do que algumas situações clássicas de guerra.

"Um desenvolvimento cada vez mais preocupante da evolução da história dos conflitos armados entre os homens é o fato de que a maioria da população mundial, hoje em dia, está se concentrando cada vez mais no meio urbano: a maioria dos problemas humanos está se concentrando lá, inclusive a violência armada, os conflitos armados e as guerras. Eu penso que é muito mais difícil trabalhar nesse tipo de contexto do que num contexto que poderíamos definir como guerra clássica, em que se tem muita dificuldade e muito problema de segurança, mas em que a gente tem o conhecimento e a experiência bem confirmada".

O trabalho do Comitê Internacional da Cruz Vermelha nas favelas cariocas consiste em garantir serviços de educação e saúde, principalmente quanto a orientações de primeiros socorros e de prevenção à tuberculose e a doenças sexualmente transmissíveis.

Além desse trabalho, a Cruz Vermelha Brasileira está empenhada em promover o socorro imediato às vítimas de calamidades públicas, que têm se tornado mais frequentes nesses tempos de mudanças climáticas. O sub-chefe nacional de comunicação da Cruz Vermelha Brasileira, Maurício Cabral, explica as ações da organização em casos como os das recentes inundações nas regiões Norte e Nordeste e da seca no Sul.

"Nós temos um Departamento Nacional de Socorros e Desastres. Esse departamento coordena a coleta em todos os estados e a distribuição para as áreas afetadas. Toda vez que existe uma situação de calamidade, nós convocamos voluntários para atuar dentro das ações necessárias para amenizar o sofrimento humano".

Existem filiais da Cruz Vermelha Brasileira em 17 estados. Além de fazer doações, você pode atuar como voluntário ou participar de inúmeros cursos oferecidos. Já o Comitê Internacional da Cruz Vermelha tem sede em Genebra, na Suíça, e difunde as ações de socorro e as noções de Direito Humanitário Internacional por meio do site www.icrc.org

De Brasília, José Carlos Oliveira

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

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