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Reportagem Especial

Inovações no ensino médio - matéria 2 (06'18'')

  • Inovações no ensino médio - matéria 2 (06'18'')

Para que serve o ensino médio? Para a socióloga da ong Ação Educativa, Ana Corti, a finalidade do Ensino Médio ainda é uma questão aberta. Segundo ela, para grande parte dos alunos das escolas públicas, a pergunta sobre a importância do ensino secundário não acontece pois simplesmente chegar até lá já é uma vitória.

"Porque no fundo a grande questão é para que serve o ensino médio. Muitos dos jovens que estão agora entrando na escola são a primeira geração das suas famílias que têm acesso à educação secundária. Então, o que significa para esses novos segmentos que estão entrando na escola dar continuidade aos estudos dentro de uma escola secundária? Esse sentido não está construído. Muitas vezes, para as famílias, eles já são vencedores porque eles conseguiram chegar em um grau de escolarização que sua família não teve acesso."

Para a jovem Sabrina Gabriele, o Ensino Médio foi pouco. Sentindo que a formação convencional teria lacunas, aos 16 anos ela faz o terceiro ano de manhã em uma escola pública, e o curso técnico de eletrônica à tarde. Para Sabrina, o Ensino Médio não oferece um conhecimento de como as coisas funcionam na realidade. A teoria não casa com a prática. No curso técnico, ela vê seus conhecimentos se materializando na sua frente.

"A gente aprende como deveria funcionar, como é, como é que acontece. Mas a gente não vê acontecendo e num curso técnico, sim, a gente vê tudo acontecendo, a gente coloca em prática. Então essa é uma forma melhor da gente aprender, da gente assimilar tudo que acontece."

Mas Sabrina não é uma apaixonada por eletrônica, apesar de gostar muito do curso. A sua escolha foi prática. Ela pretende que o curso técnico lhe proporcione os meios para chegar ao sonho de fazer uma faculdade.

"Na verdade eu pretendo fazer uma coisa nada a ver com eletrônica, eu almejo Engenharia Ambiental. Mas acho que pra gente chegar no nosso objetivo, a gente tem que ir passando de degrau em degrau. Então eu escolhi eletrônica para conseguir um emprego na área e conseguir fazer o que eu verdadeiramente quero."

A socióloga Ana Corti aponta que o plano feito por Sabrina é justamente o que os jovens precisam e não encontram. Em uma pesquisa feita com jovens de escolas públicas de São Paulo, a ong Ação Educatica detectou que os estudantes do Ensino Médio não desejam necessariamente uma formação profissional ou técnica. A necessidade maior é ter condições de entender o mercado de trabalho e fazer um planejamento para os próximos anos.

"Quando a gente fala de ensino médio articulado ao trabalho, não necessariamente a gente tá falando de formação profissional. Na verdade, a gente está falando de um conjunto de instrumentos em termos de conhecimento, que a gente precisaria ter acesso pra elaborar um projeto profissional que vá para depois para o ensino médio. E muitas vezes esse projeto inclui a entrada na universidade, ou pode incluir a entrada num curso técnico, ou pode incluir a entrada num curso outro de qualificação profissional, pode incluir uma série de coisas. Mas os jovens dentro do ensino médio não tem espaço para pensar nesses projetos de vida, nesses projetos de inserção profissional."

E onde entra o vestibular nessa história? Ana Corti lembra que o ingresso na universidade é o caminho para uma minoria da juventude. E apesar disso, o ensino médio ainda mantém o seu foco no vestibular.

"Apesar de que a gente tem 60% dos jovens que saem do ensino médio não vão pras universidades. Então se você olhar para essa situação, é uma situação completamente absurda, né? Essa escola, não que ela forme para o vestibular, ela nem consegue fazer isso, mas supostamente da maneira como ela está organizada, ela obedece muita mais a uma lógica que tem a ver com a prova do vestibular do que a uma formação mais integral desses jovens."

Gabriela Cardoso faz parte da parcela da juventude que teve acesso a um Ensino Médio de primeira linha. Ela estuda em escola cuja mensalidade é de mil e seiscentos reais. A rotina de estudos, simulados e conteúdos para o vestibular não dá moleza.

"É uma pressão que mesmo às vezes exagerada, eu acho necessária. Você está caminhando apra definir o seu futuro, né? E tem muita gente que não acordou para isso ainda e só acorda com a pressão. Mas é muito cansativo, porque é todo dia."

Gabriela conta que alguns alunos do terceiro ano passam no vestibular no meio do ano, antes mesmo de completar o Ensino Médio. Alguns passam em universidades públicas, mas a maior parte consegue aprovação em faculdades particulares. Para receber o diploma de conclusão do Ensino Médio, a escola oferece uma prova onde os estudantes devem ter média oito. Quem não consegue essa nota, acaba concluindo o ensino médio em supletivos onde depois de apenas duas semanas é possível obter o diploma. Para Gabriela, a pressão do terceiro ano é tanta que encurtar o caminho até a universidade é aceitável.

"Muita gente sai no começo do ano, sai no meio do ano porque não aguenta mais o ensino médio sabe que a pressão no terceiro ano vai ser muito maior, é bem exaustivo. Então é normal uma pessoa não querer mais isso e procurar logo o curso que quer, pra fazer o que gosta, ao invés de continuar o terceiro ano vendo mil matérias que não vão usar na vida. Se o pai aceitar, acho normal."

Mas apesar de receber a melhor preparação para o vestibular, Gabriela sente que falta alguma coisa em sua formação.

"Sentir falta, eu sinto mas eu não sei dizer alguma coisa específica agora. Mas você sabe que tá faltando você só não sabe o que é, mas você percebe que não está completo."

E o que pode completar esse buraco no Ensino Médio é o tema da nossa reportagem de amanhã.

De Brasília, Daniele Lessa

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

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