Rádio Câmara

Reportagem Especial

Inovações no ensino médio - matéria 3 (07'48'')

  • Inovações no ensino médio - matéria 3 (07'48'')

Se o Brasil é uma pluralidade, a realidade dos jovens também é muito diversa. De uma cidade para outra, de uma escola para outra, ou mesmo dentro do mesmo colégio. O diretor da escola considerada a melhor escola pública do distrito federal, professor Júlio Gregório Filho, aponta que as diretrizes curriculares até hoje não observaram essa diversidade.

"Nós não temos características diferentes apenas de uma região para outra. Dentro de uma escola nós temos grupos de alunos com características diferentes, que nunca foram contempladas até hoje pelas estruturas curriculares que as escolas tem que desenvolver. A todos os alunos é imposta uma grade curricular fechada, uma carga horária fechada, independente da aptidão desse aluno. Todos os alunos tem que estudar a mesma coisa e espera-se dele a mesma performance."

De olho na realidade, o Ministério da Educação lançou o projeto Brasil Inovador. Não se trata de mudança curricular para todas as escolas, mas sim de um projeto piloto onde apenas as escolas que desejarem vão aderir. Os colégios devem propor iniciativas voltadas para a sua realidade local e o ministério irá oferecer apoio técnico e financeiro, como explica o diretor de concepções e orientações curriculares do MEC, Carlos Artexes.

"Nós estaremos dando um apoio técnico e financeiro a partir das propostas que o Estado vai formular nas escolas que tiverem possibilidade de atender nesse momento. É impossível na nossa visão a gente transformar a escola brasileira por decreto e todas de uma vez só. Nós precisamos garantir condições pra todas, mas precisamos apostar nessas experiências que elas possam realmente se apropriar de uma nova cultura."

De início, serão 100 escolas apoiadas, e segundo Carlos Artexes, o Ministério da Educação irá aportar entre 50 e 100 milhões no projeto. Todas as escolas devem investir em projetos de leitura, em aulas experimentais sobre fenômenos sociais e da natureza e em projetos de cultura. Para isso, a carga horária será ampliada em 600 horas ao longo dos três anos do Ensino Médio, e o aluno poderá escolher as matérias do seu interesse.

"Que essas seiscentas horas, elas sejam construídas num projeto pedagógico como atividade de disciplinas eletivas. Nós achamos importante que o estudante participe do seu projeto, do seu planejamento e que tenham acompanhamento, hoje, do professor e da escola."

Para a socióloga da ong Ação Educativa, a proposta é positiva pois oferece às escolas a oportunidade de construir uma mudança de acordo com a sua realidade local. Como é um projeto piloto, essa experiência pode mostrar se essas mudanças são adequadas para todo o Ensino Médio do país, que sofre uma taxa de evasão anual da ordem de 25% dos alunos.

"Talvez a gente olhando para essa experiência vai ter mais condições de avaliar se a ampliação, por exemplo, da carga horária no ensino médio é uma coisa viável e defensável pra todo ensino médio. Hoje, por exemplo, a gente não tem clareza e a gente sabe que ampliar a carga horária para o ensino médio, considerando as diferentes realidades que a gente tem, para certos grupos vai ser mais um fator de exclusão desses jovens na escola. Mas, para determinados segmentos que estão com uma faixa etária mais jovem, isso pode ser uma coisa interessante."

A proposta do MEC é direcionada para as escolas públicas, no entanto os colégios particulares já estão se mobilizando para experimentar uma grade curricular mais flexível. A presidente do grupo Galois, professora Dulcinéia Moraes, diz que seu grupo pretende adotar as sugestões do MEC. Ela aponta que as mudanças propostas favorecem a autonomia do aluno.

"Você não vai escolher pro aluno, você vai fazer com que o aluno comece a escolher. Hoje o que que acontece, eles estudam, estudam e estudam e aí vão escolher na hora de fazer a inscrição pro vestibular e que ele tem que escolher qual é o curso que ele quer fazer e quanto a gente depara com alunos que não sabem o que que eu faço? Eu não sei o que eu gosto! Exatamente porque ele não teve antes que escolher nada, antes eram os pais que escolhiam, era a escola que escolhia e já chegava lá com conteúdo programático decidido você vai estudar isso e isso e isso. Agora ele vai ter que escolher, ele vai ter que descobrir se gosta, se não gosta vai ter que trocar."

O deputado Carlos Abicalil, do PT do Mato Grosso, é professor da Educação Básica. Ele analisa que a proposta do MEC busca simplesmente materializar os tópicos que constam na Lei de Diretrizes e Bases da Educação vigente desde 1996. Para o sucesso da iniciativa, o deputado diz esperar que haja um entrosamento entre as escolas e os órgãos educacionais envolvidos.

"Nosso desejo é que o Consede - Conselho de Secretários do Estado de Educação amadureça suas formas de cooperação técnica com o MEC, assim como os Conselhos Normativos, os Conselhos Estaduais e o Conselho Nacional de modo a dar vazão a essa condição que é correspondente a autonomia das escolas em definir o currículo e ao mesmo tempo a atualização dos conteúdos, das dinâmicas, das práticas didáticas, da literatura, dos laboratórios frente ao desafio da juventude brasileira."

O professor Julio Gregório Filho, diretor da escola pública Setor Oeste, aponta que o seu receio é que as escolas não tenham autonomia para implementar seus projetos, considerando que o histórico recente mostra as secretarias de educação definindo todo o currículo. Como diretor, ele bancou um projeto inovador e polêmico.

No segundo semestre de 2008, a escola pegou os alunos com mais dificuldade e criou turmas reduzidas, com cerca de 15 alunos. O conteúdo foi apresentado em um ritmo mais lento, para que os estudantes pudessem sanar falhas de aprendizagem que não foram resolvidas no ensino básico.

O resultado se traduziu em uma diminuição sensível das taxas de abandono e reprovação. Se no ano de 2007, 27% dos alunos deixaram o Setor Oeste ou foram reprovados, em 2008 esse número diminuiu para 12%. O professor conta que de início a proposta gerou um certo constrangimento e a desaprovação da Secretaria de Educação. No entanto, ao final do ano, várias alunos pediram para serem encaixados na chamada turma especial. O professor Júlio Gregório Filho aposta que mudanças curriculares específicas podem ajudar os alunos que têm dificuldade e valorizar o talento dos estudantes mais adiantados.

"Dentro desse projeto de mudança curricular proposto, realmente o aluno que tem dificuldade de aprendizagem, que está com falta de base para desenvolver o seu ano escolar, ele precisa de ajuda da escola, precisa da ajuda do professor. Ao passo que aquele aluno que tem uma grande prontidão, grande facilidade, grande potencial para se tornar uma pessoa que vai dar grande contribuição à nação, não é ele que precisa da escola, é a nação que precisa dele, e infelizmente a nação não tem investido adequadamente no aluno com esse perfil."

As escolas interessadas em participar do projeto piloto de mudança curricular do MInistério da Educação devem procurar as Secretarias Estaduais de Educação com as suas propostas. Segundo o MEC, os projetos já serão implementados a partir do ano que vem.

De Brasília, Daniele Lessa

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

facebook twitter spotify podcasts apple rss

Todas as Edições