Reportagem Especial

Especial Esportes 4 – Papel da psicologia do esporte. (07'21'')

Publicação: 08/09/2008 - 00:00

  • Especial Esportes 4 – Papel da psicologia do esporte. (07'21'')

NA QUARTA REPORTAGEM ESPECIAL SOBRE O FUTURO DOS ESPORTES OLÍMPICOS NO BRASIL VAMOS CONHECER O PAPEL DA PSICOLOGIA DO ESPORTE NA PREPARAÇÃO DOS ATLETAS BRASILEIROS.

Das medalhas de ouro que o Brasil conquistou em Pequim, duas tiveram o sabor especial da superação. Maurren Maggi deu um salto por cima, após o fundo do poço às vésperas das Olimpíadas de Atenas, em 2004, quando nem chegou a ir à competição por problemas de dopping. E o que dizer, então, das meninas do vôlei de quadra: o ouro de Pequim deixou para trás o carimbo de "amarelonas" que muita gente tentou cravar nelas após tropeçarem em sucessivas decisões de títulos importantes.

No entanto, muitos atletas brasileiros decepcionaram em Pequim, sobretudo diante da expectativa criada por resultados expressivos que haviam conquistado em competições anteriores. Fabiana Murer, no salto com vara, e Jadel Gregório, no salto em distância, são alguns deles. Diego Hypolito, por exemplo, chegou a Pequim impulsionado por títulos importantes em torneios mundiais de ginástica, mas, na hora H...

"Infelizmente, eu caí. Tive uma falha que não tem volta. É um minuto para a decisão de oito anos de treinamento. Só que eu queria muito este resultado, foi muito trabalhado e eu não volto nenhum detalhe atrás em tudo que fiz. Eu treinei da forma adequada para conseguir essa medalha e um ótimo resultado. Se não veio, não foi em função de treinamento. Foi porque Deus quis. Assim é a vida, um dia a gente ganha, outro dia a gente perde".

A presidente da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte, Kátia Rubio, tenta explicar o que pode passar na cabeça de alguns atletas nos momentos de decisão.

"Os Jogos Olímpicos são o auge da carreira de qualquer atleta. Então, é esperado que haja uma tensão em relação a essa competição. É como se ele vivesse uma situação extrema. E, no caso dos atletas brasileiros, viveram uma pressão nacional por resultado. E não é justo fazer isso com o atleta, porque ele vai aos Jogos Olímpicos - principalmente o atleta brasileiro - superando inúmeras dificuldades".

Talvez não sejam somente os atletas que estejam precisando de uma base psicológica. Jornalistas e dirigentes esportivos que superestimam resultados obtidos em competições pouco expressivas e torcedores desatentos em relação à fronteira entre apoio e euforia também poderiam sentar-se no divã em busca de maior equilíbrio emocional.

Hoje, quase todas as confederações esportivas têm pelo menos um psicólogo no apoio às comissões técnicas. E isso não vem de agora. Kátia Rubio ensina que a psicologia do esporte tem mais de cem anos no mundo, e 50 anos no Brasil. Segundo ela, a torcida e a mídia só se dão conta dessa atividade em situações críticas, em que os atletas demonstram certa instabilidade emocional. Quase ninguém, por exemplo, se lembra que a seleção brasileira de futebol campeã da Copa do Mundo de 1958, na Suécia, já tinha o seu psicólogo do esporte: o professor João Carvalhaes, pioneiro da atividade no Brasil. Kátia Rubio explica que o controle mental, que vai propiciar a estabilidade emocional do atleta, só é adquirido plenamente com anos e anos de prática.

"Eu entendo o trabalho psicológico junto ao atleta como algo processual. É a mesma coisa que a preparação física. O atleta não ganha massa muscular de um dia para outro. Ele precisa de um trabalho planejado, que permitirá, no fim do ciclo, chegar a um estado que o preparador físico ou técnico queira. Na preparação psicológica, é a mesma coisa. Não é apenas com uma palestra ou com um filme ou com uma música que você motiva ou faz o atleta desenvolver a auto-confiança. Esse é um processo que demanda tempo e que exige um trabalho prolongado, juntamente com a comissão técnica".

Em Pequim, o Brasil inteiro conheceu a história do judoca Eduardo Santos. De origem pobre, apostava na conquista de uma medalha e de prêmios em dinheiro para ajudar a família, no ABC paulista. Não conseguiu e, em prantos, pediu perdão aos pais, como se fosse o mais incompetente dos incompetentes.

"A gente veio para ganhar. Eu fiz o que pude, mas não tive competência para derrubar meu adversário".

Ao invés de perdão, os pais e amigos de Eduardo Santos lhe ofereceram uma recepção digna de herói olímpico para festejar o posto de sétimo melhor judoca do mundo, na categoria de 90 quilos.

O experiente treinador da seleção brasileira de judô, Mário Tsutsui, admite que é mesmo difícil conter a emoção em momentos extremos: tanto nas derrotas quanto nas vitórias. Tsutsui argumenta que, afinal de contas, aquele é o momento máximo para atletas que, nem sempre, têm muitas oportunidades pela frente.

"Eu acho que talvez seja uma característica mais do brasileiro, pelo fato de ele ter na Olimpíada o momento de glória, ou então, o de passar por mais um atleta anônimo. Toda essa condição do brasileiro ao ganhar ou ao perder mostra a grande dificuldade do atleta em se manter. O Eduardo, quando perdeu, se emocionou, falou da mãe dele e do pai dele. Porque foi a mãe que sempre o acompanhou. Ele é um menino de classe baixa, com dificuldade para treinar. Muitos o ajudaram porque sabem da dificuldade dele. Parece um pouco piegas, uma coisa meio pastelão, mas acho que o brasileiro é muito emotivo e acaba extravasando a sua alegria ou a sua dor".

Para que o amadurecimento psicológico seja eficaz, a professora de educação física Ana Manuela do Prado defende que o ponto de partida desse processo se dê na escola. Manuela, que dá aula numa escola pública que atende alunos carentes em Brasília, afirma que seus colegas de profissão também podem contribuir nessa base psicológica.

"Até o ganhar e o perder do aluno, ele tem que desenvolver desde criança. Se o atleta de ponta tem condições de ter um trabalho dentro de seu treinamento, ele vai saber trabalhar sua fase pior que, de repente, é alguma coisa externa, que não é nem da parte física dele. Isso é papel do professor de educação física também: trabalhar a atividade esportiva na escola, mas trabalhando mais a participação, saber ganhar e perder, saber suas limitações e dos colegas, que, de repente, não vão jogar como você joga nem participar como você participa".

Um exemplo do que a professora Manuela diz é a Associação Brasileira de Psicologia do Esporte, que surgiu do esforço conjugado de um grupo de psicólogos e profissionais de educação física, preocupados em discutir e promover estudos e práticas nesta área. Quem quiser conhecer mais sobre o assunto pode visitar o site da associação: www.abrapesp.org.br

De Brasília, José Carlos Oliveira

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