Reportagem Especial

Especial Esportes 3 – Prioridade: atletas de ponta ou educação esportiva. (07'19")

Publicação: 08/09/2008 - 00:00

  • Especial Esportes 3 – Prioridade: atletas de ponta ou educação esportiva. (07'19")

NA TERCEIRA MATÉRIA DA SÉRIE ESPECIAL SOBRE O FUTURO DOS ESPORTES OLÍMPICOS NO BRASIL, ESPECIALISTAS CONTAM COMO SUPERAR OS ENTRAVES PARA QUE ATLETAS POTENCIAIS SE TRANSFORMEM EM MEDALHISTAS OLÍMPICOS.

O Brasil, com sua dimensão continental e enorme população, tem potencial para se transformar em força dos esportes olímpicos. No Panamericano Rio 2007, o país soube se valer da torcida, dos investimentos maciços e da ausência de algumas celebridades internacionais dos esportes para conquistar 157 medalhas, sendo 52 de ouro. Participou de todas as 47 modalidades esportivas do Pan e terminou a competição em terceiro lugar na classificação geral, atrás apenas de Estados Unidos e Cuba.

O país do futebol também pode se seduzir por outros esportes. O vôlei é um bom exemplo. Desde a geração que conquistou a prata nas Olimpíadas de Los Angeles, em 1984, aumentou significativamente o número de praticantes desse esporte no Brasil. Acontece o mesmo com o judô, modalidade olímpica na qual os brasileiros detêm a maior quantidade de medalhas. O técnico da seleção brasileira de judô, Mário Tsutsui, espera que o sucesso atraia mais investimentos para que o país se torne um celeiro de craques.

"Para melhorar no quadro de medalhas, em termos qualitativos e quantitativos, acho que precisamos investir na base, para que a nova geração pudesse ter mais apoio e condições de praticar a sua modalidade de alto rendimento, tendo possibilidade de intercâmbio, um bom uniforme, nutricionista e todas as condições básicas para se desenvolver dentro da sua modalidade. O brasileiro, quando instigado a conseguir um objetivo, consegue, desde que tenha o seu devido apoio".

Além de investimento, Tsutsui cobra uma postura mais profissional por parte dos dirigentes esportivos, a fim de evitar o desperdício de novos talentos.

"Temos muitos casos de atletas com seus 19 e 20 anos e com enorme potencial, mas que as autoridades do esporte... Eu falo com todos eles: 'vocês já viram algum presidente de federação vir aqui assistir o treinamento, parabenizar vocês e dar um apoio pelo menos moral?' Não aparece um. Desde que eu me conheço por atleta e técnico, nunca vi um dirigente do judô dentro do dojô - dentro da nossa quadra - vir aqui ver o que estamos fazendo, quais são as nossas necessidades e dificuldades. Se o atleta ganha medalha, ele vem aqui e quer posar na foto. O dirigente é muito astuto e quer se aproveitar somente nessas ocasiões".

Tanto na seleção brasileira de judô quanto em São Caetano, Mário Tsutsui treinou o judoca Eduardo Santos, que emocionou o país ao perder a medalha de bronze em Pequim. O atleta contava com o prêmio para ajudar a família humilde a melhorar de vida, no ABC paulista.

Em Brasília, a professora de educação física Ana Manuela do Prado trabalha numa escola pública e também convive com o drama diário de ver atletas potenciais desperdiçarem uma futura carreira por causa da pobreza.

"Alguns vêm sem ao menos almoçar, sem nada. Nós possuímos aqui vários alunos que têm talento, mas não têm condição financeira para bancar nem o transporte para o treinamento, o material, o próprio tênis e algumas coisinhas mais que são sempre necessárias para realizar o treinamento. Então, tem muito aluno aqui que tem vontade de ser atleta e seguir uma carreira - aliás, é o sonho - mas você vai ver que não vai adiante, porque a família não tem condição financeira de bancar. Então, quem vai ajudar?"

Ana Manuela conta que os próprios professores não conseguem se manter indiferentes à carência dos alunos e se desdobram para conseguir material básico para os futuros atletas.

A iniciativa privada também tenta dar a sua contribuição. O Instituto Ayrton Senna, por exemplo, promove o projeto Escola Talento, em parceria com 14 universidades do país inteiro. O objetivo é o desenvolvimento de competências pessoais, sociais, cognitivas e produtivas de crianças e adolescentes. Na prática, trata-se de um projeto social e interdisciplinar de educação por meio do esporte, que atende jovens de oito a 18 anos de idade, a maioria de família carente. Em São Paulo, a parceria do Instituto Ayrton Senna é feita com a USP. O coordenador do projeto, Marcos Vinícius Moura, explica que o esporte de alto rendimento é uma das alternativas colocadas à disposição dos alunos.

"Essa é uma conseqüência possível: revelar atletas. Não é o objetivo principal. Uma das escolhas que eles podem fazer é compreender como é o esporte de alto nível e se eles querem seguir esse caminho ou não. Aqui, é possível se desenvolver motoramente, aprender bem diversas modalidades desportivas, ter a oportunidade de fazer essa escolha e buscar o alto nível. O Brasil ainda precisa descobrir qual o modelo da formação educativa das crianças e adolescentes, uma formação esportiva também educativa e que isso gere um hábito de qualidade de vida para que daí ele possa escolher essa seqüência de alto nível".

Morador de um bairro pobre nas vizinhanças da USP, o menino Rodrigo da Costa, de 13 anos, é um dos alunos do projeto Esporte Talento. Além de estudar, joga vôlei, basquete, futebol e handball. Assim como milhões de crianças e adolescentes em todo o país, ele alimenta o sonho de um dia vestir o uniforme verde-amarelo para defender o Brasil em Olimpíadas e conquistar medalhas.

"Meu maior sonho é ser jogador da seleção brasileira de handball. Eu treinava handball. Começou aqui esse sonho. Eles ajudam muito. Preparam a gente. Até para campeonatos, eles levam e treinam a gente. Por exemplo, agora vai ter um campeonato e a gente está se preparando".

E para o menino Rodrigo não desistir do sonho, fica o recado do nadador César Cielo, medalha de ouro nos 50 metros rasos nas Olimpíadas de Pequim e dono do recorde olímpico da competição.

"É super legal, né. A vitória não é só a medalha, não. Tem muita responsabilidade em volta, mas também tem muita coisa legal. Isso aqui é o reconhecimento do trabalho. Passei quase três anos nos Estados Unidos e não foi fácil, não. Pensei em voltar várias vezes. Agora, olhando para trás, vejo que tudo valeu a pena mesmo. Se eu pudesse voltar no tempo, deixaria tudo do jeito que foi para estar nesta situação em que estou agora".

O caminho da glória olímpica, muitas vezes solitário e cheio de percalços, também precisa ser pavimentado com uma boa base psicológica, como veremos na próxima matéria.

De Brasília, José Carlos Oliveira

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