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Reportagem Especial

Reprise - Especial Cana-de-açúcar 3 - Conheça mais sobre os problemas enfrentados pelos trabalhadores de canaviais (06'23'')

  • Reprise - Especial Cana-de-açúcar 3 - Conheça mais sobre os problemas enfrentados pelos trabalhadores de canaviais (06'23'')

NESTA SEMANA, A RÁDIO CÂMARA ESTÁ REPRISANDO REPORTAGEM ESPECIAL SOBRE A PRODUÇÃO DA CANA-DE-AÇÚCAR NO BRASIL. DEPOIS DE APRESENTAR UM HISTÓRICO DO CULTIVO E OS REFLEXOS DESSA ATIVIDADE PARA A ECONOMIA BRASILEIRA, A REPÓRTER MONICA MONTENEGRO TRAZ HOJE ALGUMAS DAS CRÍTICAS QUE TÊM SIDO FEITAS AO SETOR.

Valdeci tem 34 anos. Estaria no auge da sua idade produtiva. Mas para quem passou duas décadas trabalhando em canaviais, o tempo deixa marcas profundas. Mineiro de Malacacheta, Valdeci chegou a São Paulo em 1987 e, por muito tempo, foi considerado um dos melhores trabalhadores da região de Campinas. O homem de 65 kg chegava a cortar 65 toneladas de cana em um único dia. Em algumas semanas, dava para receber até 350 reais. Mas hoje, pesando 49kg, Valdeci não consegue mais trabalhar.

"É dor direto, não pára. É no corpo inteirinho, é cabeça, é no peito. Eu gemo a noite inteirinha de dor. A hora que eu deito e durmo, a minha mulher fala que eu fico gemendo a noite inteirinha de dor"

Valdeci está afastado do trabalho há quase um ano e mal consegue caminhar. Tem hérnia de disco, desgaste nas articulações dos braços e pernas e sofre de falta de apetite. Agora, ele depende dos parentes da esposa, que está desempregada, para sustentar os quatro filhos.

O drama enfrentado por Valdeci é comum a quem trabalha em canaviais, de acordo com a pesquisadora da Unesp, Maria Aparecida de Moraes. Ela estuda as condições dos trabalhadores da cana-de-açúcar desde 2005 e constatou que a vida útil dessas pessoas dificilmente ultrapassa os 15 anos. Para se ter uma idéia do que isso significa, o ciclo de vida útil dos escravos na agricultura era de 10 a 12 anos até 1850, quando foi proibido o tráfico negreiro no Brasil.

A pesquisadora, que também é assessora da Pastoral do Migrante, conta que o esforço imposto pelo corte da cana pode ter conseqüências ainda mais graves do que a incapacitação do trabalhador.

"Foram 21 mortes denunciadas por nós de 2004 até agora causadas supostamente por excesso de trabalho. E o processo é este: o trabalhador se sente mal em virtude da perda de potássio, muitas cãimbras que começam nos pés, depois vão atingindo as pernas, os braços, as mãos, enfim o corpo todo. E segundo relatos médicos, as cãimbras podem provocar uma cardiopatia. Não significa que vão provocar, mas podem provocar, e conseqüentemente levar o trabalhador à morte"

O excesso de trabalho não é o único problema encontrado nos canaviais. Neste ano, uma blitz do Grupo Especial Móvel de Fiscalização do Trabalho Escravo encontrou 1.108 trabalhadores em condições degradantes em uma fazenda de cana-de-açúcar da empresa Pagrisa, no Pará. Eles dormiam em alojamentos superlotados, com péssimas condições de higiene, de alimentação, além de sofrerem tantos descontos que, em muitos casos, os salários líquidos eram inferiores a 10 reais. Foi o maior flagrante desse tipo de crime já registrado no país.

Representantes do setor sucroalcooleiro afirmam que casos como esses são minoria no país. O assessor técnico da Confederação Nacional da Agricultura, José Ricardo Severo, afirma que quem comete crimes precisa ser punido, mas destaca que o setor não pode ser estigmatizado como um todo.

"O setor de cana emprega mais de 1 milhão de pessoas. O problema é esse, que acontecem questões isoladas e generaliza para todo o setor, o que não é verdade. O setor tem um nível de qualificação profissional dos melhores no setor agrícola industrial. Questões trabalhistas já foram regularizados há muito tempo porque o setor sucroalcooleiro sempre esteve em evidência. Essas questões isoladas fazem muito mal ao setor e isso tem que acabar mesmo"

Outra crítica recorrente quando se fala da expansão da cana-de-açúcar é que a concorrência com o cultivo de alimentos provocaria uma alta nos preços dos gêneros alimentícios, agravando a fome no mundo. O presidente de Cuba, Fidel Castro, e da Venezuela, Hugo Chavez, têm sido ferrenhos opositores da produção de biocombustíveis. No Brasil, o teólogo Frei Betto, que já foi assessor especial do presidente Lula, aumentou a polêmica com um recente artigo intitulado ´Necrocombustíveis´. No texto, o escritor afirma que o ciclo atual vai alimentar carros e desnutrir pessoas e critica que nenhum governo questione o modelo de transporte individual.

Para o representante da FAO na América Latina e Caribe, José Graziano, o problema real está na baixa renda e não na capacidade de produção de alimentos, pois só na América Latina há um excedente de 30%. A FAO é o organismo da ONU dedicado à Agricultura e Alimentação e tem alertado que a produção de etanol a partir do milho, e não da cana, pode sim afetar a segurança alimentar em países como o México, que tem o produto como base da sua dieta.

José Graziano considera que o etanol pode contribuir para a geração de emprego e renda, desde que novas regras de comércio sejam adotadas principalmente pelos países desenvolvidos.

"Há uma grande oportunidade que se apresenta para o mundo, que a agroenergia possa beneficiar os 2 bilhões de pobres que temos no planeta hoje. É um tema de economia política. Não é um tema de manejo local. Não é condenar o uso desse ou daquele produto, é um tema de ter um grande acordo mundial sobre uma possibilidade nova, porque plantar combustível é uma novidade, e essa possibilidade pode ser a redenção de muitos países, mas pode não ser. Depende das regras que vão ser impostas ao jogo"

O representante da FAO critica os subsídios concedidos pelas nações desenvolvidas a seus produtos e as barreiras tarifárias impostas às nações em desenvolvimento. José Graziano adianta que, nessa conferência, a FAO irá propor a adoção de regras que possibilitem a inclusão social e geração de renda a partir do plantio de combustíveis.

De Brasília,Mônica Montenegro.

A RÁDIO CÂMARA ACABOU DE REPRISAR A TERCEIRA MATÉRIA DO ESPECIAL SOBRE O CULTIVO DE CANA-DE-AÇÚCAR NO BRASIL, PROGRAMA QUE FOI AO AR SETEMBRO DO ANO PASSADO.

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

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