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Reportagem Especial

Reprise - Especial Cultura 2 - Com acesso aos livros, brasileiro mostra que gosta de ler (06'59'')

  • Reprise - Especial Cultura 2 - Com acesso aos livros, brasileiro mostra que gosta de ler (06'59'')

A RÁDIO CÂMARA REPRISA NESTA SEMANA O ESPECIAL SOBRE CULTURA BRASILEIRA QUE FOI AO AR AGOSTO DO ANO PASSADO.

"Eu acho que o grande barato da leitura também é o problema da viagem. Eu, por exemplo, não tenho como viajar com minha família. Meu veículo é uma bicicleta cargueira, eu não tenho como viajar, não consigo ter essa verba para fazer uma viagem. De repente, eu viajo através dos livros. Eu acho que isso é o legal da leitura. Eu posso sair daqui agora e ir a Portugal, viajar de repente nos versos do Camões, do Fernando Pessoa, e eu acho que esse é o legal da leitura."

Estas palavras são de Leonardo da Piedade Diniz Filho, mais conhecido na cidade mineira de Pirapora como Léo do Peixe. Ele é pescador profissional e nos domingos, vende seus peixes na feira da cidade. Mas o que diferencia Léo do Peixe dos outros feirantes é que ele montou uma biblioteca na sua barraca. A intenção inicial era levar o mundo da leitura a seus dois filhos, que também passam o domingo na feira. Aos poucos, ele foi conseguindo doação de livros e estantes e montou, de forma despretensiosa, a pequena biblioteca, conta Léo do Peixe.

"Eu disse, quando montei o clube, que se as pessoas - crianças e adultos - fossem até lá para ler, maravilha. Mas se não fossem, eu já estaria feliz porque estaria criando minhas crianças em meio a livros. E na verdade eu não só os crio entre livros como a gente tem hoje aproximadamente quase 800 leitores cadastrados."

Com o tempo, a coisa foi se solidificando e surgiu o clube da leitura. Hoje, Léo se alegra com a dimensão do projeto, que atende cerca de 90 leitores por domingo na feira. E assim, ele dá chance para que outras pessoas também possam viajar o mundo nas páginas dos livros. Léo do Peixe não concorda com a idéia de que o brasileiro não gosta de ler. O que falta é oportunidade, acredita o pescador. Ele observa que o grande problema das bibliotecas brasileiras é que a maioria fecha nos fins de semana, o que impede o trabalhador de ter acesso aos livros. Ao contrário do clube do livro montado na feira, como explica Léo do Peixe.

"Quando eu chego domingo lá com 3 viagens de carroça - porque os livros vão para a feira de carroça - e a gente vê aquela quantidade de caixa, de estante, e já tem a minha barraca do peixe, tem a da minha esposa que vende roupa infantil também, então as pessoas até hoje ainda me chamam de louco. Então as pessoas ficavam meio reticentes, mas aí começam a se aproximar, sabe por quê? Porque a feira ainda tem um outro detalhe, a feira é um ambiente do povo. Eu vi uma matéria muito bonita sobre o Real GAbinete no Rio de Janeiro, o maior acervo de língua portuguesa fora de portugal, e na verdade um prédio maravilhoso, uma imponência, mas as pessoas ficam até acanhadas de entrar. E na feira a gente não tem esse acanhamento, as pessoas vão e chegam sem muito pudor, sem muito reserva. E é isso, o livro tem que ir a esses pontos, onde o leitor está."

Felizmente, a experiência de Léo do Peixe não é única no Brasil. No ano passado, o prêmio Vivaleitura, iniciativa dos Ministérios da Educação e da Cultura e da Organização dos Estados Ibero-americanos para Educação, teve mais de 3 mil ações de incentivo à leitura cadastradas. Em Brasília, por exemplo, o açougueiro Luiz Amorim montou uma biblioteca em sua loja, que acabou virando um centro cultural. Ele recentemente inaugurou uma iniciativa inédita: uma biblioteca num ponto de ônibus da cidade. As pessoas chegam, anotam o empréstimo num cadastro e depois devolvem o livro. Sem controle nem cobranças, a biblioteca já virou um sucesso entre os passantes. Nas estantes, convivem harmoniosamente Camões, Shakespeare no original em inglês, enciclopédias, apostila da escola pública de trânsito e os quatro evangelhos. Numa manhã de agosto, a psicóloca Maria de Fátima visitou a biblioteca pela primeira vez e levou um livro de Gabriel Garcia Marquez. Ela achou a idéia da biblioteca no ponto de ônibus fantástica e avisa que vai ser frequentadora assídua.

"Dá oportunidade para as pessoas que gostam de ler e não têm acesso a livros ter oportunidade então de ler."

O lançamento do Plano Nacional do Livro e Leitura - PNLL, pelo Ministério da Cultura, está completando um ano em agosto. O articulador nacional do Plano, Jefferson Assunção, diz que a intenção é transformar o Brasil numa sociedade leitora. O que indica muito trabalho pela frente, já que a média de leitura no Brasil é de apenas 1,8 livro por pessoa ao ano, contra 2,4 da vizinha Colômbia. Na Europa, essa média pode chegar a 4 ou 5 livros por ano. Jefferson destaca que, durante o primeiro ano do plano, foi feito um diagnóstico da leitura no país. O resultado não foi muito animador.

" Nós ainda temos 613 municípios no país que nunca receberam ou livros ou recursos para fazer uma biblioteca. A grande maioria desses municípios está concentrada no nordeste, dos 613 municípios, 404 estão no nordeste, apenas 2 no sudeste. O que reflete também questoes regionais importantes que o Plano Nacional se preocupa. Então, a partir de agora tem ações no sentido de zerar o número de municípios sem bibliotecas, e também fazer uma modernização, uma renovação de acervo das bibliotecas públicas municipais."

Para tentar suprir essa lacuna, três amigas paulistanas criaram a expedição Vaga-lume. O projeto monta bibliotecas em cidades espalhadas pelo interior da Amazônia. A expedição Vaga-Lume já implantou 32 bibliotecas em 22 municípios, dos nove estados brasileiros que compõem a Amazônia Legal.
Jefferson lembra que uma ação importante para o incentivo à leitura foi a desoneração fiscal do livro, realizada a partir de 2004. De acordo com a Câmara Brasileira do Livro, o mercado editorial do ano passado cresceu quase 15% em relação a 2005.

De Brasília, Adriana Magalhães.

A RÁDIO CÂMARA ESTÁ REPRISANDO NESTA SEMANA REPORTAGEM ESPECIAL SOBRE CULTURA QUE FOI AO AR AGOSTO DO ANO PASSADO.

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

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