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Reportagem Especial

Reprise - Especial Voluntariado 4 - Oficina de tecelagem na Sociedade Eunice Wheaver (07'14'')

  • Reprise - Especial Voluntariado 4 - Oficina de tecelagem na Sociedade Eunice Wheaver (07'14'')

O REPORTAGEM ESPECIAL DESTA SEMANA ESTÁ APRESENTANDO UMA SÉRIE SOBRE TRABALHO VOLUNTÁRIO, JÁ QUE A ÚLTIMA TERÇA, DIA 28 DE AGOSTO, MARCA O DIA NACIONAL DO VOLUNTARIADO. CONTINUANDO A SÉRIE , AGORA VOCÊ VAI CONHECER UMA OFICINA DE TECELAGEM QUE ACONTECE NA SOCIEDADE EUNICE WHEAVER, QUE É UMA ENTIDADE QUE PRESTA ASSISTÊNCIA ÀS PESSOAS COM HANSENÍASE, E RECEBE APOIO FINANCEIRO DO COMITÊ DE CIDADANIA DOS SERVIDORES DA CÂMARA DOS DEPUTADOS

As alunas escutam com atenção. Com sensibilidade, a professora explica a antiga arte da tecelagem. Cada peça terminada no tear é única porque cada pessoa tem uma maneira única de puxar os fios. Os olhares das alunas estão atentos, um pouco sérios. Quando colocam os fios no tear, as moças ficam mais relaxadas, parece que não é tão difícil como parece.
Essa foi a primeira aula do curso de tecelagem na Sociedade Eunice Wheaver, que é uma instituição que presta assistência às pessoas com hanseníase. Os teares e as linhas foram obtidos com doações e a professora é voluntária. Ester Henriqueta é aposentada e há muitos anos realiza trabalhos voluntários em diferentes instituições. Ester e o marido vendem xales e cachecóis para complementar a renda familiar, e vão compartilhar o conhecimento que têm com as novas alunas. Ela chama o trabalho de parceria, pois garante que aprende muito mais do que ensina.

"Cada local que a gente, só de haver uma interação de ser humano, de pessoa para pessoa, a gente já está ali em um aprendizado. E eu acredito que eu tenho lucrado muito mais com o trabalho voluntário, do que eu tenha passado até hoje, porque é uma experiência gratificante, as pessoas são de uma abertura para receber, e de certa forma, quando ela se predispõe para receber, ela também está passando aquilo que ela tem, eu tenho aprendido muito com essas pessoas".

O estigma que cerca a hanseníase é milenar. Para muitas pessoas, a imagem comum quando se fala na doença é a de pessoas isoladas em leprosários, muitas delas deformadas, ainda que a realidade da doença hoje seja bem diferente. O Brasil é o segundo país do mundo em casos de hanseníase, só ficando atrás da Índia. Segundo o Ministério da Saúde, a cada ano são detectados 47 mil novos casos, sendo 8% em menores de 15 anos . Mas é difícil dar os números exatos sobre esta doença que ainda causa repulsa na sociedade, apesar de existirem remédios e meios para evitar o contágio. Depois que iniciam o tratamento, os pacientes não transmitem mais a doença, que em alguns casos pode desaparecer completamente. O tratamento médico avançou, mas a rejeição nem tanto. Maria José, que mora em Luziânia e tem hanseníase, mal consegue falar e se emociona ao dizer que o problema maior não é a doença, mas sim o preconceito.

"O preconceito, não é nem a doença. O tratamento foi normal, só teve um probleminha de alergia. O preconceito foi que... aí veio depressão... e até hoje. "

No ano 2000, Marli Araújo se aposentou com o diagnóstico de lesão por esforço repetitivo e depressão, depois de anos com dores inexplicáveis nos braços. Alguns meses depois da aposentadoria, o diagnóstico correto foi feito: Marli tinha hanseníase. Ela conta que os primeiros tempos foram de profunda revolta. Com um bom padrão de vida, não entendia como tinha adquirido a doença. Marli trabalhava na área de saúde pública da secretaria de saúde do GDF, e conta que passou a ser evitada pelos próprios colegas que elaboravam campanhas contra o preconceito sofrido pelos pacientes de hanseniase. Indo ao posto de saúde pegar a medicação, ela conheceu outros pacientes e se deu conta da imensa carência dessas pessoas, muitas vezes sem o dinheiro da passagem para buscar os remédios. Aos poucos, Marli foi materializando o Gamah, o Grupo de Apoio às Mulheres Atingidas pela Hanseníase, fazendo de sua doença um meio para ajudar outras pessoas. O Gamah se integrou à Sociedade Eunice Wheaver, e foi Marli quem conseguiu a doação dos teares e das linhas para o curso de tecelagem. A hanseníase afeta a força dos braços e pernas, o que traz dificuldades para as mulheres que precisam cuidar da casa. Marli conta que foi uma conversa com uma outra paciente que lhe mostrou a possibilidade de ajuda mútua que um grupo poderia oferecer.

"Uma vez eu perguntei a uma paciente que é doente desde os cinco anos, como é que ela fazia para torcer o pano de chão, que era uma dificuldade que eu tinha na minha casa. Aí ela virou e falou: a gente passa o pano de chão, o tanque é baixo, a gente joga o peso do corpo da gente em cima do pano de chão que a água escorre, e é assim que eu torço a minha roupa. Eu lá em casa resolvi o problema diferente, comprei 30 panos de chão e quando tem uma máquina de pano eu boto pra lavar. Mas quem não tem dinheiro pra fazer isso? Eu comecei a descobrir que elas arrumavam maneiras diferentes e criativas para conviver com a doença, e foi isso que foi me empolgando cada dia mais para a gente fundar o Gamah".

O grupo realiza trabalhos com biscuit, fabricação de tapetes, costura e montagem de bijuterias. Além da convivência e do apoio mútuo, esses trabalhos trazem alguma renda para as mulheres do grupo.

A Sociedade Eunice Wheaver presta assistência a pacientes de hanseníase em 23 locais do país. A presidente da instituição em Brasília, Sandra Alves, explica que são 50 famílias do Distrito federal assistidas com cestas básicas. Metade dessas cestas são compradas com as doações dos servidores da Câmara dos Deputados, feitas por meio do Comitê de Cidadania. Sandra não tem hanseníase, e começou a trabalhar como voluntária na instituição no ano de 97. Ela começou como contadora, foi se envolvendo com a causa e há cinco anos coordena os trabalhos em Brasília. Sandra reconhece que são muitas preocupações com o cargo, e conta que teve que aprender a pedir para conseguir fechar as contas da instituição todos os meses. Para finalizar essa reportagem, ela conta um pouco do que pôde sentir nesses anos de voluntariado.

"Você de alguma forma chegar perto dessas pessoas e falar: tem alguém que pode te ajudar. Eu percebo que muita gente quando chega aqui a primeira vez, eles ficam tão afastados, com medo que você chegue perto deles. E quando você chega, olha, pega nas mãos e começa a conversar com eles, e eles começam a soltar porque estão assim, porque não estão, aquilo ali eu falo: gente, como os meus problemas são pequenininhos."

De Brasília, Daniele Lessa

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