Rádio Câmara

Reportagem Especial

Especial Samba 1 - História dos primeiros batuques em terras brasileiras (05'47'')

  • Especial Samba 1 - História dos primeiros batuques em terras brasileiras (05'47'')

O DIA NACIONAL DO SAMBA FOI COMEMORADO NESTE DOMINGO, 2 DE DEZEMBRO. A RÁDIO CÂMARA APROVEITA A OCASIÃO PARA APRESENTAR, DE HOJE ATÉ SEXTA-FEIRA, CINCO REPORTAGENS ESPECIAIS SOBRE O RITMO MAIS POPULAR DO PAÍS.
RECENTEMENTE DECLARADO PATRIMÔNIO IMATERIAL DA CULTURA BRASILEIRA, O SAMBA VIVE UM MOMENTO DE EFERVESCÊNCIA, REJUVENESCIDO POR NOVOS TALENTOS QUE REVERENCIAM A VELHA GUARDA.

NESTA PRIMEIRA MATÉRIA, O REPÓRTER JOSÉ CARLOS OLIVEIRA CONTA A HISTÓRIA DOS PRIMEIROS BATUQUES EM TERRAS BRASILEIRAS.

TRILHA: "Canto dos Escravos" (Canto 3)
(só batuque + BG)

O tráfico de escravos trouxe cerca de 70 milhões de africanos para o Brasil entre os séculos 16 e 19. Os canaviais, cafezais, garimpos e fazendas da colônia portuguesa receberam os mais variados grupos étnicos. Para cá vieram, por exemplo, os bantos de Angola, Congo e Moçambique; os iorubás, os jejes e os malês do Sudão, Nigéria e Daomé, atual Benin. Aqui, o negro usou a música, a dança e a religiosidade para suportar a labuta, o tronco e o açoite. Das senzalas e terreiros, ecoavam ritmos genuinamente africanos que, com o passar do tempo, receberam influências locais até se transformarem em sons legitimamente brasileiros, como é o caso do samba.

TRILHA: "Bebadosamba" (Paulinho da Viola)
(batuque inicial + BG)

Livres da escravidão, mas sem acesso aos meios próprios de sobrevivência, os negros ocuparam as periferias urbanas. No Rio de Janeiro do início do século 20, eles se concentravam principalmente nos arredores do centro da cidade. Na Praça 11, berço do samba, mães-de-santo vindas da Bahia abriam suas portas para os apreciadores de quitutes e batuques. O jornalista Luiz Fernando Vianna diz que as mais famosas eram as tias Ciata, Amélia e Prisciliana.

"E nas casas delas, organizavam-se grandes reuniões musicais. Reuniões que também eram diversificadas, pois havia um ritmo mais duro, mais próximo do que a gente identifica depois como partido alto. E na sala principal da casa, havia o que depois se convencionou a chamar mais de choro, quer dizer, uma música com flauta, com um tipo de sofisticação maior. Aquele início ainda é um samba mais amaxixado, quer dizer, mais próximo do maxixe, ritmo que, então, predominava nessa região."

E é exatamente o maxixe "Pelo telefone", de Donga e Mauro de Almeida, que passou a ser historicamente apresentado como a primeira gravação de samba no Brasil em 1917. Estudiosos garantem que outras músicas mais representativas do ritmo já haviam sido registradas, mas é a partir de "Pelo telefone" que o samba ganha popularidade.

MÚSICA: "Pelo telefone" (Donga e Mauro de Almeida)
"O chefe da polícia
Pelo telefone manda me avisar
Que com alegria
Não se questione para se brincar..."

"Pelo telefone" faz uma sátira com o então chefe da polícia carioca Aurelino Leal. Mas a relação dos sambistas com policiais e demais autoridades foi sempre conflituosa. O jornalista e pesquisador cultural Sérgio Cabral afirma que a perseguição aos sambistas refletia o racismo da época.

"Era o racismo que se manifestava com o preconceito não só contra a música dos negros como também contra a religião dos negros. Várias vezes a polícia andou fechando templos religiosos, assim como a polícia perseguiu e prendeu muitos sambistas."

O cantor e compositor Elton Medeiros conta que muitas autoridades perseguiam as manifestações culturais e religiosas do negro publicamente, mas sempre recorriam aos serviços das mães-de-santo secretamente. Segundo Elton, João da Baiana foi um dos sambistas que soube lidar com esse paradoxo para se livrar da perseguição.

"João da Baiana foi várias vezes preso com pandeiro até que uma vez um senador, sabendo que João foi preso porque estava com pandeiro, o senador Pinheiro Machado deu um pandeiro novo ao João e escreveu uma dedicatória de que aquele pandeiro era do senhor João Machado Guedes, que servia como uma identidade dele. Nunca mais ninguém prendeu João da Baiana porque estava com pandeiro na mão."

MÚSICA: "Samba da bênção" (Vinícius de Moraes e Baden Powell)
"Pois o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração..."

Já falamos de João da Baiana, das tias baianas e de outras referências à Bahia nos primeiros passos do samba no Rio de Janeiro. Mas será que isso é suficiente para dizer que "o samba nasceu lá na Bahia", como escreveram Vinícius de Moraes e Baden Powell no "Samba da bênção"? Com a palavra, o pesquisador Sérgio Cabral.

"Isso é discutir o chamado sexo dos anjos porque, na verdade, o samba veio da Bahia, do Maranhão, de Pernambuco. Ele é uma contribuição do Brasil inteiro. Só que, no Rio de Janeiro, ele ganhou uma forma que foi essa forma que nós conhecemos. O samba, como nós conhecemos - de Ismael Silva, de Noel Rosa e de tantos outros -, é do Rio de Janeiro, é carioca. Não tenho a menor dúvida."

MÚSICA: "A voz do morro" (Zé Ketti)
"Eu sou o samba
Sou natural aqui do Rio de Janeiro
Sou eu quem levo a alegria
Para milhões de corações brasileiros..."

Ainda no Rio de Janeiro, no finalzinho da década de 20, surgiram as primeiras escolas de samba que se tornariam fundamentais para o reconhecimento cultural do ritmo no país. Mas esse é um assunto para nossa próxima reportagem.

De Brasília, José Carlos Oliveira

MANGUEIRA, PORTELA E IMPÉRIO SERRANO ENTRAM NA "AVENIDA DA HISTÓRIA" AMANHÃ, NA SEGUNDA REPORTAGEM ESPECIAL SOBRE O SAMBA, QUE TEVE SEU DIA COMEMORADO NESSE DIA 02 DE DEZEMBRO.

ESTA SÉRIE DE REPORTAGENS ESPECIAIS VAI AO AR DE SEGUNDA A SEXTA-FEIRA EM DOIS HORÁRIOS: DENTRO DO JORNAL CÂMARA ABERTA, ÀS 07:30 DA MANHÃ E TAMBÉM AS ONZE HORAS DA NOITE. SE VOCÊ QUISER, AS MATÉRIAS TAMBÉM ESTÃO DISPONÍVEIS EM NOSSA PÁGINA NA INTERNET, NO ENDEREÇO WWW.RADIO.CAMARA.GOV.BR

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

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