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Reportagem Especial

Especial Museu 2 - Experiência de resgate do patrimônio histórico que pode ajudar a reduzir estigma de violência da favela da Maré (06'10'')

  • Especial Museu 2 - Experiência de resgate do patrimônio histórico que pode ajudar a reduzir estigma de violência da favela da Maré (06'10'')

CONHEÇA AGORA, NESTA SEGUNDA REPORTAGEM ESPECIAL SOBRE OS MUSEUS, A EXPERIÊNCIA DE RESGATE DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO QUE PODE AJUDAR A REDUZIR O ESTIGMA DE VIOLÊNCIA DA FAVELA DA MARÉ, NO RIO DE JANEIRO.

Dos cerca de 2 mil e 500 museus existentes hoje no Brasil, a esmagadora maioria é formada por instituições públicas, sejam elas federais, estaduais ou municipais. Os especialistas calculam em no máximo 20 por cento o índice de museus privados. Esse cálculo está atualmente um pouco impreciso por conta da característica mista de algumas instituições. São muitos os museus espalhados pelo país que recebem recursos públicos e privados ao mesmo tempo. O quadro atual mostra a concentração museológica nas regiões sudeste e sul, principalmente nos estados de São Paulo e do Rio Grande do Sul. Já as regiões norte e centro-oeste são as mais carentes em espaços de preservação da memória cultural.

A política nacional de popularização dos museus tem incentivado as mais diversas comunidades do país a estabelecerem espaços para a preservação de suas histórias e costumes. Uma das experiências mais bem sucedidas vem do Rio de Janeiro, mais precisamente do complexo de 16 comunidades que formam a favela da Maré. Quem chega à cidade pelo aeroporto internacional Tom Jobim ou pelas rodovias Rio-São Paulo e Rio-Brasília, obrigatoriamente passa por essa área. Infelizmente, a Maré de hoje ocupa o noticiário nacional pela violência urbana e os freqüentes tiroteios que, muitas vezes, provocam mortes de inocentes e levam à interdição da avenida Brasil e da Linha Vermelha, duas das principais vias de acesso ao centro carioca.

Mas antigamente não era assim. E a instituição responsável por resgatar uma imagem bem mais positiva da comunidade é o Museu da Maré, inaugurado em 2006. A coordenadora do espaço, Cláudia Ribeiro, conta que o acervo está impregnado da história dos bravos pioneiros da região, que são exemplo da dignidade típica dos moradores da maioria das favelas do Rio.

"A gente tem documentos variados dos moradores. São objetos simples de uso do dia-a-dia, mas que têm uma importância muito grande para a reconstituição dessa história local que não está posta, não está visível para as pessoas, porque quem passa por ali tem sempre aquela visão: ´isso aqui é uma favela´. É claro que a gente não foge disso nem tenta camuflar isso de alguma forma: ali é uma favela. Mas, independentemente de ser favela, é uma região da cidade do Rio, onde há pessoas que moram e têm uma história. E essa história precisa ser contada, porque geralmente as pessoas só vêem ali como um lugar de violência e não como um lugar onde as pessoas produzem história e onde as pessoas têm um patrimônio, né."

"Favela" (de Francisco Alves e Roberto Martins)
"Favela, ô, favela
Favela que trago no meu coração
Ao recordar com saudade
A minha felicidade
Favela dos sonhos de amor
E do samba-canção"

Desde a abertura, o Museu da Maré já recebeu mais de 12 mil visitantes, a maioria da própria comunidade. A instituição também ajuda a manter a auto-estima da população local. Cláudia Ribeiro afirma que as peças expostas despertam nas crianças e nos mais velhos uma identificação orgulhosa com a comunidade.

"O que a gente tem de curioso é que principalmente as crianças levam os pais e os avós para verem o museu. Elas ficam tão impressionadas com o que elas vêem, já que elas não têm noção de como onde elas moram era tão diferente. É muito interessante ver as crianças levando os mais velhos; e os mais velhos, quando chegam, se emocionando. E aí começam a contar histórias para os mais novos. E a gente deixa de ser guia. Quando chega um morador mais velho, geralmente são eles mesmos que falam sobre a história, a partir das fotos e dos objetos."

Ainda no Rio de Janeiro, a comunidade da Rocinha, que forma a maior favela do país, também já se articula para monumentalizar suas histórias e costumes em forma de museu. Os Ministérios da Cultura e da Justiça pretendem levar a experiência do museu comunitário da Maré para outras 11 áreas carentes de todo o país que registram altos índices de criminalidade.

O coordenador técnico do Departamento de Museus do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Mário Chagas, vibra com o que chama de "polifonia museal", ou seja, as múltiplas facetas, vozes e memórias registradas em espaços de preservação cultural do país.

"Essa é uma mudança muito notável. Foi um tempo em que se acreditava que os museus serviam apenas a certos grupos sociais, a uma elite socioeconômica. Hoje, houve uma grande mudança porque conjuntos expressivos de pessoas se apropriam dos museus. Poderia dar outro exemplo: o Museu dos Índios Ticuna, criado lá no Alto Solimões, na cidade de Benjamin Constant. Quer dizer, os próprios grupos indígenas começam a se apropriar dessa ferramenta tão ligada ao mundo ocidental, ao mundo grego. Se apropriam dessa ferramenta e a ressignificam, dão um outro sentido para ela."

Outros exemplos da diversidade museológica brasileira emergem dos mais diversos pontos do país. São os casos dos museus dos índios pataxós, em Coroa Grande, na Bahia; do terreiro de candomblé de Mãe Mirinha, também na Bahia; da Casa do Mestre Vitalino, no carente bairro de Alto do Moura, em Pernambuco; e do Ecomuseu do Quarteirão de Santa Cruz, na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro.

De Brasília, José Carlos Oliveira

INVESTIMENTOS, POLÍTICAS PÚBLICAS E AÇÕES GOVERNAMENTAIS E LEGISLATIVAS PARA O DESENVOLVIMENTO MUSEOLÓGICO SÃO OS DESTAQUES DE AMANHÃ, NA TERCEIRA REPORTAGEM ESPECIAL SOBRE OS MUSEUS.

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

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