Reportagem Especial

Especial Transplantes 3 - Conheça mais sobre a vida de Oswaldo Luiz, transplantado de figado há três anos (06'50'')

Publicação: 19/11/2007 - 00:00

  • Especial Transplantes 3 - Conheça mais sobre a vida de Oswaldo Luiz, transplantado de figado há três anos (06'50'')

NO REPORTAGEM ESPECIAL DESTA SEMANA, VOCÊ ACOMPANHA CINCO MATÉRIAS SOBRE OS TRANSPLANTES NO BRASIL.HOJE VOCÊ VAI CONHECER UM POUCO DA VIDA DE OSWALDO LUIZ, TRANSPLANTADO DE FÍGADO HÁ TRÊS ANOS E ATUAL PRESIDENTE DA ONG AMIGOS DO TRANSPLANTE, NO RIO DE JANEIRO. COMO SE SENTE UMA PESSOA QUE PRECISA DE NOVO ÓRGÃO PARA SOBREVIVER? ACOMPANHE TODA ESSA TRAJETÓRIA AGORA, COM A REPÓRTER DANIELE LESSA.

A hepatite C de Oswaldo Luiz Souza se instalou silenciosamente e sem apresentar sintomas. Quando a doença foi descoberta, em 98, o fígado já estava com cirrose crônica muito grave. Durante um período, ele tentou a cura com medicamentos, mas depois que um câncer foi descoberto, o transplante passou a ser única possibilidade de melhora.

"Lá foram feitos todos os exames e eu tinha um câncer já no fígado, um nódulo, né? Nós tentamos tirar esse nódulo, mas infelizmente apareceu o segundo e apareceu o terceiro. Aí, realmente, com três nódulos no fígado, pequenos, mas eram nódulos, eram um câncer, aí eu fui obrigado a entrar na fila do transplante."

A descoberta da doença foi um baque para o homem ativo que, na época, tinha 56 anos. Morando no Rio de Janeiro, casado, com uma filha e dois netos, Oswaldo trabalhava como analista de sistemas e instrutor de ultra-leve. A aventura estava no sangue desde cedo. Ele conta que procurou não se desesperar com a situação. Tomou algumas medidas práticas como passar os bens para o nome da mulher, entrou na fila de transplante e foi tomando medicamentos que pudessem atenuar a doença. Mas os nódulos iam debilitando sua saúde cada vez mais.

"Foi angustiante a forma como aconteceu, porque esses cânceres me causaram tanto mal que eu passei um ano sendo internado em hospitais. Como tenho plano de saúde, ia para o hospital particular, mas, poxa, você ficava um mês, dois no hospital, aí quando o fígado voltava a funcionar eu ia pra casa, ficava dez, quinze dias em casa e voltava pro hospital."

Oswaldo fez seu acompanhamento no hospital universitário da UFRJ, conhecido como Fundão. Depois de três anos na fila, com o estado de saúde cada vez pior e mal conseguindo caminhar, o médico lhe disse que se o transplante não fosse feito em até 60 dias, o óbito seria inevitável. E o cirurgião propôs a Oswaldo receber um fígado marginal, que é um órgão de risco por não estar em condições ideais. Entre morrer e receber um fígado marginal, Oswaldo não teve dúvida. Se antes estava na posição 260 na fila, a lista para quem aceitaria um órgão marginal era de 30 pessoas. Algumas semanas depois, o hospital lhe chamou. Havia chegado um fígado compatível.

"Então o pessoal lá do Fundão chamaram três pacientes, eu fui o terceiro. Realmente, nesse momento, vamos dizer assim, você dá uma amarelada, né? É o momento crucial da sua vida, você não sabe se vai acordar da mesa, se não vai, foi o momento mais difícil pra mim. Fomos ao hospital, eu era o terceiro, menina."

O órgão era grande demais para a primeira paciente da fila e o segundo paciente estava com uma infecção. Sendo o terceiro da fila, foi Oswaldo que ganhou seu novo fígado. Ao entrar na sala de cirurgia, o momento crucial. E ao acordar, a sensação maravilhosa de simplesmente estar vivo.

"Eu entrei na sala de cirurgia, nervoso como sempre e virei pro anestesista e disse a ele: ô, doutor, se o senhor me perder, o meu espírito vai lhe perturbar, aí brinquei com ele evidentemente, para que ele tomasse cuidado comigo. Ele me falou "não se preocupe que você vai acordar bem". Aí eu apaguei, foi feita a cirurgia. Quando eu acordei na UTI, a primeira pessoa que eu vi foi ele do meu lado, me tratando muito bem, me acariciando, inclusive, e falando "tá vendo, eu não falei que você iria acordar na UTI?" Essa foi a primeira lembrança, eu falei: eu tô vivo."

Oswaldo teve alta depois de quinze dias, e com um mês de transplantado já tinha recuperado sua vida, inclusive voltado ao trabalho.

Ao passar pela agonia da espera e vendo as dificuldades que os transplantados passam depois da cirurgia, Oswaldo se juntou à ONG Amigos do Transplante, que fica no Rio de Janeiro. Ele começou como voluntário e hoje preside a entidade, que tem toda a diretoria composta por transplantados. A instituição capta recursos para atender às necessidades básicas dos pacientes e também oferece assessoria jurídica para garantir o acesso á medicação. Quem passa por transplante precisa tomar medicamentos para o resto da vida, a fim de impedir que o corpo rejeite aquele órgão. Segundo Oswaldo, é comum que as secretarias de saúde fiquem sem os remédios, colocando em risco a vida das pessoas.

"Aí o SUS repassa a verba do medicamento para os estados, a secretaria de saúde aqui quase nunca tem os medicamentos, então nós temos que entrar na justiça para conseguir os imuno-supressores, senão o paciente morre com 30, 60 dias de transplantado. É uma luta muito grande, é uma luta árdua, constante, diária, mensal, anual, brincadeira o que esses políticos fazem com o povo."

Em meio à batalha pela vida de muitos transplantados, Oswaldo segue a sua própria existência, junto da mulher com quem está casado há 37 anos, da filha e dos netos. E apesar de ter deixado de ser instrutor de ultra-leve, continua voando sempre que pode. Ele conta que voar é que nem namorar: enquanto se está vivo, a gente não pára nunca.

De Brasília, Daniele Lessa

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