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Reportagem Especial

Especial Voluntariado 3 - Projeto Brotar (07'19")

  • Especial Voluntariado 3 - Projeto Brotar (07'19")

Essa é uma estória que começou em Brasília, depois viajou mil quilômetros até o Piauí e ninguém sabe aonde vai acabar. Estória de amor por uma terra que esconde fertilidade por trás da aparência de deserto. Esse caminho começa no Comitê de Cidadania da Câmara dos Deputados, que apóia projetos sociais com doações em dinheiro feitas pelos servidores. O coordenador do Comitê, Eduardo Aquino, conta como ficou conhecendo a região de Gilbués, no sul do Piauí.

Eduardo 1: "É uma região que tem um processo de desertificação enorme, tem sete mil quilômetros quadrados de área em processo de desertificação. Esse processo gerou muita fome, muita pobreza, e isso veio a se refletir em parte aqui em Brasília. Foi ajudando um orfanato aqui em Brasília, em Valparaíso, que a gente descobriu uma ponta do iceberg, uma penca de crianças desnutridas"

O Comitê foi até Gilbués, e acabou constatando que a degradação ambiental tinha ligação direta com a pobreza da região. O passo seguinte foi comprar uma área, um pedacinho de deserto, para fazer um projeto piloto de recuperação ambiental. A terra da região é mais fértil que a terra de Brasília, só que o terreno argiloso tem uma particularidade. Quando a água da chuva bate no solo sem vegetação, surge uma lama que parece um chocolate derretido. A água dissolve o solo, levando a terra para o leito dos rios, que ficam entupidos. Qualquer atividade do homem na região pode desproteger o solo. Se a terra está nua, quando bate a chuva o terreno se dissolve, deixa de ser produtivo e vira deserto. Logo no início do projeto piloto a comunidade percebeu que não dava para ter progresso sem proteger o meio ambiente. Quem conta isso é Luis Carlos Laurindo, que é presidente da Associação de Pequenos Produtores de Vaqueta, um município vizinho de Gilbués.

Luis 1: "A gente estava preocupado em criar alguma ação que traria rendimento financeiro para a região, entendeu? Só que em cima disso, a gente acabou descobrindo a necessidade de se prevenir ou recuperar a área dentro do município que tem aquele grande problema, que já foi divulgado nacionalmente, ou mundialmente deve ser conhecido hoje"

Para a recuperação das áreas degradadas, já foram plantadas 1.500 mudas de plantas nativas, sendo que a meta é chegar a quinze mil. Hoje, o Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura, a Coopeforte, o Dnocs e o Sebrae estão juntos no Projeto Brotar, que é a evolução do projeto piloto iniciado pelo Comitê de Cidadania da Câmara. O Comitê já não contribui financeiramente com o projeto, mas Eduardo Aquino continua viajando todo mês para o Piauí. Foi Eduardo quem apresentou Gilbués para o coordenador do projeto Brotar, o agroecologista Orlando Pereira. Orlando também mora em Brasília, mas o encanto do Piauí é forte, e ele se apaixonou irremediavelmente pela riqueza oculta no barro vermelho da região. Onde muitos só vêem o deserto, Orlando enxerga a prosperidade e a chance daquela comunidade permanecer na terra onde nasceu.

Orlando 1: "Vamos fazer com que essas pessoas tenham oportunidade de ficar, mesmo porque a região tem potencial para a atividade agrícola. O solo é muito mais fértil que o de Brasília, chove igual aqui em Brasília, então porque a gente vai deixar esse lugar desaparecer? Porque a gente perder a oportunidade dessas pessoas que querem se levantar, a gente vai deixar essa oportunidade passar e não ajudar que essas pessoas se levantem?"

O projeto Brotar vai desenvolver seis oficinas de geração de renda até 2008, em áreas como o cultivo de frutas e do mel de abelhas sem ferrão, que é muito mais valioso que o mel das abelhas convencionais. A primeira oficina já aconteceu e levou o curtume a seco para Gilbués. O Luis Carlos Laurindo, da Associação de Produtores Rurais, lembra como reagiu quando Orlando Pereira falou sobre curtir o couro de maneira rápida e sem usar água.

Luis 2: "Aí ele perguntou como a gente curtia esse couro. Aí fui falar: tem que deixar de molho não sei quantos dias na água, lá com uma casca de uma árvore, é um processo muito lento, muito demorado. Aí ele disse: não, existe um processo que você curte esse couro rapidinho, dentro de 20, 30 minutos você tá com ele pronto. Eu duvidei dele. E ele disse: e não usa uma gota de água, quer ver? Aí eu disse: vamos ver."

Antes, o couro das cabras da região ia parar no lixo ou era vendido a no máximo dois reais. Com o processo de curtume a seco, cada peça acabado chega a trinta reais, sendo utilizada no artesanato e em confecções. Orlando Pereira conta que algo o intrigou quando conheceu a região. As pessoas só falavam nas dificuldades do deserto, sendo que ele via claramente o potencial da região. Por isso ele alerta que o deserto mais perigoso é o que se infiltra na cabeça das pessoas, e faz com que elas virem as costas para uma região que pode ser muito próspera. Para ele, que tem seus próprios projetos profissionais em Brasília, Gilbués surgiu como uma possibilidade de realização.

Orlando 2: "Na minha vida pessoal isso tem trazido uma renovação muito grande, parece que eu estou renovando ou melhorando um deserto em Gilbués e eu também estou melhorando um deserto na minha vida. A partir do momento que você vê as pessoas que passavam necessidades, que não tinham perspectivas, que pensavam em se mudar do local, essas pessoas estão animadíssimas, e vendo um futuro lá na frente, isso é gratificante para mim como profissional e como pessoa"

Se você se interessou pelo projeto Brotar e quer saber mais informações, procure o Eduardo Aquino pelo telefone (61)3216-4504. Repetindo o telefone: (61)3216-4504.

De Brasília, Daniele Lessa

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