Rádio Câmara

Reportagem Especial

ESpecial Voluntariado 5 - Bordadeiras de Santa Maria (05'55")

  • ESpecial Voluntariado 5 - Bordadeiras de Santa Maria (05'55")

HOJE, FINALIZANDO A SÉRIE DE REPORTAGENS SOBRE TRABALHO VOLUNTÁRIO, VOCÊ VAI CONHECER UM GRUPO DE DONAS DE CASA DE SANTA MARIA QUE MELHORARAM MUITO SUA QUALIDADE DE VIDA BORDANDO JUNTAS. A INICITIVA DE CRIAR O GRUPO SURGIU DE UM CASAL DA PRÓPRIA COMUNIDADE.

Essa estória de mulheres começa com um homem. E esse homem é Edvaldo Sousa, ou simplesmente Didi, que mora em Santa Maria, cidade a 40 quilômetros de Brasília que surgiu como um assentamento para famílias de baixa renda. Todas as mulheres dessa história começam seus relatos do mesmo jeito: um dia o Didi veio aqui em casa e me chamou para participar em um grupo de bordado... Pois é, foi isso mesmo. Didi trabalha como porteiro em um condomínio, e conta que desde que se lembra carrega o desejo de fazer algum projeto social. Mas faltava dinheiro para começar alguma coisa. Um dia, um conhecido disse que iria ajudar. Didi pegou a bicicleta e foi chamar as mulheres.

"Eu peguei a bicicleta, que eu tenho até hoje e até mandei reformar ela. Montei na bicicleta, chovendo, à noite e saí convidando as pessoas. Quando pensei que não tinha mais de 40 mulheres aqui, e a gente via nos olhos delas aquela vontade realmente, aquela luz lá no fundo do túnel. E eu falei: vamos lá que dá certo."

A idéia saiu do papel e virou associação. Para o projeto começar era preciso uma professora, e a esposa do Didi, a Ione, sabia fazer crochê. O problema era que ela não queria nem saber de gente estranha na casa dela. Poderia apoiar o marido, mas sem se envolver. Até que surgiu a possibilidade de Ione receber uma ajuda de custo e treinamento para ensinar bordado ás mulheres. Ela conta que concordou meio a contra gosto.

"A princípio eu fiquei muito assustada, não imaginava minha casa cheia de mulheres. Só que esse trabalho começou a ajudar a mim mesma. Eu comecei a ter mais contato com as pessoas, porque o meu portão era fechado, não era aberto para ninguém a não ser pra parente."

As mulheres começaram fazendo flores em crochê. Hoje há um mostruário daqueles tempos, com flores de todas as cores e tamanhos. Tecendo as formas delicadas de flores diferentes, aquele grupo de mulheres foi criando uma ligação especial. Ione, que era arredia e depressiva, se tornou uma espécie de conselheira para aquela comunidade, como relata Maria dos Remédios.

"Ione é uma pessoa maravilhosa, que nunca deixa de ligar pra gente pra saber como a gente tá. Eu acho que isso aqui pra todas é uma terapia, um modo que a gente tem de aprender uma com a outra, uma aprende com os problemas da outra, uma pára para ouvir a outra, uma ajuda a outra."

E uma outra Maria, desta vez Maria Helena, conta que as reuniões são como uma brisa na rotina pesada de quem cuida da casa todos os dias.

"Eu gosto de vir pra cá. Só de pensar em deixar minha casa, que eu tenho que lavar louça, arrumar casa, aquele coisa tosa, ixi, isso aqui pra mim é ótimo. E nós fizemos muitas coisas que já foram vendidas em exposições, e continuamos. Agora que deu uma paradinha, mas assim que melhorar tá todo mundo aqui de novo."

O grupo trabalha bordando chaveiros, pantufas, bolsas e roupas. As saias com estampas de flores ficam ainda mais vibrantes com as linhas coloridas ao redor das pétalas. Atualmente o grupo não recebe mais nenhuma ajuda financeira, e as mulheres trabalham de maneira que podem. As reuniões acontecem ao ar livre, no quintal da casa do Didi e da Ione. O lugar é pequeno para a quantidade de mulheres do grupo. O barro vermelho, o sol e a chuva não oferecem muito conforto. As mulheres falam também da dificuldade em conseguir espaço para vender as peças produzidas. Raimunda de Sousa conta da esperança de um dia conseguir mais dinheiro com a associação.

"Aprendi algumas coisas que eu sabia pouquinho, aprendi mais um pouquinho. Gosto demais, é uma terapia essa tarde que a gente passa aqui. A gente tem essa esperança de um dia melhorar pra gente ganhar mais, ganhar alguma coisa melhor, né?"

Em meio a tantas donas de casa, uma moça mais jovem chama a atenção. É Kelly Teixeira, de 23 anos, que trabalha fora mas participa das reuniões. Kelly também fala de como é bom estar entre mulheres para compartilhar bordados e experiências, mas lembra também da satisfação de fazer um trabalho bonito.

"Nossa, é uma emoção maravilhosa, só de você olhar e falar: nossa, eu fiz isso, tem certeza que fui eu que fiz? É muito gostoso, as meninas quando olham, uma admira uma coisa que outra fez, muito bom mesmo, nossa, é uma sensação ótima."

O projeto das donas de casa de Santa Maria caminha lentamente. Falta dinheiro para comprar materiais, espaço e apoio para a venda das peças. Mas as reuniões já mudaram a vida daquelas mulheres, que descobriram uma na outra um apoio inesperado. A professora Ione, que não queria saber de gente estranha por perto, fala como é bom compartilhar

"Ele mudou minha vida totalmente, totalmente mesmo. Eu tinha, tipo um medo das pessoas, não sei, eu era realmente trancada dentro de casa, não saía pra trabalhar fora. Aí, depois que veio esse trabalho pra cá, isso me mostrou que eu posso ajudar as pessoas, entendeu? Eu tenho prazer se chegar se alguém aqui, ah eu não sei bordar, você me ensina, quanto que é? Nada, eu ensino pelo prazer de ensinar."

Com reportagem de Daniele Lessa, de Brasília, Mônica Montenegro

TERMINA AQUI A SÉRIE DE REPORTAGENS ESPECIAIS SOBRE TRABALHO VOLUNTÁRIO.
SE VOCÊ QUER SABER MAIS INFORMAÇÕES SOBRE AS ENTIDADES ABORDADAS NESTA SÉRIE ESPECIAL, LIGUE PARA A RÁDIO CÂMARA. NOSSO NÚMERO É 3216-1743. VOCÊ TAMBÉM PODE OUVIR TODAS AS REPORTAGENS NA PÁGINA DA RÁDIO CÂMARA NA INTERNET. O ENDEREÇO É WWW.RADIO.CAMARA.GOV.BR.

ESTA SÉRIE TEVE PRODUÇÃO DE MÔNICA LION E LUCÉLIA CRISTINA, SONORIZAÇÃO DE RODRIGO SANTOS, REPORTAGEM DE DANIELE LESSA, EDIÇÃO E COORDENAÇÃO DE APRIGIO NOGUEIRA

NA PRÓXIMA SEMANA, VOCÊ VAI ACOMPANHAR EM QUATRO MATÉRIAS UMA SÉRIE SOBRE AS MICRO E PEQUENAS EMPRESAS. ATÉ LÁ.

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

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