Rádio Câmara

Reportagem Especial

Especial Quilombolas 4 - Em busca de desenvolvimento sustentável - ( 07' 18" )

  • Especial Quilombolas 4 - Em busca de desenvolvimento sustentável - ( 07' 18" )

NA QUARTA REPORTAGEM ESPECIAL SOBRE OS QUILOMBOLAS, ESPECIALISTAS E LÍDERES COMUNITÁRIOS DISCUTEM MEIOS DE GARANTIR O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL NAS ÁREAS REMANESCENTES DE QUILOMBO. ARTESANATO E AGRICULTURA FAMILIAR, APESAR DO BAIXO VALOR DE MERCADO, DOMINAM A PRODUÇÃO ECONÔMICA DOS QUILOMBOLAS.

Garantir o desenvolvimento sustentado dos quilombolas paralelamente à preservação cultural é um desafio para o Poder Público. Muitas vezes, o exemplo e a iniciativa partem das próprias comunidades. Em Oriximiná, no Pará, 33 povoados remanescentes de quilombo se reuniram para organizar o plantio, a coleta e a venda da castanha do pará, principal produto da região. Unidos, procuraram o apoio de ONGs e de entidades internacionais para vencer os atravessadores e os problemas de escoamento da castanha, desde os rincões da Floresta Amazônica até os principais centros comerciais do Pará. Hoje, apesar de isolados do mundo, contam com armazéns, barcos e um sistema de comunicação via rádio, que garantem a infra-estrutura da produção. O coordenador do projeto de Manejo dos Territórios Quilombolas de Oriximiná, Silvano Santos, conta que o ouriço da castanha é aproveitado no artesanato local e vendido para grandes centros comerciais do Brasil e do exterior.

"A gente já conseguiu colocar no mercado em São Paulo. Já conseguimos também acesso para colocar o artesanato dos quilombos para a França. E agora, estamos buscando parceiros e recursos para implantar um pequeno sistema de beneficiamento da castanha."

Em Guimarães, no Maranhão, a comunidade de Damásio se especializou na confecção de balaios, cestos e jurupema, uma espécie de peneira de palha. A produção é geralmente vendida na região. Em Palmeiras dos Negros, em Alagoas, o artesanato está impregnado da cultura local, como conta o líder comunitário José Santos.

"O artesanato é uma cultura primordial aqui na comunidade. Nós fazemos aqui chapéu de palha, bolsa, vassoura, cesto, balaio, tapete, roupeiros, carteiras...etc. Tudo isso são coisas que extraímos da natureza. É uma cultura que nós temos e que o pessoal ainda continua levando. É uma tradição antiga, desde os primeiros descendentes que vieram aqui."

MÚSICA: "Plantei café de meia" (c/ Jongo do Quilombo São José)
"Eu já plantei café de meia
Eu já plantei canaviá
Café de meia não dá lucro, meu Deus do céu
Canaviá, cachaça dá"

A maior parte da produção agrícola dos quilombolas é usada para a própria subsistência. A farinha de mandioca e o que sobra de alimento são geralmente vendidos a preço muito baixo nos centros comerciais mais próximos das comunidades. Uma experiência bem sucedida está em curso no Vale do Ribeira, em São Paulo, onde quatro comunidades quilombolas trabalham na preservação do que resta de Mata Atlântica e, ao mesmo tempo, plantam espécies com propriedades medicinais e fitoterápicas para a posterior comercialização.

Também na busca de promover o desenvolvimento sustentado entre os quilombolas, a Universidade de Brasília, em parceria com outros órgãos da União, desenvolveu um projeto de inclusão social por meio da arquitetura. A intenção era melhorar as condições de moradia dos kalungas, de Goiás, sem descaracterizar a comunidade e, ao mesmo tempo, gerar trabalho para a população local. As casas antigas tinham teto de palha e paredes de taipa, que facilitavam a proliferação de morcegos e do barbeiro, causador da Doença de Chagas. O professor de arquitetura da UnB, Jaime de Almeida, foi o coordenador da primeira fase do projeto, que pretendia reformar 800 casas e construir outras 400 residências na área kalunga.

"O nosso interesse maior era resgatar as tradições locais de construção. Uma outra preocupação também seria utilizar a tecnologia local e eu fiz a sugestão de a gente utilizar o adobe, que é o tijolo seco ao sol, que os kalungas desenvolvem. Tinha em mente que esse material iria propiciar, primeiro, uma construção por eles próprios. E se pensou também, com essa tecnologia, dar emprego para essa população: pegar os mestres de obras locais e treinar o pessoal para multiplicar a tecnologia."

Jaime reconhece que há dilema entre os quilombolas que querem acesso imediato ao conforto do mundo moderno e aqueles que desejam preservar a tradição secular. Mas o professor da UnB critica alguns projetos habitacionais que não respeitam as características culturais dos quilombolas, introduzindo materiais de construção que acabam dando às casas os mesmos contornos caóticos das periferias das grandes cidades. O coordenador técnico do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Jorge Campana, desenvolve uma tese de mestrado que visa preservar as características básicas e originais dos bens materiais e imaterias, evitando a inserção de técnicas contemporâneas que os descaracterizem. Campana se confessa preocupado com a descaracterização da cultura kalunga, principalmente do ponto de vista arquitetônico.

"Está botando por terra o conhecimento ancestral daquela gente. Os caras estão há 200 anos fazendo a casa desse jeito. Agora, vão ganhar uma casa de São Paulo ou de periferia do Rio de Janeiro. Lá no Engenho, já estão na quarta tipologia. É uma descaracterização absurda de tudo. A gente tem que se apropriar, primeiro, do status quo, e cadastrar como funcionam as coisas todas: a arquitetura, a cultura, a produção e como se gera renda. E depois partir para o projeto. E não chegar com um troço caindo em cima assim, de pára-quedas."

MÚSICA: "A humanidade" (Velha Guarda do Império Serrano)
"Eu não sou de guerra, quero paz
Quero trabalhar pra poder ter
É tendo que a gente pode dar
Eu quero ser livre, liberar
Eu quero estudar e aprender
Eu só quero aprender pra ensinar"

Cirilo Rosa, 52 anos, nascido e criado na área kalunga e hoje líder da comunidade, tem um grande sonho: garantir condições de sobrevivência para seu povo e de preservação das tradições dentro de sua própria terra. A casa de "Seu Cirilo" ainda está em festa pelo nascimento do segundo neto, Paulo Henrique, que vive no colo do avô, desfilando pela comunidade. Porém, um semblante misto de alegria pela renovação da família e de preocupação com o futuro incerto da comunidade toma conta das reflexões do velho kalunga.

"O que eu espero para o Paulo Henrique é que tenha boa condição de estudar e de desenvolvimento por aqui mesmo. Só sair pra fora depois de cuidado, mas pra passear, sem precisar buscar recursos lá fora ou mudar daqui pra ir trabalhar lá fora por falta de recurso aqui. O meu sonho é esse aí. Todas as crianças aqui da comunidade e de todas as comunidades quilombolas têm o mesmo direito: permanecer na sua comunidade. Se for sair pra fora, vai perder toda a cultura, igual muitos que já perderam. O mais importante que nós temos hoje na comunidade quilombola é a cultura. Se nós perdermos ela, estaremos de pé e mão quebrados."

Essa cultura quilombola, manifestada pelos costumes, crenças e habilidade artesanal, também é rica em ritmos, sons e danças, que serão alvos da nossa próxima reportagem.

De Brasília, José Carlos Oliveira

AMANHÃ É DIA DE CULTURA QUILOMBOLA NA RÁDIO CÂMARA. MAÇAMBIQUE, CANDOMBE, TAMBOR DE CRIOULA E JONGO, OS DOIS ÚLTIMOS JÁ RECONHECIDOS COMO PATRIMÔNIO CULTURAL, VÃO ENCERRAR A SÉRIE DE REPORTAGEM SOBRE OS REMANESCENTES DE QUILOMBOS NO BRASIL.

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A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

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