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Reportagem Especial

Especial Água 5 - Símbolo em manifestações culturais e religiosas - ( 06' 51" )

  • Especial Água 5 - Símbolo em manifestações culturais e religiosas - ( 06' 51" )

DURANTE TODA ESTA SEMANA, VOCÊ ACOMPANHOU, AQUI NA RÁDIO CÂMARA, VÁRIAS REPORTAGENS SOBRE A SITUAÇÃO DOS RECURSOS HÍDRICOS NO BRASIL E NO MUNDO, LEMBRANDO QUE ONTEM, 22 DE MARÇO, FOI O DIA MUNDIAL DA ÁGUA.// HOJE, FECHANDO A SÉRIE, VOCÊ VAI CONFERIR COMO A ÁGUA ESTÁ FORTEMENTE PRESENTE EM NOSSA CULTURA, SEJA EM MANIFESTAÇÕES ARTÍSTICAS OU EM CERIMÔNIAS RELIGIOSAS.

"Só na foz do rio é que se ouvem os murmúrios de todas as fontes... Amores são águas doces, paixões são águas salgadas, queria que a vida fosse essas águas misturadas. Eu que já fui afluente das águas da fantasia, hoje molho mansamente as margens da poesia"

Fonte constante de inspiração de artistas, a água está fortemente presente em todas as artes. O mineiro Guimarães Rosa resumiu, no clássico ´Grande Sertão: Veredas´, que ´perto de muita água tudo é feliz´. Reunir as obras ou autores que falam sobre esse recurso natural é uma tarefa que a Agência Nacional de Águas desenvolve desde o ano passado, no projeto "Água e Cultura". A partir de uma sugestão da Organização das Nações Unidas de união dos dois temas, a Agência inseriu o levantamento nas atividades da Década Brasileira da Água, que segue até 2015.

O acervo ainda está em construção e conta com materiais bem interessantes, como as referências à água presentes na carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal ou uma tese de mestrado que analisa as imagens da água na obra de Guimarães Rosa. O secretário-geral do projeto, Maurício Andrés, conta que a cultura indígena merece destaque nesse levantamento.

"Tem um material interessante sobre a água nas culturas indígenas, particularmente relacionado à denominação dos lugares. No Brasil, somos mais de 5 mil municípios. Desses, mais de mil têm nomes relacionados à água. É rio, é córrego, é pântano, lagoa, cachoeira. Isso na língua portuguesa. Antes de os portugueses chegarem, os indígenas que habitavam aqui denominavam muitas localizações geográficas a partir de nomes relacionados à água. Já existe um acervo montado, mas existe também uma iniciativa de ONGs aprofundarem essa pesquisa para, inclusive, conhecer melhor a geografia brasileira a partir daquilo que os povos que aqui habitavam já valorizavam"

O acervo do projeto "Água e Cultura" tem uso livre e está aberto também para contribuições. Para conhecer o material, basta acessar a página da Agência Nacional de Águas, pelo endereço www.ana.gov.br e clicar no "Portal Água e Cultura".

Outro pesquisador da influência da água na cultura popular é o Frei Francisco Poel (Pul), mais conhecido como Frei Chico do Brejo. Seu trabalho tem como foco o Vale do Rio Jequitinhonha, no norte de Minas Gerais. Ao iniciar a pesquisa, Frei Chico ficou impressionado com a riqueza do que encontrou.

"A força da cultura do povo, esta coerência com a realidade. Então no Vale do Jequitinhonha, no Vale do São Francisco, mesmo na região do Amazonas, você encontra culturas que falam da água, que falam do rio com muita propriedade, com muita sabedoria. E coisas que têm raízes que a gente nem consegue imaginar quantas pessoas tenham contribuído para essas coisas surgirem, costumes do povo, é muito interessante"

A água simboliza a purificação e é elemento central em diversas atividades religiosas, como no batismo, nas benzeções e nas cerimônias de religiões afro-brasileiras. No Santo Daime, ritual de origem amazônica, seus membros são chamados de "filhos das águas brancas" e estabelecem uma forte relação simbólica e religiosa com esse elemento.

Em sua pesquisa, Frei Chico do Brejo encontrou vários rituais de benzeção para curar males como dores de cabeça ou de barriga usando a água e cantos pedindo ajuda dos santos. As lavadeiras que ficam às margens do rio Jequitinhonha pedem a Santa Clara que não mande chuva até a roupa secar. Já São José é lembrado em procissões ou penitências, principalmente quando acontecem grandes secas.

TRILHA GILBERTO GIL "Meu divino São José, aqui estou em vossos pés, dai-nos chuva com abundância, meu Jesus de Nazaré"

Outra marca da cultura popular identificada por frei Chico do Brejo é o forte respeito à água. O conselho passado de pai pra filho é que não se deve cuspir na água porque nela fomos batizados. E o pesquisador destaca que o elemento provoca respeito também pelo medo que ele provoca.

"A águas às vezes ela é ameaça, tanto pela falta quanto pelo excesso, enchente, tempestade, temporal. Então, tem um significado muito rico, é muita força, é um dos quatro elementos que compõem a criação segundo as teorias tradicionais: água, terra, ar e fogo"

O trabalho desenvolvido por frei Chico do Brejo está prestes a virar um dicionário sobre religiosidade popular, com 7 mil e 500 verbetes, resultado de 18 anos de pesquisa. O material acaba de ser revisado e será publicado em breve. Para saber mais, basta acessar o endereço www.religiosidadepopular.uaivip.com.br. E frei Chico do Brejo recita um verso encontrado durante esse trabalho para se despedir dos ouvintes.

"Rio acima, rio abaixo, numa canoa furada, arriscando a minha vida por uma coisinha de nada. Palmatória quebra dedo, chicote deixa vergão, cassetete quebra costela, mas não quebra opinião. Vamos dar a despedida, como deu a saracura, bateu asa e foi dizendo: paixão de amor não tem cura"

De Brasília, Mônica Montenegro

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

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