Rádio Câmara

Reportagem Especial

Especial Corrupção 3 - Corrupção, um problema fortemente presente na sociedade brasileira ( 06' 25'' )

  • Especial Corrupção 3 - Corrupção, um problema fortemente presente na sociedade brasileira ( 06' 25'' )

NESTA TERCEIRA MATÉRIA DA SÉRIE SOBRE CORRUPÇÃO, VOCÊ VAI ACOMPANHAR COMO ESSE PROBLEMA ESTÁ FORTEMENTE PRESENTE EM NOSSA SOCIEDADE, ATÉ EM ATOS CONSIDERADOS INOFENSIVOS EM NOSSO DIA A DIA.

Quem não cola não sai da escola. O bordão é repetido em colégios há várias gerações em tom de brincadeira, como algo inofensivo. Mas atos considerados pequenos, como a cola na escola, acabam dando um verniz de normalidade a ações moralmente questionáveis, mas presentes em nossa sociedade, como a corrupção. A advertência é do cientista político e presidente da organização Transparência, Consciência e Cidadania, David Fleischer. O professor afirma que os inúmeros casos de irregularidades tão presentes em nosso cotidiano dão a impressão de que o problema é algo corriqueiro e aceitável.

"Essa é uma coisa que vem de gerações e, para mudar, precisaria praticamente de uma geração. Certa vez, fomos a uma escola para conversar sobre isso com meninos de 10, 12 anos. Perguntamos pra eles: vocês acabam de voltar de férias, vocês lembram de ter visto alguma coisa de propina, corrupção? Um menino levantou a mão e disse: A gente estava voltando de férias, o papai estava excedendo o limite de velocidade, o guarda nos flagrou e aplicou uma multa. Aí papai conversou bastante com o guarda, deu R$ 50 pra ele comprar umas cervejinhas e a multa desapareceu. Essa é uma experiência que vem do ambiente familiar e muitos dos outros meninos disseram que já tinham visto a mesma coisa na sua família. Então o menino desde pequeno vai percebendo essas coisas como normais"

David Fleischer destaca a necessidade de uma educação, tanto por parte das famílias quanto da escola, que apresente a corrupção como algo bastante nocivo à sociedade. O economista e professor do CEFET Bambuí, em Minas Gerais, Erik Dominik, também acredita que essas instituições deveriam ser mais rígidas na cobrança por comportamentos éticos.

"A corrupção é um mal que está enraizado na cultura do brasileiro. E começa de baixo mesmo, a gente pensa que vem de cima, mas não. Toda vez que a gente vai à uma padaria e leva o troco a mais para casa, ou algo parecido, a gente está contribuindo para uma pequena corrupção. Quando esse cidadão, mais velho, chega ao poder, ele acaba transparecendo esse comportamento de forma mais grandiosa, que na verdade a raiz cultural é a mesma"

O economista Erik Dominik destaca a atual inversão de valores presente em nossa sociedade, em que parece errado ser honesto e ético, o que pode confundir crianças que estão na fase de formação de seus valores. Daí a importância da escola e da família.

SOBE BG

Para tentar entender o que o desvio de recursos públicos revela sobre o Brasil, a coordenadora da pós-graduação em Psicologia Clínica da PUC São Paulo, Denise Ramos, desenvolveu uma pesquisa sobre as ligações entre essa prática e formação psicológica da nossa nação. E o diagnóstico não foi animador. Segundo a psicóloga, o Brasil está bastante doente, sofrendo de um mal chamado corrupção e entender a doença é fundamental para o processo de cura.

"O que que está levando a esse sintoma que vem destruindo o Brasil, solapando todo o nosso desenvolvimento? Se não enfocarmos o enfoque psicológico, o combate será inútil. Claro que corrupção sempre vai existir, assim como sempre vai existir o mal. Mas a gente precisa entender, do ponto de vista psicológico o que nos leva a corromper e a sermos corrompidos, já que isso é endêmico no país. Não é uma questão de bem ou mal, é muito pior. Ela não se restringe a bandidos, mas ao homem bom, que tenta passar gorjeta pro guarda pra não ser multado, ou tenta conseguir o primeiro lugar na fila, são todos comportamentos corruptos que fazem parte do nosso dia a dia. Eu acho quase impossível, no Brasil, você não ter sido, pelo menos um dia, exposto à tentação da corrupção"

O estudo desenvolvido pela psicóloga Denise Ramos aponta que a causa dessa doença está na formação da nossa sociedade, baseada em experiências fortemente negativas, como a nossa colonização e a escravidão. Os dois processos produziram cicatrizes inconscientes na auto-estima brasileira e esse complexo de inferioridade hoje se reflete na famosa Lei de Gerson, aquela idéia de se tentar tirar vantagem de tudo.

"Como ela é endêmica na cultura, os políticos são o sintoma da cultura, eles vão mostrar o que há de mais doentio na cultura quando são corruptos. Eles também são vítimas desse padrão de comportamento. É claro que existe a maldade e a falta de ética, não estou desconsiderando isso. Esses corruptos fogem do sentimento de inferioridade, da impotência, porque não sentem que conseguem fazer o bem para o país. Eles fogem da vergonha, eu diria até do mito de origem, isso é inconsciente. Eles reproduzem inconscientemente o comportamento exploratório, imediatista, como foi a nossa origem. O objetivo de levar vantagem, de ser esperto, cria sempre uma falsa superioridade. Então quando eu vejo os corruptos na televisão, eu falo: esses caras têm um sentimento de superioridade extremamente falso, porque o ego deles deve ser do tamanho de uma pulga, minúsculo. O sentimento de impotência é tão grande que eles têm que se aliar à bandidagem para, de alguma forma, achar que eles vão conseguir fazer alguma coisa por si mesmos"

Para a pesquisadora, uma educação ética é importante na tentativa de combater a corrupção. Mas Denise Ramos adverte que os brasileiros precisam aproveitar a crise ética para enfrentar o que ela chama de "trauma de origem", reforçando a auto-estima coletiva, com a valorização das nossas capacidades.

De Brasília, Mônica Montenegro.

E AMANHÃ, NA QUARTA MATÉRIA DA SÉRIE SOBRE CORRUPÇÃO, A REPÓRTER MONICA MONTENEGRO VAI APRESENTAR DIVERSAS INICIATIVAS DA SOCIEDADE CIVIL, QUE SE MOBILIZA POR TODO O PAÍS PARA ACOMPANHAR DE PERTO O USO DOS RECURSOS PÚBLICOS

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

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