Rádio Câmara

Reportagem Especial

Especial Meio Ambiente 3 - Ambientalistas e representantes do agronegócio divergem quanto ao modelo econômico a ser seguido pelo País (06' 09")

  • Especial Meio Ambiente 3 - Ambientalistas e representantes do agronegócio divergem quanto ao modelo econômico a ser seguido pelo País (06' 09")

NA TERCEIRA MATÉRIA DA SÉRIE ESPECIAL SOBRE A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL, VOCÊ VAI SABER POR QUE NEM SEMPRE AMBIENTALISTAS E REPRESENTANTES DO AGRONEGÓCIO ENTRAM EM ACORDO SOBRE O MODELO DE DESENVOLVIMENTO A SER SEGUIDO PELO PAÍS.

Dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento indicam que o agronegócio tem sido responsável por cerca de 33 por cento de toda a riqueza produzida no Brasil. 42 por cento das exportações totais e 37 por cento dos empregos também viriam das grandes propriedades rurais brasileiras. Com o aumento da população e do consumo, também crescem as pressões para que esse setor aumente a produção de alimentos. O problema é que, em geral, esse incremento de produção acaba implicando graves conseqüências ao meio ambiente, como aumento do desmatamento e uso indiscriminado dos recursos hídricos.

A expansão das fronteiras agrícolas pelo Centro-Oeste brasileiro, por exemplo, ameaça biomas como o Cerrado e a Amazônia. No cerrado, a situação é crítica, segundo pesquisa do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Brasília. Nos últimos 50 anos, 80% da cobertura vegetal do cerrado foi desmatada e os 20% restantes estão ameaçados principalmente pela produção de soja.

Pela legislação brasileira, toda propriedade rural localizada em área de cerrado deve manter, pelo menos, 20 % de vegetação nativa. Além disso, deve preservar uma faixa mínima de espécies vegetais importantes à proteção dos recursos hídricos e do solo, as chamadas Áreas de Proteção Permanente. Na Amazônia, o percentual de reserva legal sobe para 80% de vegetação nativa.

Ambientalistas denunciam que nem sempre esses percentuais são cumpridos. Os representantes do agronegócio, por sua vez, argumentam que vivem um dilema. É o que explica João Carlos de Petribu Dé Carli, assessor técnico da Comissão Nacional de Meio Ambiente da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária, CNA.

"Nós temos que analisar a regra. Não se conhece lugar nenhum no mundo uma regra ambiental como a brasileira, que te obriga a não produzir num pedaço da propriedade, sendo que o ônus é do agricultor, reserva legal. Ainda mais as áreas de preservação permanente. Somos incentivados a sempre produzir. Os índices de produtividade que nos apresentam é sempre nos obrigando a produzir mais. É isso que eu digo da balança. Existe um órgão do governo federal que nos obriga a produzir, que viremos uma máquina de produção. E o outro órgão, que deseja que a gente diminua a produção para se adequar à legislação ambiental."

João Carlos também destaca que muitos conceitos de agricultura e sustentabilidade mudaram ao longo dos anos, exigindo do agricultor uma adaptação por vezes longa. Ele diz que ninguém mais do que o agricultor está disposto a colaborar com a preservação do meio ambiente, já que a continuidade da produção no campo depende da natureza. Segundo João Carlos, muitas ONGs ambientalistas já perceberam que os agricultores devem ser parceiros.

"Esse pensamento de que as ONGs ambientalistas estão colocando que o agricultor deve ser considerado parceiro número um da gestão do bem ambiental foi há pouco tempo. (Está havendo uma mudança que nos foi passado e que nós concordamos completamente. Não existia restrição, não existia esse pensamento ecológico. As pessoas estão conhecendo. Começou a educação ambiental. A gente quer trabalhar, quer ajudar na preservação, só que a gente tem que ser ajudado também. Não podemos carregar esse fardo sozinho."

Há setores, no entanto, que entendem que a própria lógica do agronegócio, de produção em larga escala e busca constante pelo alto lucro, prejudica o equilíbrio entre homem e natureza. Cleu de Aquino, presidente da União das Associações Comunitárias do Interior de Canguçu e Região, no Rio Grande do Sul, defende que a saída para os conflitos entre campo e meio ambiente está na agricultura familiar e orgânica.

"No caso da agricultura empresarial, do agronegócio, o ser humano é colocado como um elemento de domínio sobre o restante da natureza. De domínio sobre o restante. No caso da agricultura familiar, a gente é colocado como mais um elemente na natureza. Ser um agricultor familiar que trabalha de forma sustentável não é nada mais do que desenvolver a capacidade de escutar os apelos que a natureza nos faz, ver os apelos que a natureza nos faz e tentar, na medida do possível, ir respondendo a isso, que também, inclusive, dar resultados econômicos muito mais eficazes ao longo do tempo."

No Brasil, segundo dados do Incra- Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária- e da FAO- Fundo das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação, existem quatro milhões e cem mil estabelecimentos agrícolas familiares, o que corresponde a 77% da população ocupada na agricultura. Eles são responsáveis por 60% de tudo o que é consumido pela população brasileira.

É importante destacar que nem todo empreendimento familiar trabalha necessariamente com agricultura orgânica. Para ser considerada orgânica, a produção não pode usar agrotóxicos ou adubos sintéticos. Também são proibidas as sementes geneticamente modificadas ou transgênicas. Quanto à água e ao manejo das culturas, a ordem é manter as reservas legais e as áreas de proteção permanente e evitar a contaminação do solo e da água.

De Brasília, Ana Raquel Macedo

NA REPORTAGEM ESPECIAL DE AMANHÃ, VOCÊ VAI SABER COMO ESTÁ A QUALIDADE DAS ÁGUAS BRASILEIRAS.

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

facebook twitter spotify podcasts apple rss

Todas as Edições