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Fim da Era Vragas (06' 12")

  • Fim da Era Vragas (06' 12")

Em 5 de agosto de 1954, o jornalista e deputado Carlos Lacerda, líder oposicionista na Câmara, sofre um atentado na rua Toneleros, em Copacabana, quando estava acompanhado de seu filho e do militar que naquele momento fazia sua segurança, o major da Aeronáutica Rubem Vaz.

No atentado, Lacerda leva um tiro no pé e o major Vaz morre.

A oposição reage ao atentado com vigor. Quatro dias depois, o deputado da UDN, Afonso Arinos, exige a renúncia do presidente Getúlio Vargas em famoso discurso em que afirma que esta é a única saída digna para aquele momento.

"Eu lhe digo presidente: houve um momento em que Vossa Excelência encarnou as esperanças do povo; houve um momento em que V. Exa. se irmanou com as aspirações populares. Premido pelo povo, V. Exa, que tinha sido fascista e partidário dos fascistas, foi à guerra democrática. Levado nos ombros do povo, V. Exa. oprimiu o povo e esmagou o povo, e entrou, pela mão do povo, no Palácio do Catete. Mas digo V. Exa. preze o Brasil que repousa na sua autoridade, preze a sua autoridade, sob a qual repousa o Brasil. Tenha a coragem de perceber que o seu governo é, hoje, um estuário de lama, um estuário de sangue. Observe que o seu palácio é um vasculhadouro da sociedade. Verifique que os desvios de sua guarda pessoal são como subsolos de uma sociedade em podridão. Eu lhe falo como presidente: reflita em sua responsabilidade de presidente e tome, afinal, aquela deliberação que é a última que um presidente na sua situação pode tomar. Lembre-se homem de que em seu sangue corre, o sangue dos heróis. Não se acumplicie com os crimes dos covardes e com a infâmia dos traidores. Lembre-se homem pelos pequenininos, pelos humilhados, pelos operários e pelos poetas. Lembre-se dos homens e deste país e tenha coragem de ser um desses homens, não permanecendo no governo se não for digno de exercê-lo"

A crise do Governo de Getúlio começou antes do atentado, desde a constituição na Câmara dos Deputados de uma CPI para investigar financiamentos concedidos pelo Banco do Brasil ao jornal Última Hora, de Samuel Wainer.

Ao financiar o jornal de Wainer, Getúlio comprou uma briga contra outros órgãos da imprensa. Lacerda abriu campanha contra o Governo com o seu jornal "Tribuna da Imprensa", contando com o apoio de O Globo e dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand.

Na CPI, a Oposição consegiu criar um clima de mar de lama do Governo Vargas.

Para apurar o atentado, é instalado um Inquérito Policial-Militar. Como esse IPM funcionava na Base Aérea do Galeão e pelas liberdades que tomava, levou o episódio a ficar conhecido como a "República do Galeão".

Uma semana após o atentado, soldados da Aeronáutica prendem o autor do disparo que matou o major Vaz. A segurança pessoal do presidente foi apontada como responsável pelo incidente que custou a vida do major Vaz. O chefe da guarda pessoal de Getúlio, Gregório Fortunato, foi apontado como mandante.

Gregório foi então chamado a responder ao IPM e diz:

"Eu não aceito pergunta de jornalista. Eu vou perguntar então ao Gregório. A quem respondia como chefe da guarda pessoal? Ao Gabinete Militar e ao Presidente da República"

Em 22 de agosto, brigadeiros do Clube da Aeronáutica dirigem nota ao presidente da República pedindo sua renúncia.

Getúlio resistiu como pode. Mas dois dias depois, em 24 de agosto, o presidente vendo que perdera o apoio militar e político concorda na madrugada em se afastar do cargo, desde que se cumpram condições. Mas Getúlio não resiste à crise, e em seu quarto de dormir, solitário, dispara no início da manhã um tiro fatal no peito.

Ao lado do falecido, foi encontrada sua carta-testamento, dirigida ao povo brasileiro, e que dizia em sua abertura que mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre o presidente.

Multidões acompanharam o velório de Getúlio.

Com a morte de Vargas, o vice-presidente da República, Café Filho, assume a presidência.

Redação: Eduardo Tramarim
Consultoria musical: Marcos Brochado

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