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Reportagem Especial

Especial Florestas Públicas 4 - A Questão Econômica (05' 34")

  • Especial Florestas Públicas 4 - A Questão Econômica (05' 34")

O Brasil é o maior produtor e consumidor mundial de produtos florestais tropicais. Essa produção representa 4% do nosso Produto Interno Bruto e 8% das exportações, recolhendo anualmente mais de 3 bilhões de reais em impostos. O setor madeireiro gera cerca de 2 milhões de empregos diretos e indiretos. Mas é fundamental destacar que uma parte significativa desses números vem de madeira obtida de forma criminosa. Algumas estimativas apontam que mais de 70% da madeira comercializada em todo o país tem origem ilegal.

A lei de gestão de florestas públicas, aprovada em segundo turno pela Câmara no início de 2006 e sancionada no dia 2 de março, pretende reverter esse quadro, ao estimular a produção de madeira legalizada na região amazônica. Com as novas regras, a iniciativa privada vai poder explorar, na forma de concessões, produtos florestais em áreas públicas.

O diretor do Programa Nacional de Florestas do Ministério do Meio Ambiente, Tasso de Azevedo, explica que a lei vai viabilizar a continuidade da exploração de madeira no país, já que alguns especialistas alertavam para o risco de apagão florestal.

"No momento em paramos de aprovar projetos em terras públicas porque eles eram ilegais, criou uma crise no setor. Agora, com a regulamentação que permite a gente dar acesso às florestas de forma ordenada e sustentável, a gente pode regular esse mercado, garantindo que a gente tenha acesso à matéria-prima em bases sustentáveis"

O Ministério do Meio Ambiente estima que a primeira fase de implantação dos projetos vá movimentar entre 470 milhões e 750 milhões de reais na economia local, com a criação de no mínimo 66 mil empregos. A produção que hoje está em 1milhão e meio de metros cúbicos de tora deve chegar a pelo menos 4,7 milhões.

A autorização para explorar áreas públicas é vista pelo setor madeireiro como a única forma de continuar em atividade. O empresário Idacir Perachi é dono da primeira empresa de capital nacional a ser certificada na Amazônia, a Juruá Florestal, e, em 20 anos atuando na área, nunca viu uma crise tão forte afetar a produção madeireira.

"Temos que tentar conservar o que já temos, estamos hoje com uma demanda reprimida// porque temos um parque industrial, temos inúmeras empresas instaladas e não existe matéria-prima para trabalhar. Isso tudo tá gerando desemprego e tornando nosso parque industrial do setor florestal quase com 60% de sua capacidade tomada"

O Sindicato de Madeireiros do Sudoeste do Pará, Simaspa, considera que a lei vai permitir a retomada do trabalho de forma legalizada. O presidente da Uniflor, União das Entidades Florestais do Estado do Pará, Wagner Kronbauer, também avalia que a lei de gestão de florestas públicas terá um impacto positivo para os madeireiros.

"Não vai haver aumento do volume da produção, mas teremos a possibilidade de planejar as atividades das empresas, as empresas podem treinar trabalhadores, investir em capacitação, em novas tecnologias. Teremos um aumento de oportunidade quando for possível planejar investimentos a longo prazo"

O coordenador de Políticas Públicas do WWF-Brasil, Mauro Armelín, também destaca que as concessões vão movimentar a economia, ao dar segurança para os empresários investirem na exploração a longo prazo.

Porém, o coordenador da organização SOS Amazônia, Miguel Scarcelo, avalia que a proposta tem grande ênfase nos produtos madeireiros, deixando de lado as demais riquezas.

"O outro ponto que aqui pra nós da SOS é sempre um grande vácuo é a não-incorporação dos produtos não-madeireiros nessa visão de manejo. A perspectiva é muito imediata pra geração de renda por conta do valor agregado da madeira, mas não se enfatiza, nem se tem claro, o percentual que tem que ser agregado de não-madeireiro em uma exploração"

Miguel Scarcelo adverte que diversas riquezas naturais podem ser destruídas, sem que haja nenhum aproveitamento se a exploração ficar focada apenas nos produtos madeireiros.
Outro alerta é feito pelo doutor em Ciências Florestais, Paulo Ernani Carvalho: o Brasil precisa aprender a cultivar espécies nativas já conhecidas pelo seu valor comercial, como o mogno e jacarandá, além de descobrir os usos de espécies consideradas comuns, mas com grande potencial econômico. Ele destaca que, ironicamente, hoje o país planta espécies como pinus e eucalipto, mas precisa importar mogno da Indonésia e da Malásia, entre outros países.

De Brasília, Mônica Montenegro

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