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Reportagem Especial

Especial CPMI dos Correios - Depoimentos bombásticos levam CPMI dos Correios abrir várias frentes de investigação (05' 25")

  • Especial CPMI dos Correios - Depoimentos bombásticos levam CPMI dos Correios abrir várias frentes de investigação (05' 25")

Mais de cem pessoas já foram ouvidas pela CPMI dos Correios em oito meses de investigação. O ponto de partida foi o depoimento do chefe de departamento dos Correios, pivô do escândalo de corrupção na estatal. Flagrado por câmeras ao receber 3 mil reais de propina, Maurício Marinho, admitiu apenas o óbvio.

"Eu sei que falei demais, eu sei que envolvi pessoas. Eu sei que trabalhei dentro dos Correios, mesmo fora do horário, tratando de assuntos que não eram da empresa. Recebi um dinheiro que não pedi. Eu não estou me eximindo das minhas responsabilidades."

Porém, Marinho disse que não passou de "bravata" a sua própria declaração de que era ligado ao PTB de Roberto Jefferson. Estava inaugurada aí uma tática que iria se repetir ao longo da maioria dos depoimentos dos acusados: negar fatos, mentir ou dizer meias verdades. Poucos depoentes irritaram tanto os parlamentares quanto o empresário Marcos Valério de Souza, articulador do esquema de caixa 2 que irrigou o PT e outros partidos da base governista com 55 milhões de reais. Na primeira ida à CPMI, Valério justificou assim os saques em dinheiro vivo feitos nas contas de suas empresas.

"As quantias em dinheiro muitas vezes são sacadas para pagar fornecedores, cachês de artistas que estão no interior, fazendo filmagens."

Aliás, no quesito irritação, o empresário Marcos Valério de Souza só foi superado pelo advogado Marcus Valerius de Macedo. A não ser pelo fato de serem carecas e de terem nomes parecidos, os dois não têm nenhuma relação entre si. O advogado é investigado na CPMI por causa de suas ligações com a empresa Skymaster, acusada de fraudar licitações para prestar o serviço de Rede Postal Noturna para os Correios. Convocado a depor, Marcus Valerius de Macedo saiu da comissão preso em flagrante por desacato à autoridade, depois de esbanjar cinismo e deboche diante dos parlamentares. Numa discussão com o deputado Geraldo Thadeu, do PPS mineiro, o advogado não poupou nem mesmo a própria mãe das ironias, como relembra o parlamentar.

"Ele mentiu, debochou, riu dos parlamentares e interrompia os parlamentares. Não respeitava a fala dos parlamentares o tempo todo. Até que ele colocou o nome da mãe no meio e aí nós achamos que era o limite máximo de suportar. E não suportamos."

Este é o único caso de prisão registrado até agora na CPMI dos Correios. Em geral, os depoentes têm recorrido preventivamente à Justiça em busca de hábeas corpus, que lhes garante o direito de ficarem calados diante de perguntas que possam incriminá-los. Por isso mesmo, os parlamentares tornaram-se mais seletivos em relação aos depoimentos e priorizaram a análise de documentos. A estratégia deu certo e propiciou revelações bombásticas na CPMI, como aquela em que o ex-deputado Roberto Jefferson detalhou o esquema de pagamento do mensalão num shopping da capital.

"O seu Marcos Valério, versão moderna e macaqueada do seu PC Farias, sacava um milhão por dia nas contas do Banco Rural. Ou sacava em Minas Gerais ou aqui no prédio do Brasília Shopping, lá no nono andar, onde muitos assessores dos que recebem mensalão, e estão registrados na portaria, subiam até o escritório do banco para receber lá 30, 40 até 60 mil reais."

Ou ainda, na presença segura da ex-secretária de Valério, Fernanda Karina Somaggio, ao denunciar o tráfico de influência do empresário junto a políticos.

Relacionamento do senhor Marcos Valério com a cúpula do PT, que foi confirmado mais uma vez, inclusive com o aval e o empréstimo do Banco BMG. Confirmado também o tráfico de influência do senhor Marcos Valério com políticos."

Outra revelação de impacto feita na CPMI surgiu no depoimento espontâneo do publicitário Duda Mendonça. Pela primeira vez, ele admitia ter aberto uma conta no paraíso fiscal de Bahamas para receber 10 milhões de dólares do caixa 2 de Marcos Valério. Segundo Duda, essa foi a única maneira que encontrou para receber parte do dinheiro que o PT lhe devia pelos serviços publicitários nas eleições de 2002.

"A gente tinha que receber. Eu não quero ficar de santinho, nem de hipócrita, nem de cínico. Mas na verdade é assim: ou a gente recebia assim, ou não recebia. E eu tinha coisas a pagar. Eu não tinha mais poder de decisão. O jogo tava na mão deles. A minha parte eu já fiz. Agora, ou eu recebo assim, ou simplesmente eu tomo o cano."

Estes depoimentos puseram o escândalo do mensalão definitivamente dentro da CPMI. A partir daí, a comissão, criada especificamente para investigar a cobrança de propina nos Correios, se via pressionada pela opinião pública a ir muito mais fundo em variadas denúncias de corrupção.

De Brasília, José Carlos Oliveira.

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