Rádio Câmara

Reportagem Especial

Especial - Parlamentares consideram as eleições no Haiti um marco histórico para o país - ( 06' 21' )

  • Especial - Parlamentares consideram as eleições no Haiti um marco histórico para o país - ( 06' 21' )

As eleições presidenciais e legislativas realizadas, na última terça-feira, no Haiti, são as primeiras desde a queda do ex-presidente Jean-Bertrand Aristide, em 2004. Depois de adiadas quatro vezes, os haitianos puderam finalmente escolher o presidente, entre 34 candidatos e os senadores e deputados, entre 1300 candidatos.
A história do país é marcada por golpes, deposições e massacres que geraram grande instabilidade política, turbulência econômica e crise social. Dos três milhões e meio de haitianos cadastrados, a grande maioria compareceu às urnas, mesmo o voto não sendo obrigatório no país. Embora o Conselho Eleitoral Provisório, responsável pela organização da votação, esperasse uma participação massiva, diversos problemas de organização aconteceram, como as filas intermináveis, atrasos na abertura das seções, pouco treinamento dos funcionários eleitorais haitianos e o pequeno número de postos de votação. O saldo desse caos foram quatro mortes e a tentativa de invasão de alguns centros eleitorais. Apesar dos incidentes, as eleições foram consideradas um sucesso por autoridades haitianas, pela ONU, OEA e pelo governo brasileiro. Diversos observadores internacionais acompanharam o processo eleitoral, entre eles, os deputados Fernando Gabeira, Maninha, Zico Bronzeado e Chicão Brígido. Os parlamentares afirmaram que não presenciaram quaisquer indícios de fraude, mas criticaram a precariedade da organização.
Maninha, do PSol do Distrito Federal, disse que o voto do povo haitiano demonstra a expectativa na reconstrução da democracia e a esperança em novos tempos.

"Acho que foi um marco histórico, que esse é um novo período que o Haiti passa a viver. Estamos apostando nisso. E acho que a própria população reconhece quando comparece maciçamente para votar. Nós temos um Haiti anterior e um Haiti posterior. Agora, temos um problema: se diante de tudo isso, não houver por parte da comunidade internacional investimento para recuperação do Haiti, nós poderemos ver restabelecido um ciclo onde um presidente eleito não consegue realizar nenhum tipo de trabalho, permanece a violência e a pobreza e esse presidente é deposto. Eu aposto de que esse ciclo se encerre."

Maninha acredita que o próximo presidente deverá buscar a construção de alianças políticas que permitam a formação de um governo de coalisão. A deputada entende que as tropas brasileiras devem se retirar do Haiti, principalmente agora que as eleições aconteceram. Ela defende ainda que a ajuda brasileira continue, mas sob a forma de cooperação técnica. O deputado Fernando Gabeira, do PV fluminense, também tem a mesma opinião. Segundo ele, a presença brasileira no Haiti deve ser menos militar e mais técnica, no sentido de assessorar os haitianos na reconstrução do país.
Para Gabeira, apenas o processo eleitoral não vai resolver os problemas dos haitianos, mas, a seu ver, se os resultados do pleito forem respeitados , os vencidos reconhecerem a legitimidade do vencedor e o vencedor se dispor a respeitar os vencidos, a população já terá alcançado alguns benefícios expressivos com seu voto.

"O primeiro benefício, me parece, é o benefício psicológico. O país sentir que foi capaz de realizar um processo eleitoral complexo como esse, em um momento delicado. O segundo passo é exatamente a busca da conciliação para que se possa avançar."

O professor de Ciência Política da Universidade Federal de São Carlos, João Roberto Martins Filho, afirma que com a realização das eleições talvez se abra uma possibilidade de estabilização para o Haiti, mesmo que pequena.

"A dificuldade de estabilização da situação política no Haiti, ela pode se estender por muito tempo. O que vai colocar para o governo brasileiro a questão de até quando é conveniente para o Brasil manter as tropas no Haiti".

O professor da UNB Argemiro Procópio acredita que apenas as eleições não são suficientes para restaurar a democracia em um país onde
o povo já foi muito vitimado pelas desgraças políticas, pela grande desigualdade social e corrupção, além de ser sacudido por uma das piores ditaduras durante o governo Duvalier. Segundo o professor, este é o momento em que a comunidade internacional não pode se mostrar omissa, porque somente com a ajuda financeira e técnica é que a crise profunda por que passa o país poderá começar a ser superada.

"Já temos muitos bolsões de Haiti dentro do Brasil. E só a solidariedade, não apenas do Brasil, mas dos países europeus também os países europeus têm muita responsabilidade, inclusive a França, sobre o que é hoje o Haiti. Muitas intervenções indiretas, muitos equívocos dos países europeus e dos Estados Unidos da América. Eu acho que é hora desses países fazerem uma mea-culpa e hora do mundo acordar para que a violência termine e a violência termina onde começa o pão."

Resultados parciais indicam que o candidato René Préval, ex-primeiro ministro de Aristide e ex-presidente entre 1996 e 2001, deve vencer por uma boa margem de votos, talvez ainda no primeiro turno. O ex-presidente Leslie Manigat aparece em segundo lugar. Caso necessário, o segundo turno está previsto para acontecer em 19 de março.

De Brasília, Simone Salles

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

facebook twitter spotify podcasts apple rss

Todas as Edições