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Reportagem Especial

Especial Transposição - Especialistas sugerem alternativas à transposição do rio São Francisco - ( 06' 37" )

  • Especial Transposição - Especialistas sugerem alternativas à transposição do rio São Francisco - ( 06' 37" )

Levar uma pequena parte da água do Rio São Francisco para as terras áridas do Nordeste Setentrional - a chamada transposição - é a única solução apontada pelo governo para resolver os efeitos da seca naquela área. Mas será que não existem outras alternativas? Os pesquisadores dizem que sim. Uma das apostas está nas águas subterrâneas. O professor Theophilo Ottoni Filho, do Departamento de Recursos Hídricos e Meio Ambiente da Escola Politécnica da UFRJ, é radical na defesa da pesquisa em águas subterrâneas na região do Nordeste Setentrional. Ele argumenta que a política deve parar de considerar somente a água que corre na superfície.

"Se tira isso como um paradigma de uma região que ter água é ter água fluindo, ver água correndo. Em não acontecendo isso, se assume que não tem água."

As vantagens das águas subterrâneas é que são mais protegidas da poluição, com custo de captação e distribuição mais barato. Em geral, não precisam de tratamento. A cidade de Ribeirão Preto, do interior paulista, é prova de que as águas subterrâneas são capazes de abastecer grandes centros habitacionais. Afinal, 100% dos 550 mil habitantes são abastecidos por água que vem do subsolo. Mas, e no semi-árido nordestino, que vai receber as águas do São Francisco, existem reservatórios subterrâneos para abastecer adequadamente a população? O professor de Recursos Hídricos e Geologia Ambiental do Instituto de Geociências da USP, Uriel Duarte, diz que as águas subterrâneas do semi-árido não são adequadas.

"Essas águas subterrâneas do Ceará, por exemplo, têm 80% do território em rocha dura, é difícil fazer um poço com água. E quando tem água, normalmente ela está sanilizada, então é difícil."

Segundo a Associação Brasileira de Águas Subterrâneas, 55% do Polígono das Secas são formados por rochas cristalinas, solo que dificulta a exploração de recursos hídricos subterrâneos. O governo fez um estudo para analisar a possibilidade de usar águas subterrâneas no semi-árido. Segundo o superintendente de Outorga e Cobrança da Agência Nacional de Águas, Francisco Viana, a conclusão é que a água subterrânea naquele local, além de ser pouca, é inadequada para o abastecimento humano.

"As águas subterrâneas são de pequena quantidade e qualidade quase sempre inadequada para o atendimento pontual de famílias isoladas do semi-árido. Daí a necessidade de ter uma ação complementar de água, tanto com cisterna, para individualmente você ter água de melhor qualidade, quanto das cidades e dos projetos maiores, você precisar, efetivamente, naquela região de água superficial."

TRILHA:

No ano passado, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência - SBPC - em Pernambuco, realizou um encontro internacional sobre transferência de Água entre Grandes Bacias Hidrográficas. O relatório do encontro diz que a questão do abastecimento humano pode ser resolvida com os recursos hídricos existentes nos estados do Ceará e Rio Grande do Norte. Já o agreste e o sertão de Pernambuco concentram os piores índices de sustentabilidade hídrica do país. De acordo com o relatório da SBPC, neste caso, a transposição é indicada como única solução, pois as reservas locais se encontram esgotadas. O professor Demetrios Christofidis, do Centro de Desenvolvimento Sustentável da UnB, doutor em Recursos Hídricos, também acha que os estados devem buscar outras soluções. Ele diz que a maioria das concessionárias de abastecimento não são eficientes no uso da água, perdendo 45% da água captada antes de chegar à residência. O aceitável seria 15% a 20%. De acordo com Demetrius, essa seria uma forma de economizar e fazer a água chegar a quem não tem. Outra alternativa seria o tratamento adequado de esgotos sanitários.

"Um jeito de ampliar a oferta é você tratar o esgoto ao nível terciário, de forma que ele se transforme, pela própria ação dos cursos de água, em água potável, logo em seguida. Ele pode ser tratado numa estação de tratamento de água e virar água potável, e ser distribuída, sem problema de doenças."

Ele também cita como alternativa o estudo das águas subterrâneas. Mas o professor Demetrius não sabe se essas três alternativas evitariam a necessidade da transposição. Segundo o professor, essas podem ser encaradas como soluções complementares. O professor da Universidade Federal de São Carlos, Marco Antônio Villa, diz que os órgãos públicos que atuam na área - Bancos do Brasil, do Nordeste, Caixa e Departamento Nacional de Obras contra a Seca, Embrapa e Sudene, deveriam trabalhar de forma integrada.

"Desenvolvendo a agricultura seca, ou seja, que é feita por exemplo no sul dos EUA desde o fim do século 20, portanto há um século. Em que você desenvolve uma série de culturas que precisam de pouca água e com essa pouca água você consegue dar viabilidade às pequenas propriedades. Plantas que são abundantes na região, inativas, como a faveleira, você pode extrair o óleo da faveleira e ter fins industriais."

Marco Antônio Villa acha que os órgãos públicos deveriam organizar cooperativas, dando assistência técnica aos pequenos produtores, melhorando as vias de transporte e financiamento. Isso tudo contribuiria para uma melhora da economia local.

De Brasília, Adriana Magalhães.

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