Rádio Câmara

Reportagem Especial

Especial Transposição - Saiba porque o projeto de transposição do rio São Franscisco é polêmico - ( 08' 32" )

  • Especial Transposição - Saiba porque o projeto de transposição do rio São Franscisco é polêmico - ( 08' 32" )

Os 11 dias da greve de fome do bispo Luiz Flávio Cappio, em Cabrobó, serviram para colocar na mídia a questão da transposição do Rio São Francisco. Os argumentos a favor e contra o projeto são defendidos ardorosamente. Para o Professor Theophilo Ottoni Filho, do Departamento de Recursos Hídricos e Meio Ambiente da Escola Politécnica da UFRJ, a espinha dorsal do projeto está comprometida. Ele contesta a grande questão que motiva a transposição, que é a falta de água no nordeste setentrional. Theophilo Ottoni Filho critica basicamente a política hídrica de um dos estados que serão beneficiados pelo projeto, o Ceará, que não considera as águas subterrâneas. Segundo Theophilo Ottoni, a política atual está errada em valorizar a acumulação de água na superfície, com construção de açudes, por exemplo. Isso porque a taxa de evaporação de água naquela região é muito alta.

"Não se está fazendo tratamento hídrico correto para o Nordeste. Está completamente errado. Não é a gestão de comitê de bacia, não é essa a política. A política física, estrutural, manejar água da maneira correta. Não pode ter água no rio, é para não ter. O governador não pode achar que, em não tendo, isso justifica. É para não ter. Ter é que está errado. Então inverteu a coisa. O que é errado é considerado certo e o certo é considerado maluquice."

Ainda de acordo com o professor Theophilo, países que também possuem clima seco adotam outras soluções para captar água, que passam longe da transposição. A maioria aposta mesmo nas águas subterrâneas.

"O ponto certo no projeto é você ver o seguinte: aonde não tem água no mundo e se vive nesses lugares? Essa é que é a pergunta. E aí, nós temos que ver o que eles estão fazendo. Porque eles estão vivendo bem. Eles não têm problemas de êxodo, míseria devido à falta de água, nada disso. Israel é um exemplo de bem viver no mundo, o problema lá é de guerra. E assim vai, Califórnia, Austrália, importantíssimo produtor de alimentos."

Outro professor, Marco Antônio Villa, da Universidade Federal de São Carlos, e escritor de um livro sobre a seca no sertão, também é contra o projeto. Ele teme que o dinheiro destinado às obras - que têm custo estimado de 4 bilhões e meio de reais - não seja utilizado da forma correta.

"Eu acho que é jogar dinheiro fora, é na verdade desviar dinheiro para as construtoras e para os caixas eleitorais de 2006. Infelizmente essa é a triste realidade. E vão deixar as obras inacabadas, abandonadas, sem efetivamente enfrentar o problema. E pior, o pouco que vai ser realizado vai ser para favorecer o grande capital. O grande capital nacional ou estrangeiro que está voltado para aquelas culturas, boa parte delas para a exportação inclusive. A grande questão que o pequeno proprietário, o médio proprietário ou camponês sem terra, esse vai passar ao largo dessa solução mágica da transposição."

O Banco Mundial, um dos principais parceiros do Brasil em financiamentos de obras sociais, realizou um estudo recente sobre a transposição. Uma das conclusões é que a demanda por água no Nordeste brasileiro pode ser atendida até 2012 sem a obra.

TRILHA -

O governo se defende. O ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes, diz que a água do São Francisco vai abastecer uma população que sobrevive com apenas um terço de água do que é recomendado pelas Nações Unidas. O ministro garante que nenhum brasileiro será prejudicado com o projeto. Ciro Gomes explica que o Rio São Francisco não será afetado porque o projeto vai utilizar somente 1,4% da vazão mínima do rio. Ele alega, ainda, que os pontos em que serão construídos canais estão em trechos onde o rio é 100% artificial, ou seja, a quantidade de água é regulada pelas barragens. O professor Demetrios Christofidis, do Centro de Desenvolvimento Sustentável da UnB, também não vê problemas no projeto. Ele explica que a vazão do rio é mais do que suficiente para suportar o que vai ser retirado com a transposição. Ele diz que a construção das hidrelétricas, especialmente a de Sobradinho, elevou a disponibilidade de água do Rio.

"Agora, está se falando em transpor 25, 50m3, que é insignificante com relação ao ganho que o setor elétrico proporcionou a Sobradinho, depois da sua construção. Então eu não vejo nenhum empecilho nessa questão. Eu só vejo uma questão de qualidade. Porque, a medida que os doadores reclamam, não tenham condiçoes ou interesse de cuidar dessas águas, o aporte dessas águas naquele ponto de captação será muito pior com o passar dos anos. É muita vazão, ela não se deteriora com facilidade, mas é preciso um trabalho interno, desde os municípios para cuidar das águas que vão daí ser utilizadas, como se tivesse cuidando de um sangue que vai ser doado."

Demetrius adverte que os estados receptores - Ceará, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte - devem também se preocupar com a qualidade da água que vão receber, cuidando para que não haja grandes perdas com a distribuição. O professor não vê sentido na briga entre os estados doadores, principalmente Minas Gerais e Bahia, e os receptores.

"A água, quando chega ao ponto de captação, já foi utilizada, já passou pelos estados. O maior doador é Minas Gerais com 80% da água que sai de seu estado, no ponto de ligação com a Bahia, a Bahia também já utilizou as águas, inclusive utiliza as águas às margens do reservatório de Sobradinho, e depois disso é que as águas são lançadas no restante do rio, onde vai ser gerada energia e vai ser feita a captação. Ou seja, eles não têm perdas nenhuma. Nenhum dos dois tem perda. Não existem perda quantitativa para nenhum dos estados."

O professor de Recursos Hídricos e Geologia Ambiental do Instituto de Geociências da USP, Uriel Duarte, defende com veêmencia o projeto. Ele considera a transposição do São Francisco um projeto viável, tecnicamente perfeito, socialmente justo e ambientalmente sustentável. Ele também critica a briga entre os estados, dizendo que os críticos esquecem o valor social da causa.

"O grande poder de desenvolvimento tecnológico e comercial da região, quando você vai ter água à vontade para você poder utilizar aquelas terras agriculturáveis que nós temos lá."

TRILHA:

Nem mesmo os moradores das margens do São Francisco encontraram um consenso para a questão. Paulo César da Silva, morador de Cabrobó, em Pernambuco, acha que é necessário cuidar melhor do rio São Francisco antes de se pensar em transposição. Ele revela que a cidade ficou dividida até mesmo com relação à greve de fome do bispo Luiz Flávio Cappio. Mas ele próprio aplaude a atitude do bispo.

"Ele é a pessoa da igreja, o cara que está correndo atrás de um problema que a gente pode evitar hoje para o futuro de todos nós, da nação brasileira. O rio de água doce não pode sofrer consequência amanhã ou depois".

A dona-de-casa Adalcina Ferreira Leite da Silva, também moradora de Cabrobó, tem outra opinião. Ela acha que a transposição vai criar empregos e beneficiar a população.

De Brasília, Adriana Magalhães.

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