Rádio Câmara

Reportagem Especial

A descoberta da infância - o respeito aos direitos das crianças - ( 07' 38" )

  • A descoberta da infância - o respeito aos direitos das crianças - ( 07' 38" )

Criança existe desde sempre. Elas são os filhotes da humanidade, criaturinhas que chegam ao mundo com barulho e muita emoção. A criança é a semente da vida, que precisa de cuidado e afeto para germinar forte e se transformar em árvore de galhos generosos. E nós, os grandes, somos os responsáveis por não tirar de cada criança o seu destino de transformar esse mundo pra melhor.

Todas as sociedade sempre se deram conta de que criança é diferente do adulto. Mas a maneira como a infância é vista muda com o passar do tempo. Na Grécia Antiga, por exemplo, as crianças defeituosas eram mortas tão logo vinham ao mundo. Hoje em dia as crianças ditas especiais são recebidas com cada vez mais naturalidade. Nos séculos a seguir, algumas culturas mostravam a infância como um tempo de brincadeiras, mas não se pensava que a criança era um ser com personalidade e características próprias. Isso começou a mudar no século dezesseis, quando os pequeninos foram descobertos para a vida em sociedade e começaram a aparecer nas pinturas dos artistas. Mas eles eram retratadas como adultos pequenos, vestindo as mesmas roupas dos seus pais. A percepção de que a criança é diferente do adulto e com direitos só seus é mais recente, como explica a psicóloga Ana Maria Almeida, que lecionou na Universidade de São Paulo por 25 anos.

"Começa no século dezenove, quando se começa a questionar se criança pode trabalhar na fábrica, são coisas que o Marx fala. Mas vai se cristalizar, se solidificar ao longo do século vinte. Por exemplo, a educação universal para a infância é uma coisa muito recente. No nosso país, por exemplo, é desde os anos 30. Não tinha educação universal para as crianças antes, era só pra gente rica"

Nesse momento, então, os organismos internacionais começam a questionar as condições de vida das crianças, até que em 1959 a Organização das Nações Unidas publica a Declaração Internacional dos Direitos da Infância. Foi o momento que marcou o fato de que criança tem direitos a serem respeitados, devendo ser tratadas igualmente sem distinção de raça, religião ou nacionalidade.

Para Ana Maria Almeida, o século vinte é um marco para a proteção à infância, mas as visões sobre o que é ser criança mudam de acordo com o lugar e com a mentalidade dos adultos.

"Você pode olhar a infância como a pré-adultice, a preparação para a vida adulta, e isso é uma das coisas que a nossa escola moderna faz. A gente tem pré-escola tentando ensinar a criança a ler com três anos de idade, para se tornar um adulto mais esperto, mais rápido. Ou você pode olhar a infância como uma fase em si mesma, com o direito dela. Acho que todas essas visões convivem na nossa sociedade"

TRILHA

O espaço das crianças foi aumentando com o passar do tempo. Há algumas décadas, por exemplo, a criação dos filhos era mais rígida. Muitas vezes os pequenos não se sentavam à mesa junto com os adultos e comiam só depois dos mais velhos. Edmilson Ferreira, por exemplo, tem 72 anos, e relembra a relação que as crianças de sua época de infância tinham com os pais.

"Hoje algumas pessoas falam assim "ah, mas naquele tempo, o pai da gente bastava olhar". E eu falo assim, olha não era respeito, era medo, porque a gente tinha medo mesmo. Hoje eu acho diferente. De modo geral, a educação é outra. Os pai se tornam amigos dos filho, a filha conta tudo pra mãe, é melhor que aprender tudo lá fora, aprender errado. Naquele tempo era assim, mas tinha muito carinho"

Edmilson foi criado no interior, perto da terra, com espaço para correr pelo quintal e se assustar com as estórias de lobisomem. Ele recorda com saudades o contato com a natureza, fato cada vez mais raro nesses tempos de vida moderna.

"Ver a lua, estrelas, a gente medo até de contar, porque minha mãe dizia assim "não conta estrela não, que se você contar estrela sai verruguinha", aquelas coisas assim no dedo, a gente ficava com medo mas ficava olhando. Hoje você não tem nem a oportunidade de olhar um céu estrelado, um luar"

Viver a infância tendo contato com muitas crianças e descobrindo os segredos do mundo também foi uma realidade para Margarete Gomes, de 28 anos. Ela conta que foi uma moleca que brincava muito na rua. Era o pique pega, o pique esconde, e sempre com muitos colegas. Margarete acha que as crianças de hoje não vivem a infância com toda a riqueza que ela experimentou.

"A vantagem é que as crianças têm acesso à informação muito maior do que a gente tinha na época que eu era criança, com esse negócio de internet, a própria escola, as coisas evoluiram nesse sentido. Mas, por outro lado, hoje em dia as crianças são menos crianças porque elas não ficam tanto na rua brincando, ficam mais em casa. Ligadas no computador, videogame, televisão, elas deixam de viver um pouco dessa fase boa da infância que você pode brincar, correr, se exercitar sem se preocupar muito com as coisas"

A violência e a tecnologia mudaram a infância e só saberemos as conseqüências disso quando as sementinhas de hoje se tornarem os adultos de amanhã. Mas é possível cultivar no coração a alegria de menino, por mais que o mundo exterior tenha os seus problemas. Para as crianças, a brincadeira sempre será a palavra de ordem.

De Brasília, Daniele Lessa

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

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