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Reportagem Especial

Especial Lixo - Associação de catadores de lixo dá sustento e cidadania a trabalhadores - ( 04' 03" )

  • Especial Lixo - Associação de catadores de lixo dá sustento e cidadania a trabalhadores - ( 04' 03" )

Dona Geralda começou a catar papel aos oito anos de idade, e não tem boas lembranças daquela época. Ela diz que as pessoas tratavam como lixo gente que, como ela, vivia do lixo. Hoje, aos 55 anos, dona Geralda tem uma realidade diferente. Ela fundou há 15 anos em Belo Horizonte uma associação de catadores, a Asmare, e conta como viu sua vida mudar completamente.

"Porque nós éramos tratados igual lixo. Tratados igual marginais, ninguém respeitava os catadores. Nós éramos misturados ao lixo. Teve uma época que fiscal atacou com polícia, botou fogo nos barracos onde é a Asmare hoje, queimou carrinho, queimou tudo. Aí chegou a pastoral de rua, e veio nos perguntar o que estava acontecendo. Aí nós falamos que estávamos querendo trabalhar, mas que eles não deixavam. Aí começamos a reunir debaixo dos viadutos, das árvores. Depois o padre da Casa do Trabalhador cedeu um espaço para nós, aí veio a idéia de fundar a associação."

TRILHA

Dessa mesma forma, várias outras associações de catadores surgiram pelo país. Em Londrina, no Paraná, por exemplo, cidade que é referência em termos de coleta seletiva, entre 2001 e 2004, foram criadas 26 organizações desse tipo. Quase toda a área residencial da cidade foi dividida entre os grupos, que além de reciclar lixo, também promovem a conscientização dos moradores. O material reciclável coletado é estocado e, em seguida, levado por caminhões da Prefeitura até os galpões de triagem. Depois do pagamentos das despesas gerais, o rendimento obtido com a venda dos materiais é rateado entre os integrantes das ONGs. Da mesma forma, acontece em outras cidades brasileiras. O Instituto Nenuca de Desenvolvimento Sustentável - INSEA - apóia a Asmare, associação de catadores de Dona Geralda, em Belo Horizonte. Fabiana Goulart, membro da INSEA, afirma que a consciência dos catadores está em construção.

"Embora a atividade de catação não seja recente, já existem dados da existência de catadores há mais de 50 anos, mas essa consciência é uma coisa nova. Tanto para a sociedade, que tem enxergado essas pessoas, esses profissionais de uma forma diferente, isso vem sendo construído, como por eles mesmos. Até pelo grau de exclusão que essas pessoas se encontram muitas vezes, você vê um processo de auto-estima muito baixa e desvalorização com relação a si e ao trabalho."

Fabiana destaca que os catadores, a partir do momento em que começam a se organizar, têm não apenas o aumento da renda, mas o resgate da cidadania. Esse resgate é sentido na pele por Dona Geralda. Ela conta que fica feliz, hoje em dia, porque vê seus colegas catadores sendo tratados como profissionais. E aproveita para dar lições de vida.

"Ensino o que é ser cidadã, sem moradia, sem trabalho não existe cidadania."

O trabalho da Asmare rende muitos frutos. Um deles é a recente inauguração de uma fábrica de reciclagem de plástico, realizada em parceria com outras associações. O material reciclado ali permite aos catadores a negociação direta com as fábricas, o que significa um aumento de renda. O quilo do plástico tipo PET, por exemplo, é vendido por 42 centavos se não passar pela reciclagem. Mas se o material passar pela fábrica recém inaugurada, o quilo do plático pode chegar a 1 real e 62 centavos.

De Brasília, Adriana Magalhães.

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De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

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