Rádio Câmara

Reportagem Especial

Especial Domésticas - A vergonha da profissão - ( 07' 42" )

  • Especial Domésticas - A vergonha da profissão - ( 07' 42" )

Sueli Araújo da Silva é empregada doméstica, tem 37 anos e trabalha como doméstica há 19. Ela assume a profissão com tranquilidade, diz que é um trabalho como outro qualquer. Mas deixa escapar que a falta de estudos colocou o serviço doméstico como a sua única opção.

"Eu não estudei, né? Larguei, abandonei os estudos. Se eu tivesse estudado eu tinha um serviço melhor, lógico, sem ser de doméstica. Então eu trabalho de doméstica esse tempo todo, mas não tenho vergonha não"

Existem hoje, no Brasil, cerca de 6,5 milhões de trabalhadores domésticos, sendo que algumas pesquisas apontam mais de 8 milhões de pessoas. Uma imensa categoria, constituída em sua maioria por mulheres. Os homens também aparecem, são os caseiros, vigias, jardineiros, piscineiros. Mas são as mulheres que respondem por mais de 90% desse trabalho, como babás, cozinheiras, faxineiras, governantas, cuidando das crianças, de idosos, e muitas vezes fazendo tudo isso. Elas executam as tarefas que tornam a vida dos patrões mais confortável e mais segura, e são muito pouco valorizadas por isso. Como a sociedade vê o trabalho doméstico como uma atividade de segunda classe, é comum que as moças tenham vergonha de assumir a sua profissão, como nos diz Sueli Araújo.

"Tem umas mesmo que mentem, né? Andam arrumadinhas e tal, mas quando as pessoas vão descobrir, elas trabalham de domésticas. Aí elas ficam com vergonha de falar que é doméstica. Umas são assim, outras não"

Não assumir a condição de trabalhadora doméstica é muito comum. Por todos os estigmas que esses homens e principalmente as mulheres carregam. O presidente do Sindicato dos Empregados Domésticos do Distrito Federal, Antônio Barros, conta que muitas mulheres não assinam a carteira por vergonha de assumir que são domésticas.

"Quantos patrões já chegaram pra mim: olhe, estou com uma empregada doméstica, mas ela diz que não quer que assine a carteira, que ela não vai sujar a carteira dela, ela sente vergonha"

Antônio Barros estima que existam 97 mil trabalhadores domésticos no Distrito Federal, mas apenas 5 mil são sindicalizados. Para ele, o baixo número de trabalhadores matriculados se explica pela vergonha de ser considerado trabalhador doméstico. Barros afirma que a própria sociedade alimenta esse preconceito.

"A própria sociedade é responsável por tudo isso. Um empregada doméstica não pode usar o elevador social, tem que usar o elevador de serviço. A empregada doméstica é muito discriminada no local de trabalho, muitas delas dormem no corredor, não tem seu quarto próprio"

A antropóloga Cláudia Barcellos, da Univesidade Estadual do Rio de Janeiro, realizou uma pesquisa com empregadas domésticas e afirma que a maior parte das trabalhadoras não tinha uma imagem positiva da atividade que realizavam.

"As pessoas não assumiam uma identidade de maneira positiva. Sou uma empregada doméstica e me orgulho disso. Essa era a opção que tinha restado, uma opção digna, claro, para pessoas que não puderam estudar ou tinham formação para um outro emprego, mas com certeza é uma ocupação que carrega um certo estigma pelo resto da sociedade"

Cláudia Barcellos analisa que a sociedade brasileira ainda está muito pautada na hierarquia, uma herança ainda dos tempos coloniais e da escravidão. Uma mostra disso, a seu ver, seria o hábito de as patroas darem presentes para as empregadas esperando em retorno a sua gratidão e fazendo com que exista um débito da empregada para com a patroa. São pequenos hábitos como esse que marcam a diferença entre as pessoas, as diferenças entre patrões e empregados. Nesse universo, Cláudia Barcellos destaca a questão racial tem um peso inquestionável.

"Ser mulher, negra e pobre quase que equivale a dizer que para ela resta trabalhar como empregada doméstica, no imaginário essas características se combinam. A questão da diferença racial reforça a idéia de uma diferença social mais ampla com essa idéia de uma inferioridade. Aí eu estou falando de um ponto de vista de como brancos de camadas médias tendem a perceber"

O controle rígido do que as trabalhadoras domésticas podem comer e o costume de que elas sejam solicitadas a qualquer hora do dia ou da noite são traços que enfatizam as diferenças entre patrões e empregadas e alimentam o preconceito. Esses conflitos surgem da relação de poder que existe dentro das casas, um comportamento que na maioria das vezes envolve duas mulheres. As fronteiras claras entre aquela que é superior e aquela que é inferior ocasionam situações como a descrita pela antropóloga Cláudia Barcellos.

"Porque muitas delas tinham de fato baixa escolaridade, elas se viam tratadas como pessoas que eram ignorantes até num sentido mais amplo. Isso incomodava muitos. Elas falavam assim "as patroas ficam repetindo não sei quantas vezes o que temos que fazer como se a gente não tivesse capacidade de entender isso. Ficava a sensação que as patroas tratavam elas quase como se elas fossem doentes mentais, elas repetiam isso"

Todo esse conjunto de situações faz com que o trabalho doméstico seja visto de maneira muito negativa. Não é de se estranhar que as moças prefiram mentir quando são perguntadas a respeito de sua profissão. Mas a presidente da Federação Nacional de Trabalhadores Domésticos, Creuza Oliveira, diz que com o trabalho dos sindicatos essa situação está mudando.

"A gente tem feito um trabalho de conscientização, de valorização desse trabalho e de resgate da auto estima. Então hoje já temos as trabalhadoras domésticas que assumem a sua profissão, que querem a carteira assinada. É claro que o fato dela ter vergonha da profissão não foi à toa. A sociedade discrimina essa profissão. A trabalhadora doméstica é chamada de graxeira, motorista de fogão"

A vergonha de ter a profissão de empregada doméstica assinada na carteira de trabalho faz com que as trabalhadoras percam a garantia de ter direitos sociais importantes, como a proteção do INSS.

De Brasília, Daniele Lessa

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

facebook twitter spotify podcasts apple rss

Todas as Edições