Rádio Câmara

Reportagem Especial

Abuso sexual de crianças e adolescentes: um mal frequentemente doméstico - ( 06' 11" )

  • Abuso sexual de crianças e adolescentes: um mal frequentemente doméstico - ( 06' 11" )

Ele seduz. Se apresenta como uma pessoa séria, um amigo, até ganhar a confiança do menor. Em geral, são homens, de faixa etária variada. Na maioria das vezes, são familiares. Um tio. Um padrasto. Um avô. Muitas vezes o próprio pai. Pessoas que aproveitam a relação com o jovem para cometer o crime.

O abuso sexual não escolhe classe social: ocorre nas famílias mais pobres, assim como nas mais abastadas. E pode trazer sérias conseqüências para as vidas das crianças e adolescentes abusados. Nesta última reportagem da série feita em homenagem ao Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual Infanto-juvenil, comemorado nesta quarta-feira, dia 18 de maio, você vai conhecer um pouco mais sobre o abuso sexual, que passa mais despercebido do que a exploração com fins comerciais.

O Disque-denúncia de violência, abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes da Secretaria Especial dos Direitos Humanos recebeu, de maio de 2003 a abril deste ano, cerca de 10 mil denúncias. Dessas, 3 mil e 200 eram de abuso sexual, contra mil e 700 de exploração sexual. O abuso é todo ato que viola a liberdade sexual da criança e do adolescente. Estuprar, tocar a vítima, obrigá-la a tocá-lo, mostrar vídeos e outras cenas eróticas: tudo isso é considerado abuso sexual.

De acordo com a psicóloga especializada na área Rebecca Ribeiro, o abuso é menos focado por uma série de motivos. Entre eles, porque ocorre em todas as classes sociais, ao contrário da exploração, mais comum nas classes menos favorecidas. Uma outra razão é o fato de que, em geral, ele ocorre no ambiente familiar.

"A família tem esse mito da privacidade da intimidade. Não se mete nas questões que acontecem dentro do lar, dentro da casa, ou dentro da intimidade do lar. Então o abuso quando acontece dentro dentro da casa, com pessoas conhecidas, ele faz parte dessa intimidade, dessa privacidade, o que dificulta uma visibilidade social da questão."
 
Rebecca se uniu, no ano passado, a outras duas psicólogas especializadas na área e formou um grupo para ministrar o curso Violência Sexual Familiar contra Crianças e Adolescentes. São grupos pequenos, de no máximo 15 alunos, e a idéia é trocar experiências e ensinar profissionais de educação e advogados maneiras de lidar com o assunto.

A psicóloga Viviane Amaral é colega de Rebecca no grupo, e afirma que os pais devem ficar atentos, porque o menor quer revelar o abuso, mas teme as conseqüências. É comum que ele sofra ameaças e seja vítima de chantagem. O abusador pode, por exemplo, ameaçar cometer o mesmo abuso com um irmão mais novo, caso a vítima o entregue. Em outros casos, o carinho que a vítima ainda nutre pelo agressor, no caso de um parente, pode servir de impedimento para que ela o denuncie. Mas a psicóloga afirma que a criança tende a dar sinais de que foi abusada. Viviane afirma que todo pai deve atentar para sinais como anorexia ou ganho excessivo de peso. Eles podem significar que o menor está tentando acabar com a atração que exerce no agressor.

A psicóloga alerta ainda que o abuso pode servir de porta de entrada para a prostituição, especialmente entre as classes mais pobres:

"Porque é uma maneira que a pessoa encontra de sair de uma situação passiva, onde ela se submete ao desejo do outro, e passa a ser aquela que controla a relação. E aí quem é que está controlando, quem é que escolhe o cliente, quem é que escolhe a quem ela vai oferecer o corpo ou não? É ela mesma."

A Secretaria dos Direitos Humanos e o Ministério da Educação lançaram, em 2003, uma cartilha para que profissionais da educação possam reconhecer os sinais nas crianças que sofreram abuso. Entre as conseqüências físicas apontadas na cartilha, estão uma série de problemas de saúde sem causa aparente, como dor de cabeça, erupções na pele e vômitos. Dificuldade em caminhar e sentar também devem ser observadas, pois podem ser conseqüência do estupro.

Entre os sinais de comportamento, a cartilha aponta o medo ou mesmo o pânico de determinada pessoa, medo do escuro, oscilações de humor e regressão para comportamentos infantis, como choro excessivo sem causa aparente, e chupar os dedos. Em outros casos, a criança abandona, mesmo que temporariamente, o comportamento infantil, os laços afetivos, e as brincadeiras de infância.

Tayná é o nome fictício de uma mulher que tem hoje vinte anos, faz cursinho pré-vestibular, namora, sai com os amigos. Sempre sorridente, não é fácil identificar que ela é uma das milhares de vítimas de abuso sexual. Foi estuprada aos dozes anos por Alex, que era colega de trabalho de seu pai. Ela preferiu não ser identificada, mas contou a sua história. Tayná foi estuprada no estacionamento de um shoping center em Brasília. Ainda era dia claro, e o agressor se ofereceu para acompanhá-la à rodoviária, de onde ela tomaria o ônibus para casa. No caminho, a atraiu com a desculpa de que havia esquecido algo no carro.

Tayná nos conta as conseqüências da agressão na sua vida:

"Eu fiquei muito depressiva. Eu acho que eu acabei com a minha infância, porque eu parei de brincar de boneca, eu parei de fazer tudo. Aos meus doze anos eu mudei totalmente. Eu mudei minhas amizades, eu andava com muita menina. Eu não sei porque eu comecei a andar com um bando de homem, que eram um pouquinho mais velhos do que eu, mas eram meus amigos, da minha rua. Foi estranho, foi um baque. Eu parei de brincar de boneca, eu não pedia mais boneca pra minha mãe, não pedia mais nada, e eu mudei totalmente."

Tayná se aproximou de rapazes mais velhos em busca de proteção, já que a experiência a impediu de se relacionar sexualmente por muitos anos. Depois do estupro, Tayná parou de freqüentar o trabalho do pai, e pouco depois o agressor se demitiu. Ela só foi encontrá-lo novamente há dois anos, em um bar. Escondeu-se e chorou por duas horas seguidas. Nunca contou a agressão que sofreu para os pais, e não pensa em denunciar, porque acredita que agora já é muito tarde. Mas afirma que campanhas são essenciais para que pais, professores e crianças aprendam a necessidade de se denunciar o abuso. Se você conhece alguém que está sendo vítima de abuso sexual, denuncie. A Secretaria de Dreitos Humanos do Ministério da Justiça mantém um serviço de denúncias. O telefone é 0800 990500, 0800 990500. As denúncias podem ser anônimas e podem ajudar no combate ao abuso sexual

De Brasília, Paula Bittar.
 
 

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