Reportagem Especial

Especial Brasília I - Os 45 anos de transferência do Congresso para Brasília ( 08' 27'' )

Publicação: 20/04/2005 - 00:00

  • Especial Brasília I - Os 45 anos de transferência do Congresso para Brasília ( 08' 27'' )

Locutor: Há quarenta e cinco anos, o Brasil inaugurava sua nova capital. Os monumentos de Oscar Niemeyer e o projeto urbanístico de Lúcio Costa deram o ar modernista à cidade que nasceu para interiorizar o país. Mas para cumprir sua missão, Brasília precisava abrigar o poder, até então instalado às margens do Oceano Atlântico.
Nos próximos cinco dias, o repórter Antônio Vital vai contar histórias da inauguração de Brasília e da chegada dos parlamentares ao Planalto Central.

Faltavam três dias para a inauguração de Brasília. Os operários corriam para dar os últimos retoques nos prédios do Congresso e do Palácio do Planalto, ainda cheirando a cimento e suor.

A data da festa, 21 de abril, foi escolhida pelo mineiro Juscelino Kubitschek para homenagear Tiradentes, símbolo da luta pela independência.

A música que vocês estão ouvindo é a Sinfonia da Alvorada, composta por Tom Jobim e Vinícius de Moraes em 1960 a pedido do presidente. Os dois artistas passaram uma temporada no Catetinho e ficaram impressionados com a grandiosidade da obra e o clima de euforia dos operários e engenheiros.

Foram dias em que ouviram o canto dos pássaros do cerrado, o barulho das águas cristalinas e outro, bem diferente, de tratores rasgando a vegetação nativa para erguer a nova capital.

A música de Tom e Vinícius retrata o esforço anônimo de milhares de brasileiros de todos os cantos, empenhados em tornar realidade os desenhos de Lucio Costa e os palácios de Oscar Niemeyer.

Tudo sob a supervisão rigorosa de Israel Pinheiro. Esse mineiro de poucos sorrisos foi quem coordenou a construção. Para isso, até abriu mão de sua cadeira na Câmara dos Deputados. Juscelino mesmo dizia que, sem Israel, a cidade não teria sido erguida.

Transferir a capital do país para o interior era assunto debatido no Parlamento há mais de cem anos. Em 1923, José Bonifácio já sugeria a localização, Goiás, e o nome, Brasília. As constituições de 1891, 1934 e 1946, estabeleciam a mudança. Mas... nada era feito.

Até que a idéia virou a chamada "meta síntese" do programa desenvolvimentista do candidato Juscelino Kubitschek, ex-governador de Minas que, por ter um sobrenome checo, difícil de ser pronunciado, virou simplesmente JK.

Pois JK incorporou a idéia meio por acaso, ao responder a uma pergunta durante um comício no interior de Goiás. Eleito, conseguiu que o Congresso aprovasse uma lei que fixava a data da inauguração: 21 de abril de 1960. Faltavam pouco mais de três anos.

O arquiteto Oscar Niemeyer, um dos principais nomes dessa história, conta que, para Juscelino, a história tinha começado antes. Mais especificamente em Belo Horizonte, na década de 40.

Juscelino, então prefeito da capital mineira, convidou Niemeyer para projetar as edificações que pretendia erguer às margens da lagoa da Pampulha, então abandonada. O jovem arquiteto desenhou ali uma igreja, um cassino, um clube e um restaurante. Foi um marco da arquitetura mundial e o início de uma grande parceria.

Aos 97 anos, e trabalhando normalmente em seu escritório no Rio de Janeiro, Niemeyer lembra a história:

"Brasília começou em Pampulha. Eu trabalhei em Pampulha com Juscelino três anos para fazer Pampulha. E Pampulha foi o começo de Brasília. Os mesmos problemas de dinheiro, as mesmas angústias, as mesmas esperanças. E quando Pampulha ficou pronto, dez anos depois, o Juscelino veio em minha casa e disse: Oscar, nós construímos Pampulha. Agora, vamos construir a nova capital. De modo que Brasília começou dez anos antes, em Pampulha"

O traço de Niemeyer é o que faz Brasília ser o que é, assim como o projeto urbanístico de Lucio Costa. Mas, de todos os palácios, prédios e igrejas que desenhou, ele destaca um: o Congresso Nacional. E ele explica por que deixou as duas cúpulas acima do nível da Praça dos Três Poderes, onde ficam o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal.

"Porque eu achei que ficava mais bonito. Eu achei até que elas ficavam mais em destaque. E acho que ficaram muito bem. É o prédio que eu gosto mais de Brasília talvez seja o do Congresso. Quando Le Corbusier subiu a rampa do Congresso, ele parou e disse: aqui tem invenção. E isso que é arquitetura"

Niemeyer supervisionou pessoalmente a construção de seus palácios. Na prancheta dele, o concreto vira uma escultura, o que é um desafio e tanto para operários e engenheiros. Em Brasília não foi diferente.

"Até hoje a minha preocupação é fazer as coisas diferentes. A arquitetura que a gente faz é uma arquitetura mais livre, mais variada, a curva aparece muito, o concreto armado sugere a curva. O Le Corburiser, por exemplo, fazia o poema do ângulo reto. A gente faz o poema da curva. O concreto, muitas vezes, até impõe a curva, é a solução natural que aparece"

Brasília é uma cidade diferente de todas as outras. E isso não foi por acaso. Juscelino costumava se cercar de artistas.

Niemeyer não foi o único a ser chamado para trabalhar pelo então prefeito de Belo Horizonte, no início dos anos 40. O pintor fluminense Alberto da Veiga Guignard, um dos mestres do modernismo brasileiro, estava em dificuldades financeiras quando foi convidado por JK para montar uma escolinha na capital mineira. Acabou ficando por lá até morrer, em 1962. O mesmo espírito veio para Brasília.

Niemeyer, por exemplo, fala de sua busca incessante pela originalidade.

"A arquitetura deve ser uma coisa diferente. Arquitetura deve ser invenção. Porque quando as pessoas vêem uma coisa que já viram outra antes, não têm interesse. O que é importante em Brasília, para mim, é as pessoas que chegam. Podem gostar ou não dos palácios, mas não podem dizer que viram antes coisa parecida. De modo que, quando há espanto, quando há surpresa, é que a arquitetura está no bom caminho"

O arquiteto é modesto quando fala de sua criação. Não esconde a satisfação ao ver que Brasília, 45 anos depois, se transformou em uma metrópole. Mas diz não saber avaliar ainda a importância histórica da cidade.

"Ah, isso eu não sei. Eu fiz o que podia, naquela correria, naquela angústia de tempo correndo, e acho que Brasília foi bom. Quem mora em Brasília não quer sair de lá. Eu até me espanto porque eu gosto é do Rio de Janeiro. Mas quem mora em Brasília quer ficar. Não sei se o céu é maior, se a cidade é mais organizada. Se as edificações são próximas das escolas e do comércio local. Em todo caso, eu sinto isso com muita satisfação"

Niemeyer não foi às festas de inauguração de Brasília. Preferiu ficar no seu quarto, no hotel. Ele explica que não gosta de luxo, nem da burguesia, que compareceu em massa, de fraque e vestidos longos, para os bailes nos palácios que desenhou.

O arquiteto também nunca quis trocar o Rio, onde nasceu, pela cidade que ajudou a construir.

"Eu gostaria, mas eu sou do Rio, dessa esculhambação, desses assaltos. Já habituamos com esse clima em que, infelizmente, continuamos a viver. Mas vamos mudar. Um dia a gente muda essa merda".

Apesar de nunca ter morado em Brasília, Niemeyer até hoje projeta prédios na capital. Sim, porque Brasília ainda não foi concluída. Está em obras, por exemplo, o setor cultural, perto da rodoviária. No Congresso, há a previsão para a construção de um prédio de dois andares, com vista para a Praça dos Três Poderes, destinado às presidências da Câmara e do Senado. Ou seja, a obra de Juscelino ainda não acabou.

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

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