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Papo de Futuro

EP#67 - Google, Nosso querido professor?

07/05/2024 -

  • EP#67 - Google, Nosso querido professor?

O medo de invasões alienígenas fica pequeno perto da preocupação com a soberania nacional, principalmente quando se trata dos nossos mestres, os professores. A decisão do Governo de São Paulo de adotar a inteligência artificial (IA) em sala de aula gerou debates intensos. Para desbravar o tema da plataformização da educação, conversamos com a especialista Beth Veloso.

Esse fenômeno começou de maneira quase imperceptível e agora domina espaços educacionais e políticos. Hoje, mais de 70% das universidades dependem das infraestruturas digitais de gigantes como Google e Microsoft, com uma menor parcela recorrendo à Amazon. Isso pode parecer trivial até nos darmos conta de que estamos diante de uma sociedade de vigilância, com o intelecto nacional nas mãos de entidades estrangeiras. Não só os relatórios e teses, mas até as comunicações via e-mail estão sob domínio dessas corporações. Imagina o poder que elas têm, acessando dados detalhados dos estudantes brasileiros!

Para entender os riscos da plataformização na educação, conversamos com o Professor Nelson Pretto, veterano em pesquisa sobre educação e tecnologia.

Nelson Pretto, é professor titular e pesquisador da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), além de doutor em Comunicação e mestre em educação. (1)

“O ponto central e maior de tudo que está aì está na perda de soberania digital para o Pais, e no pensamento no campo da educação, é grave, porque estamos formando a juventude do nosso pais com o uso de tecnologias que não são soberanas e estão aì se apropriando os nossos dados. Temos um movimento grande com acadêmicos do  Brasil interior de um trabalho forte de convencimento do governo brasileiro no sentido de trabalharmos a busca da  soberania digital”, diz o professor.

A questão envolve privacidade, soberania e até finanças.

Além de violações de privacidade e questões de soberania, há o fator financeiro. Após obter informações sobre hábitos estudantis, essas plataformas lucram às custas da nossa educação. Com a desmobilização dos centros de informática, os custos para manter a conectividade e serviços básicos como e-mails dispararam.

“É um uso absolutamente equivocado e irresponsável das tecnologias de informação na educação. Uma coisa não substituiu a outra. E isso fica muito claro, e não estamos fazendo um discurso contra qualquer tecnologia. O que estamos falando é de um uso irresponsável de quem pensa que ao colocar a inteligência artificial â disposição dos professores para fazerem as suas aulas com seriedade e compromisso político. O chatGPT desde o seu inicio, a IA e s outras tecnologias sempre foram incorporados à educação a partir de um projeto pedagógico liderados pelos professores, e é isso que tem que acontecer,” afirma o professor.

 Com isso, as universidades e escolas ficam vulneráveis. Então, qual é a vantagem para governos, como o de São Paulo, ao adotar essa plataformização?

Segundo o professor Pretto, as decisões muitas vezes são guiadas por interesses privados, que podem não ser claros ou alinhados com os princípios educacionais.

“Existem várias  questões colocadas aí, a primeira é a pressão dos grandes grupos econômicos que estão por detrás das plataformas, inclusive os de inteligência artificial. Querendo entrar na sociedade de forma irresponsável. O segundo elemento é analisar a questão de são Paulo e não é a primeira vez, em que há ligação entre a secretaria de educação com as empresas que trabalham com educação, que já foi dono e diz que não é mais, como a Multilaser, que ele diz que não é mais dono. O enfrentamento precisa se  dar com diversas iniciativas. A regulação, do ponto de vista regulatório, é uma delas. Essas plataformas precisam ser reguladas porque estamos falando deu m grande capital. Entre as 10 maiores riquezas do mundo, meia dúzia estão ligados â TI e ao Vale Silício legislativo.

E como esse debate se encaixa no cenário legislativo?

As comissões precisam focar neste tema. Existem projetos de lei buscando resgatar a autonomia do ensino. O plano 5G pode ampliar a conectividade, mas não aborda o controle sobre os sistemas, aplicativos e armazenamento de dados. A universidade, berço do pensamento crítico, não deve estar sujeita a uma ideologia mercantilista que negligencia a ética e a liberdade do pensamento democrático. A autonomia e a soberania são essenciais para a democracia. O resto é apenas conversa de bar.

Participe do debate nas mídias digitais da Rádio Câmara e no YouTube da Câmara dos Deputados. Envie temas, críticas ou sugestões para o WhatsApp da Rádio Câmara (61) 99978-9080 ou para o e-mail papodefuturo@camara.leg.br.

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Comentário – Beth Veloso
Apresentação – Cláudio Ferreira

Coluna semanal sobre as novas tendências e desafios na comunicação no Brasil e no mundo, da telefonia até a internet, e como isso pode mudar a sua vida.

Terça-feira, às 8h