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CÂMARA DOS DEPUTADOS
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COMISSÃO DE FISCALIZAÇÃO FINANCEIRA E CONTROLE
55ª Legislatura - 2ª Sessão Legislativa Ordinária
ATA DA 15ª REUNIÃO EXTRAORDINÁRIA
AUDIÊNCIA PÚBLICA
REALIZADA EM 11 de outubro de 2016.
Às
onze horas e vinte minutos do dia onze de outubro de dois mil e dezesseis,
reuniu-se a Comissão de Fiscalização Financeira e Controle, no Anexo II,
Plenário 11 da Câmara dos Deputados, para debater a PEC 241/2016, objeto do
Requerimento Nº 230/16, de autoria do Deputado Paulo Pimenta e subscrito pelos
deputados
Paulão,
Jorge Solla e Adelmo Carneiro Leão , com a presença dos senhores deputados Leo
de Brito - Presidente; Paulão - Vice-Presidente; Adelmo Carneiro Leão - Titular;
Edinho Bez, Hildo Rocha, Jorge Solla, Valtenir Pereira e Vicente Candido –
Suplentes. Compareceram também os Deputados Aliel Machado, Angelim, Carlos
Henrique Gaguim, Evair Vieira de Melo e Félix Mendonça Júnior, como não-membros.
Deixaram de comparecer os Deputados Alberto Filho, Aníbal Gomes, Fernando
Francischini, Hugo Motta, Leo de Brito, Lindomar Garçon, Nilton Capixaba,
Pauderney Avelino, Paulo Pimenta, Sandes Júnior, Toninho Wandscheer, Uldurico
Junior, Vinicius Gurgel e Wellington Roberto. Abertura:
Havendo número regimental, o senhor Presidente declarou abertos os trabalhos e
convidou a compor a Mesa os expositores convidados: Felipe Rezende, economista e
professor assistente do Departamento de Economia de Hobart e William Smith
Colleges - Genebra; Luiz Carlos Prado, professor de economia da Universidade
Federal do Rio de Janeiro - UFRJ; Maria Lúcia Fattorelli, coordenadora nacional
da Auditoria da Dívida Ativa; Pedro Rossi, professor do Instituto de Economia da
Universidade de Campinas - Unicamp. O presidente informou que foram expedidos
convites para os ministérios da Fazenda e do Planejamento, para que pudessem
enviar representantes, e nenhum representante desses ministérios comparecera.
Depois de lamentar a ausência de representantes do governo, Leo de Brito opinou
que a PEC em tela iria prejudicar sensivelmente todos os setores da sociedade,
notadamente trabalhadores privados e servidores públicos, além de retirar
recursos da Saúde, da Educação e dos programas sociais do governo federal. Em
seguida, passou a palavra à coordenadora nacional da organização não
governamental Auditoria Cidadã da Dívida, Maria Lúcia Fattorelli,
disse que a Proposta de Emenda à Constituição 241/16, limitava os gastos
públicos da União pelos próximos 20 anos e congelava as despesas primárias, mas
não faltariam recursos para remunerar as sobras de caixa dos bancos e para os
juros mais altos do mundo, protegidos pela PEC. A representante da Auditoria
Cidadã da apontou ainda que a dívida pública consumira 42% do Orçamento da União
em 2015, ao passo que as despesas com saúde e educação ficaram em torno de 4%
cada. No mesmo ano, o estoque de títulos públicos no País aumentou R$ 732
bilhões em 11 meses, tendo sido atingido o total de R$ 3,936 trilhões. “Por
outro lado, os investimentos públicos foram de apenas R$ 9,6 bilhões”, destacou.
Fatorelli avaliou que os problemas fiscais decorreram do pagamento dos juros
sobre a dívida pública. A taxa básica no Brasil, a Selic, está hoje em 14,25% ao
ano. Em nome da organização não governamental, ela disse que descontos elevados
na venda dos títulos pelas estatais, combinados com os juros altos, serviriam em
tese para facilitar o recebimento de créditos de difícil arrecadação, como
esperava o governo, sustentou, mas resultariam em prejuízos para estados e
municípios, porque iriam transferir recursos públicos para agentes privados. Com
a palavra concedida, o professor do Instituto de Economia da Unicamp, Pedro
Rossi, avaliou que a PEC impunha um outro projeto de País, incompatível com o
previsto na Constituição, com o agravante de não ter passado pelas urnas. Rossi
disse que o projeto governamental reduziria drástica e brutalmente o tamanho do
Estado, e não apenas um novo regime fiscal. Ele informou que os gastos primários
do governo federal representavam hoje 20% do PIB, e, com a aprovação da PEC, que
passaria a valer a partir de 2017, essa despesa cairia para 13%. Considerou que
seria mais legítimo que o projeto fosse discutido em um pleito eleitoral e
pudesse vir a ser discutido e aprovado ou rejeitado pela população, e não
passado às pressas, avaliando que não estava havendo uma verdadeira discussão. O
professor classificou a PEC de ineficaz para a contenção de despesas, mesmo que
viesse a ser aprovada a reforma da Previdência. Em seguida, o Presidente passou
a palavra ao professor de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ), Luiz Carlos Prado, que categorizou o congelamento da política fiscal por
20 anos como medida grave, porque não considerava possíveis mudanças no quadro
macroeconômico de longo prazo. Ele disse que ninguém poderia estimar com
exatidão os problemas que o país enfrentará nos próximos anos, o que
justificaria a flexibilidade das políticas públicas, que devem ser ajustadas às
condições do momento. Ele previu que a reação dos mercados estrangeiros à
economia doméstica levaria a movimentos especulativos na área cambial, a
impactos inflacionários e prejudicaria o balanço de pagamentos. Na sua fala
inicial, o assistente do Departamento de Economia de Hobart e William Smith
Colleges, em Genebra, Felipe Rezende, disse que a proposta do novo regime fiscal
vai na contramão do que recomenda o FMI para períodos de recessão econômica,
quando tem sido necessário estimular a iniciativa privada com o efeito
contracíclico do aumento dos gastos públicos. Sustentou que esse efeito foi
buscado por quase todos os países para suavizar períodos de crise. Rezende
realçou que nenhum país aprovou regra de contenção de gastos por meio de
mecanismo constitucional. Avaliou que o caminho a ser seguido era o contrário, o
aumento dos gastos quando havia contração do PIB em período de recessão.
Comentou que a PEC aprofunda o histórico déficit em infraestrutura no País. Em
seguida, a palavra foi passada aos parlamentares. O deputado Vicente Candido
defendeu duas propostas que tramitam na Câmara e tratam da venda com deságio,
para o sistema financeiro, de parte da dívida ativa dos entes federados.
Informou o parlamentar que requerimentos de urgência para os dois
textos já chegaram a entrar na pauta do
Plenário
- o Projeto de Lei Complementar (PLP) 181/15 e
o PL 3337/15. Explicou
que as proposições, de autoria dele e de outros onze deputados, objetivavam a
antecipação do recebimento de parte da dívida ativa, de origem tributária ou
não, que ainda não estivesse em processo de execução judicial, quando os bens do
devedor são buscados e penhorados para sanar o débito. O desconto em relação ao
valor nominal, definido em edital, deveria variar segundo a possibilidade de
recebimento da dívida. Com a palavra, o deputado Adelmo Leão, que subscrevera o
pedido de audiência pública, disse que a PEC 241/16, era insustentável para a
recuperação econômica, sobretudo, porque excluía o papel da demanda na geração
da renda. Previu que poderia haver
perdas durante uma geração inteira. Retomando a palavra, o deputado
Leo de Brito resumiu as principais preocupações elencadas, como o caráter
regressivo da tributação da produção e do consumo, a dívida pública, redução das
reservas internacionais nesse processo de ajuste, reforma tributária que fosse
elaborada com base na progressividade, e questionou quais seriam as alternativas
ao ajuste proposto pelo governo por meio da PEC 241/2016. Em seguida, passou a
palavra aos expositores, em ordem inversa das exposições, para as considerações
finais. O professor Felipe Rezende disse que o regime fiscal atual estava falido
e que o Brasil precisava de um novo regime fiscal. Uma alternativa que vinha
sendo discutida na mídia tradicional, informou, era a promoção da meta fiscal
por meio de metas fiscais estruturais, separando-se os componentes cíclicos; e
maior transparência e eficiência dos gastos, associados com metas bem definidas
e com prestação de contas, em que cabia papel importante à CFFC. Os gastos,
então, seriam associados a metas específicas a alcançar. Os novos investimentos
seriam necessários para que não houvesse deterioração da estrutura produtiva.
Rezende considerou que a ideia do estado mínimo não correspondia a
desenvolvimento e crescimento, como demonstrara a experiência internacional. O
que funcionou foi a associação entre o setor público e o privado. O economista
avaliou que a contenção dos gastos geraria um conflito distributivo muito
grande, e disse que na elaboração da PEC faltara intelectualidade, teria havido
uma avaliação básica incorreta, de que o Brasil tivesse uma economia de baixa
renda. Argumentou que o contrato constitucional estava sendo rompido a partir de
uma base teórica fraca, e que o caminho melhor seria o cumprimento do contrato
constitucional. Ele disse que o debate em torno da PEC era desonesto
intelectualmente quando defensores da PEC afirmavam que era uma PEC que
favorecia as camadas mais necessitadas de apoio. Rezende defendeu que se
deixassem de fora dos limites de gastos os gastos públicos e os derivados dos
componentes cíclicos. Na sequência, a palavra foi concedida ao professor da
UFRJ, Luiz Carlos Prado, que defendeu uma meta fiscal discutida de quatro em
quatro anos, e balizada também pelo debate eleitoral, para que a sociedade
pudesse se manifestar também sobre que tipo de desenvolvimento e que tipo de
gastos públicos apoiaria. Os candidatos, realçou, teriam de ser obrigados por
lei a apresentar suas metas fiscais e a maneira como pretenderiam alcançá-las.
Em conclusão, disse que não era recomendável estabelecer metas de períodos
longos demais, como o período de 20 anos, pois isso pressupunha o
estabelecimento de um pacto social de longo prazo, o que efetivamente não fora
estabelecido. Prado sugeriu uma nova perspectiva quanto ao teto do
funcionalismo, que passasse a ser um teto no sentido proporcional. Citou como
exemplo o estabelecimento de uma proporção entre o menor e o maior salário do
funcionalismo público de um para dez. Quando essa proporção fosse rompida, seria
aumentado o menor salário, até que a proporção permitisse o reajustamento do
maior. Sustentou que até para os empresários era melhor que os salários pudessem
ser aumentados, e que deveriam apostar no crescimento econômico e não na
contenção da economia, para que pudessem vir a ampliar quantitativamente seus
lucros. Disse, por último, que havia uma marcha da insensatez, porque o ajuste
fiscal por 20 anos sugerido prejudicaria não apenas quem ganhasse menos como
quem ganhasse mais. Em seguida, com a palavra, o professor Pedro Rossi, da
Unicamp, afirmou que o governo estava vendendo gato por lebre, o que significava
que estaria enganando a sociedade de propósito. Estava o governo prometendo um
ajuste fiscal pelo qual o país voltaria a crescer, mas estava entregando um novo
modelo econômico, que fatiava o setor público, com o desmonte do Estado Social.
Rossi disse que o governo empregava imprecisões na justificativa da PEC, quando
afirmava que havia risco de superinflação e sugeria que a inflação era de
demanda. Ao contrário do que o governo estava sustentando, disse o professor da
Unicamp, o gasto público funcionava como um vetor de investimento e de
crescimento. Ele questionou também que o gasto público fosse o responsável pelo
aumento da dívida. Pedro Rossi disse que a equiparação do Brasil à Grécia, feita
pelo governo, constituía-se uma enganação porque as situações eram muito
diferenciadas, que bastava olhar os ativos brasileiros, e afirmou taxativamente
que o Brasil não iria quebrar. Quando argumentava que o Brasil poderia quebrar,
o governo estava fazendo uma espécie de terrorismo fiscal, sustentou. Rossi
afirmou que quem estava se beneficiando com a PEC eram os setores que pretendiam
atuar em lugares em que o estado estava atuando, e aqueles que queriam se eximir
de pagar impostos. Por fim, estimou que era questionável a mudança do rumo de um
país sem que houvesse uma discussão democrática, além de haver reafirmado que a
mudança proposta não se destinava aos fins que apontava e que a alternativa de
crescimento não poderia prescindir de gastos públicos. Concluiu sua participação
dizendo que havia um sério risco de o Brasil entrar no ciclo vicioso da
austeridade. A palavra foi passada à expositora Maria Lúcia Fattorelli. Nas
considerações finais, afirmou que a PEC provocaria redução drástica de
investimentos e gastos públicos. Ela declarou concordância com a análise feita
pelos professores que a haviam antecedido. Defendeu a realização de uma
auditoria da dívida. Quando afirmou que essa ideia era rejeitada, comentou, em
contraponto, que a base da PEC era o argumento que considerava a dívida. Para a
auditora, o Brasil estava nas mãos dos movimentos sociais, porque as
instituições demonstravam que não iriam defender os interesses da população. Por
fim, opinou que o Estado agia de modo temerário quando assegurava direitos
derivativos sem lastro para garanti-los, e colocou-se à disposição para
prosseguir o debate sobre a PEC, que, sustentou, não devia passar. O presidente
recolocou a disposição da CFFC para novos debates, agradeceu a presença dos
convidados e, nada mais havendo a tratar, declarou encerrada a Audiência Pública
às quatorze horas e onze minutos. E, para constar, eu ______________________,
Luiz Paulo Pieri, lavrei a presente Ata, que, por ter sido lida e aprovada, será
assinada pelo Presidente, Deputado Leo de Brito, ______________________, e
publicada no Diário da Câmara dos Deputados.xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx.