DEPARTAMENTO
DE TAQUIGRAFIA, REVISÃO E REDAÇÃO
NÚCLEO
DE REDAÇÃO FINAL EM COMISSÕES
TEXTO
SEM REVISÃO
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COMISSÃO
ESPECIAL - PEC 182/07 - REFORMA
POLÍTICA |
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EVENTO:
Reunião Ordinária |
REUNIÃO
Nº: 0462/15 |
DATA:
05/05/2015 |
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LOCAL:
Plenário 9 das
Comissões |
INÍCIO:
14h55min |
TÉRMINO:
18h25min |
PÁGINAS:
76 |
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DEPOENTE/CONVIDADO
- QUALIFICAÇÃO |
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NOTAS
TAQUIGRÁFICAS SEM REVISÃO, APENAS PARA
CONSULTA. |
A
SRA. PRESIDENTE (Deputada
Moema Gramacho) - Havendo número regimental, declaro aberta a 20ª
reunião da Comissão Especial, destinada a proferir parecer à
Proposta de Emenda à Constituição nº 182, de 2007, do Senado
Federal, e apensadas; Reforma Política, com a participação da
Comissão Especial, destinada a efetuar estudo e apresentar propostas
com relação às matérias infraconstitucionais da Reforma
Política.
Atas. Encontram-se à disposição dos Srs. Deputados cópias da
Ata da 19ª reunião. Pergunto se há necessidade da leitura da ata?
(Intervenções
simultâneas ininteligíveis.)
Não
havendo necessidade, fica dispensada a leitura da
ata.
Em discussão. (Pausa.)
Não
havendo quem queira discutir.
Em votação.
Aprovada.
Os Srs. Deputados aprovaram a ata da reunião
anterior.
Temos vários requerimentos na Ordem do Dia, mas, em função de
aguardarmos mais alguns Deputados, nós vamos deixar para votar os
requerimentos posteriormente. Há concordância?
O.k.
Uma vez composta a Mesa, eu queria cumprimentar o nosso
Relator, Deputado Marcelo Castro; queria cumprimentar a nossa
Ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres do Governo
Federal, a nossa companheira Eleonora Menicucci, e dizer da nossa
satisfação em recebê-la, ela, que é uma defensora das causas
feministas e da participação das mulheres cada vez maior em todos os
espaços dos Poderes — no Legislativo, no Executivo e no Judiciário
—, que tem feito um trabalho belíssimo à frente desse
Ministério.
Eu queria também dizer que temos aqui presentes as convidadas
com um trabalho bastante importante nesta questão, e nós
aproveitamos para agradecer a aceitação do convite: à companheira
Luana Grillo, representante da ONU Mulheres, que vai tratar da
questão da participação das mulheres no âmbito internacional, com
destaque para a questão do Brasil; à companheira Vic Barros,
Presidente da União Nacional dos Estudantes, representando aqui as
nossas mulheres jovens, as nossas mulheres estudantes — para nós, é
um prazer enorme tê-las aqui —; e também à companheira Guacira
Oliveira, Diretora do Centro Feminista de Estudos e Assessoria —
CFEMEA, que, ao longo dessa nossa história de luta em defesa dos
direitos das mulheres, tem sido um instrumento importante de estudos
e de assessoria à luta das mulheres.
Bom, então, eu queria fazer algumas orientações. Peço a
atenção de todos em relação às regras que nortearão os trabalhos.
Esta é uma audiência pública interativa, a sociedade civil poderá
participar com sugestões e questionamentos pelo endereço: http://edemocracia.camara.gov.br.
Os Deputados poderão direcionar sugestões e questionamentos aos
convidados, aqui, neste caso, às convidadas, com muito
prazer.
Quanto à exposição e aos debates: o tempo concedido a cada
palestrante será de 10 minutos. É claro que eu sei que essas
mulheres aqui têm muito mais a falar e que tomariam muito mais
tempo, mas, apenas por conta de outras audiências que acontecerão
ainda hoje, nós vamos limitar o tempo a 10 minutos para cada
convidada, não podendo haver apartes durante as falas. Serão abertas
depois as inscrições.
Os Deputados interessados em interpelar as palestrantes
deverão inscrever-se previamente junto à Secretaria, há uma lista
ali que pode ser preenchida. As perguntas serão feitas ao final da
palestra e deverão restringir-se ao assunto da exposição, formuladas
no prazo de 3 minutos, dispondo a palestrante interpelada de igual
tempo para respondê-la. Aos Deputados e às Deputadas, é facultada a
réplica e a tréplica, pelo mesmo prazo.
Feitos esses esclarecimentos, daremos início à
audiência.
O SR. DEPUTADO
ESPERIDIÃO AMIN - Sra. Presidenta, na Comissão Constitucional da
emenda, já se alcançou o quórum com 19. Se
pudéssemos apenas deliberar sobre o primeiro requerimento, que
repercute sobre a Mesa, o nº2, e já está resolvido, seria só a
deliberação.
A
SRA. DEPUTADA MOEMA GRAMACHO -
Deputado?
O SR. DEPUTADO
ESPERIDIÃO AMIN - A única coisa que se pede é que se inclua no
convite...
A SRA. PRESIDENTA
(Deputada Moema Gramacho) - Isso nós já faríamos,
independentemente de ser V.Exa. Sendo V.Exa., fica melhor ainda de
responder.
O SR. DEPUTADO
ESPERIDIÃO AMIN - Não, mas a inclusão nem foi a meu pedido, foi
a pedido do Presidente Rodrigo Maia, para que se incluísse o
Ministro Henrique Neves, a Dra. Ana Aguiar e o Sr. Giuseppe Janino,
Secretário de Tecnologia e Informação do TSE, acrescentando esses
nomes ao do já convidado Dr. Celso Luiz Carvalho de Souza, para a
mesa seguinte.
Então, como se trata de um assunto imediatamente
posterior...
A SRA. PRESIDENTA
(Deputada Moema Gramacho) - Então, atendendo ao que
foi colocado no Requerimento nº 48/2015, do Sr. Esperidião Amin, os
Deputados que concordam com a inclusão dos nomes que foram
oferecidos pelo Deputado permaneçam como se
encontram.
Aprovado.
O SR. DEPUTADO
ESPERIDIÃO AMIN - Obrigado, Presidente.
A SRA. PRESIDENTA
(Deputada Moema Gramacho) - O.k.?
O SR. DEPUTADO
ESPERIDIÃO AMIN - Viva as mulheres! Eu, que represento o único
Estado com designação feminina do Brasil — Santa Catarina —, aplaudo
a reunião.
A SRA. PRESIDENTA
(Deputada Moema Gramacho) - E vamos querer o seu
voto favorável.
O SR. DEPUTADO
ESPERIDIÃO AMIN - O votar, eu apanho em Casa, senhora. (Risos.)
A SRA. PRESIDENTA
(Deputada Moema Gramacho) - Requerimento nº 49/2015,
do Sr. Indio da Costa, que solicita a realização de audiência
pública, com a presença do Sr. Marcelo Vitorino, representante do
Movimento Acorda Brasil.
Em discussão. Em votação. Os Deputados que o aprovam
permaneçam como se encontram.
Aprovados os dois requerimentos.
Eu queria, antes de passar a palavra à primeira convidada,
registrar as presenças de Madalena Palmeira, Secretária Executiva da
Mulher do Partido Democratas; Daniela Teixeira, Secretária-Geral da
OAB do Distrito Federal; Luciana Loureiro, do PSDB Mulher Nacional;
Sandra Quezado, Presidente do PSDB Mulher do Distrito Federal; Laisy
Assunção, Secretária Nacional de Mulheres do Partido dos
Trabalhadores; Fernanda Rosa Pires, Secretária Executiva do Conselho
dos Direitos da Mulher do Distrito Federal.
Oportunamente, nós estaremos fazendo os registros de outras
presenças. Eu queria, também, agradecer a presença das Deputadas não
membros da Comissão da Reforma Política, que fizeram questão de
estarem aqui presentes para não só referendar essa nossa audiência
pública, participar e dar sequência a essa nossa luta por mais
mulheres na política.
Fizemos, anteriormente, um ato de lançamento da nossa
campanha. Já foi feito um lançamento em São Paulo, e fizemos um
lançamento aqui, dentro do espaço legislativo, e eu quero agradecer
a presença de todas naquele lançamento lá no Hall da
Taquigrafia.
Portanto, para não perdermos tempo e darmos início às
convidadas — oportunamente, no nosso tempo de inscrição, nós nos
posicionaremos —, eu queria, de imediato, passar a palavra à
companheira Luana Grillo, representante da ONU
Mulheres.
A SRA. LUANA
GRILLO - Gostaria de cumprimentar as Exmas. Sras. Deputadas e
Deputados, na pessoa da Deputada Moema Gramacho, Exmas. Sras.
Senadoras e Exmos. Srs. Senadores. Eu falo em nome da representante
da ONU Mulheres no Brasil, Nadine
Gasman, que se desculpa por não ter podido participar desta
importante audiência, mas que não queria deixar de apresentar o
posicionamento da ONU Mulheres sobre este importante
tema.
É um prazer para a ONU Mulheres contribuir para o debate
sobre mecanismos que promovam a maior participação e
representatividade feminina no processo político-eleitoral no
Brasil.
Estamos vivendo um momento estratégico internacional. Este é
o ano em que o mundo discute o futuro da agenda internacional, a
agenda pós-2015, na qual o empoderamento das mulheres e a igualdade
de gênero será incorporada em áreas importantes, e receberá o apoio
de públicos decisivos. Há um ano, a ONU Mulheres resgatou
compromissos políticos da declaração Plataforma de Ação de Pequim,
resultante da 4ª Conferência Mundial sobre as Mulheres, de
1995.
A Plataforma de Ação de Pequim é um documento de referência
pela sua abrangência sobre a situação real de mulheres e meninas,
composto por estratégias que têm como objetivo assegurar os direitos
das mulheres, ou seja, de todas nós, em todo o
mundo.
Desde então, houve grandes avanços no Brasil e no mundo. No
entanto, ainda estamos muito longe onde os homens e mulheres gozam
de direitos iguais. A
desigualdade continua sendo marcante. Apesar de um pequeno aumento
no número de Deputadas e Senadoras, a bancada feminina ainda é
insuficiente para equilibrar a representação das mulheres e homens
no Legislativo federal.
Em 2014, foram eleitas 51 Deputadas, seis a mais em
comparação com a bancada de 45 Deputadas eleitas em 2010, o que
significa um aumento de 10% na representação feminina na Câmara dos
Deputados. No Senado, a atual representação feminina conta com 13
mulheres, uma a mais em relação à bancada eleita em 2010, que foi de
12 Senadoras.
Estes dados fazem com que o País ocupe a 71ª posição no ranking de igualdade de
gênero no mundo. Considerando apenas a participação política, o País
estaria em 81º lugar, o que é, definitivamente,
inaceitável.
Aprofundar o debate sobre as perspectivas de superação dos
obstáculos para participação das mulheres brasileiras na política
parlamentar é imperativo. Em março deste ano, a ONU Mulheres lançou,
sob o escopo da declaração e Plataforma de Ação de Pequim, a
iniciativa “Por
um planeta 50-50 em 2030: um passo decisivo pela igualdade de
gênero”.
Essa ação reivindica a paridade de gênero como uma questão
urgente a ser resolvida até 2030, e sintetiza o lema da nossa
Diretora Executiva, a Dra. Phumzile
Mlambo-Ngcuka, que pede urgência e compromisso real para alcançar a
igualdade neste período.
O mundo não pode aceitar, e nem tolerar que metade de sua
população tenha menos oportunidades do que a outra metade. O
empoderamento das mulheres e sua total participação em base de
igualdade em todos os campos sociais, incluindo a participação no
processo decisório e acesso ao poder, são fundamentais para a
realização da igualdade, do desenvolvimento da paz. Este objetivo só
será real se todas as mulheres, em sua diversidade racial, étnica,
geracional, orientação sexual e classe sexual forem atendidas em
suas formas particulares de vivenciar a desigualdade de
gênero.
Países têm escolhido diversos caminhos para promover a maior
participação e representatividade feminina. A cota de 30% é vista
como um ponto de referência crítico, embora diversos países debatam
a paridade e trabalhem em direção a uma composição 50/50 em todas as
instâncias de decisão e poder.
Felicitamos as iniciativas que trazem para o centro do debate
público os limites do atual sistema de disputa político-eleitoral.
Uma proposta de reforma política deve visar instituições inclusivas
e democráticas, as que exigem a participação das mulheres. Afinal de
contas, elas representam a metade da
humanidade.
A sociedade brasileira quer ver mudanças, e a ampla maioria
defende a paridade. Pesquisa do IPG apresenta dados que indicam, de
forma contundente, a demanda da sociedade brasileira pelo
fortalecimento e ampliação da participação das mulheres no espaço de
poder e decisão política. Setenta e um por cento dos entrevistados
consideraram a reforma política importante para garantir 50% de
homens e 50% de mulheres nas listas de candidaturas dos partidos.
Setenta e quatro por cento dos entrevistados acreditam que só há
democracia de fato com a presença de mais mulheres nos espaços de
poder e de tomada de decisão. Oito em cada dez entrevistados
consideram que, sendo as mulheres hoje mais da metade da população,
deveria ser obrigatória a participação de metade de mulheres e
metade de homens nas Câmaras de Vereadores, Assembleias Legislativas
Estaduais e no Congresso Nacional. Setenta e oito por cento
concordam que os partidos deveriam apresentar uma lista de
candidatos composta por metade de homens e metade de
mulheres.
As mulheres se destacam entre os que concordam tanto com a
garantia legal da ampliação da participação feminina no Legislativo
quanto com a ampliação do acesso das mulheres dentro dos partidos.
Por outro lado, sabemos que o envolvimento das mulheres na
política é essencial, mas não é suficiente, por si só, para
transformar a nossa sociedade. Temos de ver mudanças em mulheres
líderes em todos os setores, de modo que sejam capazes de contribuir
para as decisões que afetam as suas vidas e as vidas da sua família,
comunidade e nação.
O Relatório Global “O
Progresso das Mulheres no Mundo 2015-2016: transformar as economias
para realizar direitos”, que a ONU Mulheres lançou mundialmente na
semana passada, propõe que a economia inclua as mulheres e beneficie
a sociedade como um todo.
A participação das mulheres na América Latina e Caribe no
mercado de trabalho teve o maior aumento entre todas as regiões em
âmbito global, de 40 a 54%, entre 1990 e 2013, mas está muito
distante da participação dos homens, 80%. No mundo, as mulheres
ganham, em média, 24% do salário dos homens; na América Latina e
Caribe, a diferença é de 19%.
A partir desse relatório, a ONU Mulheres apresenta a visão de
uma economia mundial em que elas
tenham acesso igualitário aos recursos produtivos como emprego de
qualidade, crédito, tecnologia, propriedade, proteção social,
incluindo serviços e cuidados. E também garanta a elas condições
suficientes para uma vida digna.
Essa visão eliminaria os estereótipos sobre o que as mulheres
e homens podem e devem fazer e garantiria que as mulheres pudessem
trabalhar e viver sem ser alvo de violência.
Esperamos que essa audiência pública tenha o potencial de
gerar insumos para uma agenda positiva para os próximos anos, com o
desafio de pensar essa agenda visando acabar com a desigualdade no
médio prazo; e que as discussões sejam inspiradas e inspirem um
planeta 50%melhor em 2030.
A SRA. PRESIDENTE
(Deputada Moema Gramacho) - Nós agradecemos a companheira Luana
Grillo, representando a ONU.
Gostaria de registrar também a presença da
Secretária-Executiva do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher
—CNDM, Rosa de Lourdes Azevedo dos Santos.
Estou aguardando só a lista de presença das Sras. Deputadas
para fazer o registro.
Eu quero pedir licença ao nosso Relator, porque sei que daqui
a pouco várias Deputadas vão precisar se deslocar, e enquanto
estamos todas aqui presentes, para fazermos uma foto, em que todas
pudessem levantar nossas bandeiras de “mais mulheres no
poder”.
Todos os homens podem levantar.
(Pausa para fotografia.)
Essa
foto é histórica. Nós agradecemos ao Presidente e ao Relator por
esse momento impar que é a presença das mulheres na luta pela
reforma politica que contemple as mulheres.
(Palmas.)
Passo
a palavra à segunda convidada, a nossa companheira Vic Barros,
Presidente da União Nacional dos Estudantes —
UNE.
A SRA. VIC BARROS
- Boa tarde a todos, eu quero agradecer à Câmara dos Deputados por
esse convite, cumprimentar a Deputada Moema Gramacho e a Ministra
Eleonora.
Coincidentemente, essa audiência acontece 2 dias depois de se
finalizar o Encontro de Mulheres da União Nacional dos Estudantes,
que aconteceu nesse último feriado em Curitiba.
Esse encontro de mulheres da UNE bateu recorde de
participação estudantil, com mais de mil meninas estudantes de todas
as Regiões do Brasil, participando para debater a questão do
empoderamento da mulher, para debater as diversas pautas que
mobilizam a luta feministo em nosso País.
Nesse encontro que reuniu mais de mil estudantes jovens de
todas as Regiões do País, a reforma politica foi um dos temas
centrais. Entendemos que só através de uma reforma politica
democrática nós podemos assegurar maior participação das mulheres na
nossa sociedade.
Durante grande parte da história do Brasil Republicano, a
mulher foi excluída de qualquer participação política, pois lhes
eram negado o direito político de votar e de se candidatar. Somente
no começo da década de 30, as mulheres brasileiras conquistaram o
direito ao voto. Na sequência, nós tivemos a primeira mulher eleita
Deputada na história do nosso País, Carlota Pereira de Queiroz.
Somente em 1979, a primeira Senadora foi eleita em nosso País, que
foi Eunice Michiles.
Eu sou de uma cidade do interior de Pernambuco, chamada
Garanhuns, que é a cidade de nascença da ex-Deputada Cristina
Tavares, que foi a terceira mulher nordestina eleita para o
Congresso Nacional e a primeira mulher a liderar uma bancada no
Parlamento brasileiro, na década de 80.
Eu acho que isso só mostra que, durante décadas, a
participação feminina no Parlamento cresceu a passos muito lentos.
Mas eu não posso deixar de prestar a minha homenagem à ex-Deputada
Cristina Tavares, minha conterrânea, que foi muito importante para
abrir portas para as mulheres aqui na Câmara dos Deputados e no
Congresso Nacional.
Hoje as mulheres brasileiras representam cerce 52% do
eleitorado, mas atualmente apenas 11% do Congresso Nacional é
composto de mulheres. Como a Luana, que me antecedeu aqui, bem
colocou, nas ultimas eleições, o povo brasileiro elegeu 51 Deputadas
e 13 Senadoras.
Se pegarmos os dados evolutivos da participação das mulheres
no Parlamento, o que se tem nas últimas décadas é que, no ano de
1982, na Câmara dos Deputados, 1,5% do Parlamento era composto de
mulheres e absolutamente nenhuma senadora. Em 1994, esse número
evoluiu para 6% de mulheres na Câmara dos Deputados e 7 % de
Senadoras. Em 2002, esse número esse evoluiu para 8% de Deputadas e
15% de Senadoras. Atualmente, 9,9% de Deputadas e 18% de Senadoras.
Ou seja, a evolução da participação das mulheres no
parlamento brasileiro ainda é uma evolução bastante lenta. Isso só
mostra a atualidade do debate sobre a reforma política como forma de
acelerar esse processo evolutivo e garantir os espaços das mulheres
que lhe é por direito.
Visto que nós mulheres somos a maioria do eleitorado,
infelizmente nós ainda temos um Congresso Nacional majoritariamente
masculino. O que faz, no final das contas, nós termos, no Parlamento
brasileiro, homens decidindo sobre o direto das mulheres. As
mulheres têm menos possibilidade de interferir nos seus próprios
temas. Então, acredito que é fundamental avançar nesse debate.
O Brasil ocupa hoje no ranking mundial de presença
de mulheres no Parlamento a posição de nº 118. O Brasil está atrás
de quase todos os países da América Latina e atrás de países do
Oriente Médio, como o Iraque e o Afeganistão, que são países que têm
uma presença feminina no parlamento maior do que o Brasil
tem.
Quando averiguamos quais os motivos que, porventura, fazem
com que a participação das mulheres ainda seja tão reduzida no
Parlamento brasileiro, o que percebemos é que as mulheres, embora
sendo a maior parte da população, ainda somos minoria no espaço de
poder da nossa sociedade.
Seja nos espaços acadêmicos da universidade, seja no meio
empresarial, seja nos espaços de representação política ou mesmo no
espaço de formulação de politicas públicas, precisamos ter mulheres
que pensem em políticas públicas para mulheres e que pensem em um
recorte de gênero no conjunto das políticas públicas executadas e
elaboradas pelo Estado brasileiro.
Eu acho que nunca a minha geração teve a oportunidade de ver
o Congresso Nacional debater de forma tão veemente as regras do jogo
democrático brasileiro através de uma reforma política.
Portanto, eu acho que nos cabe refletir sobre quê reforma
política é essa que o Brasil almeja, que o brasileiro precisa para
que consigamos aprofundar a democracia brasileiro, visto que, entre
os motivos que fazem a participação das mulheres no Parlamento
brasileiro seja reduzida, está o fato de que as campanhas eleitorais
são muito caras.
A maior dificuldade é as mulheres acessarem o financiamento
privado de campanha.
Como a Luana bem colocou, nós mulheres ainda não temos em
nosso País igualdade salarial entre homens e mulheres, que cumprem a
mesma tarefa, a mesma função. Há o acesso restrito aos recursos do
fundo partidário, que muitas vezes é distribuído de maneira desigual
pelos homens que controlam as máquinas partidárias.
Hoje pela legislação eleitoral, os partidos precisam destinar
30% de suas vagas às mulheres nas eleições. Essa regra nunca foi
cumprida. Ano passado, foi quando nós chegamos mais próximos de
cumprir essa meta, mas, mesmo assim, apenas 28,6% das candidaturas
eram candidaturas de mulher.
O resultado, vemos na composição do Parlamento, não apenas do
Congresso Nacional, mas também nas outras casas legislativas. Hoje
as mulheres no Brasil representam apenas 11,3% das Deputadas
Estaduais e Distritais. Só 13% das vereadoras brasileiras são
mulheres.
Então, eu acredito que uma reforma politica que pretenda ser
democrática e que venha aprofundar a democracia brasileira precisa
debater com seriedade essa questão da presença das mulheres na
política do nosso País.
A UNE participa da iniciativa da equalização democrática pela
reforma politica que propõe, inclusive, que nas listas proporcionais
exista a paridade de gênero e que pelo menos a metade seja destinada
às mulheres. Acho que isso seria uma iniciativa interessante para
garantir que a composição do Parlamento representasse a composição
do eleitorado e a composição do sociedade. Acredito que assim nós
estaríamos dando uma grande contribuição para a democracia do nosso
País.
Uma pesquisa realizada pela OAB — Ordem dos Advogados do
Brasil, no ano de 2013, mostrou que mais de 80% dos brasileiros
desejam uma reforma politica. Inclusive, mais de 70% dos brasileiros
são contra o financiamento empresarial de campanha. Eu acredito que
estabelecendo regras mais democráticas no jogo eleitoral e
garantindo mais presença das mulheres nas listas partidárias e na
composição das cadeiras do Parlamento, nós conseguiremos avançar e
ter um Congresso Nacional cada vez mais representativo e voltado
para a elaboração de mais direitos para as mulheres de todas as
regiões de nosso País, visto que muitas pautas historicamente
definidas pelo movimento feminista brasileiro se encontram travadas
ou não são apresentadas com a devida relevância nos espaços do
Congresso Nacional.
Então eu acho que o Parlamento está diante de um momento
decisivo ao debater a reforma política para que a gente consiga,
através dessa reforma, aprofundar a democracia brasileira e garantir
mais proximidade entre aquilo que o Estado brasileiro, o Executivo e
o Legislativo debatem e aquilo que a sociedade almeja e necessita em
cada cidade, em cada região do nosso País.
Muito obrigada. (Palmas)
A SRA. PRESIDENTA
(Deputada Moema Gramacho) - Nós é quem agradecemos a presença e
a voz da juventude feminina de Vic Barros, Presidente da União
Nacional dos Estudantes.
Gostaria de dizer que estão presentes ou passaram por aqui,
mas tiveram que se deslocar para audiência com o Vice-Presidente da
República Michel Temer, as seguintes Deputadas: Deputada Raquel
Muniz, Deputada Conceição Sampaio, Deputada Benedita da Silva,
Deputada Christiane de Souza Yared, Deputada Carmen Zanotto,
Deputada Dâmina Pereira, Deputada Gorete Pereira, Deputada Flávia
Morais, Deputada Professora Dorinha Seabra Rezende, Deputada
Cristiane Brasil, Deputada Leandre, Deputada Zenaide Maia, Deputada
Rosângela Gomes, Deputada Clarissa Garotinho, Deputada Erika Kokay;
e que registraram a impossibilidade de estar presentes a Deputada
Luiza Erundina, membro desta Comissão, e a Deputada Jandira Feghali,
ambas por problemas de saúde. Também gostaria de registrar a
presença da nossa Senadora Vanessa Grazziotin, que esteve conosco
presente ao ato e que tem sido uma voz bastante importante para nós
no Senado, junto com as demais Senadoras. Portanto registro essas
presenças e também a de Rose Scalabrin, Secretária de Articulação
Institucional e Ações Temáticas da Secretaria de Políticas para as
Mulheres.
Passamos a palavra à próxima convidada, companheira Guacira
Oliveira, Diretora do Centro Feminista de Estudos e Assessoria —
CFemea.
A SRA. GUACIRA
OLIVEIRA - Boa-tarde, Deputada Moema Gramacho, Ministra Eleonora
Menicucci, Deputado Marcelo Castro, minhas companheiras da ONU
Mulheres e da União Nacional dos Estudantes, a todos e a todas que
estão aqui. Quero dizer que venho para este debate com a disposição
de sempre, ou seja, de lutar para garantir paridade às mulheres nas
decisões e a democratização do poder no nosso
País.
Eu faço parte dessa organização que se chama CFemea e sou
militante da Articulação de Mulheres Brasileiras, organização que
integra a Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema
Político, e da Coalizão pela Reforma Política Democrática e Eleições
Limpas. Nós nos engajamos com muita decisão e com muita força em
todo o processo de mobilização do plebiscito popular pela reforma do
sistema político, pela Constituinte exclusiva para a reforma do
sistema político. Enfim, estamos há muito anos nessa trajetória de
luta pela participação paritária das mulheres e pela democratização
do poder. E eu gostaria de dizer que o Congresso Nacional, a Câmara
dos Deputados, onde estamos hoje, está devendo de verdade para as
mulheres, e para o povo brasileiro de maneira geral, um sistema
político que seja capaz de garantir a participação igualitária das
mulheres nas decisões que são tomadas neste
País.
Eu gostaria também de lembrar que quando foi convocada a
Assembleia Nacional Constituinte, quase 30 anos atrás, as eleições
de 1986 registraram um aumento da participação política das mulheres
de 1,8% para 5,3%, então, um aumento de 294% do número de mulheres
no Parlamento brasileiro. De lá para cá, o que foi feito em quatro
anos para derrubar a ditadura militar não foi feito nesses 30 anos
de democracia. A participação política das mulheres não é
viabilizada por causa de um sistema político machista, patriarcal e
racista que impede essa efetiva participação. E eu acho que é um
compromisso importante que a Câmara e o Congresso Nacional devem
assumir nesse momento: democratizar de verdade o poder garantindo
condições para que as mulheres possam dividir paritariamente o
poder.
Quero dizer que nós nos movimentos de mulheres e as mulheres
nos diferentes partidos políticos colocamos muita força durante
esses 30 anos para transformar essa situação e garantir a nossa
participação. Todas as mudanças que foram feitas na legislação
tiveram à frente mulheres importantes aqui dentro do Parlamento, e
houve uma mobilização importante dos movimentos de mulheres e de
feministas em toda a sociedade brasileira. Foi assim com a política
de cotas, quando veio uma proposição, a partir de uma grande demanda
e mobilização das mulheres no âmbito da Conferência Mundial sobre a
Mulher, em Beijing, em 1995, e toda a bancada feminina, tendo como
autora principal a então Deputada Marta Suplicy, apresentou um
projeto de lei para garantir cota para as mulheres nas eleições.
Essa cota foi aprovada, pois havia de verdade uma base social
reivindicando isso, mas tudo o que se aprovou durante esses anos
todos aqui no Congresso Nacional se tornou diluído e quase inócuo do
ponto de vista da viabilização da participação igualitária das
mulheres. Assim, houve uma cota de 30%, mas isso praticamente não
teve nenhum resultado em termos de garantir candidaturas efetivas e
viáveis para as mulheres.
Passados alguns anos, houve novas mobilizações e a bancada
feminina teve um papel importante naquele momento nesses debates, e
veio a tal minirreforma eleitoral. Os 30% eram reservas das vagas de
candidatura, as quais já haviam sido aumentadas em número
proporcional às cotas. Quer dizer, antes as vagas eram 100%,
passaram para 130%, porque havia 30% de candidaturas de mulheres,
mas não eram nunca preenchidas. Nunca nenhum partido preencheu os
30% e então se tornou obrigatório preencher os 30%. Isso significava
que tinha que cortar o número de homens candidatos para ter, pelo
menos, 30% de mulheres e 70% de homens. E o que aconteceu? Novamente
houve 30% de mulheres e 70% de homens, mas, incrivelmente, um passo
que deveria ser político se tornou uma formalidade inócua, pois não
mudou o número de mulheres que participam dos espaços de poder.
Então hoje o que a gente quer dessa reforma do sistema político —
que está extremamente restrita a uma reforma eleitoral, e nós não a
entendemos assim — é que ela seja de verdade e que seja capaz de
transformar essa situação.
Quero dizer que nós temos uma crítica contundente nos
movimentos de mulheres e movimentos feministas. Há todo um debate
sobre a questão do voto distrital e do voto distrital misto. A
experiência em todo o mundo demonstra que voto distrital e voto
distrital misto são absolutamente avessos à entrada dos que sempre
estiveram sub-representados ou excluídos dos espaços de poder e de
decisão nos vários países. Então, para nós mulheres, toda a
discussão relacionada a voto distrital e a voto distrital misto
significa ir mais atrás do que o que nós já estamos em termos de
garantir condições para as mulheres, para os negros, para os povos
indígenas, para os trabalhadores, para as trabalhadoras poderem
estar nos espaços de representação política.
No movimento de mulheres, como já disse a companheira da
União Nacional dos Estudantes, nós defendemos paridade, lista
fechada com alternância de sexo e financiamento público de campanhas
eleitorais; porque nós não queremos uma participação política para
apenas um determinado estrato social de mulheres. Nós queremos que
as mulheres, na nossa diversidade, possamos estar representadas
nesses espaços de representação política. E com o poder político
totalmente subalterno ao poder econômico, dado o financiamento
privado de campanhas eleitorais, não é possível, para a grande
maioria das mulheres, também por razões econômicas, disputar com
candidaturas viáveis os espaços de poder a que nós temos direito,
porque democracia para valer tem que ser com a participação
igualitária, paritária das mulheres na nossa diversidade.
É isso o que eu tinha para colocar.
Obrigada!
(Palmas.)
A SRA. PRESIDENTE
(Deputada Moema Gramacho) - Nós agradecemos a companheira
Guacira Oliveira, representando aqui o CFEMEA, que tem contribuído
tanto para a luta das mulheres. E eu queria também registrar a
presença da Deputada Keiko Ota, que também esteve entre nós e pediu
desculpas, porque precisou sair.
E agora, passamos imediatamente a palavra à nossa Ministra da
Secretaria de Políticas para as Mulheres, Dra. Eleonora Menicucci.
A SRA. MINISTRA
ELEONORA MENICUCCI - Eu quero cumprimentar todas e todos. Quero
cumprimentar o Presidente da Comissão, Deputado Rodrigo Maia, aqui
presente. Quero cumprimentar a Deputada Moema Gramacho, que dirige
esta audiência. Cumprimento o Deputado Marcelo Castro, Relator desta
sessão. Cumprimento minhas colegas e companheiras de Mesa, todas
amigas há muito tempo: a Guacira, do CFEMEA; a Luana, que, até há
pouco tempo trabalhava conosco, hoje está na ONU Mulheres, e a
guerreira Vic Barros, Presidente da UNE, a quem tenho grande prazer
de ouvir.
Em primeiro lugar, eu quero dizer da importância desta
audiência. Que outras audiências rapidamente se repitam, para criar
a cultura da participação política das mulheres na reforma do
sistema político, não na reforma política!
Hoje, nós lançamos um vídeo com a minha fala, chamando as
mulheres a participar. O vídeo está no nosso site, está no Blog do Planalto, no
Planalto. Esse vídeo é público, é gratuito. Todo mundo pode
retirá-lo, utilizá-lo e fazer uso dele para trazer as mulheres para
a reforma política.
(Exibição
de vídeo.)
Acesse
a nossa página na Internet e deixe suas opiniões. Vamos juntas e
juntos construir um sistema político mais plural, paritário e
representativo. (Palmas.)
Dando sequência, quero levantar quatro tópicos, porque várias
coisas que eu falaria já foram ditas e eu apenas reafirmo todas. Nós
na SBM consideramos que a reforma política, para contemplar
realmente 52,1% da população que são as mulheres, tem que ser
necessariamente uma reforma política com lista paritária de
gênero.
Consideramos que a proposta de distritão ou reforma política
por distrital tende a impedir a participação das mulheres e a
participação das minorias, que têm que estar representadas nas Casas
Legislativas do nosso País.
Esse debate se torna importante para nós construirmos
realmente o que se entende por um sistema político paritário,
sistema político de distrital ou distrital misto. Eu acho que nós
temos que avançar nisso, porque a própria sociedade não entende
quando se fala dessa maneira.
A terceira coisa: os recursos partidários têm que ser
distribuídos com equidade de gênero. Não basta tê-los nos seus
estatutos. É fundamental que eles sejam distribuídos com equidade,
que o tempo na televisão para campanhas políticas seja também de
forma equitativa para os homens e para as mulheres e que o nosso
sistema político, para resgatar e pagar essa dívida política que tem
com as mulheres, historicamente, secularmente, tem que ser mais
inclusivo e mais participativo, porque só assim as mulheres terão
condições de saírem de casa e terem a participação política
garantida.
Um dos fatores estruturantes da não participação política das
mulheres é a dupla jornada de trabalho conhecida como a divisão
sexual do trabalho. Quer dizer, na década de 70 as mulheres foram
para o mercado de trabalho. Nós mulheres fomos para o mercado de
trabalho, mas os homens não foram para dentro de
casa.
(Não
identificado) - Alguns. (Risos.)
A SRA. MINISTRA
ELEONORA MENICUCCI - Alguns. Mas 49% têm que ir. Essa divisão
sexual do trabalho é a base, não tem como não mexer nisso, falar
numa reforma política sem mexer nisso, pelo menos,
citá-lo.
O financiamento público de campanha facilita, sem dúvida
nenhuma, a participação das mulheres, a participação política das
mulheres. É cientificamente demonstrado que os homens têm mais
facilidade, mais condição, de conseguir financiamento não público de
campanha do que as mulheres, por causa da história secular na
política. Não é por outra coisa. É por causa da história secular na
política.
Eu queria citar mais três questões. Eu defendo os 30% das
vagas legislativas para as mulheres. Eu defendo também os 30% em
todas as Mesas Diretoras, porque não se pode pensar num Parlamento
ainda com a cara masculina, com a face masculina, porque os dados
mostram que nós somos maioria — 52,1 — e mãe da outra metade, a
outra metade é homem. Então, como é que nós não estamos
representadas? Todos nós aqui, homens e mulheres, nascemos do útero
de uma mulher.
Por que a representação política tem que ser tão desigual
como ela é? O mundo político é o mundo das mulheres também. Isso é
uma cultura. Nós temos que quebrar essa cultura de que o mundo
político é masculino. E mais grave ainda: o mundo político não pode
continuar sendo masculino e branco, porque 48% da população é negra.
Então, o acesso dessa população — homens e mulheres negros — na
política é fundamental.
Eu não vou aqui gastar o tempo falando da desigualdade de
acessos entre a população negra e a população não negra, ou entre a
população branca e a população não branca. Mas tem um dado que me
chama a atenção: de 513, na Câmara dos Deputados; 79,9% são brancos e brancas; 15,81% pardos e 4,29% negros. É gravíssimo isso. Se as
mulheres são só 13% do Parlamento, as mulheres negras são só 2: a
Deputada Benedita da Silva e a Deputada Rosângela
Gomes.
(Não
identificado) - São três.
A SRA. ELEONORA
MENICUCCI - Qual é a outra?
(Não identificado)
- A Deputada Tia Eron.
A SRA. ELEONORA MENICUCCI
- A Deputada Tia Eron, exatamente, da Bahia.
Vejam, é muito pequeno, é muito desigual. Nós precisamos
romper com essa desigualdade. Eu me somo como mulher, como mãe, como
avó, como Ministra de Estado hoje — que tenho muita honra de sê-lo
no Governo da Presidente Dilma —às vozes de todas as Parlamentares
na defesa de mais mulheres na política, todo o movimento de
mulheres, movimento feminista, movimento de mulheres do Brasil e de
todos os movimentos que defendem a maior participação das mulheres
na política.
Então, nós temos que unir forças. Ver o que nos une e
traçarmos uma estratégia. O que não nos une nós vamos discutir no
âmbito dos partidos e no âmbito do Congresso, mas, naquilo que nos
une, nós temos que unir forças e chamarmos cada vez mais a sociedade
para participar e fazer pressão sobre o Parlamento para que seja
votada uma reforma política que satisfaça e que atenda aos anseios
de 52,1% da população, que somos nós mulheres.
Muito obrigada.
A SRA. PRESIDENTA (Deputada
Moema Gramacho) - Nós agradecemos à nossa Ministra da Secretaria de
Políticas das Mulheres não só por sua participação, mas também pelo
vídeo exibido, que demonstra sua preocupação em alertar todos e
todas sobre a necessidade de ampliarmos a nossa
Representação.
Nós esperamos que esse vídeo possa ser reproduzido por todas
as mulheres e os homens que acreditam nas
mulheres.
A SRA. ELEONORA MENICUCCI
- Pode.
A SRA. PRESIDENTA (Deputada
Moema Gramacho) - Também esteve aqui a Deputada Soraya Santos. E eu
queria, nobre Relator, dizer que durante esse período, desde que
começou essa Audiência Pública até agora, tivemos a presença de 20
Sras. Deputadas e 1 Senadora, o que considero bastante
representativo. Considerando a tarde de hoje uma tarde em que temos
muitas atividades acontecendo, inclusive, uma das atividades diz
respeito também à questão de gênero, que é um encontro com o
Vice-Presidente da República, Michel Temer. Portanto, termos aqui 20
Deputadas que passaram ou que estão presentes é muito importante
para todas nós, e também a presença de uma
Senadora.
Queria dizer também que queremos agradecer a presença da
imprensa presente, de representantes da imprensa, de representante
da Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras
Domésticas.
Quero agradecer a presença de Gleide Andrade, Vice-Presidente
do PT Nacional; de Kátia Maria, representando a Universidade Federal
de Goiás e Vice-Presidente do PT de Goiás; também da Sra. Érika
Ferraz, representante da Secretaria Nacional da Mulher do Partido
Solidariedade. Quero também agradecer a presença de Margarida
Chaulet, líder da Frente Parlamentar Suprapartidária das Mulheres,
representando dez partidos políticos. Quero também registrar a
presença de Katia Almeida, da SMDH, Sociedade Maranhense de Direitos
Humanos, aqui do escritório de Brasília. Quero também registrar a
presença de Regina Heurich Perondi, Presidenta do PMDB Mulher do Rio
Grande do Sul, 1ª Vice-Presidenta do PMDB Mulher Nacional. Assim,
nós agradecemos todas essas presenças.
Após a fala de todas as nossas convidadas, nós queremos
passar a palavra ao Relator, Deputado Marcelo
Castro.
O SR. DEPUTADO
MARCELO CASTRO - Eu quero cumprimentar todos que estão aqui.
Cumprimento, em especial, as mulheres que estão hoje aqui na luta
por maiores espaços na política brasileira. Cumprimento a nossa
Ministra Eleonora Menicucci, que nos honra aqui hoje com a sua
presença e o seu brilhantismo de sempre. Cumprimento a Guacira
Oliveira, que é do Centro Feminista de Estudos e Assessoria, esse
nome tão sugestivo, CFEMEA. Cumprimento a Vic Barros, que é a
Presidente da UNE, tradicional entidade brasileira, e a Luana
Grillo, representante da ONU.
Digo que esse é um tema em que estamos atentos desde o
início. Eu acho que chegou a um ponto em que precisamos deliberar
sobre isso e levar em consideração todas essas informações que
V.Exas. e V.Sas. trouxeram aqui para nós, e V.Exa. também nos
trouxe.
A nossa Ministra Eleonora diz que as mulheres são 52% da
população brasileira. Eu ouvi outro dia, Ministra, num debate que
fiz sobre a reforma política, a interferência de uma pessoa, de uma
mulher, que dizia que representam 52% da população brasileira e são
mães do restante, 48%. Então, as mulheres dominam tudo, os 100% são
das mulheres.
E é evidente que a situação da mulher no Parlamento
brasileiro é vexaminosa. Essa que é a palavra correta, porque se nós
nos compararmos com a maioria das regiões do mundo, inclusive, na
própria América Latina, onde nós estamos inseridos, o Brasil fica
numa situação muito abaixo dos outros países. E evidentemente que a
gente precisa marchar no sentido de ter uma participação maior das
mulheres.
Aliás, na minha cartilha de reforma política que eu distribuí
no primeiro dia, faço aqui a mea culpa de público, eu não
incluí a questão das mulheres. Mas, num documento que eu já
distribuí posteriormente já estou incluindo que é um dos pontos que
a gente precisa tratar na reforma política.
E a nossa Eleonora aqui falou que... Eu queria dizer que a
questão da sub-representação da mulher nos Parlamentos é universal.
Não se espantem com isso, não. Mas a verdade é que há uma
sub-representação das mulheres nos Parlamentos da maioria dos países
do mundo. Onde as mulheres têm tido uma participação mais efetiva é
onde o sistema eleitoral é o sistema eleitoral de lista preordenada,
principalmente nos Parlamentos europeus. Aqui na América Latina,
temos exemplo da Argentina, do Uruguai. Então, onde há lista
preordenada, as mulheres sempre têm uma participação mais
expressiva. É a história que nos ensina isso daí. E as razões, como
foi dito aqui por todos, são inúmeras, mas, sem nenhuma dúvida, a
razão principal, no meu entendimento, respeito quem pensa diferente,
é a razão econômica.
O poder econômico, verdadeiramente, principalmente para o
Parlamento, dita as regras de quem deve e de quem não deve ser
eleito, e o pode econômico historicamente não está com as mulheres,
tem estado com os homens. Por isso, dentre outras razões históricas,
culturais, como foi dito aqui, de machista, patriarcal e tudo mais,
mas, mesmo assim, o poder econômico eu acho que ó fator
preponderante. Ou seja, se o poder econômico saísse da mão dos
homens e fosse para a mão das mulheres, com certeza, a relação não
seria igual a que nós temos aqui.
Agora, Guacira, se a senhora me permite uma observação, a
senhora falou que o voto distrital e o distrital misto levam as
mulheres a uma situação mais atrás, pior do que o que está. Eu quero
discordar, com toda vênia, com todo respeito, pelo seguinte: o voto
distrital misto, como o nome está dizendo, a metade dos
Parlamentares é eleita pelo distrito, e a outra metade é eleita pela
lista preordenada. E onde a lista prevalece, nos países que adotam a
lista, a participação das mulheres é sempre maior. Mesmo que não
haja um regramento de paridade, sempre a participação das mulheres é
maior. Por quê? É compreensível. Qual o partido que teria coragem de
fazer uma lista preordenada sem incluir as mulheres? Na mesma hora
ele teria a repulsa, a antipatia das mulheres, que iriam para a
televisão: não votem nesse partido, é um partido machista, não
incluiu as mulheres, as mulheres não estão sendo representadas. E
todo partido, naturalmente, procuraria incluir as
mulheres.
Então, não tem como, Guacira, o sistema distrital misto
piorar a situação que as mulheres têm. Pelo contrário, pelo menos a
metade de 50%, um quarto das representantes teria obrigatoriamente
que ser mulher. Suponhamos que a gente colocasse isso aqui no
Brasil, o sistema distrital misto. A metade dos Parlamentares seriam
eleitos pelo distrito, e as mulheres não estavam proibidas de
disputar o distrito. Então, de alguns distritos viria mulher para
aqui, e a outra metade, os outros 50%, pelo menos se botasse em
paridade de gênero, a metade seria de mulher. Então, estaria
garantida a participação das mulheres, no mínimo, em 25% e mais as
mulheres que fossem eleitas no distrito. Poderia passar de 30%,
quando hoje só temos 10% do Parlamento. E não chega nem a 10%
direito que são de mulheres. Então, só para fazer essa pequena
correção.
O sistema distrital eu acho que não ajuda as mulheres, que é
praticamente o sistema que nós temos hoje, o sistema de lista
aberta, que as campanhas são individualizadas. E aí prevalece o
personalismo, o poder econômico e, naturalmente, as mulheres levam
desvantagem no nosso sistema eleitoral. Os números aí estão a
mostrar.
Então, feita essa pequena observação, devo dizer que a
participação das mulheres vai depender muito do sistema eleitoral
que viermos a adotar aqui na Câmara dos Deputados. E, dependendo do
sistema, as mulheres poderão ter uma participação maior ou
menor.
Quanto à questão de vagas, de reservar uma cota para as
mulheres, esse é um assunto que vamos levar para a Comissão de
Reforma Política e vamos discutir com bastante responsabilidade. A
gente sempre estranha um pouco essa questão de cotas, porque, na
hora que a gente botar uma cota para mulher, o negro vai querer uma
cota também. E aí quem irá ter mais direito? Os índios vão querer
outra cota, os deficientes vão querer outra cota. Aliás, ontem, no
Piauí, fiz um debate na OAB e os deficientes pediram 20% das cotas,
das cadeiras de Deputados para eles. É natural que seja
assim.
Se nós pudéssemos encontrar outro caminho. Por exemplo, se
nós aprovássemos aqui o sistema de lista pré-ordenada, estaria
resolvido o problema das mulheres, da representação das mulheres.
Mas nós sabemos que isso, dificilmente, será
aprovado.
Fiz uma pesquisa no Plenário e só 9% dos Parlamentares são a
favor do sistema de lista pré-ordenada e de lista fechada. Fica aqui
o nosso respeito e a nossa consideração. Não vou enrolar as
mulheres. É um assunto que vou tratar com todo carinho, com todo
respeito, com toda seriedade na Comissão de Reforma
Política.
O meu compromisso que eu tenho com a Comissão de Reforma
Política é que aquilo que a maioria se inclinar fará parte do meu
relatório. Está muito mais nas mãos da Comissão do que nas minhas.
Mas, evidentemente, eu levaria a minha
opinião.
Muito obrigado. (Palmas.)
A SRA. DEPUTADA MOEMA
GRAMACHO - Obrigada Relator, Deputado Marcelo Castro. Anuncio
que a Deputada Raquel Muniz também deu entrada em requerimento de
teor semelhante, portanto, nós duas falaremos como autoras dos
requerimentos.
Solicito que alguém marque o meu tempo, por favor. Eu queria
começar dizendo que me senti muito contemplada com as falas de todas
as convidadas. Todas deram contribuições muito importantes no
processo de discussão sobre a nossa participação no processo
político.
Eu gostaria de começar com um assunto de caráter nacional e
internacional, afirmando que é uma vergonha para o Brasil ocupar a
posição de 124º lugar na participação das
mulheres.
Nobre Relator, praticamente, quase toda a América Latina, tem
um percentual maior do que do Brasil. Vou listar para o conhecimento
de V.Exa a participação das mulheres: Bolívia, possui 53% de
mulheres; Cuba, 48%; Equador, 41% de mulheres. Falo do Legislativo,
Deputadas, não necessariamente Senadoras, que é uma outra discussão.
Estou abordando só um aspecto. Estou falando só da América Latina.
Argentina: 36%; Colômbia, 19%; Venezuela, 17%; Uruguai, 13%. O
Brasil oscila entre 10% e 12%.
O Brasil está abaixo de quase todos os países da América
Latina. Eu não listei os outros países fora da América Latina, até
porque a vergonha é ainda maior. Isso mostra o quanto nós precisamos
avançar como País no tocante à representação
feminina.
Aqui no cenário mais próximo de nós — anuncio a chegada da
Deputada Ana Perugini, que acabou de chegar , completando 21 Sras.
Deputadas — temos 513 Parlamentares. Foram eleitas 51 e temos 50
Deputadas. Dos 28 partidos que compõem a Câmara Federal, onze não
têm representação feminina. O que mostra que, apesar das cotas para
as candidaturas, o número de Deputadas não avançou como seria
necessário. Nós temos de fazer uma reforma política que passe por
uma série de questões, dentre elas as cotas, mas também precisamos
passar por condições efetivas de garantia de participação das
mulheres na política, através dos partidos políticos, através dos
diversos outros mecanismos.
A cota para a participação das candidaturas cumpriu um papel.
Nós não estamos mais na discussão da cota para a candidatura, nós
queremos cota de vagas. Obviamente, se passar, qualquer que seja o
sistema político, nós gostaríamos que essas cotas fossem
respeitadas. E se passaram as listas? Melhor ainda, porque os
partidos seriam obrigados, no momento da confecção de suas listas,
apontar alternadamente um homem e uma mulher, se passasse a
paridade. Nós estamos sendo condescendentes, pois somos mais de 50%
da população, mas nos conformamos em começar com 30%. As listas
alternadas garantiriam essa alternância de 30% das mulheres no
processo das vagas nos processos eleitorais.
Eu queria dizer que não bastam as vagas. Nós precisamos
discutir o que é melhor para as mulheres no sistema eleitoral. Em
qualquer sistema, com certeza, nós vamos brigar pelas cotas. Mas há
um que a gente não quer nem o sistema, que é o distritão. Nós não
podemos concordar com o distritão. Não só em nome das mulheres, mas
em nome da representatividade popular. Mulheres serão em extrema
minoria se conseguirem alcançar, serem as primeiras mais votadas nos
nossos Estados, principalmente por todas as condições que aqui já
foram colocadas.
Nós seremos efetivamente minoria, menor ainda,
redundantemente falando do que somos. Sem contar que indígenas e
negros serão extintos definitivamente do Parlamento, nem para inglês
ver. Serão extintos definitivamente do Parlamento, se passar o
distritão. (Palmas.)
Como mulheres, nós temos de trabalhar na defesa da
representatividade de gêneros e das minorias. A nossa luta é contra
o distritão. Ela tem de estar acentuada. Se nós não fizermos gestões
nesse espaço, a sociedade se manifestando, as mulheres se
manifestando, tende a passar o distritão e a reforma política vai
ficar pior do que está.
Se o sistema hoje é falido, irá ficar falido e meio, porque
nós não vamos ter a representação dos pobres, dos indígenas, dos
negros nem das mulheres no distritão. Será a mesma política das
Capitanias Hereditárias, dos velhacos da política, do poder
econômico e, na melhor das hipóteses, dos históricos por mérito. Não
descarto que há muitos companheiros e representantes do povo que têm
o seu mérito, mas se eles se perpetuarem em razão do mérito no Poder
nós não vamos ter representação na política e nem
representatividade.
Por isso, nós reivindicamos que não passe o distritão. As
mulheres não podem defender o distritão. Também não podemos defender
o sistema empresarial, o financiamento empresarial, por quê? Porque
é nefasto para as mulheres, nós recebemos salários menores do que os
homens, as mulheres negras recebem salários menores ainda do que as
mulheres brancas. Na grande maioria não ocupamos chefias nas
empresas. Não somos donas de empresas na grande maioria. Não temos,
portanto, o capital financeiro à nossa disposição. Não temos o
financiamento público, que pode ser associado à pessoa física, que
não é tirar dinheiro da saúde e da educação. Os fundos partidários
podem — não precisam ser aumentados como foram — baratear as
campanhas. Agregado a isso, precisa ser garantido tempo de televisão
às mulheres, sem pirotecnia, basta deixar as mulheres mostrarem a
cara delas para elas dizerem a que vieram na política. Com certeza,
elas irão fazer uma disputa em igualdade. Mas nós não temos nem
tempo igual na televisão. Nós não temos recurso para fazer a
campanha nem tempo de televisão.
Associado à reforma política, temos de ter regramentos, que
tem de ser fiscalizados, a fim de que possamos ter oportunidade de
igualdade para se candidatar e de disputar. Eu acho que a gente tem
de defender o financiamento público e de pessoa física com limites,
sendo que isso não signifique tirar dinheiro da saúde e da educação.
Significa o seguinte: se algum empresário como esses que estão
envolvidos nos escândalos quiserem continuar contribuindo com a
política devem contribuir com beltrano, fulano, sicrano ou com
partido A, B ou C, devem contribuir com o Fundo Partidário, que será
distribuído aos partidos. Aí não há troca de favores. Não há Poder
econômico exercendo sobre quem vai legislar ou governar. Acho que as
mulheres devem fazer, efetivamente, parte do processo não só com as
cotas, mas com todas essas questões.
É claro que para nós a cota é simbólica. Nós temos de focar
nas cotas, mas não podemos deixar de considerar que todo o processo
da reforma política nos interessa.
Nobre Relator, parabenizo V.Exa. Estava muito feliz com a
condução de V.Exa. durante todo esse processo. Estou mais feliz
ainda com esta Audiência Pública, que está permitindo às mulheres
falarem. Mas sinto-me angustiada, tenho medo que V.Exa. seja
abduzido pelo seu partido (Palmas) e que faça um
relatório que não espelhe o desejo da população e dos que
transitaram por essas audiências públicas. Parabenizo o Presidente,
Deputado Rodrigo Maia, que foi extremamente democrático na condução
dos trabalhos. Se o relatório ou o que foi aprovado lá fora não foi
o nós esperamos, não foi por culpa nem de V.Exa. nem do Relator.
Tenho que dar o meu testamento do quanto foi democrático o processo
nesta Comissão e o quanto foi aberto ao diálogo e às Audiências
Públicas. Parabenizo V.Exas. por isso. Mas tenho receio, sim, que o
relatório seja o que espelha a própria vontade do
Relator.
O Relator lançou uma cartilha que, por mim, não precisava nem
sentar mais para discuti-la. Eu me senti contemplada com vários
pontos da cartilha que ele lançou no início da discussão. Assim como
gostei da postura dele durante todo o processo.
Depois que nós ouvimos a representação do PMDB dizer quais
eram as suas propostas, fiquei meio preocupada. Quero finalizar,
dizendo que espero que nós possamos sensibilizar com essa
audiência...
O SR. DEPUTADO
MARCELO CASTRO - Deputada Moema Gramacho, se V.Exa me permite,
no primeiro dia da reunião da nossa Comissão, do nosso primeiro
encontro, em que eu distribui a cartilha, fiz um compromisso com a
Comissão: de que eu relataria não o que estava naquela cartilha —
ali seria o meu pensamento —, mas eu não seria o Relator de mim. Eu
seria o Relator da Comissão
O compromisso, Deputada Moema Gramacho, está mantido. Então,
eu relatarei o pensamento de V.Exa., o pensamento do Deputado
Afonso, do Deputado Rodrigo Maia, do Deputado Rubens Otoni, o
pensamento da Comissão de Reforma Política. Não há abdução.
A SRA. DEPUTADA MOEMA
GRAMACHO - Vou fazer um grande esforço, assim como a Deputada
Raquel Muniz e as demais Deputadas componentes da Comissão, bem como
os Deputados, que acreditam na necessidade da representatividade
feminina, para que nós possamos, na discussão deliberativa da
Comissão, aprovar os nossos 30% de mulheres, para que essa seja a
expressão para ser incluído no relatório de V.Exa., para ser levado
à apreciação do Plenário.
Estaremos lutando no Plenário para que seja aprovado os 30%
de vagas para mulheres. (Manifestação no Plenário.)
Hoje fizemos um lançamento aqui na Câmara, não chegamos a ir à
Chapelaria, que era o nosso desejo, porque a Chapelaria já foi a
simbologia da presença masculina, do chapéu, e tiramos o nosso
chapéu para a presença das mulheres. Gostaria muito que nós
pudéssemos ver o nosso Plenário aprovando os 30% para as mulheres,
para que as vozes das ruas, com hashtag, representem-me,
fosse ouvida e aprovada a participação maior das mulheres na
política. (Palmas.)
Passo a palavra à nossa Deputada Raquel Muniz. Que também é
proponente.
A SRA. DEPUTADA
RAQUEL MUNIZ - Cumprimento o nosso Presidente, Deputado Rodrigo
Maia, o nosso Relator, Deputado Marcelo, Deputada Moema Gramacho e
os demais presentes. Acho que todos falaram bastante. Eu queria
fazer um relato da minha chegada à Comissão, ou melhor, a minha
chegada à Câmara.
Venho de um Montes Claros, um Município mineiro, que fica no
norte de Minas. A nossa Câmara de Vereadores sempre teve a presença
de uma mulher. Muitas vezes, não havia nenhuma, mas agora sempre
temos. Nunca tivemos uma Prefeita. No Estado, ainda não tivemos uma
Governadora. Isso é mais ou menos a realidade do nosso
País.
Chego aqui, depois de ser mais de 4 filhos e avó. Juntamente
com o meu marido, sempre participei da política. Ele foi Vereador,
Deputado Estadual, hoje é Prefeito de uma grande cidade no norte de
Minas. Agora chegou a minha oportunidade de estar aqui. Acho que
valeu a pena. Trabalhar
nesta
Comissão, de maneira democrática, ainda que na composição da
Comissão não haja uma mulher na Mesa.
Na Legislatura passada, o Vice-Presidente Michel Temer
conseguiu fazer desta Comissão, na reunião em que ele esteve, a que
teve maior frequência durante todo o trabalho da Comissão. S.Exa.
revelou, como já sabíamos, que ele sempre teve um grande carinho com
as mulheres. Acho que por isso hoje a grande maioria delas foi ao
seu encontro, a fim de pedir o seu apoio, porque nós vimos que ele
realmente tem muita força. Quando ele esteve aqui, ele relembrou
que, na Legislatura passada, foi possível as mulheres terem direito
a voz e voto no Colégio de Líderes. A gente agradece aos Deputados
que estavam aqui antes e que conseguiram aprovar. Temos que
agradecer à maioria dos Deputados, que eram homens, e às poucas
mulheres, menos de 10%, também.
Aqui, na Comissão, a gente discutiu vários assuntos relativos
à reforma política. Escutamos, algumas vezes, a minha voz e a da
Deputada Moema Gramacho, perguntando aos palestrantes e a quem
estivesse aqui qual era a opinião deles acerca da reforma política
para ter mais participação das mulheres. Sempre foram muito
educados, mas a gente sabe da dificuldade. Num Parlamento com a
maioria de homens, a gente sabe que isso não vai ser uma tarefa
fácil.
Confesso a vocês que eu nunca gostei muito das cotas. Eu
conquistei tudo na minha vida através de concurso público,
concorrendo com os homens, e consegui vencê-los. Muitos ficaram para
trás. Fui fazer Medicina, depois fui fazer Pedagogia, porque eu não
tinha dinheiro para custear o curso de Medicina, porque não havia
crédito educativo nem FIES naquela época. Concorri com muitos homens
e já era mãe, e eles não me consideravam nem como mulher na turma.
Eles falavam: “Há três
mulheres, mas a Raquel é casada, então, não considera.” É tão
bom quando a gente conquista as coisas sem precisar dessa ajuda,
minha gente. A gente quer essa ajuda transitoriamente. Com certeza,
quando as mulheres puderam sair de casa não só para casar, quando
elas puderam ir para as escolas, elas se tornaram a maioria em
muitos cursos que eram predominantemente de homens, por exemplo,
Engenharia. Eu acompanhei isso, porque eu ajudei a levar o ensino
superior para a minha região. O curso de Engenharia começava com
muitos homens e hoje há turmas em que as mulheres são a maioria.
Então, se nos derem espaço, nós vamos ocupar esse espaço, não é
preciso ficar cota definitiva. Mas peço que nos deem isso de maneira
mais inteligente. Essa coisa de colocar que 30% dos partidos têm que
ter mulher, todo mundo sabe que isso é uma mentira. Ficam atrás das
mulheres para que elas possam se inscrever no partido. Nós queremos
isso de verdade, mas acredito que de maneira transitória.
Quero revelar a vocês por que a Deputada Raquel Muniz usa
terno. Vocês conhecem a história das sufragistas? São as mulheres
que, há menos de 90 anos, lutaram pelo direito de votar. As mulheres
não podiam nem votar. Nós conquistamos isso. Eu vim para a reforma
política para continuar a luta dessas mulheres vestida num termo.
Acho que a gente pode usar o chapéu, a gravata, mas a gente usa o
batom. Há uma diferença. Deus nos deu a capacidade de ser mãe. Eu
não quero perder isso nunca, nem que nenhuma das mulheres perca.
Nós estamos em maio, o mês que homenageia as mães. Temos a
capacidade de gestar e de cuidar. A gente é capaz de cuidar da nossa
casa, dos nossos filhos, dos nossos maridos, da nossa família, da
nossa comunidade, e a gente também pode cuidar do nosso País. Espero
a sensibilidade, sim, de todos os Parlamentares, para que nos deem o
que é digno.
Espero que nos paguem essa dívida, assim como tentam pagar
também o momento da escravidão que o Brasil viveu. E a gente sabe
que a gente ainda não recuperou isso. Nas penitenciárias, a maioria
é de negros. Estou na CPI Carcerária, sei disso e acompanho isso.
Então, peço que nos deem o que é devido, o que é justo, para que
nós, mulheres, possamos exercer o nosso papel aqui, sem nenhuma
facilidade. Isso é transitório.
Quero agradecer a nossa Ministra Eleonora, que é um exemplo
de mulher forte, à Deputada Moema Gramacho, que está sempre conosco,
e aos homens que são sensíveis à nossa causa. Hoje, espero que as
mulheres que estiveram aqui conosco, que tiveram que sair para pedir
o apoio desse grande Líder, que é o Michel, tenham sucesso lá
também.
Muito Obrigada.
A SRA. PRESIDENTA
(Deputada Moema Gramacho) - Obrigada, Deputada Raquel Muniz.
Temos só dois inscritos e logo depois vamos finalizar, porque os
convidados da audiência já chegaram.
Concedo a palavra ao Deputado Valtenir Pereira. (Pausa.)
Concedo a palavra ao Deputado Afonso
Motta.
O SR. DEPUTADO AFONSO
MOTTA - Eu queria cumprimentar a brava Deputada Moema Gramacho,
que preside esta audiência, e que esta saudação alcance o nosso
Presidente Rodrigo Maia. Quero cumprimentar e agradecer pelas
brilhantes manifestações à nossa Ministra Eleonora, à Guacira, à
Luana e à Vic, que nos brindaram com posicionamentos que todos nós
temos tido oportunidade de apreciar. Quero cumprimentar também as
Sras. e Srs. Parlamentes que integram a nossa
Comissão.
Quero começar fazendo uma referência ao posicionamento
revolucionário que, em 1932, pelo Decreto nº 21.076, garantiu o voto
às mulheres, mas em caráter restrito. Foi um posicionamento
revolucionário, mas em caráter restrito: as mulheres casadas só
poderiam votar com a autorização dos maridos; as viúvas e solteiras,
apenas as com renda própria, de acordo com a expressão da regulação
legislativa revolucionária de então. É claro que, na época, essa
regulação era extremamente avançada, porque a Franca só foi
conquistar o mesmo direito em 1945.
Lamentavelmente, essa regulação se perdeu no tempo, não
avançou como outras regulações em outros centros da política
mundial, da política global. Só em 1995, depois de 1932, com a
previsão regulatória sobre as cotas nas eleições municipais, com as
limitações que aqui já foram colocadas, é que o tema voltou a ser
considerado, do ponto de vista regulatório, na participação das
mulheres no processo eleitoral.
Apesar de tudo o que foi colocado aqui, das limitações, da
precariedade da própria regulação, fato é que existe uma curva
ascendente. Na eleição de 1994, as Deputadas Federais eleitas foram
6,24%; nas eleições de 2014 — e recebam isso com a reserva, é
evidente, das críticas aqui colocadas —, elas foram 9,94%. Há uma
curva. Evidentemente, com todas as dificuldades, com a
discriminação, é uma conquista extraordinária das mulheres. No
Senado, nas eleições de 1994, o resultado foi um percentual de 7,41%
Senadoras; na eleição de 2014, a curva já deu uma embicada para
cima, porque o percentual foi de 18,52%. Parece que, nesse movimento
gráfico, toda vez que há uma eleição de candidatura única para o
Senado, as mulheres têm tido mais possibilidade da eleição.
É uma reflexão que talvez queira dizer pouco, mas é bom que
se atente que, nas eleições de 2014 para Presidente da República, as
mulheres candidatas conquistaram mais de 60% de todos os sufrágios
eleitorais para a Presidência da República. É algo a considerar.
Tínhamos uma candidata que acabou se elegendo pela segunda vez, uma
mulher Presidente da República, e tínhamos uma outra mulher
candidata forte a Presidente da República. Mais de 60% dos votos
foram conquistados.
Encerro este sumário de trajetória das mulheres na política
para dizer que venho de um Estado machista, o Rio Grande do Sul. A
Presidenta Dilma, de certa forma, fez a sua vida política no Rio
Grande do Sul. Nós a consideramos, de certa forma, a Presidenta
gaúcha. Nas últimas três Legislaturas, a Deputada Federal mais
votada no Rio Grande do Sul, com larga diferença com relação aos
demais candidatos, do PCdoB — Partido Comunista Brasileiro, era
mulher. Em várias Legislaturas no Rio Grande do Sul, as Deputadas,
os Deputados Estaduais, no gênero, mais votados foram mulheres. E
nós já tivemos uma mulher Governadora do Estado do Rio Grande do
Sul.
Então, evidentemente eu queria deixar esse registro, porque
há fatos importantes na construção de uma trajetória. É claro que eu
me somo às mulheres, à sua luta (palmas), à disposição de
avançar, e isso passa, evidentemente, com os condicionantes do
sistema eleitoral que viermos a escolher, por qualificar o princípio
das cotas e/ou as listas de gênero; passa, transitoriamente, por
garantir o direcionamento dos recursos para financiamento das
campanhas — isso é evidente, mas eu sempre faço questão de colocar
“transitoriamente”.
Agora, o ponto de que as mulheres, com uma manifestação do
Relator ou de algum Deputado, possam ter preocupações, eu quero
também, como contraponto, dizer que eu também fico preocupado, mas
não digo com o entusiasmo das mulheres. “Entusiasmo” vem do grego “enthousiasmós”. Sobre a
capacidade, os gregos diziam que, en theos, eles venciam todos os
obstáculos. É uma capacidade de transcendência, de superação, de
estarem direcionadas. E eu vejo que as mulheres estão
entusiasmadas.
Mas verdade é que seria importante a nossa Comissão passar às
mulheres, pedir às mulheres que nos ajudem nessa mediação e nessa
construção, porque já é sabido que nesta Comissão — e vai ser o
nosso desafio, eu tenho certeza, nas nossas próximas reuniões — que,
sem mediação, sem construção, nós não vamos escolher nem o sistema
eleitoral, nem o financiamento público de campanha que possam
garantir os mínimos pontos para que aconteça uma reforma política a
que, neste momento, nós somos obrigados a agregar uma condição. Há
uma expectativa da sociedade de que pelo menos a reforma política
aconteça.
E essa mediação, eu acho, pelo que ouvimos aqui, passa pelo
seguinte. A mensagem dos cartazes expostos aqui é: “Mulheres na política, a reforma
que o Brasil precisa”. É a mensagem de todas as mulheres. Eu
acho que nós temos que agregar o seguinte: é a reforma política de
que o Brasil precisa, sim, mas aquilo que nós vamos ter a capacidade
de construir com apoio de todas as mulheres, com apoio de todos,
para que ela realmente política qualifique o sistema político
nacional.
Muito obrigado. (Palmas.)
A SRA. PRESIDENTA
(Deputada Moema Gramacho) - Obrigada, Deputado Afonso Motta,
pelas palavras.
Passo a palavra à Deputada Erika Kokay, que é a última
inscrita, e logo depois vou dar 1 minuto para as considerações
finais às convidadas, a quem peço desculpas, porque a outra
audiência vai começar daqui a pouco.
A SRA. DEPUTADA ERIKA
KOKAY - Deputada Moema, eu queria parabenizá-la — e a Deputada
Raquel Muniz também — pela iniciativa de estarmos fazendo este
recorte da equidade de gênero dentro da reforma política. Acho que
uma reforma política que não considere a necessidade de termos uma
paridade de gênero no Parlamento é uma reforma política que não
cumpre o objetivo de estarmos aprimorando e rompendo uma
precarização que existe na nossa democracia representativa.
Portanto, acho esta discussão extremamente pertinente, e queria
parabenizá-la.
Quero parabenizá-la também pela ideia de V.Exa., que é
coordenadora do Núcleo de Mulheres da bancada do Partido dos
Trabalhadores, de estarmos tirando o chapéu para a participação das
mulheres no Parlamento, fazendo uma referência, numa lógica
simbólica, de que uma chapelaria era evidentemente um espaço
masculino, porque os chapéus eram coisas de homem àquela época. É
preciso lembrar que, durante a Constituinte, dizem algumas mulheres,
não havia banheiro feminino dentro do plenário, como até pouco tempo
não havia acessibilidade no Plenário Ulysses Guimarães para uma
pessoa cadeirante dirigir uma sessão. É como se aqueles espaços não
tivessem sido pensados para todos e todas, então não pudessem ser
realmente democráticos.
Esta não é qualquer discussão. Acho que esta é uma discussão
absolutamente fundamental. Ontem a CPI que investiga o extermínio de
jovens negros e pobres esteve no Complexo do Alemão, no Rio de
Janeiro. E ali nós fomos ver a situação dos jovens. No Brasil, uma
pessoa é assassinada a cada 15 minutos — a grande maioria são
jovens, e jovens negros.
Eu digo tudo isso porque isso é uma desumanização. Antes de
as pessoas serem literalmente mortas, elas são desumanizadas, delas
a condição humana, como é tirado das mulheres. Mulheres são vítimas
de violência doméstica, uma verdadeira tortura, mulheres são vítimas
de uma discriminação que, muitas vezes, nós não conseguimos medir,
mas conseguimos sentir de forma muito concreta, são processos de
desumanização.
Quando nós rompemos a subalternização e a desumanização que
atinge mais da metade da população ou da sociedade, nós estamos
abrindo os espaços e construindo uma sociedade em que ninguém possa
ser desumanizado.
Então, a luta por equidade de gênero é uma luta estruturante,
ela tem que ser central na agenda deste País, que quer enfrentar a
própria violência. Por isso, a importância de termos uma secretaria
de políticas para as mulheres, e alguns querem acabar, nesta Casa,
com ela, alguns querem acabar com essa secretaria e com outras
secretarias que discutem a lógica dos
direitos.
Mas eu diria que nós temos hoje, nessa sub-representação
feminina no Parlamento, um processo de burcas invisíveis, porque
temos menos mulheres aqui do que em alguns países onde as mulheres
usam burcas.
Mas nós temos isso como fruto e semente, aliás, como tudo na
vida é fruto e semente, no processo dialético. Nós temos como fruto
de uma sociedade sexista e machista uma sociedade em que milhões de
mulheres têm medo de voltar para a casa, porque serão vítimas de uma
violência que as arranca delas mesmas. Então, nós temos essa
sub-representação como espaço ou como consequência disso, mas é
semente, é semente também de uma perenização dessa
sub-representação.
Por isso a importância de estarmos trabalhando com os 30%,
para chegarmos aos 50%, mas trabalharmos com 30%, não 30% das
nominatas, porque o que acontece hoje no Brasil, Ministra, é que nós
temos as mulheres compondo chapas para eleger os homens, elas
precisam compor a chapa, porque, se não, há diminuição do número de
homens, e as mulheres são colocadas nas nominatas para ter os
recursos, estruturas e tempo de televisão partidários destinados aos
homens. São mulheres que compõem chapa para eleger homens. Nós
queremos 30% das mulheres ocupando as cadeiras, independentemente de
qualquer sistema, ainda que seja o distritão.
Eu concordo com V.Exa., concordo com a Guacira, nós
trabalhamos, e é a minha proposta, é a proposta do meu partido
trabalhar com as listas fechadas que possam ter alternância de
gênero.
Entretanto, como nós temos várias Parlamentares de vários
partidos, cada uma defende um sistema eleitoral, mas nós estamos
unificadas, qualquer que seja o sistema eleitoral. Alguns vão dizer
que, se for o distritão, nós não vamos ter os mais votados. Sim, mas
não temos os mais votados hoje, hoje não temos, e ninguém questiona
a falta de legitimidade dos que ocupam os seus cargos aqui e, muitas
vezes, não são os mais votados, porque o sistema é proporcional.
Mas, quando se fala de direito de mulher, alguém vai dizer que a
vontade da população não vai ser respeitada.
Então, independentemente do sistema eleitoral, qualquer que
seja ele, nós precisamos assegurar que no mínimo 30% sejam compostos
por um dos gêneros, para que nós possamos chegar a 50%, à
paridade.
E digo isso, porque, se deixarmos as coisas como estão, no
ritmo sendo estabelecido pelo sexismo da dupla jornada, da tripla
jornada, das diversas ditaduras da perfeição, nós só vamos ter
paridade de gênero neste País em 2132, provavelmente em 2132 nós
teremos paridade de gênero neste País.
Por isso, há a necessidade de fazermos esse processo e de
asseguramos que haja 30% de recursos, é preciso também ter recursos,
ter um percentual mínimo de recursos para as
mulheres.
Eu penso que nós mulheres deveríamos agarrar esta bandeira, e
vamos agarrá-la de uma forma suprapartidária, de forma que essa
bandeira possa dialogar e ser desfraldada em todos os espaços da
nossa sociedade, para que nós possamos fazer impor uma sociedade em
que nós não tenhamos as mulheres sub-representadas no Parlamento,
com as nossas burcas invisíveis.
Por fim, quero apenas dizer ao Deputado do Rio Grande do Sul,
que disse aqui que as mulheres são as mais votadas lá, que nós temos
uma bancada federal do Rio Grande do Sul nesta Casa que deve ter
mais de 30 Parlamentares, eu não sei ao certo, e tem apenas uma
mulher, apenas uma mulher.
Ainda que tenhamos mais mulheres votadas na legislatura para
Deputada Federal, para Deputada Estadual, ainda que tenhamos uma
mulher governando, só há uma mulher na bancada do Rio Grande do Sul
nesta Casa, a Deputada Maria do Rosário, Deputada de excelente
atuação, com profunda qualidade, mas há apenas uma
mulher.
Falo isso para que nós possamos refletir que ou nós buscamos
a paridade de gênero ou vamos começar a dizer que não há democracia
neste País, o que há é um arremedo, um simulacro de democracia, e a
desumanização vai sendo naturalizada, fazendo desta sociedade uma
sociedade tão violenta onde há tanta dor em ser mulher.
Parabéns, Deputada Moema Gramacho. (Palmas.)
A SRA. PRESIDENTA
(Deputada Moema Gramacho)
- Parabéns, Deputada Erika. Parabéns a todas nós mulheres.
Queria passar a palavra à Mesa para as considerações finais.
Tem a palavra a Sra. Guacira, por favor, representando a CFEMEA —
Centro Feminino de Estudos e Assessoria. Gostaria só de dizer para
usar 1 minuto em função de estarmos
concluindo.
A SRA. GUACIRA
OLIVEIRA - Perfeito, Deputada.
Eu só queria, a propósito da discussão sobre o voto distrital
e o voto distrital misto, desses regimes, dizer que no ranking da União Parlamentar
Internacional, em que o Brasil está em 118º lugar, dos países que
estão nos 21 primeiros lugares da lista, 15 têm sistemas
proporcionais, 5 têm sistemas mistos e apenas 1 tem o sistema
distrital, para em 1
minuto, de maneira sucinta, dizer que o voto distrital misto é pior
que o sistema proporcional do ponto de vista da participação
política das mulheres.
Portanto, eu não quero uma coisa que seja pior do que o que
já temos, ainda que tenha um sistema de alternância. Eu sei que as
negociações aqui dentro são complicadas. É interessante ver que
existem 9,9% de mulheres no Congresso, e na sua pesquisa, Deputada,
só 9% são a favor da lista com alternância. As coisas são difíceis
de mudar aqui dentro, quem está aqui dentro em geral não quer sair,
e quem está aqui dentro são os homens brancos, proprietários, etc,
etc, etc. Essas pessoas não querem sair daqui.
Nós mulheres que estamos fora daqui estamos dizendo que é
preciso outro sistema, compromisso democrático com a criação de um
outro sistema político para que a gente possa participar, e vamos
continuar dizendo isso. Se as negociações que são feitas aqui não
são aquelas que a sociedade demanda é um problema para o próprio
Parlamento resolver, mas na nossa agenda a gente tem que sustentar
que a nossa luta é por paridade para as mulheres dentro do sistema
político, e não nos dão espaço. A verdade é que os espaços que nós
mulheres temos hoje foram todos conquistados com muita luta, não tem
isso de dar espaço em se tratando de lugares de espaço no poder.
Contem conosco, contem com as mulheres e com os movimentos de
mulheres e feministas para democratizar o poder.
É isso. Obrigada. (Palmas.)
A SRA. PRESIDENTA
(Deputada Moema Gramacho) - A gente agradece a Dra. Guacira, e
assim ao CFEMEA.
As demais convidadas abriram mão da palavra e vamos finalizar
com as considerações finais da nossa Ministra Eleonora.
A SRA. MINISTRA
ELEONORA MENICUCCI - Eu quero rapidamente parabenizar a Deputada
Moema Gramacho por esta iniciativa e dizer que a democracia começa
pela democratização das Comissões aqui dentro.
E eu queria citar dois exemplos: somente na eleição de 2012
para municipais, na presidência da então Ministra Carmem Lúcia, o
Tribunal Superior Eleitoral devolveu listas para os partidos que não
preencheram os 30% de um sexo e 70% de outro. Foi a primeira vez na
história do Brasil que as mulheres candidatas atingiram 31%, isto
não reverteu em aumento considerável na eleição de mulheres.
A segunda questão, eu quero aqui reafirmar a importância das
cotas. As cotas são importantes para afirmar, reafirmar, a
negatividade da discriminação e os impactos da discriminação de
gênero e de raça e de todas elas sobre a organização da sociedade
brasileira e sobre a organização dos Parlamentos. Portanto, ainda se
faz necessário a proposta das cotas. Se assim não fosse, nós não
estaríamos, em hipótese nenhuma, defendendo as cotas. A cota, nesse
caso, é a afirmação positiva do protagonismo das mulheres
brasileiras na política.
Com isso eu encerro e reafirmo a nossa parceria com o
Parlamento, com a bancada feminina na condução das melhores
estratégias que levem à maior participação das mulheres na política
dentro deste Parlamento.
Muito obrigada! (Palmas.)
A SRA. PRESIDENTA
(Deputada Moema Gramacho) - Bom, eu queria agradecer a presença
da nossa Ministra, agradecer a presença da representante da UNE, a
companheira Vic, da representante da ONU, a companheira Luana
Grillo, da representante do CFEMEA, a companheira Guacira. Queria
agradecer ao Relator Marcelo Castro e queria finalizar agradecendo
ao Presidente, o Deputado Rodrigo Maia. Queria pedir desculpas aos
convidados da próxima audiência, mas infelizmente esse foi o
primeiro momento que a gente teve na Comissão para discutir a
questão de gênero.
E queria finalizar dizendo que a Comissão é composta de 34
membros titulares, e somente 3 são mulheres, o que significa dizer
que também os partidos políticos, mesmo na hora da discussão da
reforma política, não valorizaram a presença das mulheres na
construção da reforma política. Mas quero parabenizar os partidos
que indicaram as mulheres para fazerem parte desta Comissão da
Reforma Política.
No mais, agradecemos a todos.
Desfaz-se neste momento a primeira Mesa. Convido todos a
permanecerem em plenário para darmos seguimento a esta reunião, com
as próximas audiências públicas.
Obrigada a todos.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Dr. Marcelo, vamos lá, por causa do
horário.
Dr. Marcelo, se você não sentar aqui...
Ministro...
Nessa segunda Mesa trataremos do tema discussão sobre a
viabilidade técnica da expedição de cédulas físicas no processo de
votação e apuração das eleições, plebiscitos e referendos, visando à
possibilidade de auditoria em casos de
suspeição.
O debate atende a requerimento do Deputado Esperidião
Amin.
Já convidei o Ministro Henrique Neves para a Mesa e convido o
Sr. Giuseppe Janino e o Sr. Celso Luiz Carvalho de Souza. Registro a presença da Juíza
Auxiliar do Tribunal Superior Eleitoral - TSE, Ana
Aguiar.
Celso, já pode assumir pelo tempo de 15 a 20
minutos.
O SR. CELSO LUIZ
CARVALHO DE SOUZA - Boa tarde! Olá a todos. Meu nome é Celso. Eu
queria, em primeiro lugar, agradecer a presença na Comissão, por me
convidarem para poder participar deste debate sobre as urnas
eletrônicas, a possibilidade de voto impresso e
afins.
Eu trabalho na indústria privada, na área de segurança da
informação. Isso justifica o convite para que eu venha participar
deste debate.
Enfim, vamos tentar aqui juntar um pouco do que já foi dito
ao longo dos anos sobre a urna eletrônica. Nos últimos anos, o
Tribunal Superior Eleitoral tem promovido debates, eventualmente
testes públicos em cima da urna eletrônica. Os testes públicos visam
a tentar trazer transparência para a sociedade do que de fato é
executado — os sistemas de informáticas, o software, etc. —, o que
acontece dentro da urna.
Nas últimas eleições para Presidente, como a diferença entre
os dois candidatos foi muito pequena, isso novamente levantou
dúvidas sobre a confiabilidade do voto eletrônico. Isso acontece
quase sempre em todas as eleições, mas se tornou um pouco mais
latente de outubro para cá.
Bem, eu mesmo, Celso, não tive acesso ao conteúdo da urna,
portanto o (ininteligível),
eu vou falar sobre algum material, porque foi divulgado pela
academia e pelas pessoas que participaram dos testes públicos do
TSE. O último, se não me falha a memória, em
2012.
Todo esse material está de fácil acesso na Internet, está
disponível. Eu não tenho muito tempo, tenho mais uns 15 ou 20
minutos. Então, não vou poder mostrar todos eles para os senhores.
Mas o que se sabe? Vamos tentar resumir o que se sabe. O mundo hoje
reconhece três modelos de urnas eletrônicas. Alguns falam modelo,
alguns falam geração de urna. Na verdade, isso pouco importa. O
mundo hoje reconhece três modelos de urnas eletrônicas, sendo que
dois desses, que não são os modelos utilizados hoje no Brasil,
lançam mão do voto impresso, ou seja, o eleitor vota na urna, de
maneira eletrônica, escolhendo o seu candidato pela foto e apertando
o botão “confirma”, e isso também é impresso numa urna de
lona.
A impressão do voto na urna é tão somente para que haja opção
de auditoria em casos de dúvida, angústia, etc. com relação ao que
foi computado na urna.
Hoje no Brasil o voto é sigiloso e todos nós sabemos disso.
Mas hoje ele é mais do que sigiloso. Você hoje, quando vota na urna,
você não consegue ter absoluta certeza se o seu voto foi computado
corretamente. E a urna eletrônica não consegue demonstrar isso. Ela
também não consegue fazer isso. E ela não consegue fazer sob a
justificativa de que ali existe um sistema de segurança que trata do
sigilo de informações, do sigilo obviamente do voto, e isso, por si
só, impede que o Tribunal consiga mostrar para você que o seu voto
foi corretamente computado.
Bem, o que aconteceu na prática nos testes públicos do
Tribunal, especialmente o último de 2012. Aliás, o tribunal,
parece-me, vai fazer testes públicos a partir de todas as eleições.
Ouvi alguma coisa que foi aprovada. Isso, de fato, é um avanço
importante, mas efetivamente ainda não resolve. Enfim, vamos
avançando.
Em 2012, nos testes públicos, um time de especialistas teve
acesso ao conteúdo da urna, ao software eletrônico, ao
modelo que é feito ali dentro e descobriu uma série de problemas,
uma série de falhas, certamente por desconhecimento técnico de quem
o criou, uma série de falhas que deixa muito clara a possibilidade
de fraude na urna eletrônica.
A urna eletrônica, de uma maneira muito simplista, é um
computador — aliás, como tudo o que nós temos em volta da gente. Ela
é um computador como outro qualquer e é replicada, ou seja, existem
400 ou 500 mil urnas, e todas elas são rigorosamente iguais. Faz
sentido ser igual a máquina de votar. Aquele ambiente externo a que
a gente tem acesso, a que o eleitor tem acesso, faz sentido ser
igual, afinal de contas a gente aprende na televisão como é que
funciona a urna e, quando chega a hora, sente-se bastante
familiarizado com a urna. Aliás, todos nós já votamos algumas vezes,
dá até um certo saudosismo quando a gente se encontra com ela porque
ela é a mesma, esse é um ponto positivo.
No entanto, internamente, o sistema de segurança é igual. Que
sistema de segurança é esse? Sem entrar muito no mérito porque vai
consumir o nosso tempo sem dúvida nenhuma, o sistema hoje de sigilo
eletrônico, o que inclui a urna e diversos outros sistemas que nós
temos por aí, o nosso celular, os sites web em que vocês
compram, os portais em que vocês compram no varejo etc, os sistemas
são baseados em equações matemáticas, são baseados em manipulação em
números especiais que a gente trata por um conjunto de equações
matemáticas. Quando eu falo de equações matemáticas, todos nós
voltamos para o primeiro e o segundo graus — aliás, não existem mais
o primeiro e o segundo graus. Nós voltamos para o primeiro e segundo
graus, e a maioria de nós tem certo horror ou pavor de todos aqueles
números. Dentro da urna acontece aquilo, só que de uma maneira um
pouco mais complicada do que a que a gente aprendeu na escola.
Então, o sistema de sigilo eletrônico da urna hoje é baseado em
métodos matemáticos conhecidos como criptografia e, tentando ser
bastante simplista em função do tempo, os números que são utilizados
para proteger o conteúdo da urna são os mesmos números para todas
elas. Esse número precisa ser um segredo. Ora, se quando há duas
pessoas a gente não consegue mais guardar segredo, quiçá um segredo
que está em 400 ou 500 mil urnas! De verdade, não há segredo nenhum.
Mais do que isso: a possibilidade de fraude numa única urna
significa que ela pode, em tese, ser replicada para todas as outras,
ou seja, se um fraudador consegue ter acesso a uma urna e as urnas
no dia da eleição estão espalhadas em todos os lugares do
País...
Aliás, esse é um exemplo belíssimo de logística que o
tribunal ensina o mundo inteiro a fazer. A urna vai na canoa,
funciona na bateria. De fato, isso é muito bacana, mas o fato é que
há urnas em todos os lugares, e parece-me que todos eles não têm a
mesma segurança de zonas eleitorais em grandes cidades, nos
principais pólos. Em muitos lugares espalhados pelo País a urna está
lá.
Bem, se no momento da eleição... A eleição começa às 8 ou 9
horas da manhã. Se às 10h15 um grupo de pessoas tem acesso, rouba,
furta uma urna de uma zona eleitoral e começa a trabalhar, a partir
daí pode, tranquilamente, às 15 horas, já ter desvendado todos os
segredos necessários da urna e aproveitar o resto do tempo para
tentar burlar o resultado do voto.
O tema correto desta Mesa é a possibilidade do voto impresso.
Vamos voltar para o começo, 10, 15 minutos
atrás.
Hoje o mundo conhece três modelos de urnas eletrônicas. Dois
deles, em função de todos os problemas de segurança, optaram também
por, ao final, fazer o voto impresso. Por que isso? Porque todos nós
sabemos que não existe um sistema eletrônico 100% seguro. Isso não é
possível. Nós não vamos conseguir, o TSE não vai conseguir e ninguém
em lugar nenhum neste planeta vai conseguir fazer isso, pelo menos
até hoje não foi feito e não há indícios de que será feito tão logo,
tanto é que a Internet diariamente é enxurrada por fraudes
eletrônicas.
Isso também é uma possibilidade na nossa urna. Aliás, nós já
sabemos disso com os testes que aconteceram. Ficou facilmente
comprovada e verificada uma série de falhas de segurança na urna. A
gente já sabe que a urna não é... Ela poderia ser um pouco mais
segura do que ela é. Eu não vou dizer 100% segura porque isso é
impossível, mas ela poderia, cá entre nós, ser um pouco melhor. Como
nós já sabemos que ela tem essa problemática toda de segurança, a
nossa urna também deveria optar pelo voto
impresso.
Eu sei que o voto impresso, o papel, a cédula em papel dá um
certo ar de antiguidade. Se dá para vocês, imaginem para mim, que
sou um cara de tecnologia, que vivo disso, que vivo de segurança da
informação. Eu quero tudo menos o papel. Eu também tenho a mesma
sensação da cédula em papel, mas hoje não há alternativa porque o
sistema de informática para uma eleição é um sistema muito especial,
talvez mais especial do que o sistema bancário, talvez mais especial
do que o sistema de passaporte, mais especial do que o sistema de
compra de um grande portal brasileiro ou internacional. O sistema
eleitoral é um sistema que tem que ser tratado diferentemente, e ele
é tratado diferentemente em vários países, países que são exemplos
de tecnologia, como o Japão, os países europeus, os Estados Unidos,
enfim, tantos outros que nós sabemos que criam tecnologias de ponta
o tempo todo. Mesmo esses países, mesmo os engenheiros desses
países, vejam só, que têm acesso a um recurso ilimitado, mesmo eles
optaram pela impressão do voto porque eles também entendem que a
eleição, que o sistema de voto é um sistema especial, talvez entre
os mais especiais de todos os que existem por aí, tanto é que a
gente está nesta sala discutindo sobre isso e não é a primeira
discussão que existe sobre esse tema.
Então, a sugestão, a angústia, a inquietude social que há é a
confiança com relação ao voto, se está correto no momento em que
você escolhe um candidato. A impressão do voto vai nos ajudar nessa
angústia. Veja bem, para que fique claro, eu tenho visto em redes
sociais que essa é uma dúvida muito comum, a gente não vai votar na
urna e votar no papel. Aliás, a gente não vai tocar no papel, o que
está correto. Se a gente tivesse que tocar num papel... O ser humano
colocou a mão, começa a ficar confuso, começa a dar um ar de
possibilidade de fraude. A sugestão não é essa, a sugestão não é a
gente votar na urna e votar no papel. Nós vamos votar unicamente na
urna apertando o botão “confirma” etc, a diferença é que agora ela
vai imprimir o seu voto e vai jogar numa urna de lona, assim como
era no passado. Esse voto numa urna de lona vai servir tão somente
para que, em caso de dúvidas, a gente possa verificar se a
quantidade de voto eletrônico que foi registrado eletronicamente na
urna é a mesma, se o mesmo candidato ganhou nos dois lados. Isso
hoje é garantido apenas pela urna. Não vale muito. É o próprio
sistema da urna que avisa para você que está tudo bem. Ora, isso não
faz sentido, tem que ter um terceiro agente. Aliás, a nossa vida é
assim, a gente tem juiz, a gente tem outras pessoas que são
terceiros que, às vezes, tomam decisão ou ajudam a decisão. Não pode
ser você mesmo, senão você combina com você mesmo qual é o resultado
final. E hoje a urna é assim.
Existe uma série de motivos técnicos que comprovam isso, eles
são conhecidos, eles estão em todos os lugares na Internet. Mostram,
provam por A mais B uma série de problemas da nossa urna, e o sigilo
do voto não deveria ser motivo. É possível, sim, ter um sistema
eletrônico rápido, eficiente, que funcione em cima de uma canoa, que
funcione em qualquer lugar do País e que, ao mesmo tempo, consiga
nos dar garantia.
A urna eletrônica tem algumas falhas de segurança que são
simples. Imagine o seguinte: você pega o seu carro para viajar, vai
pegar uma estrada em boas condições, com um carro em boas condições
e vai andar em baixa velocidade. Você vai fazer uma série de coisas
por questões de segurança, só que você vai andar sem o cinto de
segurança. Percebe que, na hora de um acidente, se você estiver sem
o cinto de segurança, não vai fazer muita diferença se você estava
em alta velocidade, se o carro estava bom, se tinha ou não um buraco
na pista. Se você bater o carro, sem o cinto de segurança, você
realmente vai se machucar muito, isso se não for a
óbito.
Existe uma situação na urna muito parecida. A nossa urna está
sem cinto de segurança. Pode ser até que ela ande bem na estrada,
mas qualquer falha que tiver, poderá ser bastante desastroso. A
nossa urna está sem cinto de segurança, e o que a gente quer, o que
a comunidade quer, o que os cientistas deste País querem, o que a
indústria quer, o que todos nós queremos, técnicos ou não, é a
garantia de que a urna está bem protegida, está seguindo o que o
mundo inteiro fala.
Se não pudermos confiar na nossa academia, nas nossas
universidades, nos exemplos de outros países, não há razão para
isso. Aliás, nós confiamos na nossa academia e no que tem de bom no
planeta para uma série de coisas, no sistema bancário, na
comunicação do correio eletrônico, no smartphone que está todo
mundo utilizando. Nós aceitamos isso, e faz sentido. Vamos
aproveitar o que se tem de melhor e tentarmos contribuir para
construir sistemas mais seguros. Só que a não fazemos isso com a
urna.
No Brasil há vários exemplos de projetos nacionais de
tecnologia que seguem outra linha. Vejamos alguns exemplos: o
Sistema de Pagamento Brasileiro — SPB está em produção neste País
desde 2002. Todo mundo aqui utiliza o SPB todos os dias, sem
exceção. Todos os bancos se comunicam em cima de uma rede segura de
dados. Desde 2002, não existe um desconforto no ar quanto à
qualidade do sistema bancário brasileiro. Pelo contrário, ele é
elogiado desde que eu era um bebezinho, nos anos
70.
Agora se passou a emitir um passaporte com chip eletrônico. O
passaporte que o Brasil começa a emitir — o meu ainda é do modelo
anterior, eu não sei se alguém aqui já tem do novo — é o passaporte
com chip, adotado em
vários países. É o mesmo modelo, é o mesmo padrão, tanto é que você
vai chegar em qualquer outro país que também tenha aderido ao
modelo, vai colocar o passaporte numa máquina, e ela vai fazer o
reconhecimento. É o mesmo padrão.
A nota fiscal eletrônica, que surgiu em 2006, é um ótimo
exemplo. Não existe mais nota fiscal em papel — não é verdade? Quem
é mais novinho, talvez, nem se lembre disso. Não existe nota fiscal
em papel. Que coisa fantástica, não é? A gente tinha que assinar um
canhoto, era um drama fazer aquilo. Isso acabou, e a gente nem
percebeu que acabou. E a nota fiscal eletrônica, veja só, é um
sistema obrigatório. As empresas não tiveram a opção de não entrar.
Todos tiveram de aderir à nota fiscal eletrônica, no entanto todo
mundo aceitou e nunca se escutou desconfianças com relação ao
sistema da nota fiscal eletrônica. Sabem por que não? Porque a nota
fiscal eletrônica foi criada também escutando a sociedade, também
escutando os engenheiros, também escutando a indústria. Todo mundo
de alguma maneira contribuiu para a nota fiscal eletrônica. A
segurança naquele processo é sistêmica. Ela não depende da opinião
de ninguém e não depende de uma máquina só. Ela é sistêmica. É
difícil burlar isso. Então, a nota fiscal eletrônica também é um
outro exemplo.
Aqui em nosso País, temos a ICP Brasil. Provavelmente vários
dos senhores já ouviram falar na ICP Brasil que já existe há mais de
uma década também. É a tal da certificação digital. Certamente,
todos aqui já leram algo sobre isso por aí. A ICP Brasil modela e
regulamenta o uso da certificação digital no País, já há muitos
anos, há mais de uma década. E a gente também não escuta nenhuma
desconfiança, não há dúvida quanto à qualidade dos certificados da
ICP Brasil é utilizada em vários e vários projetos, tanto em órgãos
públicos quanto em empresas privadas, de todos os tamanhos e em
todos os lugares do País. Ela serve de exemplo para outros países
que ainda estão um pouco atrás da gente.
Então, a gente tem vários exemplos maravilhosos de tecnologia
que envolvem o País todo, que envolvem a questão de segurança. Mas a
nossa urna, não. Percebe? Por quê? Vamos fazer a mesma coisa que a
gente fez no resto, vamos fazer com a urna. Se está todo mundo
dizendo que tem que ter o voto impresso, antes de acharmos que não
pode imprimir o voto, vamos escutar, vamos entender. Tem que ter uma
razão para isso. Não se esqueçam: os engenheiros, a academia, o
pessoal da área técnica, eles também não querem papel, não. O papel
dá uma sensação de retrocesso. Mas a gente está mostrando por “a”
mais “b” que existem problemas técnicos na urna, que o papel pode,
sim, trazer uma confiança, um conforto social de que a votação está
correta. Se outros países também fazem o mesmo modelo do voto
impresso, vamos seguir o mesmo modelo com a urna. A gente tem vários
exemplos sobre isso.
E, de fato, a nossa urna tem lá os seus problemas de
segurança. E tem mesmo. A gente pode aceitar, não aceitar. É ruim. É
uma sensação ruim. Nós somos brasileiros, e não é exatamente um
motivo de orgulho ter uma urna que tem lá os seus problemas. Mas ela
tem, sim. E alguns deles são bem básicos. Mas eles são bem básicos,
porque a urna foi criada a quatro paredes. Por que em vez de ter 35
pessoas ou 105 pessoas criando a urna, a gente não deixa 3 mil
engenheiros palpitando sobre a qualidade do processo? Vamos divulgar
isso. Vamos colocar nas mãos de toda área técnica do País: de
engenheiros, de matemáticos, de físicos, etc., para que eles possam
contribuir. Não tenha dúvida, teremos uma urna melhor. E ela vai
continuar rápida. A gente vai continuar sabendo o resultado da
eleição, aliás, mais rápido. De 1996 para cá, eu tenho uma sensação,
embora eu não tenha absoluta certeza, mas eu tenho a sensação de
que, a cada eleição, o resultado tem saído mais rápido. Que bom, né?
E vai continuar assim.
O voto impresso, ou que seja um outro caminho, não vai mudar
isso. Ela vai continuar a ser deficiente. Vão gastar algum dinheiro,
mais dinheiro para poder fazer o voto impresso? É possível. Eu não
sei ao certo quantas urnas existem, que ainda têm impressora. Houve
uma época em que se testou o voto impresso. Pode ser que ainda
existam urnas com impressoras. E para as que não as têm, a gente
realmente vai ter esse custo.
Mas o custo da fraude da eleição é muito maior. Aliás, o
tempo que a gente está gastando aqui dentro, de todos nós, em
audiências, em testes públicos, em justificativas... O time do TSE
já deve ter justificado por que a urna é assim e assado umas 100
vezes. E vão continuar fazendo isso nos próximos anos. Às vezes, sai
mais barato fazer o voto impresso na urna.
Eu acho que é isso. Eu confesso que quis ter mostrado um
pouco de argumentos mais técnicos do “a” mais “b”. Eu até deixei uma
apresentação ali com ela. Eu acho que talvez não seja necessário. A
apresentação deve ficar disponível. Vai estar pelo site, pelos blogs. Mas não se iludam, a
nossa urna precisa ser mais segura. Se houve fraude na eleição
passada, nós não sabemos. Não adianta a urna dizer que não. “A própria urna, o próprio TSE
diz que não houve. Ou, se houve, foi aqui ou ali!”. Nós não
sabemos. Nem eles conseguem mostrar para a gente que não teve
fraude. Eu não estou afirmando de maneira alguma que teve fraude.
Mas, que há possibilidades de ter, há sim. Essa dúvida vocês não
precisam ter. E, se teve fraude, vocês não vão ficar sabendo. Vocês
querem ver um exemplo muito simples? Está todo mundo com os seus smartphones no bolso. Alguns
têm até mais de um. Se o seu telefone, se as fotos, os seus e-mails, as suas mensagens
forem copiadas, aliás, se elas estiverem sendo copiadas neste
momento, Deputado Marcelo, você não vai saber, não tem como saber.
Sabe por quê? Porque o seu telefone vai continuar funcionando. Se
alguém roubar o seu carro na rua, você vai ficar sem o carro. Se
você deixar o carro no estacionamento, chegar e não ter o carro,
você vai falar assim: “Poxa,
o meu carro sumiu!”, facilmente você vai perceber. Se alguém
entrar na sua casa, roubar as coisas que você tem dentro de casa,
você vai saber. Se alguém roubar as coisas, os seus dados no
telefone, você não vai saber. Aliás, vocês não sabem. Aliás, vocês
não conseguem dizer se isso está acontecendo neste exato momento. E
não se iludam, acontece mesmo. É uma ilusão quem acha que não. Sabe
por quê? Porque a gente não tem a sensação de insegurança. O
telefone continua funcionando, continua apitando, os WhatsApps da vida continuam
funcionando. Só que os seus dados estão sendo clonados e você não
sabe. Aliás, você só sabe quando o seu cartão é clonado quando
alguém usa. É claro, ele clona o seu cartão para usar. Mas ele pode
clonar o seu e-mail e não
fazer nada, ele pode mudar o voto de lugar e você não vai ficar
sabendo.
Então, nós, simplesmente, não sabemos o que acontece dentro
da urna. E o TSE também não tem como saber, em virtude das falhas de
segurança que acontecem. Não tem como saber e, assim, não tem
mesmo!
Eu acho que é isso. Obrigado aí pelo tempo. Eu, talvez, tenha
perdido a noção do tempo aí. Mas, enfim,
obrigado.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Agradeço muito ao Celso a
oportunidade.
Passo a palavra ao Sr. Giuseppe Janino. Há um microfone para
ele, por favor?
O SR. GIUSEPPE
JANINO - Boa tarde a todos. Deputado Rodrigo Maia, Presidente,
Ministro Henrique Neves, demais integrantes da Mesa, meu
boa-tarde.
Primeiramente, o meu agradecimento em ter essa oportunidade
de vir aqui contribuir no sentido de trazer informação para o
debate, com o objetivo efetivamente de trazer melhoria no processo
eleitoral. E creio que esse fórum seja uma grande oportunidade,
porque esta é a real intenção do Tribunal Superior Eleitoral:
promover a melhoria contínua no seu processo hoje
informatizado.
Nos mais de 20 anos de história, a Justiça Eleitoral sempre
evidenciou o seu compromisso da preservação dos dois pilares do
processo eleitoral, quais sejam: a segurança e a transparência do
processo.
Entre as principais
iniciativas adotadas está a materialização do voto como forma de
auditoria. A materialização do voto foi realizada, vivenciada,
experimentada em duas oportunidades. Em 1996, quando a urna estreou
no processo eleitoral, na eleição municipal, o primeiro modelo de
urna já vinha com a impressora e imprimia o
voto.
Na segunda oportunidade, em 2002, por meio da Lei nº 10.408,
de janeiro de 2002, foi introduzida novamente a impressão do voto.
E, posteriormente, na Lei nº 10.740, a impressão do voto foi
revogada.
Nós vamos falar um pouquinho dessa história, um pouquinho
dessa experiência, compartilhar com vocês as informações e como
realmente o processo eleitoral hoje está
montado.
Essas são algumas matérias que saíram na mídia na época em
que, na eleição de 2002, a experiência, principalmente aqui, no
Distrito Federal, apresentou os problemas que houve no processo: “Atraso: apuração lenta e
confusa”, “Confusões em
todos os turnos”, “Os
modos de impressão apresentaram defeitos nos dois turnos de
eleição”, “Os modos de
impressoras não passam em teste” — a declaração do Presidente do
Tribunal Regional na época, “O TRE propõe o fim do voto
impresso”, “O TRE responsabiliza pela lentidão, pela suspeição do
processo a questão da impressão do voto”, “O TSE deverá pedir abolição do voto
impresso”. Ou seja, são várias matérias que evidenciaram,
registraram uma experiência vivida pelo Tribunal Superior Eleitoral
na experiência do voto impresso.
O objetivo: adotado em 100% do Distrito Federal e 100% do
Estado de Sergipe e também com representação de várias cidades em
todo o País. Mas a concentração maior foi no Distrito Federal e em
Sergipe.
As conclusões: no final de cada eleição se faz uma avaliação
do processo, a que nós chamamos de lições aprendidas, e registramos
essas lições para implementar efetivamente a melhoria do processo de
uma forma formal e metodológica.
As impressões que nós tivemos em relação ao voto impresso
foram: a ineficiência, ineficácia e o prejuízo, inclusive, que esse
método de auditoria trouxe, porque, na análise superficial, a
impressão do voto vem contribuir para a auditoria. É mais um
elemento de transparência.
Mas à medida que se faz experiência, que se coloca em
prática, que se efetivamente aprofunda nesse processo, se verificam
outros quesitos que devem ser colocados numa balança de custo e
benefício, como, por exemplo, com referência à ineficiência: o
equipamento auditor falha mais do que o equipamento auditado.
A urna eletrônica, exclusivamente eletrônica, o modo
impressora é um componente eletromecânico. Cientificamente, sabe-se
que um elemento eletromecânico falha muito mais do que um elemento
exclusivamente eletrônico. Já há, de início, um problema conceitual.
O modo auditor falha mais do que um modo auditado.
Considerando as nossas características de logísticas, as
características de um País de mais de 8,5 milhões de quilômetros
quadrados, em que mais de 60% dessa área representa a Região
Amazônica, onde a urna viaja milhares e milhares de quilômetros até
chegar a uma aldeia indígena, passando por variação de temperatura,
umidade, salinidade, poeira e, principalmente, muito impacto, esse
mecanismo, que tem o potencial de falha, vai falhar muito mais. E
isso aconteceu.
Não estamos falando hipoteticamente; vivemos essa realidade.
O exemplo está aqui também, nessas matérias que nós acabamos de
apresentar: a demora para votar, o eleitor no momento em que vai
votar ele tem que verificar se o voto que ele fez na urna, que
apareceu na tela é o mesmo que está sendo impresso, isso causou
atraso e lentidão, causando filas nas seções eleitorais, a demora
para editar, o processo não é mais eletrônico, ele também precisa
ser verificado manualmente, onde se tem que manipular os votos
impressos para fazer a conferência, ou seja, o fechamento da votação
depende dessa velocidade, do método mais tradicional, que é a
manipulação dos papeis, a demora para o resultado. Isso impacta
diretamente na demora do resultado, enquanto não se fez a
conferência, mesmo que seja um percentual de seções manualmente, com
o voto eletrônico, você não consegue fechar a eleição, e a
complexidade do convívio entre o meio eletrônico e o meio físico.
Então, você tem que conviver com esses dois aspectos. O meio
eletrônico tem toda a sua definição, onde os processos são bem
definidos, e se resolve dentro dos métodos científicos e
tecnológicos. O meio em papel ele precisa da intervenção humana.
Depois que se contaram as cédulas em papel, precisa se converter
esses dados que foram contados manualmente, digitalmente também,
para totalizar e consolidar esse resultado. Então, a grande
complexidade do convívio desses dois meios contribuiu também para a
ineficiência do processo. A questão da ineficácia, não reproduz o
efeito desejado.
Por que veio o voto impresso? Ele veio para mais um elemento
de transparência e gerar a confiabilidade nos resultados. Só que, no
momento em que trazemos o voto impresso, nós estamos trazendo
exatamente aquilo que nós abandonamos no passado. Há 20 anos, nós
tínhamos um processo totalmente manual, onde se votava no papel, se
contava papel, se transcrevia do papel para as planilhas, ou seja,
havia muita intervenção humana. Onde há intervenção humana, há, pelo
menos, três atributos inerentes ao ser humano: a lentidão, a prática
de erros e a prática das fraudes.
Então, nós estamos trazendo um elemento, ou seja, um método
de auditoria, que nós conseguimos abandonar no passado. Com a
automação do processo, nós conseguimos mitigar a intervenção do
homem. Agora, nós estamos trazendo novamente as mesas apuradoras
para o processo, para conferir com um método que já evoluiu
tecnologicamente. Aí, fica uma pergunta: não existe outra forma que
consiga acompanhar a evolução tecnológica do processo? Certamente
há. E
essa não seria. Foi comprovado que não foi a melhor solução. O voto
em papel pode ser facilmente adulterado. Não precisa nenhuma
inteligência, digamos assim, adicional para causar uma
inconsistência na apuração numa mesa apuradora. O tamanho do voto
impresso é metade do tamanho deste celular. Nós vamos colocar o voto
na mesa e vamos ter que contar. Não tem jeito. Ele está em papel.
Não precisa ter nenhuma inteligência, só um pouco de habilidade para
esconder um desses votos, e já acontece a inconsistência. Só aqui
nesta conversa que eu estou passando para os senhores, nós já temos
uma estratégia de fraude. Basta eu esconder um voto numa apuração
numa mesa, que não é uma coisa difícil, que eu já causo uma
inconsistência entre o papel e o eletrônico. Causando essa
inconsistência, eu vou ficar com quem? Confiar no papel? Se eu vou
confiar no papel, qual a necessidade do eletrônico? Não. Eu vou
confiar no eletrônico. Se eu vou confiar no eletrônico, o que eu
estou fazendo com o papel aqui? Então, existe um grande dilema que
tem que ser resolvido, mas não se consegue resolver com esse tipo de
solução.
Existem
ataques mapeados pelo National Institutes of Standards and
Technology, NIST, de várias estratégias de ataque no voto impresso.
O próprio NIST publica isso. Há várias formas de atacar. Quer dizer,
o fato de colocar o voto impresso não significa que seja um método
de auditoria que não é atacado. Eu acabei de falar um aqui. É muito
simples. Existem vários outros que também são apresentados pelo
próprio NIST. Basta pesquisar e verificar. Não há como se garantir
que aquilo que o eleitor vê será o editado. Ele digita na urna
eletrônica, vê a impressora no papel, confere, dá um enter, aquele papelzinho
some, ele vai embora da seção, e aí? Qual é a garantia de que aquele
papel que ele viu é o mesmo que vai ser contado? A urna eletrônica,
depois que ele a abandonou, não poderia, por acaso, cancelar aquele
voto e imprimir outro? Poderia. Ele está atrelado por software. Essa é uma das
formas de ataque, porque existe a possibilidade de você cancelar o
voto que digitou. Eu posso explicar melhor depois,
Deputado.
O
SR. DEPUTADO
JAIR BOLSONARO - Eu
gostaria. Por favor. Eu estou me sentindo agredido aqui com essa
explanação de V.Sa.
O
SR. DEPUTADO ESPERIDIÃO AMIN
- Eu gostaria que ele concluísse. Até porque já vou antecipar. Tudo
o que o senhor disse que é ineficaz... O papel é ineficaz para a
urna.
O
SR. GUISEPPE JANINO
- Então, vamos em frente. Nós temos...
O
SR. DEPUTADO ESPERIDIÃO AMIN
- Ninguém falou que o papel tem que ser separado. O papel pode ser
um formulário contínuo.
O
SR. GUISEPPE JANINO
- Pode ser uma solução. Eu estou falando de uma
experiência...
O
SR. DEPUTADO ESPERIDIÃO AMIN
- Foi adotada, mas não é a proposta. Nada impede que seja um
formulário contínuo que torna mais difícil aquele truque, com o qual
o senhor ilustrou a sua exposição. Aliás, um truque
ultrapassadíssimo.
O
SR. DEPUTADO
JAIR BOLSONARO - Como
autor da proposta, por que na bobina pode
imprimir...
O
SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Deputado, nós vamos ter oportunidade de
debater. Eu acho que...
O
SR. GUISEPPE JANINO
- Eu posso inclusive, nessa questão do formulário contínuo, mostrar
também um outro tipo de fraude que pode ser implementada.
Nós
temos aqui um artigo publicado pelo (ininteligível), que é uma
das maiores autoridades americanas com relação ao processo
eletrônico de votação. Olhando o currículo dele, ele é graduado pela
Princeton, (ininteligível) University,
é professor da (ininteligível) University e
avaliou mais de 120 sistemas de votação. Ele é consultor sobre voto
eletrônico convidado pelo Congresso americano e escreveu vários
artigos. De um desses artigos, nós podemos sacar alguns comentários,
como, por exemplo, numa transação bancária, o que vale: o recibo em
papel ou os registros digitais? Se você simplesmente chegar num
banco com um papel e exigir a transferência de uma quantia na sua
conta, o banco vai confiar naquele papel que você está levando ou
ele vai verificar nos seus registros digitais a coerência, a
integridade daquela transação que está sendo questionada? Se a
quantidade de votos em papel não for igual à de votos eletrônicos...
Isso pode acontecer, pois nós estamos num meio muito mais frágil de
que um método eletrônico que tem todos os dispositivos de
integridade e de rastreabilidade.
Se existir essa disparidade, no caso, por exemplo: há mais
votos em papel do que eletrônico, como resolver? “Ah, mas isso não acontece!”
Acontece. Tanto isso ocorre que existe uma lei nos Estados Unidos,
no estado da Flórida, inclusive para resolver a questão. Ela está
aqui, é a Lei nº 102.061, no estado da
Flórida.
(Intervenção fora do
microfone. Ininteligível.)
O SR. GIUSEPPE DUTRA JANINO - Eu
teria que levantar aqui. Poderia lhe dar depois.
(Intervenção fora do
microfone. Ininteligível.)
O
SR. GIUSEPPE DUTRA JANINO
- Foi depois disso, depois do caso Bush, inclusive.
Então, isso tanto acontece que tem uma lei para decidir. Ela
define a regra. Interessante que a regra dela diz o seguinte: se há
mais votos em papel do que eletrônico, verifica-se um número de
votos em papel excedente, escolhe aleatoriamente e retira. Ou seja,
nós estamos vendo aqui a evidência da inconsistência de um processo
manual. Existe até uma lei para resolver essas questões da
inconsistência.
Ineficaz. Eu estou falando aqui da nossa experiência. Nós
estamos falando de uma experiência vivida e as conclusões a que nós
chegamos. Não estou questionando nenhum potencial de novo projeto.
Estou falando da nossa experiência. Por isso, falei aqui do voto que
pode ser puxado porque foi exatamente assim que foi implementado.
Claro que podem surgir outras soluções. Não estamos aqui
questionando isso. Ineficácia por quê? Não reproduz efeito desejado,
que é exatamente a...
Desculpem-me estou repetindo. Isso aqui é para recapitularmos
bem os pontos.
Prejudicial. Foi constatado nessa experiência, por quê? Mais
falhas, mais filas, maior abstenção. O que foi o caso do Distrito
Federal: houve muitas falhas nos equipamentos. Todas as manchetes de
jornais, da mídia, mostram, comprovam esse cenário que nós vivemos.
Eleições podem ser anuladas por fraude provocada. Seria algum
método de inserção ou de exclusão de algum voto. Isso gera uma
inconsistência. Se eu sei, por exemplo, que o meu adversário tem um
potencial de ganhar em determinada seção, eu posso, pelo meio de
manipulação dessas informações, inserir ou retirar informação com
certa facilidade.
Foi o que nós falamos aqui. As divergências não podem ser
comprovadas. Se eu tiver o número de votos maior impresso,
divergente do eletrônico, qual o lado que vamos dizer ou garantir
que está preciso? Não tem um método exatamente que garanta qual dos
dois lados está mais correto, e gera uma polêmica, gera um impasse
que causa, no mínimo, muita suspeição sobre o processo.
O retorno das mesas apuradoras, a volta da intervenção humana
no processo, que era um atributo que nós conseguimos vencer, usando
a automação, a mitigação da intervenção humana no processo, a
eliminação das mesas apuradoras. De qualquer maneira, nós vamos
trazer de volta aquilo que nós abandonamos.
A pergunta, depois do levantamento dessas questões, nessa
experiência nós vimos a ineficiência, a ineficácia, o prejuízo e um
custo de no mínimo 1 bilhão de reais para implementar uma solução
ruim, que não traria nenhum benefício para o processo eleitoral.
Esse foi o cenário que nós vivemos, decisório, para a sustentação do
processo hoje existente.
Auditorias de segurança. O que nós temos hoje no
processo? Foi ventilado
que não há transparência, não há recursos de auditoria, não há
recurso de verificação.
Aqui, nós temos uma lista. Selecionamos alguns itens que
estão hoje implementados no processo eleitoral. O hardware de segurança. Os softwares são desenvolvidos
pelo Tribunal Superior Eleitoral, são assinados digitalmente, usando
inclusive certificados digitais da ICP-Brasil. Essas assinaturas
digitais geram uma espécie de blindagem no software. Assinam os
representantes dos partidos e autoridades, como o Presidente do TSE,
o Procurador-Geral da República, com uma única assinatura, gerando
uma blindagem do software. Após essa
assinatura, esse software
é distribuído. Quando é carregado nas urnas eletrônicas, quando a
urna é ligada, esse dispositivo de segurança, que são os
certificados digitais embarcados dos componentes eletrônicos da
urna, verifica-se essa assinatura. Essa assinatura garante dois
atributos: que é realmente um software de autoria do
Tribunal Superior Eleitoral e que ele está íntegro. Se essa
assinatura não corresponder, esse software não roda. Isso
significa que não há possibilidade de um software alienígena ou um software não reconhecido, ou
um software alterado
rodar numa urna eletrônica. Nós não estamos falando aqui de
hipóteses, nós trabalhamos e realizamos dois testes de segurança.
Vários testes tentaram inserir softwares maliciosos nas
urnas eletrônicas e não tiveram sucesso.
Certificação digital. Usamos o certificado digital no padrão
ICP-Brasil, para assinatura desse software. A verificação dos
programas pelos partidos políticos, OAB e Ministério Público: aí se
diz que não há transparência dos softwares. Os softwares todos são
desenvolvidos pelo Tribunal Superior Eleitoral e ficam, 6 meses
antes da eleição, abertos para que os partidos políticos, Ordens dos
Advogados e Ministérios Públicos compareçam às instalações do TSE e
possam analisar, linha por linha, cada programa que será utilizado.
“Ah, mas o partido político
não entende de programação.” Ele pode contratar uma empresa
especializada para fazer isso e analisar esses códigos. E, no final
dessa análise, 6 meses antes da eleição fica aberto exclusivamente
para análise. Infelizmente, sempre os partidos políticos não
comparecem, e essa é a nossa grande frustração. Fica aqui,
inclusive, o nosso convite para que haja efetiva participação dos
partidos políticos, para que possam promover, inclusive, a melhoria
nos produtos que nós desenvolvemos — 6 meses antes da eleição os softwares ficam abertos para
auditoria. Depois desses 6 meses, eles são lacrados, o que nós
chamamos de lacração. Por meio de assinaturas digitais, nós
blindamos esses sistemas, para garantir que aquilo que foi visto
seja guardado na nossa sala-cofre e a outra cópia, também blindada,
seja distribuída para carga nas urnas eletrônicas. Aquela blindagem
de que eu falei, que tem dois atributos: ela garante autoria que tem
dois atributos: ela garante a autoria e a integridade dos sistemas.
Se aquela chave não for lida pela urna eletrônica, o software não funciona.
Cerimônia de lacração dos sistemas. Nós já falamos que é
aquela blindagem que é realizada juntamente com os partidos
políticos. Infelizmente, não há quórum, os partidos políticos não
comparecem a esses eventos. A verificação das assinaturas digitais e
programas das próprias urnas estão abertos também para os partidos
verificarem se aquele software é o mesmo que foi
desenvolvido pelo TSE e está lá disponível. Isso pode ser verificado
antes de serem carregadas as urnas eletrônicas e posteriormente à
eleição. Está disponível para que isso seja
feito.
Teste público de segurança. O Brasil é o único País que
realiza um evento dessa magnitude. Não existe registro no mundo de
que um país abra o seu sistema eleitoral para que potenciais venham
tentar quebrar seus os dispositivos de segurança. Nós já realizamos
dois eventos, desses dois eventos nós tivemos 47 planos de ataques;
esses 47 planos de ataques — a maioria deles tentando colocar softwares não reconhecidos,
ou maliciosos, ou alterados dentro da urna eletrônica — não tiveram
sucesso.
Nós tivemos apenas, desses 47 planos de ataques, um teste que
teve êxito parcial, que foi, inclusive, citado. Esse plano de ataque
que teve êxito parcial tinha o objetivo de quebrar o sigilo do voto,
ou seja, identificar o eleitor e o seu voto. Ele não conseguiu fazer
isso. Ele simplesmente pegou uma tabela que nós chamamos registro
digital do voto, onde nós guardamos os votos, que substituiu o voto
impresso, é uma tabelinha onde os votos são gravados aleatoriamente.
Essa equipe conseguiu pegar essa tabela e ordenar o voto, ou seja, o
programa, o algoritmo que fazia o embaralhamento foi vencido. Ele
conseguiu ordenar essa tabela e se soube ali: esse aqui é o primeiro
voto, esse aqui é o segundo voto, esse aqui é o terceiro voto.
Agora, quem votou em quem? Não conseguiu. Essa contribuição foi
muito positiva para o TSE, porque mostrou uma vulnerabilidade. Esse
é o objetivo desses testes de segurança, não é uma gincana, não é um
concurso. É a possibilidade de a sociedade e de quem tem potencial
dar a sua contribuição, e ela foi muito bem-vinda, tanto é que, 2
horas depois, nós tínhamos corrigido essa fragilidade, e ela está
corrigida. Inclusive, pedimos para a equipe que conseguiu
identificar isso testar novamente, e ela se negou, mas foi
corrigido. Isso foi positivo.
A verdade é essa: nós tivemos dois testes de segurança, que é
um evento inédito no mundo. Desses dois testes, nós tivemos 47
planos de ataque; desses 47 apenas 1 teve êxito parcial. Aí vamos
dizer que a urna não tem segurança? Se 47 planos de ataques foram
submetidos à urna, tentando as mais diversas fraudes, nós vamos
dizer que ela não tem segurança, que não há garantia de que ela seja
segura?
A questão da votação paralela. É outro recurso muito
interessante, muito didático. Às vésperas da eleição, as urnas já
estão lacradas, prontas para a votação, distribuídas em todas as
seções eleitorais. No sábado, véspera da eleição, em cada Tribunal
Regional, capitaneado por um juiz eleitoral, se faz um sorteio. Por
exemplo, a seção 25, onde está seção 25? Ela está na Ceilândia.
Vai-se à Ceilândia, no sábado, traz-se a urna que já está na escola,
prontinha para ser votada, e traz-se para o ambiente do Tribunal
Regional Eleitoral, numa sala que tem a intenção de ser um evento
público, ali são instaladas câmeras e, no dia da eleição, e no
horário da votação, a urna é ligada e se começa a fazer ali votos
explícitos. Escrevem-se em cédulas de papel: “vou votar no 79”, todo mundo
observa, aquilo é gravado, digita-se esse número num programa à
parte, para contabilizar e, finalmente, digita-se na urna eletrônica
com uma câmera filmando, digita-se o 79 e confirma. Ou seja, todos
os votos são feitos de uma forma explícita, ostensiva, e gravada e
registrado. No final desse evento, verifica-se se tudo aquilo que
entrou correspondeu àquilo que saiu. Existe uma empresa auditando,
isso é obrigado, acontece em todos os Estados, desde 2006. Existe
uma empresa contratada, uma terceira parte para auditar isso, desde
2006 nós realizamos isso e não existe, até hoje, sequer, uma não
conformidade nesse teste, que é o teste que nós chamamos de votação
paralela. Aí nós vamos dizer que não há transparência, não há como
checar? Como não há? Nós pegamos exatamente a urna que está pronta
para ser votada e trazemos aqui, fazemos esse processo todo e não há
possibilidade de verificar?
A verificação dos resumos digitais, que são uma espécie de
dígito verificador em cada programa, os partidos podem verificar
cada programa e se eles estão íntegros, por meio de cálculos
matemáticos. Existe hoje também um grupo de trabalho estudando as
inovações da urna eletrônica, principalmente, nos quesitos de
segurança e métodos de auditabilidade.
O que nós ainda podemos fazer mais? Claro que nós não estamos
aqui deitados sobre os louros. Nós temos 20 anos de experiência, e a
urna evolui a cada experiência pela qual passamos. Nós estamos
abertos para discussões, diálogos e contribuições, evidentemente,
senão não estaríamos aqui hoje.
O que nós temos ainda para fazer? Auditorias eletrônicas em
escala, promover mais auditorias. Hoje, por exemplo, nós estamos
sendo submetidos a uma auditoria de um partido, e essa auditoria
está em nível nacional, abrangendo todos os Estados. Hoje eles estão
lá no TSE, analisando os programas: 2 semanas dentro das instalações
do TSE, analisando, sem nenhuma restrição, todos os programas da
eleição de 2014. Sim, exatamente.
A outra proposta: tornar efetivo... Esses relatórios serão
ainda publicados. A outra sugestão: tornar efetiva a participação
dos partidos políticos nos mecanismos oferecidos pela Justiça
Eleitoral. É aquilo que nós falamos aqui, nós temos várias
possibilidades de interação, de participação, de contribuição dos
partidos políticos. Isso é muito importante para nós, mas precisamos
que os partidos políticos estejam presentes. Então, que haja,
realmente, essa participação.
Fomentar um núcleo externo de auditoria, criar um grupo
externo de auditoria com instituições, digamos assim, conceituadas,
que tenham a missão de efetuar, efetivamente, essas auditorias,
como, por exemplo, o Ministério Público, a Polícia Federal, a Ordem
dos Advogados, montar uma instituição que possa realmente fazer
auditorias constituídas, com investimentos destinados, uma
especialização, software,
e tudo o mais. Isso é do nosso interesse.
Aqui também outro processo. Coisas muito mais, digamos assim,
inteligentes, muito mais eficientes, eficazes e precisas são as
nossas sugestões.
Para encerrar, o posicionamento do processo eleitoral
brasileiro no mundo.
Falou-se aqui do posicionamento, da urna eletrônica, do
descrédito, digamos assim, do processo eleitoral no
mundo.
Houve um estudo realizado pela Universidade de Harvard,
incluindo, inclusive, as eleições de 2014, em que se avaliou no
mundo os processos eleitorais. Isso aí, inclusive essa
transparência, será distribuída a V.Exas., que poderão entrar nesse
estudo mais profundamente. Essa pesquisa apresentou aqui um nível de
integridade das eleições brasileiras como de alto nível, atingindo a
colocação de vigésima sétima posição no ranking mundial de
integridade.
Vamos ver alguns aspectos que foram avaliados nesse próximo
slide. Mas aqui só para
mostrar o posicionamento afrente do Japão, dos Estados Unidos como
países, digamos assim, com democracias consistentes e com sistemas
consolidados de votação.
(Intervenção
fora do microfone. Inaudível.)
O SR. GIUSEPPE JANINO
- Sim, não seria muito exemplo. Mas aqui o Brasil na sua
colocação. E vamos ver aqui alguns
elementos...
(Intervenção
fora do microfone. Inaudível.)
O SR. GIUSEPPE JANINO
- É, mas ele foi feito em conjunto com a Universidade de Sidney.
Aí, acho que compensou um pouquinho.
Aqui, alguns aspectos que foram avaliados, só para deixar
algum aspecto bastante interessante.
No quesito contagem de votos, tivemos a nota 93; na questão
quesito de procedimentos eleitorais, 89; autoridades eleitorais, 86,
cadastro de diretores, 81. O que puxou a nossa nota para baixo foi o
quê? O financiamento de campanha, tivemos a nota 5. Isso fez com que
o nosso grau de integridade caísse. Acho que aqui deram uma
ajudinha.
(Intervenção
fora do microfone. Inaudível.)
O SR. GIUSEPPE JANINO
- Pois é. Então, não foram fundo. Acho que não foram
fundo.
Bem, isso aqui seria só para mostrar um painel de uma
pesquisa séria, com entidades altamente conceituadas, mostrando a
posição externa, ou a visão do mundo, com relação ao Brasil. Há
muito a melhorar? Há. Nós estamos abertos a isso. A contribuição dos
senhores é essencial.
Muito obrigado. (Palmas.)
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Concedo a palavra ao Ministro Henrique
Neves.
O SR. HENRIQUE
NEVES - Sr. Presidente, Deputado Rodrigo Maia, nobre Relator,
Deputado Marcelo Castro, inicialmente, gostaria de agradecer o
convite para participar deste debate e cumprimento esta Comissão
pelo árduo trabalho que tem sido feito, pela quantidade cotidiana de
debates que tenho acompanhado. Salvo engano, ontem o eminente já
esteve em dois Estados, em dois debates diferentes e já está aqui
hoje para o quarto. Acho que a democracia se faz justamente através
dos debates para o aperfeiçoamento da nossa legislação eleitoral,
que é, sim, uma necessidade do Tribunal Superior Eleitoral, que
também comunga dessa necessidade de aperfeiçoarmos cada vez mais as
leis eleitorais, o processo democrático
brasileiro.
O primeiro ponto que gostaria de dizer é que não se trata de
o Tribunal ser a favor ou contra a impressão de votos. Essa matéria
se vier a ser decidida pelo Congresso Nacional, o Tribunal acatará,
obviamente, a lei como qualquer administrador. Qualquer pessoa da
administração está sujeita às leis que o Congresso Nacional
faz.
Em 2012, salve engano, havia a previsão de uma norma para o
voto impresso em 2014, que foi declarada inconstitucional pelo
Supremo Tribunal Federal, porque no modelo que foi feito na lei se
estabelecia a necessidade da atribuição de um número de
identificação ao voto o qual, por consequência, identificava o voto
em quem o eleitor teria votado.
A Justiça Eleitoral foi criada para evitar fraudes. Os
senhores conhecem melhor do que eu a história brasileira. A
Revolução de 1930, e em 1932 a Justiça Eleitoral vem como uma
resposta às inúmeras fraudes, à quantidade de ilegalidades e
ilegitimidades que se cometiam nas eleições brasileiras até
então.
Até 1962 os
partidos políticos imprimiam as suas cédulas. Em 1962 veio a Lei da
Cédula Única, e também a partir de 1962 é que se disse que só a
Justiça Eleitoral é quem imprime as cédulas eleitorais. E o Brasil
viveu o período de 1962 a 1995, quando, lá em Santa
Catarina...
O SR. DEPUTADO
MARCELO CASTRO - Antes de 1962 jogava-se a cédula dentro da
urna.
O SR. MINISTRO
HENRIQUE NEVES DA SILVA - Ele trazia de casa, o partido fazia a
cédula.... E a gente conta ainda... O Prof. Walter Costa Porto conta
a história de um determinado eleitor que perguntou ao Coronel: “Eu estou votando em quem?”
“Rapaz, você não sabe que o voto é secreto?” Era assim que se
fazia eleição na primeira metade do século passado. Mas, de
1962...
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Por isso é que a eleição é cara
agora.
O SR. MINISTRO
HENRIQUE NEVES DA SILVA - De 1962 até 1995, com a grande
participação do Estado de Santa Catarina, que foi onde nasceu a urna
eletrônica, em 1995, o Brasil optou pelo papel. Eu não vou dizer que
isso seja bom ou que seja ruim, mas vamos lembrar alguns problemas
que existiam na época do papel, na época da votação no papel.
Primeiro,
a apuração. A missão da Justiça Eleitoral não é trazer o resultado
em 20 minutos, em 30 minutos. Isso é uma comodidade que se tem no
processo. A missão é a segurança e a integridade do voto. Se vier
rápido, melhor. Nós nunca entramos em disputa, quando ainda as
emissoras de rádio e televisão divulgavam a boca de urna, para dar o
resultado antes da boca de urna. Não é a nossa missão. A nossa
missão é com a integridade e com a segurança da apuração. Se demorar
1 hora, 1 dia ou 2 dias, o importante não é o tempo, e sim a
integridade. É lógico que quanto mais rápido menor o anseio da
população em saber o resultado da eleição, menor a possibilidade de
dúvidas.
Mas
quando nós tínhamos o voto impresso, o que acontecia, por exemplo,
nas urnas? Muitas vezes, o primeiro eleitor não votava — era aquele
voto formiguinha —, o primeiro não votava, entregava a cédula em
branco para o candidato, ia trocando...
O SR. DEPUTADO
MARCELO CASTRO - Era a famosa corrente.
O SR. MINISTRO
HENRIQUE NEVES DA SILVA - A corrente. E o eleitor, quando
entregava uma nova cédula em branco, aí é que recebia a benesse para
o voto. O voto eletrônico acabou com isso. Não há mais essa entrega
de nada ao eleitor. Com o processo de votação eletrônica, com o voto
impresso ou não, eu acho que está superado todo esse problema de
troca, esse tipo de fraude.
Na apuração existia todo o problema do mapismo, o problema do
enxerto dos votos após a apuração. Por quê? Eu me lembro de um caso
em que se discutia... Quando se fala em recontagem, a recontagem não
era automática, a recontagem levava 2 meses, 3 meses, 6 meses, 7
meses até que o Tribunal Superior Eleitoral viesse a definir: é para
recontar. Eu me lembro de um caso em Minas Gerais em que foi feita
uma recontagem e que na hora em que foi feita a recontagem o
resultado foi completamente diferente daquele primeiro divulgado. E
aí se falou: “Mas onde é que
esses votos ficaram guardados?” “Esses votos ficaram guardados no
cofre do Banco do Brasil.” “Ah, então segurança
perfeita.” Quem era o gerente? O gerente era o irmão do
candidato. Quer dizer, então, ao longo de 6 meses, trocou-se tudo o
que estava dentro da urna de lona.
O SR. DEPUTADO
ESPERIDIÃO AMIN - Era uma pessoa de
confiança.
O SR. MINISTRO
HENRIQUE NEVES DA SILVA - Sim, era uma pessoa de confiança do
candidato. São falhas que decorrem da intervenção humana. Isso pode
ocorrer num sistema eletrônico? Em tese, sim, mas no sistema
eletrônico eu tenho como programar a urna — e ela é programada para
isto — para que, se eu ligar a urna e se ela for ligada e desligada,
apenas ligada e desligada, isso fique registrado num arquivo chamado
Log. É um diário da urna. Toda e qualquer operação que se faça na
urna é registrada pela própria urna. Então, seria como se eu tivesse
uma lona de pano e que, se ela fosse pega por alguém, seria anotado
num diário: “o cidadão pegou a lona de pano”.
Então,
é esse tipo de desenvolvimento que eu acredito que nós temos que
sempre aperfeiçoar, para que tudo e qualquer coisa que acontecer
dentro da urna seja registrado, fique marcado para que possa ser
examinado e auditado pela Justiça Eleitoral e pelos partidos
políticos.
No
exemplo que V.Exa. deu de trazer o voto impresso em formulário
contínuo eu teria um pequeno problema. Se é no momento da votação, a
urna teria que ser dotada de uma venda para que o eleitor não
soubesse qual foi o voto do eleitor anterior. Eu teria que ter
aquela impressão... Eu digo a cada voto. Se a cada voto eu vou
imprimindo um, para que seja um formulário contínuo, eu não posso
permitir que o eleitor posterior saiba em quem o anterior votou. (Intervenção fora do microfone.
Ininteligível.) Sim, tem que se fazer essa adaptação. (Intervenção fora do microfone.
Ininteligível.) Se isso é feito logo depois de encerrada a
eleição, como V.Exa. está falando, é isto aqui. É este formulário.
Este formulário já pode ser feito. Este formulário chama-se registro
digital do voto. Todos os votos que são postos na urna, eles são
registrados aqui, de forma aleatória, para que não sejam
identificados.
Nós temos um pequeno problema aí, que é o seguinte: ao mesmo
tempo em que temos que dar transparência, nós temos que dar
transparência a algo que, constitucionalmente, é sigiloso. Eu tenho
que dar transparência sem comprometer o sigilo do voto. (Intervenção fora do microfone:
Sem identificá-lo.) Sem identificá-lo.
Então, em relação ao que antigamente existia — a cédula de
papel —, o que eu costumo dizer é que o papel é uma das formas de
visualização de um arquivo eletrônico, como foi dito aqui pelo Dr.
Celso. A Nota Fiscal Eletrônica, normalmente nós recebemos essa nota
fiscal por e-mail, por
algum tipo eletrônico, que eu vejo na tela do meu computador e vou
imprimir se eu quiser ou não. Mas ela está lá.
O que vale na nota eletrônica não é a sua impressão, não são
aqueles antigos carimbos de autenticação mecânica que existiam nos
documentos bancários há algum tempo. O que vale é o código de
verificação, o código hash
que tem na nota eletrônica, que me permite entrar no site da Secretaria de
Fazenda e verificar a autenticidade daquela nota. São elementos, são
assinaturas eletrônicas que fazem com que aquela nota tenha
validade. E não o fato de ela estar impressa ou
não.
Nesse aspecto, o RDV, ele existe. Ele está lá. Foi dito aqui
que seria ótimo se 3 mil, 5 mil membros da academia pudessem
examinar. Ou então, no exemplo que foi dito também, de que às oito
horas da manhã se poderia roubar uma urna, e às três horas da tarde
já se saberia tudo que tem dentro dessa urna. Não
precisa.
Todo e qualquer programa que está colocado dentro da urna,
ele é apresentado não como um programa de informática, mas pelo
código fonte, ou seja, a raiz do programa, a linha de programação.
Todos os partidos políticos, o Ministério Público, a Ordem dos
Advogados, e qualquer interessado — que se habilite, obviamente, a
um controle, para que não se extrapole, tem que ter um mínimo de
interesse e legitimidade — tudo isso pode ser registrado perante o
Tribunal Superior Eleitoral, e há uma audiência pública que se
inicia 6 meses antes da eleição e vai, salvo engano, até 4 meses, ou
3 meses, antes da eleição, quando os programas são fechados e
assinados digitalmente.
Nessa fase, os partidos políticos podem encaminhar seus
técnicos, podem fazer o que eles quiserem, para examinar. E aí nós
pedimos, é essa a posição da justiça eleitoral: ajudem-nos. Se
existem falhas no sistema, que identifiquem. Não simplesmente digam
que existem as falhas, mas digam as falhas e tragam também quais são
as soluções para evitar que aquela falha possa comprometer a
operacionalidade da urna.
A urna é um computador. Um computador é, por definição, uma
máquina burra. Ela só funciona com a ordem que lhe é dada. Então,
toda a integridade da urna eletrônica está no programa. É o programa
que faz a urna funcionar e ela contar desta ou daquela forma, a
cédula aparecer, a foto do candidato aparecer ou não aparecer. Tudo
isso são comandos de informática que compõem os sistemas de
informática da urna, que compõem toda a sua
programação.
Todos os partidos políticos têm acesso a isso. Então, se for
verificar aquela velha hipótese: não, eu vou votar no candidato
nº 78 e a urna contará este voto para o nº 79, para que isso
exista, eu tenho que ter uma linha de computador. Eu não entendo,
não sou técnico como eles, mas pelo que eu me lembro de programação
muito básica, eu teria que dizer o seguinte: quando pressionadas as
teclas 7 e 8
O SR. DEPUTADO ESPERIDIÃO AMIN - (Intervenção fora do microfone.
Ininteligível.)
O SR. HENRIQUE NEVES -
No
programa. Sim. Pode ter, pode ser aonde for, mas este comando, ele
tem que estar no código. Se eu tenho acesso a todo este
código...
O SR. DEPUTADO ESPERIDIÃO AMIN - (Intervenção fora do microfone.
Ininteligível.)
O SR. HENRIQUE NEVES -
O
hacker teria a seguinte
característica, que é outra coisa que se diz. Foi dito aqui, por
exemplo: se entrar no nosso celular, hoje, eu posso roubar todos os
dados do celular sem saber
que a própria pessoa saiba que está... (Intervenção fora do microfone.
Ininteligível.) Depende. Se o meu celular, para que ele tenha
acesso, primeiro ele tem que estar ligado ou a uma rede 3G ou 4G, ou
a uma rede wifi de dados. Ele tem que estar ligado a alguma rede.
Tem que ter uma porta de entrada no celular. (Intervenção fora do microfone.
Ininteligível.) Não, um contato. Aquele celular tem que estar
ligado a outro computador, a outro aparelho, a alguma rede de
comunicação, seja por linha telefônica, seja por linha de dados,
seja por wi-fi. A urna
não tem nada disso. Ela não está ligada à Internet, ela não tem
nenhuma conexão com a Internet.
Fala-se: “Vamos
rackear as urnas”. E é normal, na época das eleições, justamente
por falta de conhecimento técnico e principalmente no interior, que
se apareçam alguns aproveitadores que digam: “Olha, eu tenho um raio
paralisante da urna. Eu tenho algo que joga e vai alterar o
resultado da urna e eu preciso de x mil reais e custa tanto”. E
há gente que cai nessa história. E, do mesmo jeito, ele vende depois
e fala o seguinte: “Olha,
vendi para o adversário e, agora, preciso vender o antídoto para
ganhar alguma coisa.” E, depois da eleição, ele some e não
aparece.
Já houve casos em que, em uma eleição, se dizia que, se
passasse um cartão magnético em cima da urna, embaralhar-se-iam
todos os votos que ali havia. Quer dizer, a criatividade humana não
encontra limites. Mas, voltando à questão do voto impresso, todas as
experiências que nós tivemos não foram proveitosas. Pelo contrário,
dificultaram.
Para trazer o voto impresso, eu teria todo esse problema de
armazenamento e de eventual substituição: “Ah, mas esse tipo de
segurança...” Sim, mas é uma segurança que a Justiça Eleitoral
tem que fazer. Mas eu não posso também desconsiderar que haja, como
já ocorreu no passado. E são inúmeros exemplos de recontagem de
votos em que a fraude era no próprio âmbito da Justiça Eleitoral.
Quer dizer, o funcionário trocava a urna. Isso, por mais que nós
tenhamos segurança, que nós fiquemos em cima, olhando com
policiamento, é uma atividade humana a que todos estão
sujeitos.
O que nos parece que é mais interessante é não só ter a
segurança, mas também ter a possibilidade de que, se houver alguma
fraude, ela seja identificada, que a fraude deixe registro, está
certo? Quando se fala que a fraude não poderia deixar nenhum
registro, é a história do telefone, que eu estava falando, de roubar
os dados dos telefones.
Vou ter provavelmente no meu telefone — dependendo dos
programas de segurança que eu tenha nele — um programa que diga quem
acessou o meu telefone, a que horas, ele se conectou a qual rede,
qual o IP conectou-se a esse telefone. E, a partir daí, eu consigo
identificar quem acessou o meu telefone ou não, mesmo que não note
nada de diferente nele.
No computador de todos, se vocês pegarem o registro de login que está dentro do
computador, ele verifica que horas o computador entrou em rede, que
horas o computador saiu de rede, se houve uma tentativa de intrusão,
se não houve uma tentativa de intrusão. Parece que a (ininteligível) opera nessa
área de segurança de rede. Quer dizer, há como, se botar segurança
na urna — que eu acho que ela já existe. Mas acho que a função da
Justiça Eleitoral é sempre aperfeiçoar o sistema se trouxer novos
métodos e novos programas de informática para dar essa garantia à
urna.
Quando se fala em apurar 2% ou 3% de votos impressos é o que
se estabelece na votação paralela. A votação paralela começou em
2006 e aumentou — até por sugestão minha. A votação paralela, na
verdade, é uma sugestão do Ministro Dias Toffoli, quando ele era
advogado ainda. E depois, contribuindo com as instruções, eu até
aumentei a extensão.
Naqueles votos que são impressos naquele momento, naquela
cerimônia, devem ser atribuídos votos a todos os candidatos
registrados, não apenas a alguns. Não pode ser uma coisa aleatória.
Todo e qualquer candidato tem que ter um voto. Tem que haver um voto
nulo, tem que haver um voto em branco, todas as opções possíveis da
urna têm que ser testadas. E, no final do dia, se imprime o
resultado e se verifica: É o resultado esperado? Sim.
Até hoje, são quantos anos já? Em 2006. Já estamos há 5
eleições. Pode-se estimar mais de 2.000 votações paralelas talvez.
Não sei, estou chutando um número, mas é uma quantidade grande de
votações paralelas sem que tenha sido identificada nenhuma
irregularidade. Agora volto a dizer, é fundamental para a Justiça
Eleitoral, nós não somos donos nem senhores da razão, nós tentamos
com boa-fé, sim, obter o melhor resultado de segurança para a nossa
urna.
É óbvio que existirão gênios de 12 ou 13 anos de idade que
terão soluções melhores do que a do Dr. José, porque tem alguns anos
de trabalho nessa área. Poderá haver outros que já estão com idade
avançada, mas que lembram situações que devem ser protegidas. O que
nós pedimos é que não só os partidos políticos, mas a sociedade como
um todo traga todo esse tipo de sugestão para análise da Justiça
Eleitoral, para que, se o sistema puder ser aperfeiçoado, ele seja
aperfeiçoado então.
Uma última consideração, Sr. Presidente, que eu gostaria de
falar — eu tinha algumas outras matérias aqui para pôr, mas são
questões quase que basicamente técnicas — é uma sugestão de reforma
que eu acho muito simples e que pode evitar um
problema.
Nas eleições de 2014, principalmente no segundo turno, surgiu
um boato de que a apuração estava sendo secreta, que havia uma
apuração secreta no Tribunal Superior
Eleitoral.
A apuração, para todos os efeitos, na realidade, é feita num
momento. Quando se diz que o Tribunal leva 2, 3 horas para apurar,
não é verdade. O Tribunal leva 10 segundos para fazer uma apuração,
porque a urna é a mesa apuradora. Na hora em que se termina a
votação, se clica e o boletim de urna sai, ali é a apuração. O que
leva 2, 3, 4 horas é a totalização dos resultados, ou seja, a
transmissão desses dados para o Tribunal Superior Eleitoral para que
se tenha um número completo, total, da eleição nacional e os números
regionais nas eleições estaduais e federais.
Só que nós temos um problema: nas eleições, nós temos os
fusos-horários brasileiros: aqui de Brasília, do Nordeste e do
Norte, principalmente do extremo norte do Acre. Por conta disso,
também já há algum tempo, o Tribunal Superior Eleitoral entendeu — e
tem entendido — que, como o Código Eleitoral diz do horário da
votação e não estabelece nenhuma regra, se é o de Brasília ou se é o
do local, tem que se seguir o horário local.
O que acontece é que, na eleição nacional, o Tribunal fica
proibido de divulgar o resultado entre as 5 horas da tarde, quando
termina a votação aqui em Brasília, e, dependendo, se estiver em
horário de verão ou não, até as 7 ou 8 horas da noite no Acre.
Parece-me que isso gera um problema quando sai o resultado — neste
ano nós saímos com 95% já às 7 horas da noite. Então, já vem aquela
coisa: “Tudo isso foi
secreto?”. Foi secreto.
Isso tudo está aberto; os boletins de urna foram fixados nas
seções, nos locais de votação; os partidos podem ter acesso a esse
boletim de urna. São impressas cinco vias obrigatórias e quinze vias
facultativas para cada partido político.
Em eleições municipais, muitas vezes é mais rápido o partido
político pegar o boletim quando há poucas urnas, como ocorre em
cidades bem pequenas do interior. Cada um pega o boletim de urna,
chega, calcula, soma na calculadora e tem o resultado antes de o
juiz dar o resultado final.
Eu acredito que isso pode ser modificado se o Congresso
simplesmente alterar um artigo do Código Eleitoral, dizendo que a
eleição, ainda que comece no horário local, às 8 horas da manhã, se
encerre pelo menos às 18 horas de Brasília. O Acre, talvez, seria
sacrificado em uma hora, mas eu terminaria a eleição, em todo o
País, no mesmo horário.
Terminando a eleição no País todo no mesmo horário, os
primeiros boletins de urna que chegarem serão divulgados com 1%, 2%,
3%, e trará essa possibilidade de o eleitor ir acompanhando essa
evolução da votação. Mas o que não é possível hoje é essa situação,
em que temos diversos locais e diversos términos, prazos de término
de votação no País, duas ou três horas de diferença, dependendo do
horário de verão.
Então, deixo uma sugestão ao Congresso nesse sentido de
unificar o horário final das eleições.
(Intervenção fora do
microfone. Inaudível.)
O
SR. MINISTRO HENRIQUE NEVES DA SILVA
- Não. Hoje ela termina assim. Se eu passasse para as 18 horas,
Brasília e o Sul...
O SR. DEPUTADO
ESPERIDIÃO AMIN - Começaria às 8 horas no horário de
Brasília?
O SR. MINISTRO
HENRIQUE NEVES DA SILVA - Brasília e o Sul ganhariam uma hora.
Nordeste e Norte permaneceriam exatamente com o mesmo tempo de
votação, porque a diferença é de uma hora. O Acre é que, dependendo,
se houvesse horário de verão no segundo turno, poderia
perder.
O SR. DEPUTADO
ESPERIDIÃO AMIN - Começa às 8 horas de Brasília e termina às 18
horas de Brasília.
O SR. MINISTRO
HENRIQUE NEVES DA SILVA - É. Pode ser também no mesmo horário de
Brasília, e todos teriam exatamente o mesmo
horário.
O SR. DEPUTADO
ESPERIDIÃO AMIN - Um começa às 8 horas de Brasília e termina às
17 horas de Brasília.
O SR. MINISTRO
HENRIQUE NEVES DA SILVA - Exatamente. Teria exatamente o mesmo
tempo de votação. Começariam todos no mesmo horário e terminariam
todos no mesmo horário, e a partir daí eu divulgaria o
resultado.
O SR. DEPUTADO
MARCELO CASTRO - Tem um problema aí. Às vezes há muita fila na
urna eletrônica, e os mesários pegam os
títulos.
O SR. MINISTRO
HENRIQUE NEVES DA SILVA - Aí é distribuída a senha. Para quem
estiver na fila até o horário da votação é garantida a
votação.
O SR. DEPUTADO
MARCELO CASTRO - Porque aí só sairia depois, não
é?
O SR. MINISTRO
HENRIQUE NEVES DA SILVA - Só sairia depois, não há
dúvida.
O SR. DEPUTADO
ESPERIDIÃO AMIN - Mas isso é outro
quesito.
O SR. MINISTRO
HENRIQUE NEVES DA SILVA - Mas quanto a isso não há nem a
preocupação do Tribunal Superior Eleitoral, porque, em relação a
quem está na fila, a preocupação que se teve sempre nesse aspecto
foi o de não permitir que aquele eleitor que está em casa tenha
acesso a um resultado parcial da eleição que possa influenciar no
seu voto.
O SR. DEPUTADO
ESPERIDIÃO AMIN - Não vou mais...
O SR HENRIQUE NEVES
DA SILVA - Não vou ou,
talvez, eu tenha que sair correndo agora. Quem já está na fila,
provavelmente, pode até ouvir um boato aqui, mas não vai haver
essa...
O SR. DEPUTADO
ESPERIDIÃO AMIN - (Intervenção
fora do microfone. Inaudível.)
O SR HENRIQUE NEVES
DA SILVA - Também
acho, exatamente.
O SR. DEPUTADO
ESPERIDIÃO AMIN - A entrada e a saída.
O
SR HENRIQUE NEVES
DA SILVA - Então,
Sr. Presidente, eminente Relator, nesse exemplo que eu dei,
parece-me... E eu volto a dizer aqui, o Tribunal Superior Eleitoral
não é dono nem senhor da razão, ele é um órgão criado para evitar
fraudes eleitorais, para conduzir o processo
eleitoral.
Nós estamos completamente abertos, não só nessas audiências
públicas de 6 meses antes, mas, a qualquer momento, para receber
seja os representantes dos partidos políticos, os representantes do
Congresso Nacional, da academia, de quem desejar apresentar uma
solução que possa contribuir para o processo eleitoral. Nós vamos
examinar e vamos dizer: “Com essa nós concordamos por causa disso
ou não concordamos por conta daquilo”.
O não concordar, muitas vezes, atiça a imaginação da pessoa
para tentar achar uma solução para ajustar. É esta a posição do
Tribunal Superior Eleitoral em colaborar e aperfeiçoar o nosso
sistema eleitoral.
Muito obrigado.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Agradeço ao Ministro e passo a palavra
ao Deputado Esperidião Amin.
O SR. DEPUTADO
ESPERIDIÃO AMIN - Eu serei muito breve, até porque eu gostei de
compartilhar este momento também com o autor da Proposta de Emenda à
Constituição, que ensejou essa discussão bem mais universal do que a
proposta.
Nós estamos aqui — eu quero me dirigir ao Dr. Celso, ao
Ministro Henrique Neves e ao Dr. Giuseppe Janino —, não movidos, eu,
pessoalmente, não estou movido pela desconfiança. Eu estou movido
pelo sentimento, com o qual todos os senhores concordam, de que uma
inovação nunca é definitiva.
Eu fui analista de sistemas no final dos anos 60: Cobol,
Fortran, Basic Assembly, IBM, Burroughs — Burroughs, imaginem! —,
UNIVAC...
O
SR HENRIQUE NEVES
DA SILVA - Aquelas
linhas: Linha 10, 20, 30...
O SR. DEPUTADO
ESPERIDIÃO AMIN - Então, eu não vou falar sobre a parte
jurássica, eu sou de um Estado, como registrou o Ministro Henrique
Neves, que foi o protagonista desta invenção. Na verdade, a primeira
vez que ela foi usada foi em 1989, mas ainda com o computador, mas
dentro do mesmo princípio — em 1992, em 1994 e, finalmente, em
1996.
Então, é lógico que o desejo de inovar tinha a ver com a
história da fraude, o senhor relatou uma, a fraude folclórica do
voto secreto, mas há muitas outras. E nós não vamos aqui falar desse
compêndio.
Sobre fraude no papel, nós sabemos que nos livramos de
fraudes bizarras até. Agora, fraude eletrônica é um negócio muito
mais instigante, muito mais misterioso, e, como se trata de uma
inovação, coisa de bruxaria.
O SR HENRIQUE
NEVES DA SILVA -
(Intervenção
fora do microfone. Inaudível.)
O SR. DEPUTADO ESPERIDIÃO AMIN -
É, eu nem vou falar, o Proconsult é de 1982. Mas eu queria chamar a
atenção para o seguinte: o Dr. Janine, que é do ramo da tecnologia
da informação, já leu o livro Os Inovadores? Esse do
Walter Isaacson? É uma biografia da revolução digital, é muito
interessante, porque, a cada inovação, surgem dissidentes,
confrontantes, confrontantes no sentido de conflitantes, e, assim
caminha a humanidade. O que é novo hoje passa a ser obsoleto amanhã,
antieconômico depois de amanhã etc.
Então, o princípio desta reunião, eu queria me dirigir ao
relator, é o de que nós não poderíamos concluir este trabalho numa
Comissão de Reforma Política para saber se o voto nos representa.
Nós estamos questionando a representação política. “Você me representa?” Nós já
perguntamos isso quantas vezes isso aqui? Então, é: “Pode ser, você se elegeu com
285 votos; Marcelo fez 130 mil e é suplente?” Nós temos isso
aqui. Então, você me representa?
E, finalmente, o voto me representa, ou o voto está usando
outra linguagem? Essa é a questão.
E o princípio sob o qual nós nos devemos ater, em minha
opinião, é, primeiro, a minha única restrição à sua exposição, Dr.
Janino: o senhor se ateve a uma experiência malsucedida. Se ela for
malsucedida e for revogada, ela não vale mais como aplicação neste
momento. Aí realmente é provocar uma reação do nosso candidato a
Prêmio Nobel da Paz, Deputado Jair Bolsonaro. A ideia é dele, ele
não está querendo repetir aquilo.
Por isso eu também me insurgi contra aquele seu eslaide do
ineficaz. Ineficaz foi aquilo! Não vamos repetir uma coisa de 10
anos, 12 anos ou mais. Não se trata de criticar isso ou aquilo.
Trata-se — e aí eu quero concluir — de dizer o seguinte: tudo o que
o senhor falou sobre o ineficaz para o papel vale para o eletrônico
também. Aquelas quatro frases, se o senhor quiser botar o eslaide...
Não quero desqualificar a apresentação, mas aquele eslaide me
exacerbou, porque as quatro acusações, inclusive a do NIST, vale
para o eletrônico também. Tudo que vale para o papel vale para o
eletrônico.
Aliás, o Deputado Rodrigo Maia falou: “Mas o que eu boto lá será que a
máquina não pode alterar? Só no papel?” A máquina também pode
alterar.
Para encerrar, o princípio geral é o da auditabilidade, é
disso que nós estamos falando. O nosso sistema é muito bom, mas a
auditabilidade dele precisa melhorar. É por isso que nós estamos
aqui. E os senhores também concordam, porque estão investindo
exatamente na auditagem.
E para concluir com uma frase só: o executor é uma coisa, o
auditor é outra. Um sistema que não estabeleça uma linha de
blindagem — pode usar aí essa palavra —, que não estabeleça um
eficaz cinto de castidade entre a execução e a auditoria sempre será
contestado. Então, o que nós estamos procurando, seja com essa
proposta de emenda à Constituição, seja com outras que podem ser
desenvolvidas e aperfeiçoadas, é uma auditabilidade que acompanhe a
evolução tecnológica do próprio voto, que vai continuar sendo
aperfeiçoado. Portanto, os mecanismos de auditagem também têm que
acompanhá-lo. E vai ser muito difícil que isso aconteça pari passu, mas é necessário
que, pelo menos como processo, ambos se sintam sempre
insatisfatórios ou imperfeitos.
Só isso que eu queria dizer. Cumprimento a todos pela
respectiva disposição.
Eu queria compartilhar um tempinho com o candidato ao
Nobel.
O SR. HENRIQUE NEVES
DA SILVA - Sr. Presidente, concede-me a
palavra?
Eu me esqueci de falar um dado que me parece importante e que
vai, mais ou menos, na linha do que V.Exa. disse. O Tribunal
Superior Eleitoral, na semana passada, institucionalizou os testes
públicos de segurança. Agora, eles passam a ser obrigatórios, porque
houve esse problema. Fez em 2010, em 2012, depois não fez um ano,
fez outro. Então, nós fizemos uma resolução que parte, mais ou
menos, do principio a que V.Exa. se referiu. Nós temos as diversas
comissões. A Secretaria de Informática participa de algumas dessas
comissões, mas há as comissões relativas à avaliação e ao resultado
do teste. Nós excluímos o setor de informática do Tribunal para
remeter isso a órgãos públicos, à Polícia Federal, à participação de
pessoas externas, partidos políticos, representantes do Congresso,
para que o sistema possa cotidianamente, pelo menos a ideia é, no
mínimo, no ano anterior das eleições, ter esses testes para
verificação. Se existe alguma falha, que nós possamos identificá-la
e corrigi-la a tempo. Não é nenhuma intenção manter a falha. Pelo
contrário.
Então, é só esse registro da aprovação no plenário do TSE na
semana passada dessa nova resolução sobre a institucionalização dos
testes.
O SR. DEPUTADO
ESPERIDIÃO AMIN - E confirma que é um desejo comum a todos
nós.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Com a palavra o Deputado
Bolsonaro.
O SR. DEPUTADO JAIR
BOLSONARO - Sr. Presidente, eu não vou me referir aos
debatedores, porque eu quero ser objetivo — somente ao Sr. Giuseppe,
porque o senhor, como Secretário de Tecnologia da Informação do TSE,
não vai levantar uma vírgula de suspeição. Eu acho que seria até
dispensável a sua presença, a não ser para rebater alguém que
acusasse de suspeição. Mas tudo bem. Não vou entrar no mérito dessa
questão aqui.
Os senhores aqui, com exceção do Celso Luiz, passaram por
cima de Estados Unidos e Japão. Por que não adotam a nossa
tecnologia? Eu não sei. Nós temos o Vale do Silício aqui, estamos
produzindo computadores. Não sei. É algo que passa
despercebido.
Agora, vamos ao que interessa. Todos nós, Rodrigo Maia,
perseguimos um mandato, do Vereador ao Presidente da República. No
passado, no Rio de Janeiro em especial, fraudes no papel, a gente
sabia, naqueles 15 dias de apuração, aconteciam de monte. E havia um
clamor, sim, Sr. Ministro, de voto eletrônico. Eu, inclusive,
defendia o voto eletrônico no passado, como Santos Dumont defendeu a
aviação, e depois praticou suicídio. Ele viu, para ele, a besteira
que ele fez e buscou o suicídio.
Rodrigo Maia, por favor.
No
Equador, há 1 mês e pouco, em reunião da UNASUL — e aí o pessoal
também do Foro de São Paulo etc —, deliberou-se, com a presença da
Sra. Presidente da República Dilma Rousseff, pela criação de uma
unidade técnica eleitoral na América do Sul. O político não dorme.
Não interessa quem esteja lá em cima. Ele não dorme. Por que isso?
Será que se descobriu, Sr. Ministro, que a chave do sucesso são
essas urnas Smartmatic? Será?
Vamos
lá. Eu vou falar de uma paranoia — por favor: paranoia. Eu entendo
que, acaso aprovemos essa emenda, a PEC, agora ou no futuro, pode
até ser ela questionada no Supremo. De acordo com o número de
pessoas indicadas pelo Governo — isso é uma “paranoia” — junto ao
Supremo, ele pode declarar inconstitucional essa futura emenda à
constituição, porque ela seria promulgada por nós. Ou seja, estaria
garantido a esse sistema que está aí a sua imutabilidade. Essas
questões têm que se levar em conta nesta discussão aqui.
Agora,
por favor, senhores, aqui, Sr. Giuseppe. O senhor fala que a
impressora pode dar problema. Eu nunca vi problema com maquininha de
cartão de crédito. O homem já foi à Lua. Vai engasgar a maquininha
com a qual a gente paga uma conta no cartão de crédito? Eu acho que
isso é argumento para, exatamente… É mídia de quantos anos atrás? De
20 anos atrás, (ininteligível)? As
maquininhas não tem como darem problema; imprime, (ininteligível), aperta
outro botão, o voto cai na urna. Ele caiu na urna, ele vai embora,
entra outro, e já está o papel em branco para imprimir novamente —
apenas uma impressora do lado. Se o homem foi à Lua e voltou sem
problemas, e continua indo perto, de novo, e volta etc, uma
maquininha vai dar problema de imprimir? Quando a gente paga o nosso
combustível com o cartão no posto… Pelo amor de
Deus.
Outra
coisa: até eu queria apelar para o Marcelo Castro (ininteligível). Eu vou
apelar agora para o Ulysses Guimarães, o nosso querido PMDB. O que
ele dizia? “O que o povo quer
esta Casa vota”. Eu apelo a V.Exa: a Câmara aqui faz pesquisas
de 3 em 3 meses. Nós recebemos relatórios sobre vários assuntos. Dá
tempo ainda. Faça uma pesquisa. Peça hoje, se for possível. Se me
autorizar, se me der procuração, eu vou lá e falo em seu nome, em
nome do Rodrigo Maia. Urgentemente, a Câmara dos Deputados, de forma
isenta, como tem feito as pesquisas, tem que fazer uma pergunta
simples: “Você confia no voto
eletrônico? Sim ou não?” “Você gostaria que tivéssemos
uma urna com voto impresso ao lado para possíveis (ininteligível) no
futuro?
Sim ou não? Se não der 90%, eu desisto. Até o senhor mesmo,
Deputado Marcelo Castro, numa rápida conversa há poucos dias, o
senhor falou: “Parece que esse problema está mais localizado no Rio
de Janeiro”. O senhor falou “parece”, aí o senhor falou
“parece”.
Em qualquer lugar, em não faço parte da Comissão, mas debato
esse assunto, até porque eu sou o autor dessa Emenda nº 10. E quando
eu começo a conversar com o pessoal, eu não falo que sou o autor. A
gente entra no assunto, e eles são unânimes. Querem uma forma de
comprovar.
Quando nós temos, por exemplo, um problema de HIV, fazemos um
exame; quando temos problema de próstata, é o PSA, é a
ultrassonografia, e aquele outro que alguns poucos gostam, mas vão
até o final para ter a contraprova.
Por favor, qual é a contraprova do voto eletrônico? Não tem,
não tem. Nós não podemos viver com essa desconfiança em democracia.
Logo esse partido do Governo do PT que fala tanto em democracia. No
meu entender, está usando as armas da democracia, Deputado Rodrigo
Maia, para golpeá-la.
Não esqueça, por favor, o que eu falei do STF. Nós temos que
dar uma satisfação a quem está aí fora. Eu não acredito na urna
eletrônica. E olha que eu sou, desculpa aqui, o Ministro falou que
não entende nada, não é? Eu entendo menos que o senhor, mas muito
menos. Eu mal mexo na Internet aqui. Está ok? Mas ninguém acredita
nisso.
Agora, uma pergunta que eu faria para o Sr. Secretário de
Tecnologia da Informação do TSE, para encerrar. Vamos supor, quantas
pessoas mais ou menos detêm tudo isso nas mãos, imprime, eu não sei
os termos certos, faz o programa, etc.? Umas 10, 20, 30 pessoas nos
finalmentes por assim dizer? Trezentas
pessoas?
Mas, lógico, é igual a um quartel, tem sempre um comandante,
tem o estado-maior, as companhias, os pelotões, o grupo de combate,
a esquadra, existe. Desses 300, tem cara ali que é aquele maluco que
só fica ali digitando e tal. Agora, o cabeça, o cérebro são poucas
pessoas.
Vamos supor um caso hipotético, por favor, hipotético. Essas
poucas pessoas, caso elas forem para um canto e falarem o seguinte:
“Vamos fazer isso”. É possível que essas pessoas que falaram num
canto, vamos supor, “vamos fazer isso” fraudarem em algum dado
momento um programa de tempo?
Eu lembro quando eu assisti, Deputado Esperidião Amin, a um
programa do 007, ele
tinha aquele gravadorzinho, não é? Dava uma mensagem para ele,
rodava, dava aquela mensagem sobre o que ele tinha que fazer. No
final a voz falava o seguinte: “Essa gravação se autodestruirá em 5
segundos, pssssss.” Saía aquela fumacinha, naquele tempo. Naquele
tempo, se a gente falasse em celular, era maluco. Hoje em dia, é
possível um programa de tempo? Pode responder, por
favor.
O SR. GIUSEPPE DUTRA JANINO - O senhor
colocou algumas informações aqui. Eu queria só, de certa forma,
ajustá-las. As urnas eletrônicas não são da Smartmatic. O projeto da
urna eletrônica é desenvolvido pelo Tribunal Superior Eleitoral,
pela equipe do Tribunal Superior Eleitoral, que simplesmente pega
esse projeto e coloca num processo licitatório, em que empresas que
ganham essa licitação materializam o projeto que é do Tribunal
Superior Eleitoral.
A Smartmatic nunca ganhou nenhuma licitação, e não, digamos
assim, fabricou o projeto do TSE. Isso é tão evidente que o TSE tem
o poder, o controle desse projeto que a empresa que fabrica esse
projeto não consegue sequer testar a urna eletrônica, sem que haja
intervenção do TSE.
Aí nós mostramos o quanto nós temos do controle e da gestão
desse projeto. Ou seja, diferentemente do que acontece, inclusive,
em vários outros países, a Justiça Eleitoral não compra a urna
eletrônica no mercado. O projeto é desenvolvido, mantido e evoluído
pela equipe técnica do Tribunal Superior
Eleitoral.
A questão das panes das impressoras é, digamos assim, o que
aconteceu naquele cenário. Criticaram, o que nós fizemos aqui foi
uma análise do que nós vivemos, daquele cenário, claro que nós
podemos ter outras soluções, mas nós só podemos fazer uma avaliação,
e essa foi a nossa proposta, daquilo que nós vivenciamos. E
trouxemos aqui essa experiência justamente para contribuir para a
reflexão e o debate.
Com relação à questão do conhecimento que foi levantado pelo
Deputado Jair Bolsonaro, seria possível, dentro desse grupo de 300
técnicos, um pequeno grupo desenvolver qualquer funcionalidade que
pudesse ter um comportamento, digamos assim, que não fosse o
objetivo da lisura da contabilização dos votos.
Todo o conhecimento é desenvolvido, internamente, nessa
equipe, de uma forma segregada; então, aquele que desenvolve para a
captação do voto não conhece nada daquele que faz a totalização do
voto, que não conhece nada sobre aquele que faz a transmissão do
voto. Isso é muito bem controlado em dispositivos e ferramentas
eletrônicas que segregam, inclusive essas informações. E, mesmo que houvesse a
possibilidade de um grupo deter todo o conhecimento, o que não
existe, qualquer modificação seria detectada num desses dispositivos
de auditoria que nós temos, como, por exemplo, a votação paralela. É
interessante colocar aqui, como uma informação, que nós tivemos, na
última eleição, 451 mil seções eleitorais, todas elas com a mesma
solução de equipamento, o mesmo projeto de urna eletrônica e todas
elas com a mesma solução de software. Se nós
colocássemos, por exemplo, uma funcionalidade para desviar o voto de
um Deputado Estadual, de a para b, essa funcionalidade refletiria em
todas as 400 mil seções eleitorais e em todos os Estados, os 26
Estados da Federação e o Distrito Federal.
(Não
identificado) - A gente tinha que encostar (ininteligível).
(Não
identificado) - Não, em alguns (ininteligível) dê
certo.
O SR. GIUSEPPE JANINO
- Então, é a mesma solução de software que é adotada em todas as
urnas eletrônicas.
(Não
identificado) - Tem um programa que é (ininteligível) e aquele
número
não
existiria.
O SR. GIUSEPPE JANINO
- Seria detectado; nesse caso, seria detectado na votação
paralela e isso certamente não foi detectado
.
(Não
identificado) - É só uma pergunta.
O SR. GIUSEPPE
JANINO - Sim, nós temos que colocar aqui essas hipóteses:
poder-se-ia refletir para um candidato único? Sim. Mas ela seria
automaticamente detectável. E aí nós teríamos rastreabilidade e
forma de identificar qualquer não
conformidade.
O SR. DEPUTADO JAIR
BOLSONARO - Por favor, a área de TI do TSE é terceirizada? É uma
pergunta também, só essa para encerrar.
O SR. HENRIQUE NEVES
DA SILVA - Não. Ela faz serviços...Alguns serviços são
terceirizados, mas existe a área técnica do Tribunal, a Secretaria
de Tecnologia de Informação e, para a manutenção de urnas, alguma
coisa, a Smartmatic, salvo engano, ela foi, em determinado momento,
contratada para a manutenção, não foi?
(Não
identificado) - Transporte de caixa.
O SR. HENRIQUE NEVES
DA SILVA - Transporte de caixa, transporte da urna.
O que é diferente nessa questão, não precisa entrar na
questão da Smartmatic, que é diferente do que ocorreu, por exemplo,
na Venezuela, onde ela era fabricante das urnas. Todo o modelo,
quando se falado exterior, que se faz isso ou aquilo, neste ou
naquele país, nenhum deles tem essa nossa visão aqui. Nós
desenvolvemos o software
junto com os partidos políticos. Lá fora, como a urna é feita,
pela regra de licitação ou de venda dos bens, a empresa produtora já
vende a urna pronta, com a programação. Nos Estados Unidos, cada
Estado tem a sua legislação própria, cada Estado tem um tipo de urna
ou não eletrônica. Eu já participei de um seminário internacional
nos Estados Unidos onde se verifivam urnas avançadíssimas, com custo
de 15, 20 mil dólares cada uma, onde o paraplégico conseguia votar
assoprando, ele não precisava digitar, nem fazer nada. Mas também,
conversamos com as autoridades americanas e eles diziam “A nossa dificuldade de criar
uma auditoria em tudo isso é porque cada Estado é de uma forma;
então isso gera, naturalmente, uma diferenciação”.
Mas respondendo objetivamente à pergunta que V.Exa. fez é
possível escrever alguma coisa no programa que produza outro
resultado? Qualquer programa de informática, ele pode conter
qualquer tipo de informação. As urnas são utilizadas por eleição,
mas elas já foram utilizadas, por exemplo, para eleição de clube. É
dada a informação à urna de que aqueles são os candidatos do clube,
e a cada eleição se faz um programa. Aí que eu acho que é importante
destacar, não é só a questão de auditar após as eleições o
resultado. Essa, sim, é algo importante. Mas, mais importante do que
auditar, após as eleições, é auditar antes das eleições, é verificar
o que está no programa. Da forma que V.Exa. diz “Posso estabelecer algumas
linhas, que os 20 primeiros votos sejam contabilizados diretamente
para um candidato e, quando for dado o 21º voto, esse programa se
auto eliminará sem deixar nenhum rastro?”. Para esse comando ser
dado, ele tem que estar no programa. Então, se os partidos políticos
examinam esses programas, se o Ministério Púbico, se a Polícia
Federal, se todos examinam esse programa e não verificam a
existência disso, tem mais segurança do que depois das eleições eu
tentar fazer auditagem. Nessa primeira fase, é fundamental a
participação da sociedade para que se verifique que todos os
programas não contêm nenhum código malicioso. E aí, a quantidade de
testes que for necessária o Tribunal está disposto a fazer.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Eu agradeço ao Sr. Celso, ao Sr.
Guiseppe, principalmente ao Ministro Henrique Neves esta nossa
audiência e encerro a sessão, convocando reunião para amanhã, às
1430min, quando vamos divulgar o plenário da sessão, o Plenário
12.