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CÂMARA DOS DEPUTADOS |
COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL
55ª Legislatura - 1ª Sessão Legislativa Ordinária
ATA DA 10ª
REUNIÃO ORDINÁRIA DE AUDIÊNCIA PÚBLICA
REALIZADA EM 30 DE ABRIL DE 2015
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Às dez horas e vinte e seis minutos
do dia trinta de abril de dois mil e quinze, reuniu-se a Comissão de
Relações Exteriores e de Defesa Nacional, no Anexo II, Plenário 03 da
Câmara dos Deputados, sob a presidência da Deputada Jô Moraes – Presidente. Compareceram os
Deputados Heráclito Fortes, Jean Wyllys e Nelson Marquezelli - Titulares; José Fogaça – Suplente. Compareceram também os
Deputados Carlos Henrique Gaguim, Odelmo Leão e Wadson Ribeiro, como não
membros. Deixaram de comparecer os Deputados Antônio Jácome, Arlindo
Chinaglia, Átila Lins, Bruna Furlan, Carlos Zarattini, César Halum, Chico
Lopes, Claudio Cajado, Deley, Eduardo Barbosa, Eduardo Cury, Ezequiel
Fonseca, Henrique Fontana, Ivan Valente, Jefferson Campos, Luiz Lauro
Filho, Marco Maia, Marcus Vicente, Pastor Eurico, Paulo Abi-Ackel, Rômulo
Gouveia, Rubens Bueno, Subtenente Gonzaga e Takayama. Apresentaram escusas
os Deputados Arthur Oliveira Maia, Benito Gama, Cesar Messias, Jarbas
Vasconcelos, Rosangela Gomes e Stefano Aguiar. ABERTURA: a
Presidente deu início à Reunião Ordinária de Audiência Pública, com o
objetivo de discutir a situação
do Sahara Ocidental e o reconhecimento, por parte do Governo brasileiro,
da República Árabe Saharaui Democrática (RASD). Explicou que a
realização da reunião decorria da aprovação do
Requerimento
nº 37, de 2015, aprovado na Comissão, de autoria dos Deputados Wadson
Ribeiro, Chico Lopes e Jean Wyllys.
Em
seguida, convidou a compor a Mesa a
Ministra Maria Luisa Escorel de Moraes, Chefe da Divisão da Paz e
Segurança Internacional do Itamaraty; a Senhora Maria do Socorro Gomes
Coelho, Presidente do Conselho Mundial da Paz; e o Senhor Mohamed Laarosi
Bahia, representante da Frente Polisário no Brasil. A Presidente
concedeu a palavra à Ministra Maria Luisa Escorel de Moraes que iniciou
sua exposição agradecendo
o convite para participar da audiência pública e expressando sua
satisfação em observar o crescente interesse que a sociedade brasileira
tem demonstrado por temas de política externa. Ressaltou que o Governo
brasileiro acompanhava com interesse a situação do Sahara Ocidental e
defendia uma solução justa, pacífica e mutuamente aceitável para a
controvérsia, com base no princípio da autodeterminação e no conjunto das
resoluções pertinentes das Nações Unidas. Falou que considerava que
somente por meio da negociação pacífica seria possível alcançar solução
mutuamente aceitável e duradoura para a questão saharaui, que perdurava há
quase quarenta anos após a retirada da Espanha do Sahara Ocidental. Para
tanto, repultou essencial o fortalecimento da confiança mútua e das
condições para a negociação de boa fé entre as partes. Disse que
reconhecia e apoiava os esforços em curso nesse sentido, em especial o
trabalho do enviado pessoal do Secretário-Geral das Nações Unidas,
Christopher Ross, e da Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara
Ocidental (MINURSO). Afirmou que era preciso que as partes se empenhassem
para fazer avançar a convergência em duas questões centrais: o conteúdo de
uma solução política e a forma de autodeterminação. Esclareceu que
reconhecia que as negociações entre as partes não tinha evoluído a
contento nos últimos anos. Por outro lado, uma solução política para a
questão contribuiria para o reforço da cooperação entre os Estados membros
da União do Magrebe Árabe, bem como para o desenvolvimento socioeconômico
e para a estabilidade, em benefício de todos os povos da região. Nesse
contexto, afirmou que era preciso redobrar os esforços internacionais em
relação ao Sahara Ocidental. Explicou que o Brasil apoiava a Missão das
Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental (MINURSO), criada em
1991, em conformidade com as propostas de assentamento aceitas em 1988 por
ambas as partes. Esclareceu que o País não reconhecia a República Árabe
Saharaui Democrática (RASD) por entender que a solução sobre o status
final do território deveria ser alcançada por meio do entendimento mútuo
entre as partes, bem como por meio do tratamento da questão no âmbito do
Conselho de Segurança. No entanto, o Governo brasileiro mantinha
interlocução com a Frente Polisário, que era considerada parte legítima
nas negociações relacionadas ao status definitivo do território. Disse
que, ao mesmo tempo em que apoiava a solução negociada para a disputa, o
Brasil considerava essencial zelar pelo bem-estar da população saharaui,
até que um acordo político definitivo fosse alcançado. Nesse contexto,
citou doações que o País fizera em resposta às necessidades da população
saharaui. Afirmou que igualmente importante do ponto de vista do Governo
brasileiro era a proteção dos direitos humanos. Nesse momento, a
Presidente passou a direção dos trabalhos para o Deputado Wadson Ribeiro.
Em seguida, o Presidente franqueou a palavra ao Senhor Mohamed Laarosi
Bahia que iniciou sua exposição agradecendo aos presentes e à Comissão por
dedicar uma reunião, pelo segundo ano consecutivo, à questão do povo
saharaui. Agradeceu, também, pelo interesse cada vez maior dos
parlamentares brasileiros pelo Sahara Ocidental. Explicou que os motivos
de estarem ali reunidos eram os seguintes: 1) depois de quarenta anos do
início do conflito e da descolonização do Saara Ocidental, ainda se
continuava falando da não conclusão de um processo colonial na África; 2)
o território do Sahara Ocidental seguia com o que a Organização das Nações
Unidas (ONU) denominava de ocupação militar por parte do Marrocos; 3) o
povo saharaui, segundo o direito internacional, tinha direito legítimo e
alienado à autodeterminação, mas continuava sendo o último povo da África
a não ter esse direito; 4) quarenta anos depois, o território do Sahara
Ocidental seguia dividido por um muro militar mais largo do mundo, com
mais de dois mil e setecentos quilômetros, levantado pelo exército
marroquino e financiado pelos Estados Unidos e Israel; 5) havia uma
sensibilidade, cada vez maior, do povo brasileiro de solidariedade pela
luta legítima do povo saharaui pela independência e pela liberdade; 6) o
Marrocos, em pleno século XXI, seguia negando uma solução democrática de
um conflito de descolonização. Não permitia àquele povo o acesso ao
direito à autodeterminação e à independência. Ressaltou que esse conflito
de larga data estava gerando ao povo saharaui um estado de frustração cada
vez maior. Explicou que o povo saharaui resistira à ocupação militar
marroquina por 16 anos e que, graças à Organização das Nações Unidas, a
Frente Polisário e o Marrocos sentaram à mesa de negociação, concordaram e
firmaram conjuntamente o compromisso de levar a cabo o referendo
democrático. No entanto, segundo o expositor, vinte e três anos depois,
Marrocos seguia negando a realização do referendo democrático no Sahara
Ocidental. Lembrou a importância que tinha a saída democrática para todos
os conflitos existentes. Afirmou que era importante resolver o conflito do
Sahara Ocidental, bem como dar o direito ao seu povo de exercer o direito
ao voto. Explicou que a comunidade internacional, lamentavelmente, não
vinha acompanhando o esforço do povo saharaui e continuava-se vendo, como
na última resolução do Conselho de Segurança, em que um País como a França
seguia vetando o seu direito ao voto, como forma de chantagem e, também,
seguia vetando que a Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara
Ocidental tivesse competência de proteção e monitoramento dos direitos
humanos do povo do Sahara Ocidental. Afirmou que era um grande escândalo
que essa missão de paz fosse a única que não tivesse competência de
direitos humanos. Ressaltou que a referida missão era a única onde as
pessoas podiam ser perseguidas, torturadas, desaparecidas, baleadas e as
Nações Unidas não podia interferir. Deu conhecimento sobre a Audiência
Nacional espanhola que processou mais de uma dezena de altos cargos
marroquinos por crimes de genocídio praticados no Sahara Ocidental no
período de 1975 a 1991. Nesse
momento, o Presidente passou a palavra para a Senhora Socorro
Gomes Coelho que iniciou sua exposição agradecendo o convite para a
audiência pública e dizendo que o Conselho Mundial da Paz (CMP) se sentia
parte da luta que buscava dirimir os conflitos e construir um mundo de
paz, por isso aceitou participar daquele debate. Esclareceu que entendia
que a história do povo saharaui ainda era desconhecida da maioria da
população brasileira e dos agentes políticos, por isso era importante
aquele debate. Além disso, ressaltou que o Brasil estava, cada vez mais,
sendo visto desenvolvendo um papel no diálogo internacional, buscando
integração. Explicou que, atualmente, vivia-se um período de muitas
ameaças e turbulências, em um momento de crise no continente americano,
por causa de uma visão neocolonialista que permeava os países
desenvolvidos. Ressaltou que o CMP estava irmanado aos povos do mundo que
lutavam para conquistar a sua autodeterminação e a sua soberania e fez um
relato do surgimento do Conselho Mundial da Paz, em 1949. Explicou que em
1960 a Organização das Nações Unidas elaborara uma resolução da
descolonização, de quanto era criminosa a imposição e a permanência do
colonialismo. Ressaltou que o CMP tinha como princípio a solidariedade
irrestrita pelo povo do Sahara Ocidental pela sua autodeterminação. Um
povo que, segundo a expositora, vinha sofrendo desde o final do século
XIX, pois nunca reconhecera nenhum dono do seu território – Marrocos,
Espanha e Mauritânea - e sempre defendera e buscara se organizar e ter
suas representações, sempre foi um povo com identidade própria. Afirmou
que reconhecer o Sahara Ocidental ia além da resolução da ONU, tratava-se
de uma questão de justiça, pois o povo saharaui vinha lutando e
enfrentando um verdadeiro martírio. Explicou que a violência imposta
àquele povo fora cruel e perdurava até hoje, na forma de imposição e
procrastinação de qualquer tentativa de referendo, às vezes escondida
atrás do não acordo dos critérios, além das tentativas de Marrocos de
impor o voto de seus colonos. Disse que o mais grave era o muro que
dividia e impedia a convivência entre irmãos, bem como impedia o acesso
aos seus recursos naturais, na busca de impor a hegemonia e a vontade
marroquina. Afirmou que a região era rica em minério, fosfato, petróleo,
ferro e, especialmente, em pesca. No entanto, essa riqueza estava sendo
subtraída do seu verdadeiro dono. Defendeu que a discussão desse tema pelo
Brasil e pelos parlamentares brasileiros significava uma generosidade, um
espírito de fraternidade, solidariedade e, também, a defesa de um campo da
humanidade, da grande maioria que quer a paz, pois não existia paz onde
havia povo oprimido, onde havia riquezas assaltadas. Afirmou que a Frente Polisário buscava um
acordo de paz, mas fora tolhido pela intransigência. Explicou que era
preciso que as duas partes envolvidas buscassem o diálogo, mas quando as
partes eram compostas de uma parte extremamente poderosa e ocupante e a
outra parte, a vítima com o seu território ocupado, com seus direitos
subtraídos, com a imposição da força bruta das armas, impedindo a sua
resistência, utilizando da tortura, do assassinado, até dos meios de
sobrevivência que o povo possuía. Por isso, não se podia deixar apenas as
duas partes nesse debate. Falou que, nesse contexto, a Organização das
Nações Unidas estava em dívida, pois eram quarenta anos sem uma solução,
por isso era necessário que mais partes estivessem envolvidas. Defendeu
que os países, as pessoas, os povos se debruçassem sobre essa questão,
pois, segundo a expositora, fora assim, com a solidariedade internacional,
que vários conflitos foram resolvidos. Explicou que reconhecer o direito
do povo saharaui não era ser contra o Marrocos, mas sim lutar contra a
opressão e a ocupação. Defendeu que era hora do Brasil tomar uma atitude
mais ousada em relação ao reconhecimento da República do Sahara Ocidental,
pois vários países do continente latino-americano já haviam reconhecido,
faltando apenas a Argentina, Brasil, Chile e Paraguai. Explicou que Brasil
era um grande país e tinha dado mostra de que buscava garantir e defender
os princípios das Nações Unidas de que cada país deva ser respeitado
igualmente e era partindo desse principio que o Conselho Mundial da Paz
defendia que todos os países do mundo que quisessem de fato a paz deveriam
reconhecer a República do Sahara Ocidental, pois, só assim, estariam
ajudando na construção da paz. Falou que uma questão que preocupava muito
era o Conselho das Nações Unidas. Citou as várias resoluções que existiam
em defesa de alguns povos, como as relacionadas ao povo palestino e ao
bloqueio contra Cuba. Finalizou afirmando que o Conselho Mundial da Paz se
sentia solidário no dever de dar a conhecer a luta de libertação do Sahara
Ocidental, como a causa de todos os povos que respeitavam a soberania e a
autodeterminação dos povos. Em seguida, o Presidente passou a direção dos
trabalhos ao Deputado Jean Wyllys. Nesse momento, o Presidente anunciou a
apresentação do vídeo, fornecido pelo expositor Mohamed, “Muros”, de
Eduardo Galeano. Após a apresentação do vídeo, o Presidente passou a
palavra ao Deputado Wadson Ribeiro que falou na condição de autor do
requerimento que motivou a audiência pública. E seguida, passou-se à lista
dos Deputados inscritos. Usou da palavra para comentários e
questionamentos o Deputado Heráclito Fortes. Em sequência, O Presidente
franqueou a palavra aos convidados, que atenderam e responderam as
perguntas formuladas. ENCERRAMENTO:
Nada mais havendo a tratar, o Presidente
agradeceu a presença dos convidados e dos senhores parlamentares e
encerrou os trabalhos às doze horas e vinte e oito minutos. E, para
constar, eu ______________________, Edilson Holanda Silva,
Secretário-Executivo, lavrei a presente Ata, que por ter sido lida e
aprovada, será assinada pelo Presidente, Deputado Jean Wyllys ______________________, e publicada no Diário da
Câmara dos Deputados.
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