DEPARTAMENTO
DE TAQUIGRAFIA, REVISÃO E REDAÇÃO
NÚCLEO
DE REDAÇÃO FINAL EM COMISSÕES
TEXTO
COM REDAÇÃO FINAL
Versão
para registro histórico
Não
passível de alteração
|
COMISSÃO
ESPECIAL - PEC 182/07 - REFORMA
POLÍTICA |
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EVENTO:
Audiência
Pública |
REUNIÃO
Nº: 0145/15 |
DATA:
24/03/2015 |
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LOCAL:
Plenário 9 das
Comissões |
INÍCIO:
15h06min |
TÉRMINO:
18h01min |
PÁGINAS:
66 |
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DEPOENTE/CONVIDADO
- QUALIFICAÇÃO |
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JAIRO
NICOLAU - Cientista político.
MURILLO
DE ARAGÃO - Cientista Político.
RUBEM
BARBOZA - Cientista
Político. |
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Debate
da proposta de reforma política, com ênfase nos sistemas
eleitorais e financiamento de
campanha. |
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Houve
intervenção fora do microfone.
Ininteligível.
Houve
exibição de imagens.
Há
oradores não identificados em breves
intervenções.
Houve
intervenções fora do microfone.
Inaudíveis. |
O SR. PRESIDENTE (Deputado
Rodrigo Maia) - Havendo número regimental, declaro aberta a 13ª
reunião da Comissão Especial destinada a proferir parecer à Proposta
de Emenda Constitucional nº 182, de 2007, do Senado Federal, e
apensados.
Encontram-se à disposição dos Srs. Deputados cópias da ata da
12ª reunião.
O SR. DEPUTADO SAMUEL
MOREIRA - Peço dispensa da leitura da ata, Sr.
Presidente.
O
SR. PRESIDENTE (Deputado
Rodrigo Maia) - Dispensada a leitura da ata.
Em
votação. (Pausa.)
Aprovada.
Daremos
início à reunião de audiência pública, atendendo ao Requerimento nº
15, do Deputado Marcus Pestana; ao Requerimento nº 21, da Deputada
Moema Gramacho; e ao Requerimento nº 29, do Deputado Índio da Costa.
Convido
a tomarem assento à mesa os Srs. Jairo
Nicolau, Murillo de Aragão e Rubem Barboza.
Peço
a atenção de todos para as seguintes orientações: esta é uma
audiência pública interativa. A sociedade civil poderá participar
com sugestões e questionamentos pelo endereço: edemocracia.camara.gov.br.
Na
fase dos debates, os Deputados poderão direcionar sugestões e
questionamentos aos convidados. Ao final da reunião, as sugestões
recebidas serão entregues ao Relator, Deputado Marcelo Castro.
Quanto
à exposição e ao debate, o tempo concedido aos palestrantes será de
20 minutos, não podendo haver apartes. Os Deputados interessados
em
interpelar os palestrantes deverão inscrever-se previamente junto à
Secretaria.
As
perguntas serão feitas no final da última palestra e deverão
restringir-se ao assunto da exposição, formuladas no prazo de 3
minutos, dispondo o palestrante interpelado de igual tempo. Aos
Deputados são facultadas a réplica e a tréplica pelo mesmo prazo.
Feitos
estes esclarecimentos, daremos inicio à audiência pública.
Convido o Sr. Jairo Nicolau para fazer a sua explanação. (Pausa.)
O
SR. JAIRO NICOLAU -
Boa tarde. Eu queria iniciar saudando o Deputado
Rodrigo
Maia, o Deputado Marcelo Castro e os demais Deputados presentes, e
dizer da minha satisfação de estar aqui, como estudioso, pesquisador
dos temas que esta Comissão está tratando neste momento. É uma honra
muito grande ter sido convidado a compartilhar minhas opiniões,
obviamente ouvir o que V.Exas. têm a dizer e aprender também um
pouco mais sobre o funcionamento, além da opinião de V.Exas., do
sistema político brasileiro.
Eu fiz uma exposição, e não sei se ficou excessivamente
didática, com o seguinte espírito: minha ideia é compartilhar com
V.Exas. uma espécie de panorama dos sistemas eleitorais — claro que
não são todos os sistemas eleitorais em vigor no mundo, todas as
possibilidades lógicas de uma reforma política, mas os sistemas que
me parecem estão recebendo um pouco mais de atenção desta Comissão.
(Pausa.)
A
minha exposição, como eu disse, tem um caráter didático e
panorâmico. Espero que as pessoas, sobretudo as que são estudiosas
do tema, não se sintam excessivamente chateadas com essa parte mais
didática, mas eu acho que é importante para a discussão que se fará
do meio para o fim.
(Segue-se exibição de
imagens.)
A
primeira questão fundamental — eu acabei de publicar um texto em que
discuto isso profundamente, não vou repetir esses argumentos aqui —
é que boa parte do debate sobre reforma dos sistemas eleitorais no
Brasil é estético. Eu vejo que, muitas vezes, os Deputados e mesmo
colegas meus de ciências políticas, ficam numa discussão meramente
estética, qual o melhor sistema, como se fosse possível resolver
essa questão descolada, digamos assim, dos desafios que cada
democracia vive.
No caso específico do Brasil, o sistema eleitoral recebe
muito mais críticas, a meu juízo, do que deveria. É claro que
algumas coisas não funcionam, mas, de qualquer modo, não é um
sistema para ser desprezado assim com tanta
facilidade.
Trata-se de um sistema que está em vigor no Brasil há 70
anos, desde a Lei Agamenon de 1945, e que contém aspectos muito
importantes.
Eu
vou chamar a atenção para os pontos nevrálgicos, os pontos centrais
que merecem um pouco mais de discussão e, talvez, a terapia tem que
estar ligada, digamos, a esses problemas, usando aqui uma visão bem
trivial que o Deputado Ronaldo Caiado gostava de fazer, como médico,
a relação entre diagnóstico e medicina. Primeiro, o diagnóstico tem
que ser bem feito.
Eu não vou me estender muito nesse ponto. Eu acho que o
sistema representativo brasileiro entrou em crise nos últimos anos
porque levou ao extremo algumas de suas características.
A primeira delas é o que eu chamo de hiperfragmentação. Esse
assunto já foi debatido aqui, é mais do que sabido. Hoje, a Câmara
dos Deputados no Brasil é a mais fragmentada do mundo. Eu diria que
só houve uma eleição depois da Segunda Guerra, na Rússia, uma câmara
de Deputados mais fragmentada do que esta que está agora aqui.
Então, é um caso, digamos assim, exemplar para o Planeta. Nós
vivemos um quadro de hiperfragmentação. É claro que as consequências
disso, a avaliação que nós fazemos a respeito dos efeitos disso
sobre a governabilidade, sobre a distribuição de poder no interior
da Câmara, foge um pouco a essa minha introdução.
O segundo ponto tem a ver com o que eu chamo aqui de
hiperpersonalismo. O sistema de voto de lista aberta, é claro, atrai
as campanhas para a reputação dos Deputados, para que os Deputados
apresentem os seus atributos pessoais em detrimento dos partidos.
Isso sempre foi uma característica.
Esses dias eu estava lendo uma discussão ocorrida aqui na
Câmara dos Deputados, quando, em 1950, o Deputado Carlos Lacerda
fazia uma crítica ao personalismo do sistema eleitoral — eu tinha 5
anos —, ao personalismo desse sistema eleitoral e como ele era caro.
As campanhas eram caras no Brasil. Depois eu posso passar isso para
V.Exas. Trata-se de um trecho de um debate parlamentar curioso.
A minha impressão é que, após as duas ou três últimas
eleições, a tendência à hiperpersonalização ou à incapacidade de os
partidos operarem minimamente o sistema nas eleições foi por água
abaixo.
Então, a gente vive também um hiperpersonalismo nas
campanhas, os partidos praticamente só listam os nomes, e a
concorrência passa a ser muito severa entre os nomes da mesma lista.
Por fim, é um problema que o sistema proporcional não tem
como resolver, nenhuma modalidade deles, o fato de que algumas áreas
do Estado conseguem se representar no Legislativo e outras não.
Algumas áreas podem ter dois Deputados e outras, nenhum.
Ou seja, o sistema proporcional, seja em qualquer de suas
versões, não dá uma garantia efetiva para que territórios de certos
Estados ou cidades necessariamente estejam garantidos.
Isso pode não ser um problema, mas é uma crítica muito
grande, sobretudo no interior do país. Sem contar que essa
característica é contingente. Por exemplo, no Rio de Janeiro, a
Baixada Fluminense é uma área que não elege tantos Deputados, se se
levar em conta o seu tamanho populacional, mas, às vezes, Municípios
elegem dois, para, na eleição seguinte, não eleger ninguém. Isso dá
uma sensação de que tem algum problema com esse sistema. Depois eu
volto a isso.
Em linhas gerais — não vou ser excessivo simplesmente para
colocar um quadro de todas as opções que estão hoje no debate —, vou
tratar do sistema proporcional, com seus três ramos: o atual de
lista aberta, o de lista fechada e o de lista flexível.
Esses dois modelos já foram discutidos amplamente nas duas
comissões de reforma política, tanto a lista fechada, na Comissão
Caiado, e a lista flexível que apareceu como uma ideia da Comissão
Fontana.
Parece-me que esse debate se deslocou. Eu, pessoalmente,
acabei de escrever um texto em defesa da lista flexível, mas eu sou
um estudioso, eu sei que esse tema não está caminhando na direção de
manter o sistema de lista como nós temos hoje, ainda que modificando
a sua natureza.
Há também os sistemas mistos. O sistema que eu recebi para
fazer uma avaliação da Comissão Vaccarezza, eu não consegui
colocá-lo em outro lugar, salvo como um sistema misto também; o
sistema misto paralelo, o chamado distrital misto, que todo mundo
conversa; um sistema que eu queria submeter à apreciação, uma ideia
pouco conhecida no Brasil e que me parece também pode ser uma boa
opção para representação no Brasil; o distrital e o distritão no
campo dos sistemas majoritários.
Esse recorte aqui é importante não só porque ele segue uma
tipologia dos estudiosos de sistemas eleitorais como também uma
reforma eleitoral que corte aqui proporcional e misto proporcional,
e que, a meu juízo, não precisaria de uma emenda constitucional.
Essas cinco opções necessitariam de uma reforma constitucional.
Por conta desse deslocamento do debate na linha do distritão
e dos sistemas mistos, o tema da representação proporcional está um
pouco prejudicado nesta Comissão, pelo menos é o que eu tenho lido.
Os debates não se têm inclinado por aí.
Como a ideia é substituí-lo, é fundamental entender uma
característica do sistema proporcional, sobretudo no contraste, que
nós vamos ver depois, com o distritão. Ou seja, o que caracteriza o
sistema proporcional de lista, além do fato de os partidos lançarem
uma lista de candidatos que, no meio político brasileiro, recebeu o
nome de nominata, e a competição dessas listas ser, digamos, o móvel
desse sistema, ele exige o cálculo de um quociente, uma fórmula
matemática qualquer, e há muitas opções de operação matemática para
distribuir as cadeiras. É o que diferencia o sistema proporcional
atual do distritão.
Não há um quociente que agregue os votos dos partidos e
distribua as cadeiras. Então é um sistema como o nosso, sem
quociente, para ir direto ao ponto.
As opções de sistemas eleitorais proporcionais já são mais ou
menos conhecidas e foram discutidas aqui em outras oportunidades. Em
linhas gerais, resumindo em uma única frase, caracteriza o sistema
de lista aberta que nós utilizamos; diga-se de passagem, o Brasil é
o país que usa o sistema de lista aberta há mais tempo no mundo, 70
anos, como eu disse.
A ordem final dos candidatos, ou seja, só os eleitores
decidem. No sistema de lista fechada é o contrário: só os partidos,
os eleitores não intervêm na lista.
Por fim, o modelo de lista flexível é um mix, em que o partido
representa a lista, mas permite que o eleitor vote em nomes. Se
algum dos nomes tiver uma votação alta, esse nome é eleito.
O tema central, deslocando agora o debate para os sistemas
majoritários, seja a sua versão que hoje não tem muitos defensores,
ainda que tenha um movimento em defesa do voto distrital — em alguns
ambientes onde participo do debate, sempre ouço alguém fazendo
menção ao voto distrital —, parece-me que o voto distrital, como é
chamado no debate político brasileiro, o distrital puro, hoje não é
uma opção muito comentada.
Interessante chamar a atenção é só, talvez, o fato de que o
voto distrital hoje é um sistema que está perdendo força no mundo.
Basicamente é um sistema usado no Reino Unido e nas ex-colônias
britânicas. Estão todos os exemplos aqui: a Nova Zelândia, na década
de 90, estava nesse rol e passou para um sistema misto. Então, é um
sistema, digamos assim, que declina no mundo inteiro. Mesmo no Reino
Unido, talvez o exemplo mais bem acabado de sistema distrital, hoje
o voto distrital está cercado, porque a eleição para o Parlamento
europeu já acontece com lista fechada, assim como a eleição para o
Parlamento da Escócia e do País de Gales, e em Londres também, com
um modelo proporcional. Então, é um sistema que vem declinando. Tem
lá suas virtudes, que aparecem no debate político, mas, digamos
assim, não é hoje uma opção nem do debate atual no meio político nem
em qualquer parte do mundo. Acho que ele perdeu a
força.
Eu queria consultar os Deputados, se vale a pena comentar
esse projeto ou se ele, digamos assim, já passou, já não interessa.
Interessa?
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Interessa tudo.
O
SR. JAIRO NICOLAU - Está bem.
Eu
levei um certo tempo para entender o projeto do Deputado Vaccarezza.
Então, na justificação está dito que era um projeto que nenhum dos
Deputados gostava — está na justificação do projeto. Apesar disso,
de não ser preferência de ninguém, era um projeto que, de certa
maneira, unia um pouco, era o possível naquele momento.
O
SR. DEPUTADO MARCUS PESTANA -
Foram sucessivas votações...
O
SR. JAIRO NICOLAU - Na verdade, eu
classificaria...
O SR. DEPUTADO DANILO
FORTE - Só um momento. Presidente, esse clima aqui é homenagem
ao Relator da reforma política? Porque está quente esta sala aqui.
Como ele é do Piauí e eu sou do Ceará, não tem muita diferença
climática, mas poderia melhorar o clima.
O SR. JAIRO
NICOLAU - Pensei que era o clima da apresentação. (Risos.)
Na verdade, é um sistema complexo...
O SR. DEPUTADO DANILO
FORTE - O clima é democrático. O Henrique Fontana ainda não
chegou.
O SR. DEPUTADO
HENRIQUE FONTANA - É difícil entender o meu amigo Danilo. Ele
tem uma certa preferencialidade...
O SR. JAIRO
NICOLAU - O sistema da Comissão Fontana é bastante complexo, não
é fácil de entender. Na verdade, eu classifiquei como um sistema
misto que elege parte dos Deputados na lista aberta. Não ficou claro
para mim se era lista aberta ou fechada.
O SR. DEPUTADO MARCUS
PESTANA - Totalmente proporcional.
O SR. JAIRO NICOLAU
- Mas vejam lá: eu estou avaliando o que eu li. Pode ser que eu
tenha entendido mal. Ele tem uma cláusula de barreira de 5%
nacional. Ele cria distritos no interior dos Estados, de quatro a
sete. Por exemplo, São Paulo, hoje, teria dez distritos de sete,
para fazer uma conta assim. As cadeiras são distribuídas no
distrito. Ou seja, esses sete Deputados de cada distrito, pelo
quociente — é um sistema proporcional no âmbito desses pequenos
distritos —, e as cadeiras não ocupadas depois dessa conta são
ocupadas, digamos, numa segunda volta, pelos mais votados no
Estado.
Então, aí seria o distritão: as sobras proporcionais nos
pequenos distritos e distritão nas sobras. É um sistema extremamente
confuso, que ainda criou uma cláusula que eu achei curiosa: um
Deputado só se elege caso ele tenha, em votos nominais, 10% do
quociente eleitoral do Estado, que, para alguns casos, pode ser uma
complicação. Ou seja, o partido faz as cadeiras, mas o Deputado que
chegou em primeiro, por não ter o quociente, perde a cadeira, e o
partido junto.
O SR. DEPUTADO DANILO
FORTE - Isso aí nem o TSE consegue fazer com o
sistema.
O SR. JAIRO
NICOLAU - É um sistema complexo.
O SR. DEPUTADO MARCUS
PESTANA - Simples...
O
SR. JAIRO NICOLAU
- Eu acho que ele tem dois problemas. O primeiro problema é a
complexidade. Ou seja, não é um sistema fácil, é inteligível para o
eleitor. Ele trabalha com duas fórmulas, e uma fórmula no distrito.
E o maior problema dele é que vai gerar, certamente, uma altíssima
desproporcionalidade. Ainda que seja proporcional, o fato de
trabalhar com pequenos distritos e distribuir a cadeira naqueles
distritos, de quatro a sete... Por exemplo, num distrito de sete
Deputados, o partido tem que ter 15% dos votos. Se ele não tiver
15%, ele não elege nenhum Deputado. Isso significa que esses votos,
para um partido com 13%, 12%, vão para o Iixo.
Então, isso nacionalmente gerará uma altíssima
desproporcionalidade e, na verdade, piora a questão. A ideia da
proximidade de um distrito de oito representantes não me parece
muito persuasiva. E
ainda há o problema dos votos nulos de candidatos com menos de 10%
do quociente eleitoral. Está bem claro? Eventualmente, se houver
algum ponto que eu não tiver entendido, posso
voltar.
Agora vamos ao distritão, que não sei em que momento do
debate político brasileiro ganhou esse nome. A partir de 2011, ele
passou a ser um sistema discutido no País. Até então o distritão não
era discutido, embora, durante o Império e a Primeira República, o
País já tivesse experimentado um modelo similar a ele. Para dar um
exemplo, a primeira eleição depois da Proclamação da República foi
realizada com um sistema que hoje nós chamaríamos de distritão.
Mas
o distritão é um sistema do século XIX, que veio antes da emergência
da representação proporcional e antes inclusive da emergência do
distrital que chamamos de puro. Então, é um sistema que não existe
em nenhuma democracia no mundo. Quando eu escrevi o meu livrinho,
esse sistema existia em Vanuatu. Na última pesquisa que fiz, só
apareceram dois países que usam o distritão: a Jordânia e o
Afeganistão.
(Não identificado)
- E o nosso hoje?
O SR. JAIRO
NICOLAU - O nosso hoje
não.
(Intervenção fora do
microfone. Ininteligível.)
O SR. JAIRO
NICOLAU - Vamos lá! O sistema apareceu no debate político, como
eu disse, recentemente. E eu acho que o debate sobre ele cresceu
muito nesta Legislatura. Eu sei que é uma frase forte a que eu vou
dizer agora. Eu falei que eu não diria esta frase, mas não tem como
não passar pela proposta do distritão sem dizer: eu acho que, das
propostas, tirando a comissão Vaccarezza, que é um sistema muito
complexo, ela é a pior possível. Desculpem-me, pois eu sei que
várias pessoas defendem o distritão, mas eu não poderia deixar de
dizer isso.
Por que eu acho que ela é a pior proposta possível? Voltando
àquele primeiro eslaide, um dos problemas do sistema representativo
brasileiro é que os partidos estão muito frágeis como organização de
intermediação entre Estado e sociedade. Os partidos hoje têm
dificuldade de plasmar o interesse da sociedade, têm dificuldade de
coordenar uma campanha eleitoral. No sistema de distritão, o partido
desaparece, a não ser no momento da confecção da lista. Ou seja, o
partido seleciona os seus nomes, e os nomes vão a campo. Seria como
é hoje. Mas a disputa tem algum grau de coordenação intrapartidária,
porque é preciso juntar os votos para o cálculo do quociente. Além
disso, só para dar um exemplo extremo, o voto de legenda nesse
sistema não existe. Não há possibilidade de se votar na legenda.
Votar na legenda, se não tirarem da urna eletrônica, é anular o
voto. Então, é paradoxal uma reforma que deveria fortalecer os
partidos optar por um sistema em que os partidos sequer podem ser
uma expressão do eleitor.
Há um problema que não está sendo levado em consideração no
debate, que é o que aconteceu no Japão. O Japão é o único país de
grande porte que usou o distritão. Mas lá eram distritos de cinco
representantes. E havia um problema gravíssimo: o distritão impedia
— por isso, ele também enfraquece os partidos — que houvesse
qualquer coordenação entre os candidatos de uma mesma legenda. Esse
era o drama japonês. O político não podia pedir: “Parem de votar nesse nome
porque ele está eleito! Votem no segundo nome da lista!” Não
existe isso no distritão.
O
efeito Tiririca, por exemplo, é muito criticado porque transfere
votos sem que o eleitor saiba. É curioso: o Tiririca é criticado,
mas, quando um puxador de legenda mais ideológico gerar o mesmo
efeito do Tiririca e levar dois ou três com ele... Por exemplo,
lembrei-me aqui do Deputado José Dirceu, que foi um puxador de voto
e levou vários Deputados com ele. Ninguém fala do efeito José
Dirceu, porque não era um efeito aparentemente bizarro. Não é isso?
Mas
o problema é que os partidos não têm como coordenar minimamente a
relação com os eleitores. Então, fica uma dor de cabeça: se você
tiver, digamos, dois sindicalistas disputando a eleição, sendo que
um está eleito, você não pode pedir ao eleitor que pare de votar no
candidato que está eleito e transfira o voto para o outro.
Os
partidos japoneses ficaram muito perdidos, sendo que uma das razões
mostradas em todos os estudos era o sistema distritão.
Eu
acho que também há outro componente: nada garante que o distritão
necessariamente reduza a fragmentação
partidária.
O
SR. DEPUTADO MARCELO CASTRO -
Ele reduz?
O
SR. JAIRO NICOLAU
- Eu não acho que necessariamente reduzirá. Pelo contrário, ele
poderá até potencializar. Ninguém saberá qual será a bancada, cada
Deputado vai a campo com o seu esforço; pode haver candidatos de
partidos pequenos com muita força e pode haver Deputados que
resolvem sair dos partidos maiores e tentar a sorte sozinhos. Enfim,
é um sistema que me preocupa muito nessa perspectiva.
E
para não dizer que é um problema só meu, essa pesquisa aqui foi
feita com 170 especialistas em sistemas eleitorais do mundo e
coordenada pela Associação Americana de Ciência Política e pela
Associação Europeia de Ciência Política. Elas ouviram 170
especialistas no mundo interior, que hierarquizaram, no seu
entender, qual era o melhor sistema e o pior sistema, com notas de 1
a 9. Segundo os especialistas, o melhor sistema, que apareceu como
primeira preferência de 52 estudiosos foi o misto proporcional. E o
pior sistema foi o distritão.
O
SR. DEPUTADO MARCELO CASTRO -
O misto proporcional é o distrital misto, não
é?
O
SR. JAIRO NICOLAU
- É o misto proporcional. Se der tempo, eu falar dele aqui em 5
minutinhos, agora feita essa crítica ao distritão. Eu não estou
usando isso aqui como argumento de autoridade, ao dizer que os
especialistas disseram que o sistema...
O
SR. DEPUTADO HENRIQUE FONTANA -
O que é voto único transferível?
O
SR. JAIRO NICOLAU
- Na verdade, é um sistema usado na Irlanda. É um sistema muito
complexo. Acho que ele está fora da nossa discussão, porque nele o
eleitor ordena a lista de candidatos. Então, é para um país
pequeno.
Para
fazer um último movimento da minha exposição, eu queria chamar a
atenção para duas versões do sistema misto. A versão que é mais
conhecida apareceu na Comissão Afonso Arinos e agora na PEC do
Deputado Marcus Pestana, que eu tive a oportunidade de ler. Trata-se
da ideia de eleição, como o próprio nome diz, por um sistema
paralelo: metade dos Deputados é eleita na Inglaterra e metade é
eleita em Portugal ou na Espanha, ou seja, metade é lista fechada
com sistema proporcional e metade é o distrital puro. Este é o
sistema paralelo: você divide cada Estado. Por exemplo, no Rio de
Janeiro, que são 46 Deputados Federais, 23 são eleitos em distritos,
23 são ingleses; e 23 são eleitos em lista fechada, 23 são
espanhóis, vamos dizer assim. São dois modelos diferentes que não
convergem, pois são paralelos, daí o nome. Esse é o modelo mais
conhecido, que no Brasil recebeu o nome de distrital misto.
Acho
que talvez eu devesse me concentrar, nesses minutos finais, na
discussão — não sei em que pé ela está, pois não tive a oportunidade
de ler todas as propostas — do que me parece ser uma possível
alternativa para garantir o que os defensores do distritão querem:
um eleitor mais próximo do seu representante, um eleitor que ganhe a
eleição no distrito e seja representante daquele distrito, sem
perder a proporcionalidade. Esse é o sistema misto proporcional. Por
que ele é proporcional? Eu já vou dizer.
É
um sistema usado na Alemanha, na Nova Zelândia, na Escócia, na
Bolívia — eu selecionei alguns países. Na explicação, ele é muito
parecido com o sistema paralelo, com uma diferença que vou tentar
explicar aqui nesse tempo curto. Então, eu já estou aqui fazendo uma
eventual proposta de como esse sistema poderia ser. E talvez, ao
fazer a proposta, eu explique como ele
funcione.
A ideia é de que você divida
os Estados: metade das cadeiras pelo sistema proporcional e metade
de distritos de um representante, no mesmo formato do outro sistema.
Para não haver confusão, a ideia é que os distritos para Deputado
Federal sejam os mesmos para Deputado Estadual. Significa que os
Deputados da lista seriam em número maior para Estadual. Imaginem a
metade dos Estaduais, ou seja — de novo, no Rio —, 35 distritos para
Estadual e 23 para Federal. Isso seria uma enorme confusão. Então,
se você mantém os distritos, pode manter, na proposta, um voto, mas
poderia manter dois, para facilitar.
A minha sugestão é que hoje nós precisamos, por conta da
hiperfragmentação, de uma cláusula nacional, como justifico nesse
texto que eu distribuí recentemente. Eu acho que 1,5% parece
razoável, pelos estudos que fiz. Mais do que isso, é desnecessário.
Com 1,5%, já há um efeito inibidor dos partidos menos expressivos.
Se for 5%, vão sobrar uns seis ou oito partidos, e isso está lá no
estudo.
Uma mudança na regra, independentemente do sistema adotado, é
algo positivo, ou seja, adoção de cláusula de barreira nos Estados,
como é atualmente o quociente eleitoral. Impedir que os partidos não
disputem as sobras, porque eles não atingiram o quociente, é muito
perverso e gera muita desigualdade. Então, eu sugiro uma nova
fórmula. Isso são adereços. A ideia central mais importante do
modelo é essa aqui.
O SR. DEPUTADO MARCUS
PESTANA - Mas se houvesse mais um distrito, um
partido...
O SR. JAIRO NICOLAU
- Já vou a esse ponto.
Eu peguei como exemplo os dados do Estado do Espírito Santo,
se não me engano, das eleições de 2010. A distribuição das dez
cadeiras no sistema atual foi essa. Foi mais ou menos proporcional.
Claro, o PSB ficou um pouquinho sobrerrepresentado.
Como é feita a locação? Calculam-se as cadeiras de todo o
Estado. Usa-se a regra não para os cinco, mas para os dez. Ou seja,
ele é um sistema proporcional, digamos, no momento um e, depois, das
cadeiras que o partido obteve, abatem-se aquelas que ele ganhou no
distrito.
Então, tomando esse exemplo para uma situação hipotética, o
PSB, que ganhou quatro cadeiras e venceu em dois distritos, ele
completa as quatro com dois da lista. Esse sistema garante metade
dos Deputados no distrito e metade na lista.
A pergunta, Deputado.
O SR. DEPUTADO
MARCELO CASTRO - O Espírito Santo seria dividido em cinco
distritos?
O SR. JAIRO
NICOLAU - Em cinco distritos. Mas a conta da proporcionalidade é
feita sobre as dez cadeiras. Por isso ele é um sistema proporcional.
Eu não entendo muito de Direito Constitucional, mas me parece que
ele é um sistema que poderia de ser aprovado sem uma emenda
constitucional, por legislação ordinária, porque ele mantém o
princípio proporcional. Na verdade, é um sistema proporcional com
metade dos Deputados alocados em distritos de um representante. Com
isso, há garantia de que todo o território brasileiro teria um
representante, seja no âmbito estadual, seja mesmo a questão nos
Estados.
O Deputado fez uma pergunta técnica, que é um problema
sobretudo quando há dois votos. Você tem um voto para a lista, que
serve para distribuir as cadeiras no âmbito estadual, e um voto no
distrito. É que, às vezes, um partido, como, por exemplo, o PTB pode
ganhar no distrito sem ter feito na proporcionalidade. Como é que os
países resolveram isso, como é o caso da Escócia, por exemplo, que
adotou esse sistema, há 15 anos? Essa cadeira é a última
proporcional, ou seja, o partido que pega a primeira sobra perde
aquela cadeira da sobra, e o partido que ganha no distrito a mantém.
Então, ele pode gerar uma pequena distorçãozinha aí, mas, nos países
que utilizam esse sistema, não é nada grave. Quer dizer, esse
sistema...
O SR. DEPUTADO
MARCELO CASTRO - Na Alemanha simplesmente aumenta o número de
candidatos.
O SR. JAIRO
NICOLAU - O espírito é esse, só que a Alemanha utiliza um
sistema que faz essa conta nacionalmente e depois distribui para os
Estados. Ao distribuir para os Estados, a confusão
aumenta.
O SR. DEPUTADO
HENRIQUE FONTANA - Aí, Jairo, o eleitor vota duas vezes, ele
escolhe o partido e escolhe o candidato no
distrito.
O SR. JAIRO
NICOLAU - Isso. Aqui também. Eu sugeri um voto simplesmente por
razão de simplicidade, mas poderia haver dois
votos.
O SR. DEPUTADO ZÉ
CARLOS - Prof. Jairo, vamos supor que um partido elege somente
uma cadeira num distrito só. Então, ele teria uma cadeira da lista
também? O total seria como? Como seria definido o total de cadeiras
por partido?
O SR. JAIRO
NICOLAU - Nesse exemplo aqui, o PR só ganhou na lista; ele não
ganhou em nenhum distrito. É o caso, por exemplo, na Alemanha: o
partido verde nunca venceu em nenhum distrito. O partido comunista
consegue alguns distritos da antiga Alemanha Oriental, mas o partido
verde, não. Então, depende do perfil do
partido.
O SR. DEPUTADO ZÉ
CARLOS - Qual a fórmula para que o partido tenha um número de
cadeiras para o partido todo? Como é hoje?
O SR. JAIRO
NICOLAU - É essa aqui, proporcional.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Só um minuto. Eu não quero cortar a
palavra de ninguém, mas temos uma lista de inscrição. Senão a gente
não...
O SR. JAIRO
NICOLAU - Eu sei que é um tema tecnicamente delicado, e, como eu
já falei muito, eu poderia terminar a exposição e deixar as dúvidas
para o debate. Está bem?
Só para não dizer que eu também não chamei a atenção para os
pontos negativos e positivos de um sistema como esse, vou
terminar.
Os pontos positivos de um sistema como esse seriam: garantir
a proporcionalidade, o que não é pouco; garantir que todos os
representantes do País estejam representados, das regiões, dos
Estados ou eventualmente até de alguns Municípios; ele dá mais peso
aos partidos, claramente, porque as campanhas, sobretudo dos
candidatos que estão na lista, podem ser mais partidarizadas;
provavelmente, com a regra de 1,5%, ele ajuda a jogar a fragmentação
para baixo.
Alguns pontos que são desafios, por exemplo: qualquer sistema
que cria distritos uninominais precisa de revisão permanente.
Provavelmente o IBGE e o TSE teriam que ter departamentos
específicos para, a cada 10 anos, revisar o desenho dos
distritos.
E existe uma eventual complexidade para o eleitor, mas eu
acho que não é muito mais complexo do que o sistema atual, em que os
eleitores não sabem com é a regra da transferência de voto na
coligação, não sabem como se calculam os votos das sobras. Enfim, o
nosso sistema tem uma série de complexidades também.
Então, apresento essa proposta. Acho que ela pode ser uma
alternativa à ideia do distritão e a outras propostas que eu vi na
mesa, como uma proposta mais moderna para o País. Está bem?
Então termino aqui. Muito obrigado.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Só informo que o Deputado Indio da
Costa pediu para avisar que está na CCJ discutindo maioridade penal
e assim que puder vem a esta Comissão.
Passo a palavra ao Sr. Murillo de
Aragão.
O SR. MURILLO DE
ARAGÃO - Boa tarde a todos. Boa tarde, Presidente Rodrigo Maia,
Relator Marcelo Castro, meus colegas de Mesa, Jairo Nicolau e Rubem
Barboza. Agradeço aos presentes. É um prazer tratar do tema da
reforma política aqui na Câmara dos Deputados, onde até mesmo no ano
passado lancei o meu livro: Reforma Política: o Debate
Inadiável. Irei tecer algumas considerações, centrando minhas
observações na questão do financiamento de
campanha.
Em primeiro lugar, a reforma política vem acontecendo em
fatias, tendo alguns avanços evidentes, como as urnas eletrônicas, a
imposição da fidelidade partidária e, mais recentemente, a Lei da
Ficha Limpa. Mas é evidente que a evolução do sistema é muito mais
lenta do que a própria degenerescência do nosso sistema político.
A sucessão de escândalos, crises, traições, fragmentação
partidária, personalismo mostram claramente que o nosso sistema
político é indutor da criminalidade, como disse o Ministro Luís
Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal. Então, é claro que se
configura uma situação emergencial para a cidadania que se faça um
aperfeiçoamento urgente da reforma política.
No entanto, o debate tem tido características bizantinas,
porque, na hora de tocar nos aspectos essenciais, há uma natural
retração do mundo político em não tocar nesses pontos, pelo fato de
poderem inviabilizar eleitoralmente uns e outros. Então, é claro que
qualquer mudança de maior envergadura, como, por exemplo, do próprio
sistema eleitoral, pode alterar os desenhos da representação dentro
da Câmara, e pode não ser conveniente para muitos aprovar uma regra
que terminará os inviabilizando como candidato nas próximas
eleições.
Então, o que tem que ser feito num organismo que trata da
reforma política é estabelecer um critério em que as questões
urgentes devem ser tratadas urgentemente e as demais questões, mais
essenciais, de maior profundidade sejam diluídas no tempo, nas
próximas eleições, para que possamos, numa janela de três eleições,
alterar completamente o sistema eleitoral brasileiro. Nesse sentido,
em minha opinião, a questão essencial é o financiamento de campanha,
que é uma mudança possível e que pode ocorrer já, visando até mesmo
as eleições municipais do ano que vem.
Hoje a política está sequestrada pelos abusos das máquinas
pública, sindical, empresarial, pelo abuso do poder econômico. Quem
tem o controle dessas máquinas tem uma situação eleitoral de maior
facilidade, e isso não pode ser permitido pelo sistema político
brasileiro, porque transformamos as nossas eleições em corrida de
bilhão. Eu mesmo digo que, se eu quiser ser Deputado Federal e tiver
alguém disposto a me financiar, com 30 milhões de reais me elejo
Deputado Federal em Brasília. É fácil! É fácil! Basta ter muito
dinheiro que se elege Deputado Federal, em Brasília ou em qualquer
outro lugar.
Então, o ponto central é que essa realidade já se revelou
abusiva quando temos um custo eleitoral de mais de 5 bilhões de
reais. É um absurdo um país pobre como o Brasil ter um custo
eleitoral de 5 bilhões de reais. É um absurdo que se gastem 800
milhões de reais com fundo partidário sem a devida transparência e
controle dos recursos.
Então, de que adianta fazer e falar sobre uma reforma
política profunda se o cerne da questão está no abuso do poder
econômico? E está ao alcance da mão e da vontade dos Srs.
Parlamentares alterar essa realidade e transformar o nosso sistema
em um sistema mais justo e democrático.
Existem duas decisões que podem ser implementadas com certa
facilidade. A primeira é o teto de doações. Não o teto de receita
perante o Imposto de Renda, porque isso também cria uma situação de
desigualdade: quem ganha mais tem maior poder de influência dentro
da campanha eleitoral.
É pueril por parte de alguns defender o financiamento público
de campanha. Nós não precisamos de partidos pendurados no Tesouro
Nacional e que vão dar as costas para a sociedade. Nós precisamos de
partidos que batam à porta do eleitor atrás de recursos, que
transformem a militância em atividade viva, e não em coisa
absolutamente burocrática que se reúne periodicamente para escolher
candidatos. Financiamento público de campanha será uma tragédia,
assim, como é uma tragédia também o financiamento de empresas sem
limite. O que tem que haver é um limite específico: o dinheiro é 10
mil reais. É a doação — ponto. É o máximo que deve ser doado.
E, por outro lado, é preciso haver limite de gastos de
campanha. Uma campanha a Presidente da República não pode custar 200
milhões de reais, 300 milhões de reais, 500 milhões de reais. Tem
que custar 50 milhões de reais. “Ah, não dá!” Não dá. Vai
andar de avião, vai andar de ônibus; não vai andar de jatinho. É a
realidade do País. E tem que ser assim para se ter uma corrida
justa, eleitoralmente justa.
É evidente que os senhores quando me veem falando assim,
falam: “É muito fácil um
cientista político vir aqui e dizer que as coisas devem ser
assim”. Mas, infelizmente, elas devem ser assim mesmo, porque
temos que trabalhar para um sistema político mais sadio, que tenha
maior imunidade para contra as influências nefastas das máquinas do
abuso do poder econômico, da máquina sindical e da máquina pública.
E a forma é se estabelecerem tetos rigorosos de despesas, de limite
de gastos e teto de doações.
A política não pode ficar longe da sociedade. A política deve
buscar a sociedade para se financiar. O candidato deve transformar a
sua atividade política em contato permanente com a sociedade e lá
buscar os recursos. É assim que ocorre com as igrejas, com o
Exército da Salvação, com dezenas de outras entidades, como Greenpeace, entre outras,
que vão atrás dos recursos na sociedade, tentando convencer a
cidadania a lhe dar os recursos para que existam. É utópico? Não,
não é, porque existem, no mundo inteiro, dezenas ou centenas de
organizações que são financiadas assim, ou mesmo até campanhas
eleitorais.
O terceiro ponto dentro dessa questão é o fim da reeleição ou
a saída do cargo, no Poder Executivo, quando da disputa. É
inadmissível que, num País como o Brasil, o candidato a presidente
dispute a reeleição como Presidente. Ele tem que sair da Presidência
6 meses antes e disputar ao rés do chão, como os demais candidatos.
Não tem que usar avião presidencial, mesmo que pague! Temos que
acabar com isso. Ou, então, se acaba com a reeleição.
O Brasil é um país pobre, é um país onde existem grandes
diferenças econômicas, e temos que estabelecer regras que façam a
eleição ser a mais justa possível. Não é nada demais que os
candidatos a prefeito, a governador e a presidente, em se disputando
a eleição, saiam do cargo para disputar em condições de igualdade.
Temos que trabalhar o fim da corrida do bilhão.
Eu tenho 33 anos, 34 anos de observação permanente da
atividade política brasileira, daqui de Brasília, dentro desta Casa,
desde quando comecei aqui como assessor parlamentar da ABERT —
Associação Brasileira de Rádio e Televisão. Assisti a milhares de
horas de debate, assisti aqui a dezenas de eventos de grande
importância para a sociedade brasileira e posso lhe assegurar que o
fundamental para o aperfeiçoamento da nossa democracia é regular a
questão do financiamento de campanha. Essa é a medida essencial,
número um, que deve ser considerada pela Comissão para ser aprovada
já visando às próximas eleições, as eleições municipais do ano que
vem.
Eu quero dar uma palavra aqui também sobre a questão do
sistema de voto. Eu tenho a minha opinião, que externei no próprio
livro, que é o sistema distrital misto, por trazer duas questões
essenciais: a primeira é a valorização do partido. No Brasil, o
nosso sistema político trabalha na direção da desvalorização do
partido. A forma de evitar essa fragmentação que destrói, que corrói
o sistema político é, evidente, criando-se uma cláusula de barreira
nacional, como o próprio Prof. Jairo Nicolau disse, e alterando o
sistema. E o sistema ideal, na minha opinião, é o sistema distrital
misto porque, de um lado, valoriza o debate partidário por meio das
listas partidárias, fazendo os partidos terem uma atividade intensa
de disputa na própria escolha da lista — há quem defenda a hipótese
de o eleitor escolher a ordem da lista também —, de outro lado, com
o voto distrital, traz a política para junto do
distrito.
Não vejo nenhum demérito em considerar que os Deputados serão
vereadores de luxo, como alguns dizem, por serem deputados
distritais. Eu não acho um demérito. A política tem que estar junto
da cidadania, tem que estar junto do próprio distrito.
Vejo o debate do distritão como alternativa menos ruim ou
como uma alternativa não ideal, mas melhor do que o sistema atual. É
evidente que o distritão poderá gerar uma corrida de celebridades, e
só celebridades se elegeriam, porque muitos conhecidos iriam
conseguir ganhar mais votos. Então teríamos um Congresso de
celebridades. Isso pode ser o risco que existe na questão do
distritão. Não é o ideal, mas, considerando o sistema atual, ele
ainda é melhor, porque o sistema atual tem gravíssimas
distorções.
Bom, enfim, essas são as minhas considerações e eu fico à
disposição para elaborar um pouco mais, se for
necessário.
Obrigado.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Agradeço ao Sr. Murillo de
Aragão.
Passo a palavra ao Sr. Rubem Barboza.
O SR. RUBEM
BARBOZA - Boa tarde. Eu queria agradecer o convite para estar
presente a esta Comissão. É uma honra; é um dever.
A primeira coisa que gostaria de dizer é a seguinte: a ideia
de representação política, tal como construída nos últimos 200 anos,
está em crise no mundo inteiro. Não é só aqui. Antes, nós tínhamos a
ideia de representação com base no transcendente: os padres, o Papa,
representavam Deus. Nós invertemos isso: os representantes passam a
representar o soberano, que é o povo. Essa articulação, essa
alteração foi feita ao longo dos últimos anos. Hoje, nós estamos
vendo o quê? A ideia, a prática de representação política, tal como
foi criada, está sendo desafiada por vários processos societais, o
que leva ao ponto, por
exemplo, de um autor conhecido e extremamente importante nos
Estados Unidos, no final do século passado, John Rawls, dizer que o
sistema político de representação é apenas um módulo da sociedade e
não aquele que representa toda sociedade. E nós temos, inclusive,
outros setores, outros movimentos, dizendo: “Olha, nós contestamos essa
ideia de representação, mas queremos criar um sujeito de tipo novo,
uma representação de tipo novo, mas pular para dentro do sistema de
representação, como os partidos tipo Podemos, na Espanha”.
Existem outras formas que reclamam o mesmo tipo de representação
que a representação política.
Quanto a essa questão da representação, alguns dizem ainda
que a sociedade contemporânea sempre tem um excesso que é impossível
de ser contido dentro do sistema representativo, por isso mesmo,
muitas vezes, a democracia existe apesar dos partidos políticos.
Esse é um diagnóstico duro em relação ao sistema de representação
que foi construído nos últimos dois séculos.
Pois bem, estudar, fazer um grande estudo sobre as causas
disso seria extremamente interessante, mas obviamente polêmico e não
chegaríamos a uma conclusão definitiva.
O que as democracias ou que os países democráticos têm feito
disso? Tem feito algo que nós estamos, aparentemente, tentando fazer
aqui: reformas incrementais nas suas tradições sem se lançar a
grandes aventuras, mas procurando fundamentalmente a renovação de
uma aproximação entre Parlamento e sociedade, buscando uma
legitimação ou uma religitimação dos partidos políticos, que têm
perdido muita legitimidade na intermediação não de interesses, mas
até de ideias na sociedade, e transformar o sistema representativo
não num objeto de ganhos pessoais, de corrupção, mas em um objeto,
de fato, de representação da sociedade.
Essas modificações graduais têm-nos ensinado que aventuras
são muito arriscadas. Quando você altera a regra do jogo de uma
maneira muito radical, ninguém navega bem inicialmente. O que nós
estamos obrigados a fazer hoje é, para usar um mito grego, consertar
o navio enquanto se navega. Não dá para parar tudo e fazer uma
reforma radical ou fazer grandes aventuras, criando coisas que
ninguém controla. Essa tem sido a tendência de países na Europa, tem
sido a tendência nos próprios Estados Unidos nos seus vários
Estados. O Jairo já mencionou algumas modificações que estão sendo
feitas na Inglaterra.
Então, parece-me que a premissa básica que talvez seja
sensato seguir seja esta: a de modificações incrementais que não
deixam de ser absolutamente relevantes, mas sem desconhecer a nossa
tradição e o aprendizado que fizemos até agora nos sistemas
políticos.
A partir desse primeiro ponto, gostaria de dizer que tenho
uma discordância com o projeto da OAB e da CNBB. Por quê? Porque se
trata de um programa baseado em princípios. É um programa de
princípios ideológicos. Ele desconhece exatamente o processo de
aprendizagem que nós tivemos e, ao mesmo tempo, coloca os princípios
antes e tenta traduzi-los diretamente na realidade. Isso não
funciona. O melhor é você recuperar esses princípios — igualdade,
liberdade, soberania — e colocá-los como ponto para aproximação, ou
seja, uma reforma que leve o sistema representativo a aproximar-se
cada vez mais daquilo. Parece-me muito mais lógico, muito mais
sensato, embora, eu não esteja aqui negando a legitimidade da OAB,
da CNBB, a competência deles, nada disso. Apenas,
parece-me
que o mais sensato é isso.
Diante disso, eu tendo a concordar com o Jairo e com o
Murillo no seguinte sentido: parece-me que o principal para nós
agora, no caso do sistema de representação, especialmente o
Parlamentar, é manter o princípio proporcional como aquele que
conduz a reflexão a respeito das reformas, ou seja, a preservação do
princípio proporcional que pode ser corrigido. Muitos dos amigos
cientistas políticos no Brasil acham que não tem de mexer nesse
sistema. O Jairo conhece muitos, pois se reúnem com eles. Alguns
acham que está bom, que é assim mesmo. Eu não. Acho que tem de
mudar.
E como é que podemos fazer? Eu acho que a proposta que o
Jairo apresentou ou a proposta de distrital misto caminha nessa
direção, mantendo o princípio proporcional como uma experiência que
nós acumulamos durante décadas para produzir reformas no sentido de
aproximar o Parlamento da sociedade, de permitir uma estruturação
dos partidos e de diminuir também não só os custos de campanha, mas
também alguns custos de informação para o eleitor. Então, uma
reflexão nessa direção que foi apontada me parece bastante correta.
Agora, essas reformas seguramente têm a ver com uma questão
que é crucial no mundo, que não existe só aqui, que é o problema do
financiamento de campanha. Isso é dramático. Nós já fizemos
levantamento. Os cientistas políticos agora estão ficando
especializados em fazer o seguinte levantamento: em 160 países,
tantos são assim, tantos assim. E, em seguida, fazem a correlação
entre financiamento público e corrupção, financiamento público e
democracia. E percebe-se que não tem diferença. Não tem diferença.
Qualquer que seja o regime...
Aliás, não existe nenhum País com financiamento público
exclusivo. Pode ser que a Rússia tenha, mas todos nós conhecemos
como é a Rússia hoje. Mas não existe. Ou seja, o índice daquelas
medidas internacionais de credibilidade, corrupção, etc. não são tão
diferentes entre os países. Não há essa coisa de lista fechada e
financiamento público. Existe lista fechada com financiamento
privado e vice-versa, ou seja, a experiência mundial é enorme e não
necessariamente produz grandes diferenças. Por quê? Porque a crise
atinge a eles também, a todas essas formas.
Então, de novo, repito: o que vale a pena? Eu acho que
pensarmos nas nossas circunstâncias. De fato, hoje, nós estamos com
um dilema. Há um dilema aqui. Primeiro, a opinião pública parece não
concordar com o sistema de financiamento público, que, inclusive,
dependendo, é muito caro; e, segundo, com todas essas sucessões de
escândalos, há também que se dizer o seguinte “Olha, o financiamento privado
não pode continuar pelo menos como está”.
Então, o que normalmente os países têm feito? O que tem sido
feito? Têm-se procurado criar mecanismos de transparência na
movimentação do dinheiro privado ou prover alguns fundos públicos à
disposição dos candidatos. Eu acho que nós devemos começar a pensar
nisso.
Se o financiamento público é difícil de passar na Casa, como
Congresso, e é pouco aceitável para a sociedade, por outro lado
também, continuar com as regras atuais ou com o desenho atual é um
suicídio. Então, eu acho que aí há uma questão de bom senso que tem
de ser vista.
Primeiro, nós todos, cidadãos brasileiros, temos um controle
rigoroso sobre a nossa movimentação financeira, que é o Imposto de
Renda, exercido pela Receita Federal, e todos nós temos um controle
muito grande, inclusive sobre os nossos comportamentos ditos morais
ou legais, e, para isso, existe o Ministério Público. Eu acho
que, para a preservação do modelo dual de financiamento público já
existente e privado, há necessidade de se criar uma instituição
independente, mas que reúna as experiências tanto da Receita Federal
como do Ministério
Público, para que, suponhamos, se alguém doar 100 mil reais
para um candidato a Deputado, um candidato a prefeito,
imediatamente... É possível construir software para isso. Há uma
dúvida a respeito? Não se aceita, mas se pode recorrer ao Tribunal
de Contas. De qualquer maneira, seria uma instituição independente,
e o Tribunal de Contas permanece como tribunal
recursal.
E a publicação on-line, imediata, antes das
eleições, das doações feitas? O que significa isso? De um lado, nós
estamos informando ao eleitor e, de outro lado, nós estamos
reduzindo o incentivo para as empresas, para o uso do caixa dois,
além de estarmos fazendo algo legítimo, que é permitir que alguém
que queira financiar um candidato, queira oferecer algo, possa
fazê-lo.
Agora, é claro que nenhum sistema é a prova de corrupção.
Nenhum sistema é a prova de corrupção. Então, de um lado, o Estado
brasileiro não terá condições financeiras de manter a fiscalização
do financiamento público geral.
Eu faço aqui uma sugestão específica em relação a uma
campanha. Penso que todas as outras deveriam ser financiadas
privadamente, com absoluto controle, mas a campanha de Presidente da
República tem que ser financiada publicamente, como, aconteceu
durante muito tempo — até o Obama — nos Estados Unidos, com limite
de gastos.
Por quê? Porque há um ganho de legitimidade para o sistema,
dada à importância do Presidente da República. É como se o eleitor
estivesse dizendo para os candidatos que obviamente não vão ter uma
divisão equitativa do dinheiro público — há condições para isso e
nós podemos estudar —, o seguinte: “A sua conversa é comigo, e não
mais com um sistema que pode financiar sua
campanha”.
Quer dizer, protege-se o Presidente da República, que passa a
ter outra vantagem, que hoje nós sabemos que é grave no Congresso
Nacional, e que talvez seja um pouco fruto dos mecanismos eleitorais
que nós temos, mas não só disso: a de formação de maioria
congressual. Um Presidente mais protegido desse jogo tem maior
independência para o quê? Uma atividade eminentemente política de
constituição de maioria.
Aqui, eu só queria lembrar — obviamente eu estou chovendo no
molhado, porque todos os senhores sabem disso — que nem toda
mecânica política legal, formal, é capaz de resolver problemas que
dizem respeito à política.
Esse problema de formação de maioria é fundamentalmente
político, que não pode ser resolvido por meios não políticos, porque
senão dá no que nós estamos vivendo: uma confusão enorme. Mas há uma
dimensão da política que é própria dos senhores, que é própria dos
Senadores, que é própria do Presidente da República, porque os
senhores foram escolhidos para esta atividade, e não para
outra.
Finalmente, eu gostaria de fazer outra sugestão, que tem a
ver diretamente com o sistema eleitoral e com o reforço dos
partidos. É claro que uma reforma política está ajustada ou está
vinculada a outras modificações — reforma administrativa, etc. —, e
não dá para pegar isso aqui tudo. Mas uma coisa tem me preocupado, e
seguramente os senhores têm experiência disso: sem uma reforma
tributária que devolva recursos aos Municípios, os partidos não vão
fazer nenhuma experimentação de políticas públicas alternativas a
quem está no Governo Central.
Os partidos que não têm capacidade de experimentar passam a
estar submetidos ao poder de agenda, ao poder de concepção, ao poder
de imaginação de quem está no Governo Federal, e os Deputados se
transformam, em grande parte, em transmissores de pedidos e de
recursos para a execução, no local, de políticas que são decididas
nacionalmente. Com isso, nós criamos um enorme problema, que é,
tendo falta de imaginação, o de nós entrarmos numa situação como a
que nós temos hoje.
Qual a imaginação alternativa? Quando a socialdemocracia
alemã ou quando a socialdemocracia europeia entrou em crise, qual
foi a alternativa? Margaret Thatcher. Nos Estados Unidos, Reagan.
Se os partidos não podem experimentar, inclusive
constitucionalmente, eles não se formam, não se diferenciam, não se
aproximam da sociedade. Não dá para haver partido político com quase
70% dos recursos concentrados no Governo Federal. Resolver isso é
fundamental para uma reforma política. Sem isso, também as questões
ficam muito problemáticas.
Por último, para terminar, só quero dizer uma coisa: acho que
a coincidência de eleições liquida o Município como arena de
discussão e de decisão. Não é a mesma coisa votar em Prefeito e
votar em Presidente. Acho que essa questão só vai complicar, e o
Município, que já é extremamente sacrificado na Federação, vai ser
não só sacrificado economicamente, se continuar como está, mas
também do ponto de vista da discussão
política.
Bom, por enquanto é isso. Obrigado.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Agradeço ao Sr. Rubem Barboza.
Passo a palavra ao Deputado Marcelo
Castro.
O SR. DEPUTADO
MARCELO CASTRO - Eu queria cumprimentar e parabenizar os nossos
convidados que trataram do assunto mais importante, cuja nova fase —
última fase — nós estamos começando hoje, que é a discussão sobre o
sistema eleitoral e o financiamento de
campanhas.
Nessa etapa, nós vamos ouvir os cientistas políticos e os
presidentes dos partidos, que virão aqui para debater suas ideias,
para defender os seus pontos de vista, para que possamos — esta é a
finalidade — nos aprofundar no debate, fazer o direito comparado,
ver o que está acontecendo no restante do mundo, para onde o mundo
civilizado caminha, a fim de que se possa tomar uma decisão aqui com
relativa segurança de que estaremos fazendo o melhor para o nosso
País.
Eu gostaria de falar aos três palestrantes que eu entendo que
o erro maior do sistema eleitoral brasileiro foi o que nós cometemos
ao fazer a cópia dos sistemas eleitorais. No mundo inteiro, nós
temos basicamente dois sistemas, o majoritário distrital e o
proporcional, sendo que este último normalmente é de lista
preordenada, de lista fechada.
Nós adotamos aqui no Brasil o sistema proporcional, que
pressupõe um sistema de programa, de doutrina, de filosofia, de
ideologia política, e, em vez de nós votarmos no programa, na
legenda do partido, na proposta, na ideologia, nós votamos no
candidato. E aí nós trazemos uma deformação
incrível.
Então, seria o caso de se dizer: “Se, no caso do nosso sistema
eleitoral, nós corrigíssemos só isso aí, nós consertaríamos
tudo?” Tudo, não, mas eu entendo que quase tudo. Eu acho que a
origem de toda essa deformação que nós temos no sistema eleitoral
brasileiro é exatamente o voto no candidato no sistema proporcional,
o que não existe, salvo algumas exceções de lista flexível no
restante do mundo.
Assim, o que isso acarreta? Acarreta a fragmentação
partidária e o número excessivo de campanhas que há hoje no Brasil.
Em São Paulo, na eleição passada, nós tivemos mais de 1.400
candidatos a Deputado Federal e mais de 1.800 candidatos a Deputado
Estadual. O que isso representa? Que nós tivemos 3 mil candidaturas,
só em São Paulo, para o Parlamento e para a Assembleia Legislativa.
E cada Deputado desses faz uma campanha individualizada.
Aqui é onde eu acho que está a origem do mal, do vício, toda
a origem do defeito do sistema eleitoral brasileiro: nas campanhas
individualizadas. Por quê? Porque cada candidato a Deputado Federal,
cada candidato a Deputado Estadual faz uma campanha individualizada
— ele tem o carro de som próprio, tem a música própria, tem o jingle próprio, tem o cartaz
próprio, tem o santinho próprio, tem o cavalete próprio, tem as
placas próprias, e ainda tem um exército de cabos eleitorais
trabalhando para si próprio, não para o partido. E o pior, como está
dizendo o Samuel ali, é que, além disso, a campanha é feita no
Estado inteiro. Então, quanto isso não
encarece?
Qual é o universo que tem um candidato a Deputado Federal em
São Paulo? Três milhões de eleitores. Qual é o universo que tem um
candidato a Deputado Federal nos Estados
Unidos? Duzentos mil eleitores. A diferença é muito grande! É
gritante!
O SR. DEPUTADO SAMUEL
MOREIRA - Trinta e dois milhões.
O
SR. DEPUTADO MARCELO CASTRO -
Eu disse quanto?
O SR. DEPUTADO SAMUEL
MOREIRA - Três milhões.
O SR. DEPUTADO
MARCELO CASTRO - Ah, perdão! Trinta e dois milhões. (Riso.) Claro que é. (Riso.) Eu pensei uma coisa
e disse outra.
Então, na eleição passada, o PMDB
teve aproximadamente 180 candidatos a Deputado Estadual e a Deputado
Federal em São Paulo. O que isto significa, Murillo de Aragão, meu
amigo que nos honra aqui com sua presença? Que o PMDB,
na eleição passada, fez 180 campanhas só em São Paulo. No restante
do mundo, senhores e senhoras, não é assim. Quantas campanhas a
Suécia fez nos últimos 4 anos para preencher as vagas no Parlamento?
Devem ter sido menos de dez. Nós, do PMDB,
só em São Paulo, fizemos 180, e o restante dos partidos fez três mil
campanhas. No Brasil, nós fizemos 21 mil campanhas, na eleição
passada, para Deputado Federal e Deputado Estadual, em todo o
território do Estado. Isso custa o quê? Dinheiro. Quanto mais
necessidade de dinheiro, mais necessidade de financiamento, mais a
relação promíscua entre o candidato e o financiador, mais corrupção,
mais escândalo, e parece que nós não vamos sair nunca desse círculo
vicioso.
O SR. DEPUTADO
HENRIQUE FONTANA - Só uma frase para te ajudar: e de todos esses
milhares de campanhas, quase nenhuma faz a campanha do programa que
o partido quer apresentar ao cidadão. Todas fazem do próprio
candidato só, com foto, nome e número.
(Não
identificado) - E nem mostra o partido. Nem o partido nem a
coligação.
O SR. DEPUTADO
MARCELO CASTRO - Então, se os palestrantes me permitissem aqui,
eu gostaria de distribuir essa cartilhazinha sobre reforma política
que eu fiz quando fui começar aqui a nossa reforma eleitoral.
Então,
logo aqui na primeira página, temos Problemas acarretados pelo atual
sistema eleitoral brasileiro. Qual é a ideia? É a de chegarmos a
um entendimento de quais são os nossos problemas, porque, se nós
tivermos consenso sobre quais são os problemas, tudo o que nós
viermos a propor para corrigir — para corrigir o quê? — esses
problemas que nós chegamos ao consenso sobre quais são os problemas
existentes. Então,
quais foram os elementos que eu enumerei aí?
Primeiro,
o custo exorbitante das campanhas eleitorais para o parlamento. Para
tudo, mas aqui nós estamos falando do
Parlamento.
Segundo,
a excessiva influência do poder econômico no pleito eleitoral. Isso
daqui traz um problema gravíssimo. Qual é o princípio basilar,
fundamental, essencial, quase sagrado da democracia? É o princípio
da igualdade de oportunidade entre os candidatos. Se não existe
isso, não existe democracia verdadeira. E aqui todos sabem que, para
o Parlamento, quem mais pode, quem mais gasta, mais tem voto. Quem
menos pode, quem menos gasta, menos tem voto. Isso é uma regra de
três quase direta, quase sem exceção. E isso está deformando a nossa
representação política. Daí, 2 anos depois das eleições faz-se uma
pesquisa e pergunta aos eleitores: “Em quem foi que você votou para
Deputado Federal?” Dois anos depois, 70% não sabem em quem
votaram. O Datafolha fez uma pesquisa agora e 71% do eleitorado
brasileiro não tem identificação com nenhum partido
brasileiro.
Terceiro, o número excessivo de campanhas eleitorais para o
parlamento.
Quarto, partidos frágeis, sem coesão interna, pouco ou nada,
ideológicos e programáticos.
Quinto, vota-se em João e elege-se Pedro. É o nosso sistema
de lista aberta e coligações que propicia
isso.
Sexto, o número excessivo de partidos representados no
parlamento. O Dr. Jairo Nicolau disse aqui que nós somos campeões
mundiais. Aliás, eu digo aqui na minha cartilha que nós vamos para o
Guinness Book como o País
que tem o maior número de partidos representados no
Congresso.
Sétimo, o distanciamento e a falta de interação entre o
eleitor e seu representante. Há um divórcio hoje completamente entre
a classe política e a sociedade brasileira. A verdade é que nós hoje
não expressamos a vontade nacional, e nós precisamos corrigir
isso.
Oitavo, a luta fratricida entre candidatos do
mesmo partido. Quando se vai para a eleição, o maior adversário, o
maior inimigo é seu companheiro de partido. Isso é a negação da
própria existência de partido que o sistema de lista aberta
propicia.
Novo, a relação pouco republicana — para não dizer promíscua
— entre financiadores e candidato.
Décimo, o custo exorbitante
do marketing eleitoral
que existe hoje nas campanhas. Basta citar a campanha da Presidente
Dilma, que custou 79 milhões de reais. Eu acho que só o marketing eleitoral de uma
campanha está completamente fora do razoável.
Então, eu gostaria de fazer essas observações para perguntar
a V.Exas. e a V.Sas. que aqui estão se concordam com parte do que eu
estou dizendo, qual a solução, para onde nós deveríamos marchar?
V.Sas. já disseram, e os três concordaram com o sistema distrital
misto. É o sistema que eu proponho na cartilha. Eu acho que nós
corrigiríamos esses dez pontos que eu levantei como problemas, se
nós implantássemos o sistema distrital misto e tirássemos os
marqueteiros da campanha, nós resolveríamos todos os problemas que
temos e identificamos hoje no sistema
brasileiro.
É essa a minha manifestação e a minha pergunta para que
V.Sas. possam nos ajudar a fazer o melhor para o
Brasil.
Obrigado.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Com a palavra o Deputado Marcus
Pestana.
O SR. DEPUTADO MARCUS
PESTANA - Sr. Presidente, Sr. Relator, nossos cientistas
políticos que fizeram um painel extremamente rico, interessante,
instigador, dizem que Parlamentar não tem ouvido e só tem boca.
Dizem que é um estilo, um problema crônico dos Parlamentares e dos
políticos. Eu vou tentar, então, não fazer defesa de ponto de vista,
mas realmente colocar perguntas para aproveitar a presença dos
senhores aqui.
Eu nasci em Juiz de Fora, num grupo em que havia um líder.
Ele era muito arguto, brilhante, uma águia e extremamente
pragmático. Quando a gente começava as reuniões, ele falava: “O que a gente quer? Depois a
gente inventa os argumentos.” Ele fazia o caminho inverso do que
o Caiado propõe para o diagnóstico. Falava assim: “O que nós queremos? Depois, a
gente inventa os argumentos.” Então, invertia o processo
todo.
Portanto, eu queria colocar para os senhores a primeira
questão, porque me parece que a gente inverte, faz esse processo. A
gente afoitamente começa a decidir empiricamente sobre o que quer,
sem perguntar a que serve uma reforma política, quais são os
objetivos centrais.
Então, pergunto aos três: se os senhores tivessem de citar
dois ou três objetivos centrais, para depois testar as ideias... O
que estamos perseguindo? Nós estamos fazendo uma reforma por
modismo, para ser moderninho, para reformar por reformar ou o modelo
esgotou-se? Qual o norte estratégico? Dois ou três eixos que devem
servir de parâmetro para testar a consistência de qualquer modelo.
Segundo, os senhores já discutiram — teria que ser
obrigatório — a questão dos partidos.
Eu fui criado numa cultura política. Não sei por que eu me
acho mortal e falível. Não sei se todo mundo se considera assim.
Então, não consigo imaginar uma democracia ancorada em pessoas. Eu
fui criado numa cultura institucional. O que fica são as
instituições e a sociedade. Nós somos passageiros. Tenho dificuldade
e tenho fraternalmente debatido aqueles entusiastas do distritão,
particularmente. Mas hoje a ideia de partido — o Rubem, o Jairo e o
Murilo tocaram no assunto —, a de representação é uma ideia
problemática no mundo.
Outro
dia assisti a um pronunciamento quase conjunto do PP espanhol e o
PSOE, quando eles, ameaçados pela pesquisa, porque o Podemos estava
com 28%, e os dois partidos tradicionais estavam visivelmente
comendo poeira do Podemos, e, ameaçados de ir para o quarto lugar
pelos cidadãos, fizeram um pronunciamento conjunto em defesa da
tradição e do bipartidarismo espanhol. Então, foi simultânea a
declaração do líder do PP com o PSOE contra a inovação. Mas,
surpreendentemente, na eleição do final de semana em Andaluzia, o
Podemos, que parecia que ia ser um sucesso, ficou em terceiro lugar.
Mas, de qualquer jeito, é uma força nova que questiona. O Podemos
saiu dos Indignados, da Porta do Sol. E a palavra de ordem é: “Vocês não nos representam!”
Então, estão problematizando a ideia de
representação.
Na França, também, na eleição de domingo, 50% da população
não foi às urnas. Quer dizer, isso é uma forma de participação. Elas
estão falando...
(Intervenção fora do
microfone. Inaudível.)
O SR. DEPUTADO MARCUS
PESTANA - Quase 50.
Na Espanha, em Andaluzia também foi... Eles esperavam até
mais por conta da crise europeia.
Então, esses cidadãos que renunciam ao direito de voto estão
falando assim: “Isso não tem
nada a ver com a minha vida. Não me importa.” É uma forma também
de participação.
Portanto, são essas as duas perguntas.
Por obrigação de ofício, porque o Deputado Esperidião Amin —
eu acho que não está aqui — fica falando que eu sugo a energia dele,
porque só ele defende a minha própria proposta e eu me omito, quero
só deixar clara uma questão, principalmente ao Jairo. O grupo, que
funcionou em 2013, procurou a convergência fora dos holofotes,
trabalhou 4 meses e gerou essa PEC.
O sistema é muito simples. Depois eu posso detalhar isso para
você. Mas, na verdade, eu defendo convictamente o distrital misto,
do tipo alemão. Mas o que adianta? Toda mudança substantiva — a
emenda constitucional — tem que ter três quintos. E aí não adiantava
porque era um passe para a esquerda, para o PT e para várias forças.
A proporcionalidade é uma cláusula pétrea. Por outro lado,
uma série de partidos, parte do PSDB, PMDB, PP e PSD não topam
nenhum tipo de lista. O impasse estava formado. Então, nós geramos
essa simples, que não tem nada de complexo, Jairo.
Eu tenho que defender isso, porque saiu do meu computador.
Então, eu, pelo menos, tenho que ter a dignidade intelectual. Ela já
está natimorta. Geralmente filho feio não tem pai. Mas qual foi a
ideia? Como a esquerda, o PT, não abre mão do princípio da
proporcionalidade e como ninguém aceita lista, seria preciso
melhorar o sistema, dar um passo incremental no sentido de reduzir
custos e diminuir o território, só mexendo na variável território.
Essa proposta só mexe com território. Ela foi concebida totalmente
proporcional. Então, a regra da sobra ir para o majoritário foi uma
composição com o pessoal do distritão. Falou-se assim: “O que sobrar fica para o mais
votado”. Mas a proposta era totalmente proporcional.
Só
reduzindo, em vez de o Deputado paulista disputar 32 milhões de
votos, ele iria disputar 3 milhões e 200. Em vez de cada partido
lançar uma lista disputando 70 vagas, lançaria dez listas disputando
sete. Assim, em Minas, nove regiões; no Rio de Janeiro, seis; na
Bahia, cinco; no Rio Grande do Sul, quatro; em Pernambuco, três; nos
outros Estados, duas regiões. Foi uma coisa muito singela. Mas não é
ponto de partida, é ponto de chegada.
Agora
começamos tudo da estaca zero. Temos que reconstruir o
consenso.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Antes de passar a palavra para a
Deputada Moema e depois para os convidados, há uma pergunta do
pessoal que está participando pelo e-Democracia para o Sr. Jairo
Nicolau. Gostaria que o senhor anotasse. André pergunta: “Posso dizer que o distritão que
está sendo proposto funcionaria como sistema majoritário de
magnitude plurinominal? Qual a principal diferença entre adotar
esses termos, ao invés de majoritário uninominal no nosso sistema
político?”
Com a palavra a Deputada Moema
Gramacho.
A SRA. DEPUTADA MOEMA
GRAMACHO - Sr. Presidente, Sr. Relator, primeiro, eu queria
parabenizar V.Exas. pela iniciativa desta audiência e dizer que
agradeço ter aceito o requerimento que fizemos para convidar os
Profs. Murilo e Jairo. Mas eu me sinto bastante contemplada com a
presença dos três e parabenizo a todos, inclusive o Dr. Rubem
Barboza.
Foi muito rica a exposição de cada um dos senhores. Acho que
isso acrescentou muito para a nossa reflexão.
Eu queria fazer algumas ponderações, inclusive em relação a
algumas das questões abordadas pelo Dr. Jairo e também à questão de
o financiamento público não ser bem aceito pela população.
Efetivamente o financiamento público não é bem aceito porque
vem se trabalhando muito a questão de que o financiamento público
retira dinheiro da saúde e da educação. E seria preciso reverter
isso, do ponto de vista da informação. A população não sabe
efetivamente o que significa financiamento público. Acho até que nós
não devíamos falar “financiamento público”. Devíamos falar “não ao
financiamento empresarial”, não necessariamente em defesa do
financiamento público. Por quê? O financiamento empresarial já está
comprovado que vira uma troca de favores, e, se não é a única causa
da corrupção, é uma das causas da corrupção.
Agora, se as empresas querem continuar fortalecendo a
democracia brasileira, ajudando no processo de construção das
eleições, podem fazê-lo através de financiamento público, podem
fazer o aporte de seus recursos lá no fundo. E esse fundo pode ser
público e gerido justamente dentro da proposta de financiamento
público.
Eu não ouvi também nas falas dos senhores — apesar de estar
atenta, pode ser que eu tenha me perdido — a possibilidade do
financiamento de pessoa física com limite, que é a proposta
defendida também pela OAB, que seria uma conjunção entre o
financiamento público e o financiamento de pessoa física limitado —
limitado em termos de valor individual e também no tocante ao total
de recursos arrecadados pelo financiamento público. Acho que essa,
talvez, fosse a melhor modalidade.
Então, eu queria deixar claro aqui que nossa posição é
contrária ao financiamento empresarial. Eu acho que a população
entende que hoje o financiamento empresarial é nocivo. Agora, nós
precisávamos esclarecer à população o que significa não ser o
financiamento empresarial e a proposta de que, se a empresa quer
contribuir, contribua para o fundo. Aí eu acho que a população
esclarecida não vai ser contra o financiamento público, no seu
entendimento do que significa financiamento público. Enquanto a
população achar que financiamento público é retirar dinheiro da
saúde e da educação, não vai querer financiamento público. Pelo
contrário, vai dizer o seguinte: “Os partidos...” E aí quero
fazer uma ressalva, porque hoje fica tudo em torno do PT. Mas,
quando se fala da contribuição, todos os partidos recebem
contribuição de todas as empresas, todos! Eu quero saber qual é o
partido que não recebe, pode ser até que tenha. O PSOL tem dito que
não recebe; o PSOL pode ser uma exceção, não é regra. A regra é que
todos recebem de todas as empresas.
Então, se a empresa contribui para todos os partidos, não
contribua para todos os partidos, contribua para o fundo, e deixe
que o fundo vá ser administrado. Muito melhor!
Bom, eu acho que tem que ficar consolidado que nós somos
contrários ao financiamento empresarial.
Outra questão que eu acho interessante destacar aqui é a do
distritão. Ora, se estamos querendo e se toda essa questão da
reforma política, que há anos vem sendo discutida, é justamente para
garantir — e nós discutimos aqui de manhã a questão entre
candidatura avulsa ou fortalecimento partidário —, o fortalecimento
partidário, que é a melhor forma de fazer disputa de projeto e de
ideias. Se os partidos não estão fazendo isso, deveriam fazê-lo. E
qual é a forma de consertar isso? Não é dizendo que não tem mais que
ter partido político, é justamente tendo e estimulando o controle
social, estimulando os fóruns de participação social que façam com
que os partidos passem efetivamente a trabalhar em cima das ideias e
que as pessoas se filiem aos partidos muito mais pelas ideias do que
pelos interesses econômicos e financeiros.
Então, eu acho que não se pode querer destruir um processo
que vem sendo trabalhado no último século e neste século, que é o de
fortalecimento de projetos através da defesa dos seus partidos, e
trabalhar com o distritão, que, com certeza, vai se restringir a
pouquíssimos partidos. Como trabalhamos a hipótese de, no distritão,
ter exclusivamente os mais votados como aqueles que serão os
eleitos, nós estamos derrubando a tese do fortalecimento dos
partidos políticos, nós estamos restringindo a dois ou três partidos
políticos, ou nomes. Aí volta a personalização das campanhas
políticas e da política ser feita por pessoas e não necessariamente
por ideias.
Aí eu vou trazer mais um elemento: nós estamos brigando pela
representatividade das mulheres, das minorias, que não são mais tão
minorias, mas que estão representadas em minoria nos Parlamentos.
Com o distritão, nós vamos restringir mais ainda. Se hoje nós,
mulheres, somos 52% da população e somos menos de 10% no
Legislativo, imaginem se passa o distritão! Cadê as condições que
não foram dadas às mulheres para participarem do processo? E, mais
uma vez, nós vamos retornar à questão econômico-financeira. Quem é
que vai conseguir estar entre os...
Vou
dar o exemplo da Bahia: nós somos 39 Deputados Federais pela Bahia.
A Bahia é um Estado de 417 Municípios. Quem serão os eleitos? Os 39
primeiros eleitos? Obviamente, aqueles que vão ter mais dinheiro,
porque, mesmo através do financiamento público, ou de pessoa física,
vão acabar também se destacando. Não serão as mulheres muito
provavelmente por tudo que ainda não foi construído. E se não tiver
as cotas... Nesse processo, eu não vi ser colocado: “Distritão passa cota, discute
cota?” Eu não ouvi falar.
Como se daria a questão da representatividade de gênero neste
processo do distritão?
Terceiro. De novo, não barateia a campanha. Eu faço uma
campanha regionalizada e com voto de opinião. Agora, eu vou passar a
fazer uma campanha no Estado da Bahia, na imensidão que é a Bahia,
para querer estar entre as 39 pessoas mais votadas. Até fiquei entre
as 39 mais votadas. Eu, o Deputado Arthur e outros estamos entre os
39 mais votados.
(Intervenção fora do
microfone. Inaudível.)
A SRA. DEPUTADA MOEMA
GRAMACHO - Só um ficou abaixo dos 39, mas, pela questão
partidária, entrou. Mas obviamente no distritão nós teríamos muito
mais dificuldade de participar de um processo eleitoral. De novo,
vai-se voltar à questão da restrição a poucos partidos e mais
poderosos, àqueles que têm recurso. E há outra coisa: nós não vamos
ter condição de reoxigenar a política, nós vamos ter dificuldade na
reoxigenação da política.
Eu acho precisamos fazer, no meu ponto de vista, duas ações —
e já estou finalizando, Sr. Presidente. Primeiro, o fim da
reeleição. Apesar de eu ter sido Deputada Estadual por três mandatos
e Prefeita por duas vezes, acho que tem que acabar com a reeleição,
sim, justamente pelo espírito democrático e pelo direito de
igualdade de oportunidades. Mas acho que não se pode restringir a
questão do fim da reeleição só ao cargo majoritário. Temos de
colocar o fim da reeleição para cargo majoritário, mas temos que
impor limites aos mandatos parlamentares. No meu terceiro mandato,
apesar de não ter sido 12 anos como Deputada, foram 8 anos, eu já
achava que tinha pouco a contribuir e que se precisava reoxigenar.
Portanto, acho que temos que limitar o número de mandatos para os
proporcionais também.
E quero reiterar que precisamos manter a proporcionalidade
como forma de garantir maior
representatividade.
Eu queria só fazer uma pergunta, Dr. Jairo: qual a diferença
do distrital misto, que já foi aqui explicado, para esse misto
proporcional que o senhor colocou? Eu queria entender a diferença
substancial que existe entre um e outro, ou se são iguais. Eu não
consegui ver a diferença.
Por fim, eu queria finalizar dizendo que também considero,
Dr. Rubem, que não existe nada que barre completamente a corrupção
ou que a gente vá encontrar o sistema ideal. Tudo vai precisar de
outras medidas. A reforma tributária foi muito bem colocada.
Precisamos desconcentrar custo da União e garantir que os Municípios
tenham mais autonomia, mais autoridade. Com isso, a gente diminui o
poder da troca de favores.
Eu acho que isso fundamental, mas substancialmente precisamos
modificar as regras. É preciso limitar os custos de campanha, acabar
com tudo que é oneroso demais na campanha: as placas, que ninguém
mais aguenta; a pirotecnia da televisão, para mostrar coisa que, às
vezes, não vai ser nunca feita ou que não se fez. Esses limites
precisam ser mais bem definidos e fiscalizados. Se não houver
fiscalização, seja no sistema de financiamento público, seja em
qualquer outro, vai acontecer a corrupção, e a gente não vai mudar
efetivamente.
Então, deve-se fazer uma coisa combinada: novas regras,
transparência, fiscalização, reforma tributária. Mas precisa ser,
acima de tudo, um processo que o povo possa acompanhar e dele
participar.
Eram essas as sugestões que eu queria
apresentar.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Agora vamos passar aos convidados.
Começando pela ordem inversa, concedo a palavra ao Prof. Rubem
Barboza.
O SR. RUBEM BARBOZA
- Eu começaria pelas perguntas do Deputado Marcus
Pestana.
Quais
são os objetivos centrais? Eu comecei a minha intervenção inicial
dizendo exatamente que, na verdade, os objetivos são os mesmos
objetivos que vários países estão perseguindo atualmente: diminuir a
distância do Parlamento com a sociedade; reforçar o papel dos
partidos políticos ou recriar o papel dos partidos políticos; e
manter uma enorme porosidade em relação à
sociedade.
Abro um parêntese para dizer o seguinte: como é que algumas
medidas podem modificar a relação da sociedade com as suas
instituições? O Supremo Tribunal Federal era uma instituição
totalmente desconhecida da população até o julgamento do processo
chamado mensalão. Depois disso, passou a fazer parte do quotidiano
dos brasileiros. Milhões de pessoas até se dispunham a assistir às
sessões, digamos, com os nossos juízes. Se a Câmara expusesse estas
sessões da mesma maneira que o Supremo Tribunal Federal fez, as
pessoas teriam, eu acho, maior compreensão e proximidade maior com a
instituição, porque o protagonismo desse tipo de discussão conduzido
dentro do Congresso é praticamente desconhecido pela sociedade. O
que eu estou dizendo é — e só para mostrar isto — que este é o
objetivo: aproximar o Parlamento da sociedade.
E a questão dos partidos políticos está embutida nessa
problemática também. O que é um partido político hoje? Qual é a
natureza de um partido político hoje?
Sras. Deputadas, Srs. Deputados, quem inventa a ideia de
partido político, quem a inventa na prática são os trabalhadores na
Inglaterra. O que existia antes eram grupos, mas de lordes, que se
reuniam em clubes. Mas quem inventa e quem inclusive inventa o
político profissional são os trabalhadores. Uma pessoa não podia
ficar 12 horas ou 14 horas dentro de uma fábrica e depois dar um
pulinho à noite no Parlamento para discutir se entrava em guerra com
a Rússia, se fazia isso ou aquilo. Então, quem começa a construir
isso...
O SR. DEPUTADO
HENRIQUE FONTANA - O lorde podia.
O SR. RUBEM
BARBOZA - O lorde podia, exatamente. Foi exatamente para haver
essa igualdade que foi criada essa figura do político de
representação. A ideia também era que houvesse partidos
representando setores sociais muito claros, por exemplo, setores
sociais baseados na estrutura de classes, como o de trabalhadores, o
da burguesia, etc., na
suposição de que a sociedade também se dividia daquela maneira. Mas
também havia partidos católicos, partidos étnicos, partidos não sei
o quê. Uma das grandes reclamações contra o Partido Trabalhista
inglês era a de que, apesar de ele representar as classes
trabalhadoras na Inglaterra, essas classes trabalhadoras estavam
divididas em etnias, então eles não chegavam a um acordo e sempre
brigavam entre si: irlandeses, ingleses e escoceses, cada um do seu
lado.
A questão é esta: a ideia de partido e de representação que
existiu no começo da formação dessas instituições pode ser
replicada, pode ser repetida agora? Eu creio que não. Não existe
neste Parlamento aqui, e isto é exemplar em relação aos outros,
nenhum partido que possua um programa que seja absolutamente
coerente e que, dentro dele, não seja composto por correntes
diferenciadas politicamente. Não existe! Esse partido com monopólio,
da cabeça dos Deputados, da cabeça de todo mundo, não existe mais.
Esse partido não existe mais em lugar nenhum do mundo.
Ao
contrário, o que os partidos têm feito é se abrir a vários
movimentos e se recriar quase como frentes, claro que dotados do
mínimo de espaço, como o Partido Republicano norte-americano e o
Partido Democrata norte-americano. Tanto que muitas vezes isso
aparece hoje como uma desfiguração dos partidos. Isso quer dizer o
seguinte: os partidos são quase todos iguais. Na hora de governar, o
Partido Socialista francês faz o mesmo plano de arrocho para
contenção da crise do que o Cameron, do Partido Conservador inglês,
o oposto do ponto de vista ideológico.
Mas
não é assim. O que é o sistema partidário hoje? Ele é muito mais
complexo, muito mais complicado, e os desafios dos partidos são
muito maiores hoje do que antes. Eu convivo com vários Deputados,
com vários candidatos, e uma das coisas que eu tenho ouvido deles é:
"Vamos incorporar um sistema
novo de comunicação ao processo eleitoral." E aí se cria blog, cria-se não sei o quê.
Nada disso funciona, porque não é assim. Esses meios criam sujeitos,
figuras para eles. Não é simplesmente fazer assim: "Agora, eu vou instrumentalizar
isso. Vai dar certo." Não dá! Aí você vai lá e cria um site todo maravilhoso:
ninguém vai lá. Funciona o Twitter? Funciona.
Bem,
qual é o ponto? O ponto é este: a ideia de reforçar partidos hoje
não é tão simples, como se dizia no século passado. "Vamos encontrar uma base social
e vamos representar diretamente aquela base social." Isto não
existe mais, o que traz um problema para os Srs. Deputados, não só
para o cientista político: o que de fato significa, em um país como
o nosso, complexo, desigual do ponto de vista social e regional, o
que significa ter um partido político nacional, o que significa
isso? Há que ter alguma disciplina? Seguramente. Há que ter
liderança? Agora, como é que se processa isso? Como é que se
constitui isso? De novo, não pode ser, pura e simplesmente, o
domínio das regiões mais avançadas economicamente sobre aquelas
outras, no interior do partido.
Essa questão do partido continua um desafio. E aí — e eu já
vou caminhando para o final do que eu quero dizer — o desafio de
repensar partido hoje é tão grande, que a ideia do distritão parece
interessante. Por quê? Porque tira do partido grande parte das
responsabilidades pela sua composição e pela sua organização.
Atribui a um mecanismo quase mágico, mecânico, que é regra eleitoral
— concordo que tem que haver regra —, a resolução dos problemas,
pela diminuição ou pela tentativa de esconder os
problemas.
O Dr. Jairo lembrou que o distritão era mais ou menos uma
forma de eleição que existia na Primeira República. Eu diria que, na
Primeira República, também, existia a política dos governadores. Eu
digo para os senhores o seguinte: com o distritão, não há partido
político que tenha a menor capacidade de concorrer em Minas Gerais
com o Palácio da Liberdade. O Governador vai eleger 90%, ou mais,
dos Deputados. E isso vai acontecer também em São Paulo, e isso vai
acontecer no Ceará, e isso vai acontecer no Rio Grande do Sul. Os
Governadores, é claro, seguramente vão dominar os distritos. Os
palácios dos governadores vão se transformar nos novos centros de
poder, em uma federação esquisita, sem querer, produzida sem
querer.
E os Deputados vão achar mais um patrão. Além do partido que
quer ser patrão dele, ele tem o Governador que vai ser patrão dele e
tem o Presidente que vai ser patrão dele. Ou seja, você multiplica
não formas de organização espontânea dos partidos, mas formas de
indução e de coerção dos Deputados.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia)
- O senhor não citou o Rio, mas o Rio já é
assim.
O SR. RUBEM
BARBOZA - Está bem, mas eu estou dizendo o
seguinte...
(Intervenção fora do
microfone. Inaudível.)
O SR. RUBEM
BARBOZA - Deputado, mas o problema, então, é sancionar
isso.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia)
- Eu acho que o distritão é melhor do que
isso.
O SR. RUBEM
BARBOZA - Eu não estou defendendo isso,
não.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia)
- Hoje, o que acontece? Hoje você gasta uma energia para montar
uma chapa falsa. Se pesquisarmos, vamos ver centenas ou milhares de
candidatos que anteontem disputaram pelo PCdoB e que hoje estão no
DEM. Por quê? Porque não é mais relevante a ideologia. Relevante é
eu conseguir um candidato que dê mil votos para a minha legenda.
Então, é uma falsa proporcionalidade, um falso fortalecimento do
partido, porque não há debate ideológico. Eu quero uma pessoa que dê
quinhentos votos, para eu poder, com o meu voto, ser o representante
do meu partido aqui na Câmara dos Deputados.
(Intervenções fora do
microfone. Inaudíveis.)
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia)
- Desculpem-me, eu não poderia ter entrado no debate, mas é
porque ele não citou o Rio, mas o Rio já é assim.
O SR. RUBEM
BARBOZA - Eu só queria dizer o seguinte: essa circunstância pode
existir hoje, sem dúvida nenhuma, mas o que eu estou dizendo é que a
reforma que a gente tem que pensar é para evitar, e não para
sancionar isso, já para dizer: “Então, vamos deixar como
está”. Ou, pelo menos, temos que dificultar
isso.
Veja, com isso, eu não estou dizendo que quem está propondo o
distritão está exatamente buscando esse resultado. Mas o que eu
posso dizer é que, nessas circunstâncias aí, essa questão da
política dos governadores vai se tornar ainda mais forte, quer
dizer, a posição dos governadores.
Há só outro ponto. A Deputada Moema Gramacho me perguntou
sobre a questão da participação do financiamento público. A
Inglaterra evitou, não aceitou, ultimamente, o financiamento público
integral de todas as campanhas. Eles disseram: “Não temos como justificar esse
gasto inteiro numa situação de crise econômica como a que nós
estamos vivendo”. Então, você tem uma ideia submetida à
realidade da conjuntura. Pode ser que o financiamento público seja o
melhor, embora isso não exista em lugar nenhum do mundo
integralmente.
Agora — e concordo —, pode-se criar um fundo para o sistema
privado, para doação do sistema privado? Pode-se, também não tenho
nada contra isso. Eu só acho que, no nosso caso específico, hoje o
controle — e aí eu concordo com V.Exa. também —, a transparência do
sistema de doações privadas e limites para as candidaturas
parecem-me mais razoáveis do que pegar uma coisa só ou ficar só em
outra sem o limite.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Com a palavra o Sr. Murillo de
Aragão.
O SR. MURILLO DE
ARAGÃO - Eu vou tentar responder às quatro grandes indagações
que ouvi neste começo de debate. Primeiro, à indagação do Deputado
Marcelo Castro sobre se é possível trabalhar em cima dessas dez
questões apontadas por S.Exa. como essenciais para o aperfeiçoamento
do sistema político brasileiro.
Eu acredito que sim, e basicamente tratando do sistema
eleitoral, e na minha opinião o caminho é o sistema distrital misto;
do teto de doações, o teto financeiro estabelecido pela Justiça
Eleitoral para cada tipo de candidatura; e dos limites de gastos, ou
seja, teto de doação e limite de gastos por candidatura. Com todo
esse debate sobre financiamento público ou privado, vai acabar por
se estabelecer um limite de gastos. Se uma campanha a Deputado
Federal custar no máximo 5 milhões de reais, o limite será de 5
milhões de reais. Quem gastar 5 milhões e 1 centavo estará
inelegível, cassado. Ou não valerá a candidatura, e ponto. É assim
que tem que ser feito.
Quanto ao resto, é uma grande perda de tempo debater outras
fórmulas, até porque essas outras fórmulas embutem também interesses
de uns e de outros. O que nós temos que fazer é o seguinte: limitar
a doação e limitar o gasto.
O
problema não é o empresário doar dinheiro, Deputada Moema Gramacho.
Nada contra, o empresário tem direito a participar. O que não pode é
que a sua doação cause um desequilíbrio na campanha. Ele pode doar,
mas tem que doar dentro de um limite de tantos mil reais, ou de mil
reais, ou de 500 reais, ou de 10 mil reais.
(Intervenção
fora do microfone. Inaudível.)
O
SR. MURILLO DE ARAGÃO
- Enfim, essa questão está também na OAB e no Supremo, mas eu
utopicamente, aí já respondo à sua questão, defendo o financiamento
cidadão de campanha, ou seja, nem dinheiro público nem dinheiro de
empresa, mas sim o dinheiro do cidadão. Eu quero ver o partido e o
político batendo à minha porta, com um carnê, pedindo doação para o
partido. Eu quero que façam isso, como as igrejas fazem, e as
organizações. Eu recebo telefonema da LBV...
(Intervenções
fora do microfone. Inaudíveis.)
O SR. MURILLO DE
ARAGÃO - Deputado Luiz Carlos Hauly, eu estou falando
utopicamente, esse é o meu desejo. Em não sendo assim, eu digo que o
possível é estabelecer-se um financiamento do sistema atual com
limite de gasto, com limite de doação e com teto de gastos. Aí, sim,
a gente resolve o problema.
Com
relação aos motivos da reforma que o Deputado Marcus Pestana
perguntava, o que nós queremos para o nosso País? É uma democracia
mais robusta, é uma representação parlamentar mais robusta, é um
debate partidário.
Reconheço o que disse o Prof. Rubem Barboza com relação aos
partidos. É evidente, os partidos de hoje já não são os partidos de
quando foram criados, lá no passado. Há uma crise no mundo da
democracia. Aquele grande livro do Moisés Naím, O Fim do Poder, trata bem
desse assunto. Há outro também, O Fim da Autoridade. As
questões hoje mudaram realmente. Então, precisamos não de partidos
engessados em sua ideologia, mas sintonizados com os anseios da
sociedade e capazes de se harmonizarem e criarem novas maiorias em
torno dos desafios do momento. Daí porque a certa altura, no mundo
de hoje, encontramos essa situação de partidos socialistas adotarem
um receituário considerado neoliberal para soluções de desafios
econômicos. O desafio hoje já não é ideológico, e sim de
estabilização, o que às vezes implica soluções supraideológicas.
Portanto,
eu acredito que o problema não é efetivamente engessar partidos em
programas, mas sim em princípios. E princípios são honestidade,
equidade, justiça, justiça social, democracia, participação. Enfim,
esses são os motivos que eu vejo, sobretudo a expressão da maioria.
O sistema brasileiro não permite a expressão da verdadeira maioria.
O sistema brasileiro eleitoral é poluído. É poluído pela própria
representação malfeita, pelo abuso de poder econômico, abuso de
poder da máquina pública e abuso de poder da máquina
sindical.
Por fim, falo da questão da cota de mulheres.
Deputado, no dia 26 desta semana vai ser lançada uma frente,
na FIESP, em São Paulo, com a bancada feminina do Congresso, em
defesa da cota de 30% para as próximas eleições. Eu defendo que seja
50%, e acho que deveria ser de imediato, meio a meio, para haver a
representação da população.
(Intervenção fora do microfone.
Inaudível.)
O SR. MURILLO DE
ARAGÃO - Sei das dificuldades, mas podemos até marchar para esse
ideal em duas ou três eleições, com 1/3 na próxima eleição e 50% na
subsequente. Enfim, é um tema essencial também ampliar a presença
das mulheres na política brasileira.
Esses eram os pontos que eu queria comentar.
Obrigado.
O SR. JAIRO
NICOLAU - Deputado Marcelo Castro, a sua cartilha é muito boa,
pelo que eu pude ver aqui. Eu acho que é uma excelente base para o
debate.
Com relação à pergunta de V.Exa. sobre o mal de origem do
sistema proporcional no Brasil, é curiosa, porque naquele momento,
em 1945, para o Brasil, talvez fosse mais razoável copiar os modelos
que estavam em vigor na maioria dos países, modelos de lista
fechada. Mas, como o sistema brasileiro derivou do Código de 1932,
que foi desenhado por Assis Brasil e era um sistema personalizado, a
derivação acabou sendo o que nós hoje chamamos de lista aberta. Não
é que nós não copiamos o sistema de outro lugar, mas nós inventamos
aqui, no Brasil, o que outros países depois inventaram por outros
caminhos. E não tinha esse nome de lista aberta. Foi um
aperfeiçoamento, julgava-se, do modelo criado por Assis Brasil em
1932.
Há outro aspecto: desde 1824, quando foram realizadas as
primeiras eleições para a Câmara dos Deputados, até hoje, os
eleitores no Brasil sempre votaram em pessoas, em nomes. Nós nunca
votamos em partido, na lista fechada. Não há nenhuma experiência de
lista fechada. E voto no partido foi, na República de 1946, quando
se inventou o voto de legenda. O voto de legenda não estava na
legislação, foi inventado na prática. Alguns eleitores, no lugar de
votar em nomes, votavam só no partido, e durante a apuração isso
passou a ser considerado. A partir daí, inventou-se o voto de
legenda. Quem inventou o voto de legenda foi o
eleitor.
Dito isso, com relação às perguntas do Deputado Marcus
Pestana, o que eu realmente julgaria como prioridades fundamentais
de uma reforma eleitoral? Eu não falei nada do financiamento de
campanha só por razões didáticas, para me concentrar nesse aspecto.
Acho que talvez uma reunião com esses dois temas, numa tarde, fica
difícil. Então, concentrei meus comentários na reforma do sistema
eleitoral.
Em primeiro lugar, não tem jeito: fortalecer partidos? A
ideia de que nós hoje temos de obrigar, por lei, que os Deputados
coloquem o símbolo do partido na campanha eleitoral — isso é uma
obrigação legal — é sinal de que as coisas não andam muito
bem.
E eu acho que não é só uma questão de fortalecer partido por
um bordão analítico. Nós estamos vendo sinais claros, e eu citaria
três. A última pesquisa do Datafolha mostrou o pior momento de
avaliação dos partidos na história da democracia. Os partidos nunca
estiveram com uma avaliação tão negativa. E tampouco eleitores têm
simpatia por algum partido. Isso é grave.
Há certa gravidade também — ou talvez seja um sinal, não sei
se é gravidade — nas manifestações de 2013. Eu pude ver isto lá no
Rio, naquela manifestação de 1 milhão: os meninos gritavam para
todas as pessoas que estavam com camisa de partido que estes tinham
de tirar a camisa, tirar as bandeiras. Eles gritavam: “Partido não!” E domingo
passado, no dia 15, aconteceu algo semelhante: vários oradores
políticos e pessoas ligadas a partidos foram proibidas de falar.
Isso quer dizer alguma coisa. A opinião pública hoje aprofunda o
fosso em relação à representação partidária, não é do fulano ou do
beltrano, dos nomes somente. É dos partidos.
Por isso, eu acho que uma reforma hoje não pode se dar ao
luxo de não fortalecer os partidos. É por isso o meu incômodo, a
minha crítica a essa proposta de distritão. Ela pode ter mil
virtudes... E acho que ela tem uma virtude, esta é incontornável,
esta é inquestionável: é um sistema simples. Ora, mas o sistema
simples é um critério para as pessoas escolherem, para os países
escolherem um sistema. A simplicidade é um critério, mas não pode
ser o critério.
Eu discordo que esse sistema seja melhor do que o nosso. O
nosso, bem ou mal, tem uma coordenação partidária. Há, como disse o
Deputado Marcelo Castro aqui na cartilha, uma luta fraticida dentro
da legenda? É claro que há, mas há a possibilidade de o partido
apresentar um puxador de legenda. Pode colocar recursos para alguns
candidatos em detrimento de outros na televisão, como vários fazem.
Os candidatos têm que ter certa coordenação, porque eles sabem que,
por meio do esforço deles, ainda que seja pontual, é preciso superar
o quociente eleitoral. Agora, um sistema que acaba com o quociente
eleitoral, acaba com o voto de legenda, no qual cada um sai por si,
qual é a justificativa? Fortalecer partido não é; fortalecer
indivíduos é.
Agora, a gente pode se dar esse luxo, a uma altura dessas, em
que a população está indo para a rua para questionar os partidos; em
que há uma sensação de que os partidos deixaram de ser instrumentos
fundamentais da relação entre sociedade e Estado; e mais, em que o
principal partido do País, o Partido dos Trabalhadores, o que mais
organizou a sociedade, vive a sua maior crise? Tudo isso tem
confluído numa sensação de que os partidos não nos servem. E agora
vamos fazer uma reforma para enfraquecer ainda mais os partidos? Não
vejo sentido, neste momento, em virar, digamos assim, na direção do
sistema do distritão.
E há outro aspecto, um segundo ponto: além de uma reforma que
precisa fortalecer partido — tem que se ter isso como critério
fundamental —, por exemplo, as coligações não podem mais. Não
dá!
Mas há várias possibilidades de resolver o fim das
coligações. O melhor deles é adotar o sistema de divisores, que é
usado em todos os lugares do mundo que usam a representação
proporcional, menos aqui. Então, adotemos esse sistema, com uma
cláusula nacional — tão simples quanto isso.
Com relação ao segundo aspecto, eu acho que chegamos, como eu
disse no começo da minha apresentação, a uma hiperfragmentação. Nós
temos um multipartidarismo. O País é um país complexo. Há as três
esferas — federal, municipal e local — com eleições permanentes. É
um país com uma tradição de multipartidarismo, que vem da República
de 1946. Isso nós não vamos mudar, em linhas gerais, mas a
hiperfragmentação, ou seja, um sistema que permite que um número de
partidos seja representado, sobretudo que a dispersão de poder entre
eles chegue nesse grau... Vocês podem ir à Wikipedia e tentar descobrir
um parlamento em que o partido mais votado tenha tido 14%, como foi
o caso do PT na última eleição no Brasil.
Esses são os dois aspectos que, eu acho, são os mais
importantes para uma reforma do sistema
eleitoral.
Há a pergunta do André — acho que veio on-line, não sei — com
relação à diferença entre distritão e distrital. Não é só o sufixo,
é também uma concepção de que o distrital pressupõe um recorte do
Estado em unidades eleitorais específicas. Não é o Município, não é
o Estado. No interior do Estado, é necessário recortar uma nova
unidade, que será composta por somatório de Municípios ou pela
divisão de Municípios grandes. Cada unidade eleitoral dessas deve
ter, mais ou menos, o mesmo tamanho. Em cada Estado, será dividido o
número do eleitorado pelo número de cadeiras e teremos, mais ou
menos, o tamanho de cada distrito. Esses distritos vão ser
recortados para que cada um eleja um Deputado. Esse é o distrital.
Esse é o sistema eleitoral utilizado nos Estados Unidos, por
exemplo. No Reino Unido, não, porque não é um federalismo. E o
distritão, não. No distritão, o distrito eleitoral é todo o Estado.
O partido lança uma lista e os mais votados do Estado,
independentemente do partido ao qual pertença. Por isso, o que
diferencia o distritão do nosso sistema atual é a ausência de um
quociente. Mas há uma disputa. Agora, não mais uma luta fratricida
entre os nomes do mesmo partido, mas uma luta fraticida entre os mil
e poucos candidatos que vão disputar uma campanha, um com o
outro.
E, por fim, a pergunta da Deputada Moema: Qual a diferença
entre o distrital misto para o que eu chamei aqui de misto
proporcional? Na verdade, o sistema misto começou na Alemanha,
depois da guerra, porque a social democracia defendia o sistema
proporcional como princípio fundamental, já na experiência que havia
antes da Primeira Guerra, na República de Weimar. Então, a social
democracia defendia a continuidade da representação proporcional e a
Democracia Cristã defendia o sistema majoritário de inspiração
inglesa. Eles sentaram, conversaram e bolaram um sistema que
combinava as duas coisas.
Durante muito tempo, o sistema alemão ficou como um sistema
único, e era difícil classificá-lo. Para alguns, ele é um sistema
proporcional. Por quê? Porque o primeiro movimento do sistema é
somar o voto que os partidos tiveram no âmbito nacional. Como na
Alemanha se dá dois votos, o segundo voto na lista, dado no partido,
serve para somar com as quinhentas e poucas cadeiras do Parlamento
alemão, que são distribuídas entre os partidos, pelo critério
exclusivamente proporcional. Depois se abate, ou seja, se subtrai
dessas cadeiras aquelas que os partidos receberam no distrito.
Basicamente as eleições nos distritos, na Alemanha, são vencidas
pela social democracia e pela Democracia Cristã. Os outros partidos
conseguem as cadeiras só na parte
proporcional.
Qual a diferença desse desenho para o que é sempre proposto,
que foi proposto na PEC agora do Deputado Marcus Pestana e que foi
proposto também na Comissão Arinos? A diferença é que são dois
sistemas paralelos, eles não se combinam, uma parte vai ser
proporcional. Metade vai ser proporcional. Ou seja, como eu disse na
minha exposição, metade é Espanha, porque metade do sistema vai ser
proporcional, e a outra metade é Inglaterra, diferente do caso
Alemão.
Então, esse sistema é chamado de misto paralelo e o outro é o
misto proporcional, porque guarda proporcionalidade. Eu acho que o
misto paralelo exigiria uma emenda constitucional; o misto
proporcional, não, porque ele mantém a premissa do art. 58, se não
me engano, da Constituição, que exige que os Deputados Federais
sejam eleitos pelo sistema proporcional. Isso não seria
violado.
O SR. DEPUTADO
MARCELO CASTRO - Mas aí nós precisaríamos de uma PEC para, no
caso de São Paulo, tirar a limitação dos 70 Deputados, porque
poderia correr o risco de o partido fazer mais Deputados no distrito
do que o direito que teria na proporção.
O SR. JAIRO
NICOLAU - Não, esse problema vai ser no interior de cada Estado.
Aí não importa o tamanho das bancadas. A conta é diferente da
Alemanha, que é uma conta nacional. Eu acho que a conta nacional no
Brasil não é factível, é inaplicável.
A
conta aqui teria que ser estadual. Então, em São Paulo, o primeiro
movimento seria o de distribuir as 70 cadeiras proporcionalmente
entre a votação dos partidos. Depois dessas 70 cadeiras, subtrair as
35 que cada partido teve nos distritos. A diferença é ocupada pelos
nomes da lista. Então, é um sistema proporcional na sua premissa
inicial, mas aloca uma parte dos representantes na parte
majoritária.
A SRA. DEPUTADA MOEMA
GRAMACHO - E o distrital misto?
O SR. JAIRO
NICOLAU - O distrital misto é o nome que virou moda no Brasil
para chamar qualquer sistema: um ou outro. No caso do distrital
misto depende, a gente tem que ler a proposta para saber se está
diante de um misto proporcional ou de um sistema paralelo. Eu li a
proposta do Deputado Marcus Pestana, a proposta dele é um misto
paralelo, não é um misto proporcional. Então, essa é a diferença.
Não é uma sutileza. São sistemas diferentes.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - São só nas sobras. Não é metade e
metade. São nas sobras, na margem. Isso foi um acordo
político.
O SR. JAIRO
NICOLAU - Enfim, era isso o que eu tinha a dizer.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Eu gostaria de pedir ao 3º
Vice-Presidente, Deputado Tadeu Alencar, para assumir a Presidência.
Eu tenho de ir a uma audiência e retornarei logo
após.
Peço a todos o máximo de objetividade, pois nós temos oito
inscritos.
Passo
imediatamente a palavra ao Deputado Victor Mendes. (Pausa.)
O
Deputado Victor Mendes não está presente.
Com
a palavra o Deputado José Carlos. (Pausa.)
Com
a palavra o Deputado Valtenir Pereira.
O
SR. DEPUTADO VALTENIR PEREIRA -
Sr. Presidente, Sr. Relator, senhores cientistas políticos que nesta
tarde vêm aqui fazer as suas exposições, na verdade, eu quero
apresentar uma sugestão já feita nesta Casa, para depois ouvir os
senhores cientistas políticos. Hoje a discussão é fazer uma eleição
única de Vereador a Presidente da República.
O
sistema que hoje nós adotamos é o de que as eleições municipais —
Vereador e Prefeito — são separadas das eleições de Deputado
Estadual, Deputado Federal, Senador, Governador e Presidente em
outra época.
A
ideia é a de continuar a separação das eleições, mas colocando as
eleições do Legislativo juntas, e as eleições do Executivo juntas,
sendo separados, então, o Legislativo e o
Executivo.
Então,
teríamos a seguinte eleição: Vereador, Deputado Estadual, Deputado
Federal e Senador da República, porque isso é eleição do Parlamento,
a exemplo do que ocorre nos Estados Unidos.
E
as eleições de Prefeito, de Governador e de Presidente da República
juntas em outra época, de 2 em 2 anos, mantendo a separação das
eleições, já que é para o Executivo.
No
Executivo, o eleitor está buscando o quê? Ele está ouvindo as
propostas de gestão, de planejamento, de plano de Governo, de plano
de meta. E, no Legislativo, está se propondo, por exemplo, a
fiscalização do Executivo, está se falando em proposta de lei,
defesa de teses e tudo o mais.
Ouvi
os cientistas políticos falarem do divórcio entre a polícia e a
sociedade, da distância do Parlamento com a sociedade. Nesse modelo
de separar as eleições, estaríamos fortalecendo o Parlamento. Por
quê? Porque, no momento das eleições para o Parlamento, eu vou estar
discutindo o papel do Parlamento, o papel do Vereador, o papel do
Deputado Estadual na Assembleia Legislativa, o papel do Deputado
Federal e também do Senador da República, que é o de fiscalizar o
Executivo. E, noutro momento, eu estaria discutindo o papel do Poder
Executivo, o seu plano de ação, a sua gestão, o que se pretende
fazer, uma vez que o candidato a Vereador perde o seu protagonismo
nas eleições porque ele é engolido pela eleição de
Prefeito.
O
Deputado Estadual, o Deputado Federal e o Senador também perdem o
protagonismo porque, misturado com as eleições de Presidente da
República e de Governador, o foco do eleitor está com vistas às
eleições majoritárias. Então, eu gostaria de ouvir a opinião dos
nobres cientistas políticos com relação a essa separação das
eleições, porque, aí sim, nós estaríamos fortalecendo o Parlamento e
também o Executivo.
Para
finalizar, falou-se aqui no fim das coligações. Agora, se nós formos
terminar com as coligações, nós teríamos que tirar o quociente
eleitoral. Qual é a opinião de V.Exas.?
Um
exemplo claro: em Mato Grosso, 1,6 milhão de eleitores vão às urnas,
com oito vagas; 200 mil é o quociente eleitoral. Vamos dizer que
oito partidos não podem coligar. Oito partidos vão lançar seus
candidatos. Vão lançar dois, cinco, dez, podendo lançar até 16, que
é o dobro das vagas. Então, eles lançam e tem um partido que teve
240 mil votos, outro teve 230 mil votos, outro teve 220 mil votos e
outro teve 210 mil votos; o quinto partido teve 190 mil votos —
abaixo do quociente —, 180 mil votos, 170 mil votos ou 160 mil
votos. Fazendo uma matemática para podermos entender, se mantivermos
o quociente eleitoral, nós vamos ter quatro partidos que não vão
alcançar vaga nenhuma, porque ficaram com menos de 200 mil votos.
Por exemplo, um partido teve 240 mil votos, com 200 mil votos ele
alcança uma vaga e com a sobra, 40 mil votos, ele vai conquistar a
segunda vaga, em detrimento de quem teve 190 mil votos, 180 mil
votos, 170 mil votos e 160 mil votos. Vai ter partido que vai
conquistar vaga com 30 mil votos, com 20 mil votos; e vai ter
partido que vai conquistar vaga com 10 mil votos, em detrimento,
como eu já afirmei, de quem teve 190 mil votos, 180 mil votos, 170
mil votos ou 160 mil votos.
Então, eu defendo a manutenção das coligações, mas, na pior
das hipóteses, se assim não prevalecer, que nós retiremos, então, o
quociente eleitoral, para que todos os partidos possam disputar a
sobra, caso ele não chegue a uma vaga completa, como é o caso hoje.
É praticamente uma cláusula de desempenho: quem não atinge uma vaga
cheia não participa de nenhuma sobra. Eu gostaria de fazer essas
ponderações e de ouvir a opinião de cada um.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Tadeu Alencar) - Com a palavra o Deputado Samuel
Moreira.
O SR. DEPUTADO SAMUEL
MOREIRA - Primeiro, eu gostaria de cumprimentar os convidados.
Estamos
aqui aprendendo o tempo todo. A questão do pacto federativo é
incrível como influencia as eleições. A gente pensa que só tem
influência do ponto de vista da distribuição dos recursos e da
centralização do poder de gestão e econômico, mas acaba
influenciando, sim, nas escolhas das eleições. Muitas eleições
ocorrem meio que a reboque da necessidade do Poder Central estar
próximo, até porque os Prefeitos hoje em dia já não têm muita
capacidade de investimento; tem fila de Prefeito e de Governador
aqui em Brasília.
Eu
acho que nós temos uma agenda correta e positiva aqui na Câmara,
porque estamos discutindo a reforma política e o pacto federativo,
que são duas coisas muito importantes.
Mas eu quero dizer o seguinte: nós vamos remendando o tempo
todo o nosso sistema político, com partidos, com eleições, o tempo
todo se cria janela e aí junta não sei o quê, cria-se uma regra para
não fusão, para fusão de 5 anos. Nós já tivemos, em 1982,
prorrogação, coincidência de mandato, vinculação, não
dá!
Então,
eu acho que a pergunta do Deputado Marcus Pestana é a principal:
quais são os nossos objetivos neste momento? Eu sempre defendi a
tese de que nós podemos discutir tudo. É como a reforma de uma casa.
Se estiver chovendo e gotejando em casa, não podemos discutir o
sofá, o tapete; podemos discutir outras coisas, mas não podemos
deixar de mexer no telhado, que é o mais
importante.
Eu acho que toda a questão está no sistema e no
financiamento, como exatamente discutimos aqui: há um consenso de
que isso é o que há de mais importante e imediato. E, do ponto de
vista do sistema, o nosso grande objetivo é o de fazer uma boa
escolha, permitir ao eleitor fazer uma escolha simples e boa escolha
no momento da eleição. O segundo momento é o resultado: deve haver
um bom acompanhamento, o eleitor tem que ter um canal de
participação depois. Como é que ele faz uma boa participação como
consequência da escolha? Nós temos que garantir essas duas
questões.
Particularmente, acho que as minorias podem participar
através de um partido. Quer abrir partido? Pode abrir quantos
quiser, mas tem que ter regras para se montar partido; inclusive
regras que permitam que se tenha um máximo de partidos. Agora, para
ter fundo partidário, para ter tempo de TV, aí tem que ter voto, tem
que ter o mínimo de voto, o partido tem que representar algo para
ter acesso a essas questões.
Eu sou a favor do voto distrital puro, porque eu acredito que
o sistema fortalece o partido. Eu acho que há fortalecimento do
partido através do candidato, e das pessoas através dos candidatos.
Vejam que interessante, a lista não significa que se fortaleçam as
pessoas, mas quando você vota na lista em um partido, a pessoa está
sendo totalmente eliminada? Não. Você faz, através do partido, a
pessoa, que é o eleito na lista e, através da pessoa, o
partido.
Eu acho que é possível fortalecer partido através do sistema
de voto distrital. Esse é o que oferece o melhor mecanismo de
acompanhamento, depois. Não vejo outro. Quanto menor o distrito,
melhor para o eleitor, pois ele tem um canal de comunicação entre o
candidato e o partido e entre o eleitor, candidato e partido juntos.
Eu acho que isso é melhor para o eleitor.
Agora, na medida em que promovemos uma boa escolha e um bom
acompanhamento, isso tem que ser financiado, isso tem que ser pago.
Aí vem a questão do
financiamento. O financiamento não pode vir em detrimento do
sistema. Então, nós temos que ter um sistema e ver que tipo de
financiamento escolher, quem pagará essa conta e quais serão os
objetivos desse financiamento.
Sobre isso, eu queria ouvir uma resposta. O Rubem e o Murillo
já apresentaram claramente o financiamento. Do Jairo é que eu ainda
não ouvi sobre o financiamento. Como nós garantimos um financiamento
justo, transparente, barato? Digo “justo” do ponto de vista da
disputa eleitoral. Ele tem que ser justo para dar condições iguais
aos candidatos. Isso facilita a vida do eleitor. O foco tem que ser
o eleitor, para que ele faça a melhor escolha, para que ele faça o
melhor acompanhamento, para que se fortaleçam os partidos também,
via candidatos.
Qual é o melhor sistema? Ninguém sabe, mas eu queria
perguntar ao Jairo. Já foi feito aqui um balanço. Qual é o melhor
sistema para garantir essa transparência?
Quando funciona bem, as pessoas não se importam de pagar. É
como imposto. Há países onde se paga mais imposto do que no Brasil,
mas tudo funciona muito melhor. Se o nosso sistema funcionar,
poderemos ter um financiamento bem adequado. Ele se torna justo, ele
se torna transparente, equitativo, eficiente.
Eu queria fazer essa pergunta sobre financiamento ao
Jairo.
E quero dizer que precisamos ter foco. Reeleição, voto
facultativo, coincidência de mandato — tudo é secundário. Podemos
até discutir isso, mas neste momento é secundário. Acho que
preencheríamos bem a pauta com o sistema e com o
financiamento.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Tadeu Alencar) - Com a palavra o Deputado Danilo
Forte.
O SR. DEPUTADO DANILO
FORTE - Retomando o mote do meu antecessor, eu gostei do
exemplo, mas, se não houver vigas e um bom alicerce, não haverá
telhado bom no mundo que segure a nossa
casinha.
Eu acho que precisamos rever primeiro essa hipocrisia do
financiamento público. Isso é hipocrisia. O Deputado Marcelo Castro
inclusive fez esse levantamento. Deputado Marcelo, quanto foi gasto
oficialmente na eleição passada, a de 2014?
O
SR. DEPUTADO MARCELO CASTRO -
Uns 4 ou 5 bilhões.
O
SR. DEPUTADO DANILO FORTE -
Foram gastos 4 ou 5 bilhões, num país que está fazendo economia de
tostão hoje para manter o custeio da máquina; num país que não tem
dinheiro para pagar o FIES. Estão os alunos no meio da rua,
gritando. Ninguém vai aprovar esse financiamento público em canto
nenhum do mundo.
Temos realmente que ver de fato o que barateia a eleição. Eu
acho que, por exemplo, tem que haver um mínimo de debate,
principalmente nas eleições majoritárias, a obrigação do debate. No
Brasil, o candidato que está disparado nas pesquisas não vai ao
debate. Para eleições majoritárias, tem que haver debate. É preciso
acabar com o negócio de se vender candidato como se vende
sabonete.
(Intervenção fora do
microfone. Inaudível.)
O SR. DEPUTADO DANILO
FORTE - Exatamente.
Eu acho que temos de ver essa norma de barateamento de
campanha mesmo, para tirar isso.
O voto em lista fortalece os partidos, sim. O problema é que
nós precisamos ter uma legislação partidária, o que no Brasil no
existe. A nossa tradição é a de partidos oligárquicos, desde as
capitanias hereditárias. Então, vai haver partido em que a lista
será formada pelo pai, filho, avô, motorista,
secretário.
Eu acho que anterior ao distrital misto, temos que mudar para
uma legislação partidária que democratize os partidos. O melhor
partido que havia, em termos de funcionamento, no Brasil era o PT,
que está dando no que está dando.
Neste momento podemos até evoluir para isso. Mas agora, o que
é de mais fácil compreensão é o distritão. O mais votado representa.
Ele tem imperfeições? Tem. O partido talvez fique em segundo plano
com relação ao Parlamento? Fica, mas, na campanha majoritária, ele
fica em primeiro.
E podem ter certeza de que, como o tempo de televisão é
estabelecido em função do tamanho dos partidos, vai ser buscado o
fortalecimento desses partidos também com o
distritão.
Então, eu acho que podemos fazer um esclarecimento, num
primeiro momento, até para o eleitor entender, e ficará muito mais
fácil. O que o eleitor não entende é um candidato ser eleito com 1
milhão de votos e “puxar” um com 2 mil votos, enquanto existem 100
candidatos com 50 mil votos que não foram
eleitos.
O que não pode ocorrer é o abuso que houve na campanha do
Enéas: no Rio de Janeiro foi eleito um advogado Deputado por São
Paulo, sendo que nem morava em São Paulo. Isso é uma imoralidade!
Essa questão precisa ser revista.
E, por último, a reeleição no Parlamento tem natureza
totalmente diferente da reeleição no Executivo. A reeleição no
Executivo foi um mal para o País. Ela gerou uma política de
coalizões governamentais para dirigir governos, já pensando na
reeleição, dividindo nacos de poder entre os diversos partidos, cada
um pensando em como iria fazer seu caixa de campanha para a
reeleição daquele candidato, em detrimento exatamente da ação
executiva do seu Poder.
Enquanto no Legislativo, Dr. Ulysses iniciou o seu mandato de
Deputado em 1950, e o grande mérito dele foi ter feito a
redemocratização em 1985 — 35 anos depois! O Deputado Marcelo Castro
é um craque, um doutor em reforma política, está discutindo esse
tema há 12 anos. Há 12 anos o Deputado Marcelo está nesta Comissão
discutindo o tema da reforma política e está sendo um bom Relator,
porque já viu de tudo, já debateu todos os
temas.
A natureza do Parlamento é totalmente diferente da natureza
do Executivo. Você não pode dar o mesmo tratamento de reeleição do
Executivo à reeleição do Parlamento, porque inclusive pode até
piorá-lo. E aqui há bons Deputados que, saindo, vai colocar o
júnior, ou o sobrinho, ou não sei quem que, talvez, não seja tão bom
quanto eles foram e com a experiência que tiveram. Então, esta
discussão pode até ser demagógica do ponto de vista
político.
E, por último, eu acho que precisamos ter mais clareza no
nosso encaminhamento, porque eu ainda comungo daquela tese: o que
for consenso temos que apurar logo e começar a votar; e o que for
dissenso vamos deixar mais para o fim, como resolvemos uma prova de
matemática.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Tadeu Alencar) - Obrigado, Deputado Danilo Forte.
Eu peço licença ao Deputado Sandro Alex, porque combinamos
que, a cada bloco de três intervenções, os expositores
teriam...
O SR. DEPUTADO SANDRO
ALEX - Só há a minha inscrição, Sr. Presidente?
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Tadeu Alencar) - V.Exa., o Deputado Uldurico Junior, e
a Deputada Josi Nunes.
O SR. DEPUTADO
ULDURICO JUNIOR - Eu sugiro que a gente
termine.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Tadeu Alencar) - Termine.
Perfeito.
O SR. DEPUTADO
ULDURICO JUNIOR - Podíamos terminar já
para...
O SR. DEPUTADO DANILO
FORTE - Só uma frase que eu me esqueci de completar e eu acho
interessante para o debate. Vejam a confusão que deu o aumento do
Fundo Partidário para os que defendem o financiamento público.
O
Fundo Partidário passou de 289 milhões de reais para 867 milhões de
reais, no Orçamento de 2015, e vejam a confusão que está dando!
Inclusive, nós, do PMDB, pela primeira vez, estamos pedindo veto à
Presidenta Dilma.
O SR. DEPUTADO
VALTENIR PEREIRA - Mas isso aí não foi combinado para
financiamento público de campanha.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Tadeu Alencar) - Não vamos fazer este debate
agora.
Com a palavra o Deputado Uldurico
Junior.
O SR. DEPUTADO ULDURICO JUNIOR -
Sr. Presidente, Sr. Relator, nobres cientistas, eu acredito que nós
temos que pensar na reforma política como uma reforma que o povo
brasileiro quer. E o povo brasileiro não quer que votemos aqui
reforma política apenas por votá-la. O povo brasileiro tem demandas,
demandas que têm que ser supridas, e cabe a nós colocá-las em pauta
nesta Comissão.
Hoje, pela manhã, eu fiz um pronunciamento nesta Comissão a
respeito do distritão, como bem foi reiterado pelo Rubem Barboza.
Nós não estamos aqui preocupados com o sistema eleitoral que vamos
propor, e, sim, com a demanda popular.
E
a demanda popular pede que o eleitor vote no Deputado que, quando
ele o procure depois, ele o encontre; o povo brasileiro hoje quer
entender, porque não entende, como um Deputado gasta 5 milhões numa
campanha, recebe 20 mil por mês — vai ser ladrão. O povo pensa
assim. E o povo quer sentir a proximidade do candidato, não quer ver
Deputado só em época de eleição.
Quando nós aprovamos o distritão, vamos de encontro a tudo
que estamos pregando nesta Comissão. E reitero o que falei hoje de
manhã: eu quero ter orgulho de dizer que participei da Comissão da
Reforma Política. Mas, se nós aprovarmos o modelo distrital, em que
o Governador do Estado vai intervir na eleição, como vai intervir no
distritão, em que ele poderá intervir na sua posição, veremos
Deputados suplentes, com 100 mil votos. A eleição vai ser
inflacionada de tal forma que vai ficar tenebroso o custo
eleitoral.
E repito agora o que disse de manhã. Aqueles Deputados que
dizem: “Ah, se fosse com o
distritão, eu teria sido
eleito”, a eleição muda totalmente, a eleição não é mais a
mesma. Se o Governador puder dar 300 mil votos para os seus
Deputados Federais ele vai dar. Nós sabemos o que é a máquina do
Estado.
Mais uma vez, deixo aqui os meus cumprimentos ao Prof. Rubem
Barboza. Eu me identifiquei muito com a sua fala e, por isso, fiz
questão de reiterar o meu apreço. E aproveito para fazer uma
pergunta ao senhor a respeito da cláusula de desempenho individual,
que para mim é a solução do problema proporcional hoje
existente.
Nós temos que ser claros nesta Comissão. A demanda brasileira
pede o fim da reeleição, pede a coincidência das eleições, pede
mandatos únicos de 5 anos, pede que não se vote em um e se eleja o
outro, que eu acho que teria solução com a cláusula de desempenho
individual. Precisamos nos aproximar do eleitor baratear a campanha
para que possamos ter uma política mais justa, da qual todos possam
participar.
Deixo, portanto, registrada a minha rejeição ao modelo do
distritão. Eu acho que nós vamos atropelar o sistema eleitoral. Eu
não me lembro de nenhum convidado que veio a esta Comissão que
estivesse a favor do distritão — eu não me lembro de um que veio
aqui a favor do distritão! Nós temos que pensar em
estatísticas, pensar no que já foi exposto, pensar nesses cientistas
políticos que aqui estão, que estudaram para isso e que sabem do que
estão falando, como sabemos. Precisamos pensar no que podemos fazer
pelo povo brasileiro, não pensando apenas dentro do Parlamento. É
preciso pensar da porta para fora também.
Muito obrigado.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Tadeu Alencar) - O próximo inscrito é o Deputado Sandro
Alex.
O SR. DEPUTADO SANDRO ALEX -
Obrigado, Sr. Relator. Quero cumprimentar aqui os professores. É
sempre uma satisfação ouvi-los. Nós já participamos de outras
Comissões aqui da Casa e já tive a oportunidade de acompanhar o
trabalho de vocês.
Sem dúvida, financiamento e sistema eleitoral são os dois
pontos-chave dessa reforma política. Agora, eu quero deixar aqui um
registro aos professores. Antes de se falar em financiamento público
e em sistema eleitoral — e é uma proposta que eu defendo e sei que
ela enfrenta dificuldade na Comissão, apesar de fazer parte da PEC,
que, por um voto, nós conseguimos incluir — é preciso garantir o
direito daqueles que também não querem exercer o seu direito de
votar, através do voto facultativo.
Primeiro, você tem que perguntar à pessoa: “Você que votar?” Para
aqueles que querem, vamos discutir o financiamento, o sistema e
tudo. Para aqueles que não querem: o direito de não votar, que é
legítimo. Se você obrigar, não é mais direito e, sim, uma imposição.
E numa democracia plena me parece que o Brasil caminha para isso.
Não sei hoje nesta Comissão, mas em 10 ou 100 anos, o Brasil terá o
voto facultativo.
No passado, uma das primeiras reformas políticas foi a
inclusão do voto feminino. Eu já disse isso aqui e quero falar aos
senhores. Inicia-se uma discussão, e hoje é inadmissível pensar que
as mulheres não votam.
E, naquele momento, eles falavam exatamente o que se fala
hoje. “Não, realmente é um
direito, mas não estamos preparados.” Dizia-se isso sobre o voto
feminino. E hoje nós estamos discutindo o voto facultativo. É algo
que eu defendo e vou defender enquanto for legislador, Relator,
porque me parece coerente com o Estado Democrático de Direito.
Com relação ao financiamento, ouvi aqui um posicionamento que
dizia o seguinte: “Olha, nós
temos que conversar com a população porque a população é contrária e
entende que nós vamos tirar recursos da saúde e da educação para o
financiamento.” É isso mesmo. Nós vamos tirar recursos da saúde
e da educação para o financiamento. Isso é verdadeiro! E não adianta
esconder da população.
Agora, isso não significa que sou favorável ao financiamento
de empresa, porque empresa também não vota. E se não vota, por que
doa? A minha proposta é apenas a de doação de pessoa física, com
limitação. E alguns me dizem: “Mas, aí, não vai ter
eleição!” O dinheiro já está vinculado à eleição. Não há mais
eleição sem dinheiro no País.
E, claro, o financiamento público já existe em tempo de rádio
e TV neste País. Agora, nós temos que diminuir o volume de dinheiro
das campanhas. Não é mais admissível ter um volume assim de
dinheiro.
E, claro, eu percebo aqui também que ao estancarmos um
financiamento privado de empresas, através de corrupção e
superfaturamento, vamos buscar agora a guarida lá no financiamento
público.
Quem mais defende o financiamento público é quem mais recebeu
dinheiro de empresa. Não é possível que a população admita isso. É
uma covardia que se faz com a população diante do momento que
estamos vivendo no Brasil. E ninguém vai convencer a população do
contrário. É o meu posicionamento.
Eu sou favorável ao voto distrital misto — já deixei isso
claro. Mas me parece que o fim das coligações é um grande passo da
reforma. Se nós não conseguirmos fazer nada, o fim das coligações é
um grande avanço. E
isso já é uma cláusula de barreira. Eu não acho que temos que ter
outras cláusulas para se alcançar um quociente, porque ele já é uma
forma de se colocar cláusula de barreira que me parece muito
coerente.
Também avalio a possibilidade de as sobras serem divididas
entre todos os partidos. É uma discussão que nós vamos ter com o
Relator.
De toda forma, sempre é
importante ouvi-los. Espero que assim possamos trazer, nessa
tentativa, uma votação de reforma política para o
País.
Agradeço aos senhores e coloco-me à disposição em nome do PPS
e de nossa bancada.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Tadeu Alencar) - Com a palavra a Deputada Josi
Nunes.
A SRA. DEPUTADA JOSI
NUNES - Boa tarde a todos! Eu quero cumprimentar todos os
professores.
Na
verdade, as discussões nesta Comissão têm sido muito produtivas. E
eu quero ser aqui bem objetiva, pois, na verdade, quero que V.Exas.
avaliem se o meu pensamento está coordenado em relação ao sistema
eleitoral, sobre o qual leio, mas existem várias modalidades. Então,
é um processo complexo. Eu tentei sistematizar, para ver se é isso
mesmo e até para que eu possa fazer uma avaliação e ter uma posição.
Com relação ao sistema eleitoral, na minha avaliação e pelo
que eu li, há três modelos: majoritário, proporcional e misto. O
majoritário seria o distritão ou o distrital. Eu quero saber se esse
pensamento está correto. Há o proporcional com lista aberta e há o
proporcional com lista fechada. E o misto é aquele em que se vota
nos dois: no majoritário e no proporcional.
A proposta da PEC 352 seria o sistema proporcional como é
hoje, de lista aberta, só que no distrito, a que o autor deu o nome
de “circunscrição” — mas seria o distrito. E a proposta do nosso
Relator Marcelo Castro seria o sistema misto. É isso? Eu quero
tentar entender esse processo, até para que possa tomar uma posição
e saber se essa sistematização que eu tentei fazer aqui está
correta.
Além disso, quanto ao financiamento, o nosso partido, que é o
PMDB, propõe o financiamento público e privado. Agora, de onde vem
esse financiamento público? Como é o esse processo? Que recursos são
esses? Nos estudos que têm sido feitos, nas avaliações de outros
países, como isso funciona? Que valor é esse? Que teto é esse? De
onde vem? Existe uma proposta com relação ao financiamento público
que possa ser colocada aqui? Quanto ao financiamento privado de
pessoa jurídica, que teto é esse? O que seria mais aceito no Brasil?
Eram
essas as minhas perguntas.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Tadeu Alencar) - Encerrada a fala dos Deputados, passo
a palavra aos expositores. Não sei se eles querem adotar alguma
ordem. (Pausa.)
Com a palavra o Prof. Murillo de
Aragão.
O SR. MURILLO DE
ARAGÃO - Eu vou fazer algumas observações. Concordo com o
Deputado Samuel Moreira quando ele diz que os pontos centrais da
reforma são o sistema eleitoral e o financiamento e que tudo isso
tangencia a questão do pacto federativo e também a própria relação
entre Poderes, que hoje vive uma situação de crise que está
desembocando quase que num parlamentarismo branco. Enfim, hoje o
presidencialismo está em crise, o que, pela incapacidade de
articular sua maioria no Congresso, gera um modelo
híbrido.
É importante dizer que a nossa Constituição tem clara vocação
parlamentarista. Então, também o que acontece hoje, com essa tomada
de posição do Parlamento, não está ocorrendo ao arrepio da letra
constitucional. Aliás, até se estranha que o Congresso tenha
demorado tanto a perceber a sua reserva de poder na relação com o
Poder Executivo.
Mas, sem dúvida, a questão do pacto federativo e da relação
entre os Poderes é essencial para o debate também da reforma
política, tendo como pontos centrais o sistema eleitoral e o
financiamento.
E como disse o Deputado Danilo Fortes, a questão do
financiamento público é realmente grave num momento de
constrangimento fiscal do País. Tangenciando a minha posição, eu
defendo utopicamente o financiamento puro do cidadão. Mas acredito
que o sistema eleitoral ainda não está preparado para viver uma
situação de puro financiamento do cidadão. Então, o que eu defendo é
que ocorra — e aí respondo especificamente à sua pergunta, Deputado
— o teto de doações e o limite de gastos. É difícil dizer qual é o
limite de gastos aceitável para uma candidatura: 5 milhões para
Deputado Federal, 1 milhão para Deputado Estadual, 30 milhões para
Governador? Eu não sei. O importante é que se estabeleça e
justifique o gasto, que se tenha uma visão bastante clara do que é
uma campanha e do quanto se considera justo gastar numa campanha. E
em se proibindo o dinheiro de empresas, é importante que também se
proíba o autofinanciamento, porque, senão, alguém muito rico pode
financiar a sua campanha e ter uma vantagem desproporcional em
relação a outros.
Então,
é importante trabalhar conjuntamente no limite de doações e no teto
de gastos. São duas questões essenciais. Conseguir avançar nessas
duas questões do financiamento é essencial para o aperfeiçoamento da
democracia brasileira. É a reforma número um a ser
feita.
Eu entendo que a questão do sistema eleitoral vai causar
mudanças no desenho da representação aqui no Congresso. Então, é
difícil esperar que os Parlamentares votem um sistema que possa
alijá-los da próxima eleição. Desse modo, a questão do sistema
eleitoral tem que ser trabalhada no tempo. Nós temos que aperfeiçoar
o sistema com medidas que valham imediatamente, como a questão do
financiamento, do limite de doações e do teto de despesas. O passo
seguinte é o fim das coligações, o que seria, sem dúvida, como diz o
Deputado Sandro Alex, uma espécie de cláusula de barreira. Quer
dizer, partidos deixariam de pegar carona nas chapas e iria se
acabar essa questão vexaminosa de haver coligações que encobrissem
os partidos. Hoje em dia, ninguém vê mais o nome do partido, vê o
nome da coligação. Então, no fundo, o partido perde o sentido. E aí,
com o tempo, seria feita a própria revisão do sistema eleitoral.
Assim, em duas ou três eleições, conseguiríamos aperfeiçoar
sobremaneira o sistema político brasileiro.
Quando eu digo em fazer isso diluído no tempo, respondo em
parte ao que o Deputado Uldurico Junior expressou como inquietação
pelo debate da questão do distritão e do distrital, que realmente
vai causar uma rearrumação partidária no Brasil.
Mas,
sem dúvida, a melhor resposta para o sistema político brasileiro que
devemos ter será tratarmos, no tempo, dessas três questões de que
falei agora: o financiamento; o fim das coligações; e o sistema
eleitoral, de preferência o distrital misto, como parece ser a
tendência predominante aqui.
Obrigado.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Tadeu Alencar) - Nós recebemos orientação do Presidente da
Casa para que fossem encerrados os trabalhos das
Comissões.
Então, eu queria passar a palavra ao Prof. Rubem Barboza e ao
Prof. Jairo Nicolau, para que façam as considerações finais, por
favor, pedindo desculpas pelo encerramento da
sessão.
O SR. DEPUTADO
VALTENIR PEREIRA - Sr. Presidente, eu havia feito uma colocação.
Mas como acabei indo votar rapidamente, quero saber se alguém falou
sobre a separação entre as eleições parlamentares e as eleições do
Executivo.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Tadeu Alencar) - Se os expositores que faltam falar
puderem abordar esse tema...
O SR. DEPUTADO
VALTENIR PEREIRA - Poderia ser até nas considerações finais. Não
tem problema nenhum. Eu me sentiria
contemplado.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Tadeu Alencar) - Com a palavra o Prof. Rubem
Barboza.
O SR. RUBEM BARBOZA - Já que farei as
considerações finais, eu quero, em primeiro lugar, agradecer
novamente.
Eu
gostaria de ressaltar um aspecto que eu acho importante: a qualidade
do material que é produzido pelos consultores da Câmara e do Senado
em relação à reforma política. Para quem estiver muito interessado,
quem estiver com dúvidas, há um material ali muito
benfeito.
Em relação às
perguntas, só para finalizar, eu acho que a questão básica que nós
temos que entender em relação aos partidos é a seguinte: o sistema
político proporcional ou representativo ou o mundo da política nunca
pode replicar o caos social ou, digamos, o caos de desejos,
aspirações e vontades que constituem o mundo social. Há uma
diferença entre o que é social e o que é
político.
Uma das coisas que o sistema de representação faz é criar
procedimentos e filtros para que todo esse mundo rico, plural e
diverso da sociedade encontre formas de mediação de seus interesses.
O que importa numa situação democrática é fundamentalmente que haja
procedimentos e filtros que levem à deliberação ou pelo menos a
certo consenso em torno de questões absolutamente básicas para a
sociedade e para sua própria vida.
Então, quando começamos a substituir essa ideia de que o
mundo da política não possui a sua autonomia e que tem que responder
imediatamente aos desejos e vontades da população no seu estado mais
bruto, nós perdemos a dimensão da política e começamos a dizer: “Então, este caos que tem que
ser representado no mundo da política tem que ser o oposto daquele
caos, para existir uma dimensão política legítima na sociedade”.
Por isso, o distritão traz esse problema.
Eu
não quero aqui, num sistema democrático, replicar, pura e
simplesmente, a “bagunça criativa” — entre aspas — que existe na
sociedade. Esse é um sistema político tem que produzir regras de
convivência, procedimentos de discussão, e não representação social.
Esse é o grande problema, esse é o grande desafio dos partidos
políticos e do Parlamento. E a aproximação do Parlamento e do
partido com a sociedade não implica eliminar algo específico da
política, do mundo político, da dimensão da política. E se você trai
e esvazia isso, atribuindo tudo a virtudes de regras eleitorais,
nenhum sistema vai funcionar. Mas procurar, pura e simplesmente,
traduzir o que é a sociedade diretamente é a mesma coisa que tentar
traduzir os princípios imediatamente para a
realidade.
Por exemplo, o Deputado alegou que o voto hoje era uma
imposição porque não se pergunta à pessoa se ela quer votar —
defendendo o voto facultativo. Claro que é tudo respeitável, que o
argumento do direito é respeitável, etc. Mas o problema todo é: nós
não somos americanos, nós não somos norte-americanos, nós não somos
anglo-saxões. Nós temos uma tradição histórica de construção de
nação e não simplesmente de Estado.
O SR. DEPUTADO DANILO
FORTE - E já deu problema, pois também houve denúncia de
corrupção na eleição do Obama lá em Miami: 300 dólares o voto, para
buscar em casa.
O SR. RUBEM BARBOZA
- Exatamente. Ainda
existe isso aí.
Ou
seja, as questões não são simples. O fundamental que eu queria
deixar aqui é exatamente isto: qualquer que seja a decisão que for
tomada não só aqui na Comissão, mas na Câmara, eu acho que os
Deputados e Senadores têm que imaginar simplesmente que não foram
eleitos à toa, que existe um mundo da política exatamente para dizer
para o mundo social, para o mundo da economia que existem soluções e
existem formas de cooperação e de formação de consenso. Essa é
natureza da política, e não a de replicar aqui dentro, pura e
simplesmente, o que existe na sociedade. Essa também deve ser uma
premissa ao se tentar fazer a reforma
política.
No mais, eu queria agradecer e dizer que é um prazer estar
aqui e que estou às ordens para uma volta
eventual.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Tadeu Alencar) - Obrigado, Prof. Rubem
Barboza.
Passo a palavra ao Prof. Jairo Nicolau.
O SR. JAIRO
NICOLAU - Deputado Valtenir Pereira, eu vou fazer um comentário
em relação à sua proposta de alinhar as eleições para o Executivo e
as eleições para o Legislativo. A questão é que qualquer escolha em
relação ao alinhamento de calendário é complicada. Depois de 1988 —
e eu acho que isso não foi de caso pensado, foi um pouco a partir do
ciclo da eleição dos prefeitos —, nós criamos um sistema que não
existia na República de 1946, em que as eleições acontecem
periodicamente em anos pares, eleições ora municipais, ora
nacionais. Esse sistema já se impôs um pouco como prática para os
eleitores brasileiros. E eu acho que ele tem uma grande virtude: nas
eleições locais, a cidade passou a ser, por razões óbvias, um tema
prioritário da discussão.
Eu lembro que a eleição de 1988 foi a única eleição na
história em que o calendário municipal foi alinhado para eleições
gerais. Claro, não havia eleição para presidente e, em 1982, o voto
era vinculado. Mas mesmo assim, as eleições municipais ficaram muito
sacrificadas, porque só se pensava na eleição para governador.
Eu
temo que um alinhamento desse tipo e de outros acabe sacrificando a
entidade municipal. Eu não tenho grandes restrições a esse
desalinhamento, salvo o custo da campanha um pouco maior, porque há
o gasto de duas eleições. Mas não acho que esse deva ser o tema
central numa discussão de reforma política.
Se
eu pudesse escolher mesmo, eu faria eleições nacionais para
Deputados Federais, Senadores e Presidente num ano; e para Deputados
Estaduais, Governadores e Prefeitos em outro. Acho que o tema da
localidade e do Estado está muito mais combinado do que, por
exemplo, o tema de se eleger Deputado Federal e Estadual com o
nacional. Mas isso não é uma escolha que os Deputados constituintes
tenham feito. Ela se impôs um pouco por conta do calendário pós
1988.
O SR. DEPUTADO
VALTENIR PEREIRA - Só para acrescentar, quando eu colhi as
assinaturas, o Deputado Federal Jutahy Junior achou interessante a
nossa proposta e ainda sugeriu mais esta: separar a questão nacional
da questão regional e local, sendo que a local seria municipal, a
regional seria estadual e a nacional seria a eleição de Presidente,
Deputado Federal e Senador. Tudo junto, mas
separado.
O SR. JAIRO
NICOLAU - Mas, Deputado, o senhor veja que nem tudo é simples. O
descolamento entre a eleição do Legislativo e do Executivo foi coisa
que aconteceu em 1990 — o Presidente Collor foi eleito em 1989 e a
eleição foi desvinculada em 1990. E foi um Deus nos acuda
porque houve um descolamento completo da bancada, ou seja, uma
eleição no meio de mandato. Então, se você descoordena as eleições,
se elas forem realizadas em períodos diferentes, você vai ter
prefeito no meio de mandato, com eleição para vereador; presidente
no meio de um mandato, com eleição para deputado. Então, há
problemas também.
Eu
não acho que essa seja uma prioridade. O fato de o Legislativo ter
menos prestígio é porque vivemos um sistema presidencialista com
essa força toda. E é quase impossível, numa eleição em que cargos
para o Executivo estão sendo discutidos, que o Legislativo tenha a
mesma importância. E ainda que se descole a eleição, a o Presidente
e os Executivos serão sempre mais centrais no regime
presidencialista.
Eu falei um pouco rápido. O Rubem falou da competência da
equipe de consultores e assessores aqui da Comissão, o que eu já
pude observar mais de uma vez. Então, eu deixo uma sugestão para a
equipe de consultores, que é a seguinte: estudar a lei eleitoral de
financiamento de campanha da França. A França tinha um sistema de
financiamento de empresas muito parecido com o nosso, um sistema que
destruiu a representação francesa. E eles caminharam e fizeram
algo.
E
eu só vou dizer esta frase: eu acho que a grande reforma, a
prioritária com relação ao financiamento de campanhas é a proibição
de empresas doarem para política. Não há como fazer diferente. Os
Estados Unidos descobriram isso em 1907; a França descobriu na
década de 90; a maioria dos países proíbe empresas de doarem para
partidos e campanhas. Eu acho que temos que dar esse passo. Talvez
fosse preciso uma regra de transição no momento número um, ao se
sair de uma campanha que custa alguns milhões — basta ver a
prestação de conta dos Deputados, Senadores e Presidente, para
verificar que as campanhas estão muito caras. Isso se o Supremo não
acabar o voto, por proibir e causar mais um problema decisório.
Por
exemplo, no caso da França,...
O SR. DEPUTADO DANILO
FORTE - Mas o Supremo não pode nos proibir de legislar,
não.
O SR. JAIRO
NICOLAU - Ele não pode proibi-los de legislar, mas eu acho que
aí há uma nova lei. E eu não sei se isso teria que vir como emenda
constitucional. Eu tenho dúvidas porque, se o Tribunal já considera
uma lei inconstitucional agora, eu acho que teria que se fazer uma
emenda constitucional permitindo empresas doarem, não
é?
E aí nós estamos indo na contramão do planeta, pois os
problemas já foram identificados. O problema é doação de empresa. O
que a França fez? Ela permite que os cidadãos doem por ciclo
eleitoral. Digamos que, aqui no Brasil, seria algo como 50 mil ou
100 mil, o valor de um carro ou mais numa primeira eleição, um valor
bem alto que permita que o empresário — agora pessoa física, e não
pessoa jurídica — apareça, ponha o nome e o CPF dele, declare e
preste contas no Imposto de Renda.
Eu
acho um pouco trivial o que disse o Ministro Gilmar Mendes: que, se
passar a proibição, as empresas vão transferir recursos para uma
espécie de laranjas e todo o mundo vai sair doando 50 mil. Não é
verdade, porque haverá regra.
O SR. DEPUTADO DANILO
FORTE - Eles vão
justificar para não doarem. (Riso.)
O SR. JAIRO NICOLAU
- Na verdade, uma empresa não pode usar laranjas para doar 50
mil, se tem que declarar esse valor no Imposto de Renda. Como é que
se justifica? Eu, que sou professor, não posso doar 50 mil, porque a
minha prestação de contas não cabe no meu orçamento. Então, se a
regra é complementar com a obrigação de... E aí a Justiça Eleitoral
compara o CPF do doador na prestação de contas de campanha com sua
declaração de Imposto de Renda e descobre que o sujeito tem uma
renda muito acima do que aquela doação. Pronto, está resolvido o
problema.
Eu acho que a proibição de doação de pessoa física com um
teto alto no começo,... A legislação eleitoral no Brasil é curiosa
porque toda ela tem sido no sentido de baratear campanhas. Proibiram
outdoors, showmicios, brindes, mas as
campanhas ficam mais caras a cada dia. Como? Para onde está indo
esse dinheiro? Já se fecharam todas as portas!
(Intervenção fora do
microfone. Inaudível.)
O SR. JAIRO NICOLAU
- Nós sabemos para onde vai.
(Não Identificado)
- Tem que ter um teto.
O SR. JAIRO NICOLAU
- Claro, o problema é que tem um teto. Mas se é pessoa física, é
fácil identificar, porque a pessoa põe o nome dela. E ela não
precisa doar só para um partido, pois pode distribuir 50 mil, dando
10 mil para cada um. Eu citei números aleatórios. Acho que, no
começo, tem que ser um número alto, até se fazer uma transição,
depois de duas ou três eleições, para um valor razoável. E essa
regra deve servir para o candidato também. Talvez o candidato possa
gastar o dobro do que a doação média de um candidato, porque ele
está gastando para si próprio, está bancando a
conta.
Enfim, há como estudar. Eu deixo a sugestão de dever de casa
para o caso da França, que acho exemplar, porque é a melhor lei de
financiamento de campanha.
Termino agradecendo, mais uma vez, a honra por ter sido
convidado para estar aqui. Espero que os senhores realizem um
trabalho bacana e cheguem a termo num relatório que tenha o
acolhimento da sociedade. Anteontem, quando eu estava dizendo a um
editor de política de um grande jornal do Brasil e que viria para
cá, ele me disse: “Não. Nós
não vamos mais cobrir uma reforma política. Ninguém mais no nosso
jornal acredita que o Congresso vai fazer reforma política. Vai ser
mais uma vez: monta-se Comissão, faz-se o relatório.” Então, há
uma sensação no País infelizmente...
(Não Identificado)
- Oh, homem de pouca fé!
(Risos.)
O SR. JAIRO NICOLAU
- Esse não sou eu. (Riso.)
(Intervenção fora do
microfone. Inaudível.)
O SR. JAIRO NICOLAU
- Claro. É grave. A conversa é verdadeira. (Risos).
Então,
se o relatório for bacana e acolher os interesses da sociedade
brasileira, eu acho que rapidamente esse tema pode ganhar um pouco
mais do interesse de todos. Espero que sim.
Muito obrigado mais uma vez.
O SR. PRESIDENTE
(Tadeu Alencar) - Muito obrigado a todos pela presença,
especialmente aos Profs. Jairo Nicolau, Murillo de Aragão e Rubem
Barboza.
Fica convocada reunião ordinária para a próxima quinta-feira,
dia 26 de março, às 9h30min, com pauta a ser divulgada
oportunamente, e reunião de audiência pública na terça-feira, dia 31
de março, às 10 horas, tendo como convidados os cientistas políticos
Emir Sader e Antonio Lavareda.
Está encerrada a reunião.