DEPARTAMENTO
DE TAQUIGRAFIA, REVISÃO E REDAÇÃO
NÚCLEO
DE REDAÇÃO FINAL EM COMISSÕES
TEXTO
SEM REVISÃO
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COMISSÃO
ESPECIAL - PEC 344/13 - REFORMA
POLÍTICA |
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EVENTO:
Audiência
Pública |
REUNIÃO
Nº: 0013/15 |
DATA:
03/03/2015 |
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LOCAL:
Plenário 1 das
Comissões |
INÍCIO:
14h55min |
TÉRMINO:
18h32min |
PÁGINAS:
64 |
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DEPOENTE/CONVIDADO
- QUALIFICAÇÃO |
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CLÁUDIO
DE SOUZA - Secretário-Geral da Ordem dos Advogados do Brasil -
OAB.
CARLOS
MOURA - Diretor do Movimento Contra a Corrupção Eleitoral -
MCCE. |
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Houve
exibição de vídeo.
TEXTO
SEM REVISÃO. APENAS PARA
CONSULTA. |
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Declaro aberta a 4ª reunião da
Comissão Especial destinada a proferir parecer à Proposta de Emenda
à Constituição nº 344-A, de 2013, do Sr. Mendonça Filho e outros e
suas apensadas.
A audiência pública sobre a proposta de reforma política
atendendo os Requerimentos nºs 1, 2, 5 e 7, de 2015, respectivamente
dos Deputados Moema Gramacho e outros, Renato Molling, Arthur
Oliveira Maia, Padre João e Afonso Hamm.
Convido a tomar assento à Mesa os Srs. Cláudio
de Souza, Secretário-Geral da OAB; Marcelo Lavenere, Membro da
Comissão para Reforma Política da CNBB, e Carlos Moura, Diretor do
Movimento Contra a Corrupção Eleitoral — MCCE.
Solicito a compreensão de todos no tocante ao tempo de
exposição dos debates, conforme as seguintes orientações: o tempo
concedido a cada palestrante será de 15 minutos,
não podendo haver apartes durante a exposição. Os
Deputados interessados em interpelar os expositores deverão
inscrever-se previamente junto à Secretaria. As perguntas serão
feitas ao final das palestras e deverão restringir-se ao assunto das
exposições, formuladas no prazo de 3 minutos, dispondo os
palestrantes de igual tempo. Aos Deputados são facultados a réplica
e a tréplica pelo mesmo prazo.
Feitos esses esclarecimentos, daremos início à nossa
audiência. Antes registro a presença da Sra. Nara Teixeira de Souza,
da Confederação Nacional dos Trabalhadores em
Estabelecimentos de Ensino; do Sr. João Batista Ribeiro, Secretário
do serviço
público
e
dos
trabalhadores
públicos, da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil, e
da representante do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do
Trabalho.
Peço aos senhores convidados para tomarem assento à Mesa.
(Pausa.)
Passo
a palavra ao Sr. Marcelo Lavenere, por 15
minutos.
O SR. MARCELO
LAVENERE - Sr. Presidente gostaria de pedir autorização a V.Exa.
para projetar um pequeno vídeo de 5 a 6 minutos, produzido pela
Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil — CNBB, sobre a reforma política.
(Exibição
de vídeo.)
O SR. MARCELO
LAVENERE
- Excelentíssimas Sras. e Srs. Deputados, venho a esta Casa
representar a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB,
entidade que tem estado presente em muitos dos graves e importantes
momentos da vida nacional. Esta participação dos Bispos na
construção do reino aqui nas instâncias materiais é um dever de
caridade como tem dito o Santo Padre Francisco, estimulando a
participação de leigos e religiosos na vida da sociedade, na vida da
comunidade. Seguindo esta orientação, a Conferência Nacional dos
Bispos do Brasil, neste momento, nesta quaresma, está empenhada na
Campanha da Fraternidade, que tem como tema “Fraternidade: Igreja e a
sociedade”, para estimular o cristão, o católico, o religioso, o
cidadão, enfim, a ter uma participação ativa nesta vida da
comunidade. Representando esta entidade, a CNBB, venho aqui falar
sobre a reforma política democrática. E por que a CNBB, que é uma
conferência de religiosos, está preocupada com uma reforma política
democrática? Porque, como sabemos, há uma crise muito grande no
mundo inteiro da democracia chamada representativa. Os movimentos da
Porta do Sol, na Espanha, de Wall Street, nos Estados
Unidos, no norte da África e aqui no nosso País, nos últimos anos,
têm demonstrado que o modelo da democracia representativa que nós
aqui no Ocidente e no Brasil temos exercitado parece ter esgotado a
sua capacidade de organização social e de articulação política da
cidadania. Há uma indiscutível insatisfação pelos políticos, pelos
partidos, pela imprensa, pelo povo em geral, no sentido de que o
modelo que nós estamos seguindo já não responde mais às expectativas
e aos interesses da população. É preciso, para salvar a
credibilidade da democracia e das instituições da democracia
representativa, nós termos a coragem de constituir um novo modelo
que possa exatamente atender a essas expectativas. Neste momento,
tenho consciência de que o conjunto das eminentes Deputadas e
Deputados que compõem esta Comissão Especial para discutir o
problema da PEC 344 e consequentemente o modelo político e eleitoral
que nós teremos em nosso País pensam diversamente do que pensa a
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a OAB, o MCCE e,
finalmente, a coalizão pela reforma política democrática. Todavia, é
exatamente para aqueles que já conhecem o nosso projeto e que
eventualmente não concordam com ele que eu pediria o direito de
trazer esta proposta para reflexão, aprimoramento e construção, como
disse nosso eminente Relator desta Comissão, para todos nós sermos
participantes de uma tarefa comum: dotar o Brasil de uma reforma
política adaptada, adequada e compatível com o povo brasileiro.
Ditas essas palavras sobre a participação da CNBB e a crise da
democracia representativa, devo dizer que especificamente o texto da
PEC 344 infelizmente a nosso ver não cumpre o papel de dar uma
resposta à ansiedade, ao interesse e àquilo que a população
brasileira espera. Afirmar que a PEC 344 não cumpre o seu papel
acarreta na responsabilidade de dizer o porquê.
Tomos os três principais eixos desta PEC 344. Entendo que os
três eixos principais são a questão do financiamento eleitoral por
empresas, pela iniciativa privada; a questão da obrigatoriedade ou
não do voto; e a questão do sistema eleitoral a ser aplicado nas
eleições para Deputados Federais, Deputados Estaduais e Vereadores.
Portanto, separando esses três eixos do conjunto da PEC, venho aqui
declarar a V.Exas. que infelizmente não podemos aceitar nenhum
desses três eixos.
No primeiro deles, é atormentadora e parece que já pacificada
hoje a questão do financiamento eleitoral por empresas dos partidos
e das campanhas eleitorais. Não sei se alguém neste País, diante da
situação em que se vive o País e das várias situações difíceis pelas
quais o Brasil passou, ainda é capaz de dizer que as empreiteiras,
as pessoas jurídicas e as empresas, inclusive aquelas que negociam e
trabalham para os Estados e Municípios, continuem financiando os
Deputados. Tem um sentimento muito acalorado, muito terno no sentido
de que não é possível que um Deputado ou uma Deputada ache bom,
quando chega o período de eleições, sair pedindo dinheiro a um e a
outro para financiar a sua campanha. Ainda que não peça, recebendo
dinheiro espontaneamente dado porque o Deputado ou a Deputada chega
aqui já endividado e devendo favores exatamente a quem foi capaz de
financiar a sua campanha. Sras. e Srs. Deputados, estou confortado
em dizer que esta PEC nesta parte não corresponde àquilo que o povo
brasileiro quer porque também é isso que não quer o Presidente desta
Comissão. O Deputado Rodrigo Maia tem dito na imprensa televisiva e
nos jornais que é contra o financiamento por empresas que negociam
com o Estado. E o Relator, o Deputado Marcelo Castro, na sua
excelente cartilha sobre a reforma política, tem também mencionado
que não é da sua convicção, não é do seu sentir, continuar diante de
tantos escândalos e comprovações. É tão evidente e notório que este
financiamento não ajuda a democracia. Este financiamento privado
corrompe a democracia. Poder-se-ia até dizer, sem o risco de se
exagerar, que a permanência deste financiamento é um estímulo à
corrupção, é um estímulo à continuidade desta chaga tão grande na
nossa democracia.
Por isso, nós da sociedade civil temos a esperança e a quase
certeza de que V.Exas. não vão constitucionalizar uma coisa, uma
providência que o Supremo Tribunal Federal, bem ou mal, atuando
dentro da sua estrita competência, tem definido como
inconstitucional. Mas mais importante do que o Supremo, se é que
posso falar assim, é que o povo brasileiro não quer este
financiamento. A OAB fez uma pesquisa em que 78% da população
brasileira diz “não” ao financiamento de empresas às eleições e aos
partidos políticos.
O segundo ponto da PEC que também entendemos não contribuir
para a evolução democrática do nosso País é o ponto em que ela diz
que o voto se torna facultativo. Ou seja, aprovada esta PEC que diz
que o voto é facultativo, V.Exas. estarão dizendo ao povo brasileiro
que tanto faz votar ou não, que tanto faz exercer o direito de
cidadania ou não. O voto fica sendo uma coisa desqualificada, uma
coisa de menor valor, uma coisa que eu posso fazer ou não, uma coisa
pela qual eu posso ou não me interessar, uma coisa que posso jogar
no lixo. Você vai votar? “Não. Não vou votar não. Vou
jogar o meu direito de cidadão no lixo e não vou exercer esse
direito.” Sras. e Srs. Deputados, que são membros do Parlamento,
V.Exas. sabem o quanto a civilização teve que caminhar para que se
atribuísse a cada pessoa o lema “One man, one vote.” V.Exas.
sabem o quanto foi difícil, quantas pessoas morreram e quantos
segmentos populacionais foram vitimizados na luta pelo voto
universal, pelo voto não censitário, pelo voto de todos os sexos, e
finalmente pelo voto não discriminado por categoria econômica.
Então, a PEC 344 não caminha na linha da civilização quando quer que
digamos ao nosso eleitor que tanto faz ele votar ou não. Esse
direito fundamental, em uma República que se caracteriza pela
eleição, pela escolha dos governantes e pelos eleitores, não tem
valor, é uma atividade de menor importância e, portanto, vota quem
quer. Quem não quiser não vota. Esperamos que esta parte da PEC
também não acolha, no sentimento dos corações dos Deputados e
Deputadas aqui presentes, uma aceitação.
O terceiro ponto que escolhi da PEC para analisar é a questão
que se refere a outra mudança igualmente passível de não ser
acolhida por V.Exas. É a mudança inaceitável que conspira contra o
princípio federativo nacional. É aquela que fere cláusula pétrea da
Constituição Federal que estabelece que o Brasil é uma federação de
Estados. Aqui estão Deputados de São Paulo, da Bahia, do Amazonas,
do Sul, do Norte. São Deputados que com muita honra dizem: “Sou Deputado do meu Estado. Sou
Deputado da Bahia. Sou Deputado do Rio de Janeiro.” Esta PEC
reduz V.Exas. a Deputados circunscricionais, Deputados Distritais! O
senhor é Deputado de São Paulo? “Não. Sou Deputado da Região do
Tietê, do Distrito nº 9 de São Paulo.” O senhor é Deputado da
Bahia? “Não. Não sou Deputado
da Bahia não. Eu sou eleito pelo Distrito que tem sede em Irecê, no
interior da Bahia.” Finalmente, a PEC que divide os Estados, que
fragmenta a federação, que descaracteriza o princípio pétreo das
eleições pelos Estados não traz vantagem nenhuma. Mas qual é a
vantagem? A vantagem é porque teríamos um número menor de
quilômetros quadrados a serem palmilhados pelos Deputados. Este
conforto sede diante da necessidade de que o Deputado represente o
seu Estado. A ideia de divisão desses distritos, que podem ser
chamados de distritos ou circunscrições, é nefasta, é ruim, porque
fere o princípio federativo, descaracteriza, diminui o mandato que
V.Exas. têm. Sou Deputado pelo Estado da Bahia. Sou Deputado pelo
Estado do Maranhão.
Sou Deputado pelo Estado da Bahia, sou
Deputado pelo Estado
do Maranhão, sou Deputado pelo Estado do Rio Grande do
Sul, não sou Deputado gaúcho, não, sou Deputado do Distrito nº 5 do
meu Estado, que foi
dividido depois de uma luta terrível que a gente sabe que vai ser
fratricida, quando chegar a hora, se por acaso, esperamos que não
aconteça, for posta em funcionamento essa medida que transforma os
Estados em coisa
nenhuma, a Federação brasileira em coisa
nenhuma.
Além disso, a PEC mantém um sistema eleitoral de votação em
lista aberta, que é o voto uninominal transferível. O voto
uninominal transferível está aqui condenado pelo Deputado Marcelo
Castro, quando diz aqui na primeira página do belíssimo trabalho
feito pelo nosso Relator. Os primeiros cinco pontos que o Deputado
Marcelo Castro relaciona aqui, Deputado, são exatamente os pontos
que nós estamos absolutamente de acordo.
V.Exa. diz no primeiro ponto: custo exorbitante das campanhas
eleitorais para o Parlamento. Somos contra o custo exorbitante.
Temos propostas para diminuir o custo. No nosso projeto, há uma
proposta para diminuir os custos exorbitantes. No segundo ponto: há
excessiva influência do poder econômico no pleito eleitoral. Somos
contra esse ponto. No terceiro ponto: número excessivo de campanhas
eleitorais para o Parlamento. A nossa proposta fortalece os
partidos, fortalece os partidos programáticos, e não os partidos
ditos de aluguel, partidos sem um programa, sem ideologia, sem uma
cara, sem uma fisionomia partidária. No quarto ponto, na primeira
página: partidos frágeis, sem coesão interna, pouco ou nada
ideológicos ou programáticos. Não queremos esses partidos. Queremos
fortalecer os partidos programáticos ou ideólogos. E o quinto ponto:
vota-se em João, e elege-se Pedro.
Então, a crítica que trago a V.Exas. me conforta, porque é a
mesma crítica que está aqui, a do nosso Relator dizendo que a
respeito do sistema eleitoral de voto em lista aberta em que se vota
em João, e se elege Pedro. E ele diz mais na página seguinte: “Luta fraticida entre candidatos
do mesmo partido”. Quem disputou uma eleição sabe que o inimigo
do Deputado ou do Vereador, para se eleger, não é o candidato de
outro partido, são os candidatos do seu partido que ficam se
empurrando numa fila para conseguir chegar no último lugar da
eleição e não ficar como primeiro suplente. Assim, esses três eixos,
Sr. Presidente, da PEC 344, são absolutamente a nossa visão. E a
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil discutiu isso amplamente
com todos os bispos e manifestou o seu apoio ao projeto de uma
reforma política e democrática.
Fazemos uma crítica dura à PEC 344, e o que trazemos? Dizem:
“Já que está fazendo crítica
à PEC, o senhor propõe alguma coisa que possa substituir aquilo que
entende não ser possível, não convir ao Brasil?” Sim. A
sociedade civil brasileira se reuniu numa coalizão. Vimos um vídeo
aqui sobre essa coalizão, mais de 100 entidades que discutiram muito
e fizeram um projeto de lei que foi entregue nesta Casa — o Projeto
de Lei nº 6.136. Esse projeto foi feito a milhares de mãos por
entidades como a CNBB, a OAB, a UNE, a UBES, as Centrais Sindicais,
a CUT, a CTB, os movimentos da sociedade civil, o MCCE, está aqui o
Dr. Moura, do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral, que é
responsável por duas leis que V.Exas. votaram a Lei nº 9.840, que
reprime o abuso do poder econômico, e a Lei da Ficha Limpa que
V.Exas. também votaram, há 3 ou 4 anos, praticamente por
unanimidade.
Portanto, Sras. e Srs. Deputados, Sr. Presidente Rodrigo
Maia, ilustre Deputado Relator desta Comissão, nós queríamos ter a
alegria de ver o projeto da coalizão discutido por V.Exas.,
aperfeiçoado por V.Exas. Não trazemos nada dogmático. A coalizão não
quer impor nada, quer trazer uma sugestão, quer trazer uma
colaboração ao Parlamento brasileiro. Esta coalizão não tem cor, não
tem ideologia, não tem religião, não tem partido político nenhum. A
coalizão não tem religião; a coalizão está aberta a todas as
religiões.
Nós temos, por exemplo, a satisfação, Deputado Marcelo
Castro, de ter, como uma das entidades que assinaram a nossa
coalizão, o CONIC — Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil,
que é uma confissão religiosa não católica — é evangélica — e que
integra a nossa Comissão. Agora, neste momento, falo pela CNBB sim,
mas a CNBB não é a coalizão. A coalizão é muito maior, é muito mais
ampla do que a Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil.
Então, nós estamos vindo aqui, humildemente, para pedir a
V.Exas. que, em virtude desse projeto que tem uma verdadeira
natureza de um projeto de iniciativa popular, Presidente Rodrigo
Maia... Ainda não chegaram aqui as 1,5 milhão de assinaturas para
legitimar a natureza de projeto de iniciativa popular, nos termos da
Constituição, como foi a Ficha Limpa e como foi a Lei nº
9.840.
Mas nós estamos declarando a V.Exas. que estamos fazendo o
maior empenho. Estamos chegando perto de 500 mil assinaturas. A
nossa programação é chegar até o final deste mês ou no começo do mês
que vem e trazer, para V.Exas., as 1 milhão de assinaturas que
faltam se juntar a essas 500 mil que já temos e entregar ao
Parlamento um projeto de iniciativa popular cujo embrião já está
aqui nesse Projeto de nº 6.136.
É por isso, Sr. Deputado Marcelo Castro, relator, que nós
estamos aqui para terminar essa defesa do nosso projeto, que tem 4
pilares. Os meus colegas do MCCE e da OAB vão fazer os 4 pilares que
formam esse projeto: a proibição de financiamento, por empresas, nas
eleições, e para os partidos políticos; o estabelecimento de uma
eleição proporcional em 2 turnos, fortalecendo os programas dos
partidos; a paridade de gênero; e o melhor regramento do art. 14 da
Constituição.
Sabemos, Deputado Rodrigo Maia, das dificuldades que V.Exas.
têm nesta Comissão Especial que vai discutir uma PEC — portanto,
matéria constitucional —, para, eventualmente, também apreciarem
aquilo que a sociedade civil submete à apreciação de V.Exas. É por
isso que nós estamos, neste momento, fazendo um especial apelo a
V.Exas. — às Deputadas e aos Deputados desta Comissão —, para que
não joguem o Projeto nº 6.136 num escaninho para ser, em tempo
oportuno, discutido.
A ocasião de discuti-lo é agora. Trata-se de uma contribuição
que trazemos a V.Exas. Se ele não for aprovado, não foi, acabou. Se
a nossa proposta para esse projeto — esses 4 pilares que estamos
trazendo e que parecem ser de acordo com aquilo que a maioria do
povo brasileiro quer — não calar fundo no espírito, V.Exas. o
rejeitarão. Mas não impeçam, nesta Comissão formada de maneira tão
importante — o Brasil todo está olhando para V.Exas.—, que esse
projeto não entre para a discussão e que, por uma dificuldade
regimental, seja apenas discutida a PEC 344. Esse é um apelo que a
sociedade civil, a coalizão e a Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil fazem no sentido de que diligenciem, com o entendimento, com
o conhecimento que V.Exas. têm do Regimento da Casa, para que seja
criada uma Comissão com a mesma composição, com o mesmo relator, com
o mesmo Presidente, reunindo-se conjuntamente para apreciar a PEC
344, o Projeto nº 6.136 e outros que, por caso, existam.
E que, afinal, V.Exas. possam decidir. Nós esperamos que
V.Exas. decidam homenageando o povo brasileiro, que outorgou o
mandato a V.Exas. O art. 1º, parágrafo único, da Constituição diz
que “todo
o poder emana do povo”
e em seu nome será exercido de duas maneiras: através de V.Exas.,
pela representação popular, e através do povo, diretamente.
Nós esperamos que V.Exas. tenham a sensibilidade, o coração e
as mentes abertos para ouvir aquilo que, neste momento, estou
representando, que
é a voz da sociedade civil brasileira.
Muito obrigado, Presidente. (Palmas.)
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Agradeço ao Sr.
Marcello.
Apenas registro que falou por 25 minutos. Não pode reclamar
da minha generosidade.
O SR. MARCELLO
LAVENÈRE - Não. Não reclamo, não. Pelo
contrário.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Quero registrar a presença da Sra.
Solimar Mendes, representante da União Nacional dos Auditores do
SUS.
Passo a palavra ao Sr. Cláudio de Souza, por 15
minutos.
O SR. CLÁUDIO DE
SOUZA - Boa tarde a todos. É uma honra para a OAB ser convidada
pela Câmara dos Deputados para vir aqui debater o tema da reforma
política. Esta é a Casa da democracia, esta é a Casa da cidadania. A
OAB tem um histórico de décadas de luta pela independência do
Parlamento, a liberdade do Parlamento, a integridade das
deliberações parlamentares. E é com grande satisfação que hoje
testemunhamos essa festa democrática que é o cotidiano da vida
parlamentar no Brasil.
Quero também manifestar minha satisfação pessoal de
participar de uma Mesa presidida pelo meu conterrâneo do Rio de
Janeiro Deputado Rodrigo Maia.
Quero dizer aos Deputados presentes que este projeto da
Coalizão pela Reforma Política Democrática tem uma origem muito
virtuosa, Deputado Rodrigo Maia. Esse projeto foi elaborado a partir
de um amplo diálogo com dezenas e dezenas de sociedades
representativas da sociedade civil. Em especial, foi um projeto que
contou com a participação, na sua fase de elaboração, da OAB, da
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e do MCCE, Movimento de
Combate à Corrupção Eleitoral, que também é o movimento que
concebeu, por exemplo, a Lei da Ficha Limpa. Aqui está representado
o MCCE pelo meu amigo Moura. Pois bem, essa é a origem virtuosa. Na
origem desse projeto estão as mesmas forças que lutaram pela
reabertura democrática, que lutaram pelas eleições diretas do
Brasil, que lutaram pelo fim da ditadura militar
brasileira.
Quanto ao conteúdo do projeto, eu quero enfatizar dois
aspectos — em primeiro lugar, o tema do financiamento democrático
das campanhas eleitorais. Esse foi um projeto que teve como
inspiração verificar qual é o ponto médio do debate sobre a reforma
política do Brasil. Quando elaboramos o projeto, de um lado havia um
grupo que defendia o financiamento público exclusivo; do outro lado,
havia outro grupo, que defendia o financiamento privado exclusivo.
Esse nosso projeto é um projeto que busca moderação, que busca o
caminho do meio, que busca dialogar com as camadas médias da
sociedade brasileira. Portanto, é um projeto que mantém o que há
hoje no que toca ao financiamento público, que permite o
financiamento pelas pessoas físicas e que exclui apenas a
possibilidade de financiamento por empresas. É, portanto, um projeto
não de financiamento público, nem de financiamento privado, mas de
financiamento democrático, porque numa democracia o cidadão é o
protagonista, o eleitor é o protagonista. Portanto, o eleitor
financiará o processo eleitoral, seja por meio dos seus tributos,
como já ocorre hoje, seja por meio das contribuições individuais,
que possa fazer para o candidato da sua preferência.
Essas
entidades, Presidente e nobres Deputados, têm um diagnóstico muito
pessimista quanto à forma de se financiarem as eleições no Brasil.
Essas entidades veem esses escândalos sucessivos de corrupção e
verificam que muitas vezes, subjacente a esses escândalos, o que há
é esquema de financiamento eleitoral. O Deputado sério fica
constrangido de ir ao empresário solicitar o financiamento. O
empresário, que também quer se dedicar aos seus negócios privados,
não quer participar do processo de financiamento eleitoral, e muitas
vezes quem acaba assumindo a iniciativa é justamente aquele setor do
empresariado que tem interesses diretos na administração pública,
sejam interesses no que toca a licitações, sejam interesses que se
referem a atividade regulatória do Estado.
Portanto, para nós, na origem dessas disfunções que
caracterizam a vida política brasileira, que caracterizam a
administração pública do Brasil, essa interferência do poder
econômico nas eleições que corrompe o funcionamento da administração
pública brasileira, na origem de tudo isso está o financiamento
empresarial.
O segundo ponto que o projeto apresenta à apreciação de
V.Exas. é o voto transparente. Os dois grandes pilares do projeto
são: o financiamento democrático das campanhas eleitorais e o voto
transparente. O nosso diagnóstico é que o sistema eleitoral hoje em
vigor é um sistema marcado pela opacidade, é um sistema marcado pela
ausência de transparência; o cidadão vota no candidato e, pelo
mecanismo da transferência de votos, esse voto pode acabar servindo
para eleger um candidato de outra orientação ideológica. É possível
— essa não é uma hipótese acadêmica, na verdade isso se verifica em
todas as eleições no Brasil —, é possível que um eleitor vote, por
exemplo, em um candidato evangélico e que seu voto sirva para eleger
uma candidata feminista, que, no Parlamento, vai defender ideias
antagônicas, e, vice-versa, que ele vote no candidato ateu, e o voto
acabe servindo para eleger o candidato evangélico. Esta não é uma
hipótese teórica, é uma hipótese que se verifica em todas as
eleições brasileiras. Portanto, o sistema eleitoral hoje em vigor é
um sistema opaco; o voto é dado e depois ele segue um caminho que
não pode ser acompanhado e que não podia ser previamente concebido,
previsto, programado pelo eleitor.
Também no que toca o sistema eleitoral, a nossa proposta é
muito simples: propomos a criação do voto transparente. E nisso
formula-se também uma proposta moderada, uma proposta que caminha
pelo meio. Quais eram os flancos do debate quando a proposta foi
formulada? De um lado, havia quem defendesse a lista preordenada, a
chamada lista fechada, e, de outro lado, havia quem propusesse o
voto no candidato, ou seja, o “distritão” ou o voto distrital.
A nossa proposta busca incorporar as preocupações
fundamentais de ambos os lados do debate. No primeiro turno, haverá
o voto no partido. Portanto, a campanha no primeiro turno será uma
campanha programática, centrada nas ideias. Se o partido foi mal, se
o partido se identifica com um governo que governou mal e que a
população está rejeitando, essa rejeição se manifestará na forma de
votos, e na rejeição da população àquele partido. Então, no primeiro
turno, a eleição se dá de forma programática. Verifica-se, portanto,
a quantas cadeiras cada partido terá direito.
No segundo turno, o partido apresentará o dobro de
candidaturas individuais relativas às cadeiras que obteve no
primeiro turno. Então, se o partido obteve, por exemplo, duas
cadeiras no primeiro turno, ele pode apresentar quatro candidatos a
deputado no segundo turno.
Isso tende a reduzir em 75% o número de candidaturas a
deputados. Serão, portanto, 75% a menos de caixa de campanha. A
campanha se torna muito mais barata e também passível de ser
fiscalizada pela Justiça Eleitoral, pelo Ministério Público
Eleitoral, enfim, torna-se uma campanha mais módica e mais
correspondente às possibilidades atuais do Brasil e do povo
brasileiro.
As campanhas eleitorais no Brasil são muito caras, e isso
onera excessivamente a sociedade. É necessário barateá-las, e
baratear as campanhas eleitorais significa, em alguma medida,
reduzir o número de candidaturas.
Repito, Sr. Presidente, é uma proposta que se compreende e
que se apresenta à apreciação de V.Exas. como uma proposta moderada,
uma proposta que busca incorporar as preocupações fundamentais dos
dois flancos do debate. Quem está preocupado com eleições mais
programáticas estará contemplado com o primeiro turno. Quem está
preocupado, com razão, com a circunstância de que deve caber ao povo
dar a última palavra a respeito de quais deputados efetivamente
exercerão o mandato estará contemplado pelo voto na pessoa, o que
ocorre no segundo turno.
Portanto, também no que toca ao sistema eleitoral, a
sociedade civil vem apresentar a V.Exas. uma proposta que não é do
Governo, mas que também não é da oposição, uma proposta que é, sim,
formulada pelas entidades que lutaram pela reabertura democrática,
que lutaram pelas eleições diretas, uma proposta que nós formulamos
com os olhos voltados para os principais pontos do debate entre
V.Exas. Esse debate que era polarizado, de um lado, pela lista
aberta, e, de outro lado, pelo voto na pessoa. E, no que toca ao
financiamento, de um lado, pelo o financiamento público exclusivo,
e, de outro lado, pelo financiamento privado exclusivo. A proposta
que nós concebemos é a proposta da mediação, é a proposta do caminho
do meio, é a proposta que, cremos nós, poderá fornecer as bases para
um consenso que possa se formar entre V.Exas.
Quero, Deputado, muito brevemente, dizer a V.Exa. que outra
preocupação nossa foi não importar ideias do estrangeiro. Não
repetir esse mal da vida institucional brasileira, que é o de
produzir ideias fora do lugar.
Quem verifica, por exemplo, a realidade dos sistemas
distritais mundo afora sabe que os conflitos que se instauram para
definir onde, afinal de contas, passam os limites dos distritos, são
conflitos centenários. Nos países em que o sistema distrital
prevalece, existem brigas e disputas gravíssimas para definir onde
deve ficar afinal o limite do distrital.
Também não sabemos como ocorreria uma mera importação, por
exemplo, da lista fechada exclusiva. Por isso a nossa proposta busca
partir do sistema hoje em vigor. É uma proposta muito parecida com o
sistema hoje em vigor, com o sistema proporcional que hoje vigora no
Brasil e que é exigido pela Constituição Federal de 1988. É uma
proposta que busca apenas decompor as duas funções hoje exercidas
pelo voto no Brasil. Hoje, o eleitor, com o seu voto, define a
proporção da participação dos partidos na Casa Parlamentar e define
também quais deputados ocuparão as cadeiras. A nossa proposta busca
apenas tornar isso claro, deixar transparentes essas duas funções
exercidas pelo voto do eleitor. Daí o nome da proposta o de ser o
voto transparente.
Por isso, Deputados, a nossa vinda aqui realmente se percebe
como uma participação para fomentar, para fornecer uma alternativa a
V.Exas. Nós, obviamente, temos críticas à PEC que também está em
debate no Parlamento.
Nós entendemos que, no que toca ao financiamento empresarial,
a PEC é também inconstitucional. Se nós observarmos os votos dos
Ministros do Supremo na ação contra o financiamento empresarial, nós
vamos verificar que o fundamento dos votos sempre repousou no
princípio democrático, no princípio republicano, que são cláusulas
pétreas, e, da mesma forma que uma lei não pode violar uma cláusula
pétrea.
Portanto, com toda humildade e admiração por todos os
Deputados, inclusive por aqueles envolvidos na elaboração da PEC, a
nossa compreensão é de que se tal PEC fosse aprovada ela
provavelmente também seria rechaçada pelo Supremo Tribunal Federal,
justamente pela circunstância de violar princípios constitucionais
fundamentais que são cláusulas pétreas no
Brasil.
Então, concluo apenas, em nome da OAB e da Coalisão,
agradecendo novamente a oportunidade de nos convidar e nos ouvir
para falar sobre o tema da reforma política.
Muito obrigado. (Palmas.)
O
SR. PRESIDENTE (Deputado
Rodrigo Maia) – Agradeço e passo a palavra ao Sr. Carlos Moura, por
15 minutos.
O SR. CARLOS
MOURA – Sr. Presidente, solicito autorização para exibição de um
pequeno vídeo.
(Exibição de
vídeo.)
O SR. CARLOS
MOURA – Sr. Presidente desta Comissão Especial, Sr.
Relator, Srs. Deputados que compõem a Mesa, Dr. Marcelo Lavenère,
representante da CNBB; Dr. Cláudio Souza Neto, que representa a
Ordem dos Advogados do Brasil; Sras. e Srs. Deputados; este é um
momento importante para a democracia brasileira, porque a sociedade
civil e o Parlamento se encontram na busca de caminhos que possam
melhorar o processo político, melhorar a tramitação de projetos nas
Casas Legislativas.
É com muita alegria que volto a este Parlamento para discutir
um projeto de reforma política. É com alegria porque esta é a
terceira vez que a sociedade civil vem ao Parlamento com uma
proposta. A primeira, há mais de 10 anos, resultou na Lei nº 9.840.
E há 2 ou 3 anos a Lei da Ficha Limpa.
O que é importante é que as nossas propostas foram frutos de
um diálogo da sociedade civil com as Sras. e os Srs. Deputados, as
Sras. e os Srs. Senadores.
Recordo-me que o hoje Ministro da Justiça esteve conosco
várias vezes, esteve várias vezes com o Movimento de Combate à
Corrupção Eleitoral, com a CNBB, com a OAB, com a plataforma
política de desenvolvimentos sociais pela reforma, juntamente com o
então Deputado Índio da Costa; também estava conosco, como sempre
esteve, a Deputada Erundina. Vejam que a sociedade civil e
Parlamento se aproximam, dialogam, buscando caminhos de
aprimoramento dos nossos processos políticos e
eleitorais.
Mas eu me permitiria, Sr. Presidente, talvez saindo um pouco
da temática a que nos é proposta que é a discussão da PEC 344, mas
para em nome do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral e também
em nome da sociedade civil, e em nome de um segmento social
marginalizado que desta tribuna e nesta Comissão Especial solicite das
Sras. e dos Srs. Parlamentares que olhem com preocupação, que olhem
com o máximo interesse projetos e proposituras que transitam nesta
Casa e que possam decidir, e que decidam em favor dos menos
favorecidos, em favor dos mais pobres.
Lembro-me da regulamentação da PEC do Trabalhador Doméstico,
lembro-me da questão dos autos de resistência. E se há, e é claro
que há, muita gente aqui que é do Rio de Janeiro que ainda tem na
memória a recente questão de Palmeirinha; a regulamentação do
Estatuto da Igualdade Racial; a PEC 215, de 2000, que trata da
questão indígena e atinge também aos quilombolas; a MP 664, de 2014,
e a MP 665, de 2014. Srs. Parlamentares, olhem com cuidado e
examinem essas matérias. Lembrem-se da população pobre dos
trabalhadores.
É importante que se proponha aos Srs. Parlamentares esse
diálogo, embora, Sr. Presidente, se possa estar fugindo à temática
proposta.
O nosso projeto, o projeto de iniciativa popular, protocolado
ano passado nesta Câmara dos Deputados sob o nº 6.136, de 2014, já
foi suficientemente esclarecido por aqueles que me antecederam, mas
eu me permito levantar um ou dois pontos. Um deles é aquele que eu
digo que criou nesse projeto o que eu diria um eufemismo com a
questão de sub-representação, porque, no sentido de garantir
direitos aos excluídos, a nossa proposta diz que a dotação do fundo
democrático de campanha destinado aos partidos ou coligações será
majorada em 3% sempre que o partido ou coligação apresentar
candidato, ou candidata, incluído em segmentos sociais
sub-representados.
Vale dizer, Sr. Presidente, Srs. Deputados e Sras. Deputadas:
seria uma tentativa para que neste plenário o Brasil esteja
representado na sua multiplicidade étnica e racial com negros e
índios. Seria importante que os partidos políticos prestassem
atenção nesta proposta e que V.Exas., atendendo à solicitação aqui
já feita, aliados a nós da Ordem dos Advogados do Brasil, da
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e do Movimento de Combate
à Corrupção Eleitoral, conseguissem da Presidência da Casa, se
houver, e é possível que haja, competência da Presidência desta
Comissão, para que esta Comissão possa, independentemente da PEC
para a qual foi instituída, examinar a proposta trazida pelos
movimentos sociais. Isso será, de fato, a realização de um encontro
entre a sociedade civil e o Parlamento na discussão de questões
importantíssimas à democracia brasileira.
Falamos na questão do custo das eleições. É evidente que o
fundamento da nossa proposta é essencial para que seja corrigida uma
distorção, qual seja, a participação efetiva, concreta do poder
econômico nas eleições. Há dados que indicam que as empresas bancam
a maior parte da fatura da eleição. Dos 721 milhões de reais
arrecadados por candidatos, nada menos que 553 milhões de reais
foram doados por pessoas jurídicas, o equivalente a 77% do total.
Outros 148 milhões de reais vieram de pessoas físicas — as mais
generosas delas são os próprios candidatos —, e os 20 milhões de
reais restantes foram financiados pelo fundo partidário ou pelo
Tesouro.
Há, Srs. Parlamentares e Sras. Parlamentares, grande
concentração nas doações de pessoas jurídicas. Os 67 maiores entre
os 4.422 doadores doaram 50% de tudo o que candidatos eleitos
receberam de empresas. Ou seja, 1,5% dos doadores deu metade do
dinheiro. A concentração aumenta o potencial de influência política
dos grandes contribuintes.
E como iremos nós dizer que estamos respeitando o § 1º do
art. 1º da Constituição Federal, que diz que todo o poder emana do
povo e em seu nome será exercido por delegação? Nessas
circunstâncias, Sr. Presidente, Srs. Deputados e Sras. Deputadas, é
possível afirmar que todo o poder emana do
povo?
A proposta a qual eu pediria licença à Mesa para chamar de
distrito eleitoral, ou de voto distrital, não contempla as nossas
aspirações. Nós não podemos concordar com ela. Todos nós conhecemos
— infelizmente, isso é verdade — os chamados currais eleitorais.
Quanto mais se diminuir o espaço da relação de campanha dos
candidatos, quanto mais proximidade houver, mais facilidade haverá
para se fazerem contatos espúrios e para se ferir a Lei nº 9.840.
Portanto a nossa posição quanto a essa questão já foi explicitada
pelos oradores que me antecederam.
Sr. Presidente, repito que esse é um momento importantíssimo,
no qual eu confio, o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral e
também o Dr. Lavenère, porque, em 2007, no Plenário Ulysses
Guimarães, eu e o Dr. Marcelo, convocados por uma Comissão Especial,
debatíamos a reforma política. E o Dr. Marcelo dizia: “Srs. Deputados, eu espero que
não tenha mais que voltar aqui para discutir esse tema, porque esta
é a sexta ou a décima vez que venho à Câmara para discutir a reforma
política”. Portanto eu penso que nós não podemos perder esta
oportunidade, nem nós sociedade civil nem as Sras. e Srs.
Parlamentares. Esse é o momento do diálogo, da discussão e da
votação.
E estamos abertos para a discussão da nossa proposta. Ela não
é fechada. É evidente que há pontos dos quais nós não poderemos
abrir mão. Mas, assim como no Projeto de Lei da Ficha Limpa
estivemos aqui com o hoje Ministro da Justiça, com o então Deputado
Índio da Costa, nós voltaremos tantas e quantas vezes for possível,
para fazer esse diálogo. Mas que realmente possamos
decidir...
Aqueles e aquelas que pretendem nos apoiar e caminhar
conosco, aqui fora há uma mesa com uma folha de adesão à nossa
proposta. Nós já estamos com aproximadamente 500 mil assinaturas. E
tenho a certeza que chegaremos a mais de 1 milhão. Mas também tenho
a certeza que, ao adentrarmos nesta Casa com mais de 1,5 milhão de
assinaturas, o processo já estará caminhando e que não passaremos
pelo dissabor do que está acontecendo com a PEC da
Saúde.
Muito obrigado. (Palmas.)
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Agradeço aos três expositores,
registrando mais uma vez que todos utilizaram mais do que os 15
minutos preestabelecidos, mostrando a vontade desta Comissão, de
cada um dos Deputados de ouvir a proposta defendida por cada um de
V.Sas.
A Deputada Moema Gramacho, autora do requerimento é a
primeira oradora inscrita.
A SRA. DEPUTADA MOEMA
GRAMACHO -Sr. Presidente, Srs. convidados, Deputados e
Deputadas, imprensa, eu gostaria inicialmente de parabenizar Comissão por ter aprovado
este e tantos outros
requerimentos de tamanha importância que propõem a trazer os
movimentos sociais, as entidades representativas da população para
debaterem o assunto. Não podemos conceber a decisão de constituir
uma Comissão para tratar da reforma política — e desta vez já se
colocando como definitiva — sem que os movimentos sociais, sem que
as entidades que têm trabalhado essa questão com afinco
pudessem se fazer presentes. Daí porque o nosso requerimento para
esta audiência.
Está faltando dentro daquele primeiro requerimento que
fizemos a presença das Centrais Sindicais, o que eu suponho que
deverão ser convidadas para
outro momento. Suponho que o Relator tenha pensado em fazer
várias audiências, sistematizando por temas e também pelos
movimentos sociais. Daí porque ainda existe constante do primeiro
requerimento as Centrais Sindicais, que não foram ainda convidadas
para estarem presentes.
Fizemos também outro requerimento, convidando as diversas
mulheres que compõem as instâncias que vêm discutindo a questão da
participação das mulheres em todo o contexto, principalmente na
política. Gostaríamos que essa audiência das mulheres pudesse ser
marcada com certa antecedência, para que nós pudéssemos mobilizar as
mulheres para estarem aqui presentes. Aproveito para fazer esta
solicitação ao nobre relator e ao Presidente para que fizessem uma
combinação com os autores dos requerimentos, na medida em que
marcassem a data da vinda das entidades, porque esta mesmo eu senti
que houve certo prejuízo em função de ter sido marcada para
quinta-feira e sexta-feira. Praticamente não tínhamos ninguém aqui,
e na segunda-feira os Deputados ainda não tinham chegado. Daí porque
eu acho que temos uma fraca presença dos Parlamentares, que já
haviam assumido compromisso anteriormente, em função de não termos
tido uma antecedência maior na divulgação desta audiência
pública. E creio que é
uma das audiências públicas
que deveria ter uma maior participação, em se tratando de
CNBB, de OAB, do MCCE, que tem feito tanto trabalho de envolvimento
da população nessa discussão.
Quero entrar no assunto propriamente dito e dizer que comungo
com muitas das propostas, e nós enquanto Partido dos Trabalhadores
também comungamos com muitas das questões que foram aqui elencadas,
e a primeira delas é o não financiamento empresarial. Concordamos
que tem sido um grande problema, não que seja a única causa da
corrupção, mas tem sido efetivamente um instrumento de troca de
favores, e nós achamos que é pertinente que possamos fazer
imediatamente esta mudança com reforma política, justamente não
deixando que continue a passar o financiamento privado de campanha,
o financiamento empresarial. Mas também achamos que essa PEC, na
realidade, visa constitucionalizar o financiamento privado. Daí
porque nós precisamos nos posicionar de forma veementemente
contrária a isso. Até porque eu acho que nós devíamos lutar para que
o Ministro Gilmar Mendes pudesse devolver o processo, para que fosse
dada sequência à votação da ADIN, na medida em que o STF já deve
estar com o seu posicionamento firmado pela quantidade de votos já
colocados. Portanto, estaríamos aqui trabalhando uma PEC que
constitucionaliza, quando o próprio STF já coloca a
inconstitucionalidade. Seria uma incoerência. Então, acho que nós
devemos fazer esse movimento. E os movimentos sociais também devem
pedir ao Ministro Gilmar Mendes que devolva e que haja celeridade no
processo de votação da ADI.
Gostaria de dizer que combinamos também no que diz respeito à
participação das mulheres, e estamos fazendo emendas. Gostaríamos
que também sejam apresentadas emendas por diversos outros partidos
políticos e Parlamentares e que tenhamos as 171 assinaturas
garantindo a paridade de gênero. Concordamos também com propostas
aqui colocadas, e, é claro, já tivemos uma conversa com as Senadoras
— a bancada de Deputadas Estaduais com a bancada de Senadoras —, que
propuseram que a gente fizesse um trabalho
gradativo.
Eu continuo defendendo a paridade, mas tendo até a concordar
com que façamos um escalonamento, não garantindo menos de um terço,
já no início, e com que cheguemos, em menos de 20 anos, a 50%. E já
estaríamos por demais atrasados, porque somos mais da metade da
população e somos menos de 10% nesta Casa Legislativa e nos demais
Parlamentos. Portanto, acho que paridade de gênero é uma bandeira
que precisa estar sendo colocada, e espero que essa emenda seja
apoiada por todos.
Concordo também com algumas das questões que foram aqui
elencadas em relação à forma e ao sistema, mas eu queria tirar uma
dúvida inclusive com o representante da OAB. O representante da OAB
coloca que no primeiro turno se votaria na lista em que se está
votando no conceito, na ideia, na proposta. No segundo turno,
haveria o dobro do número de cadeiras das candidaturas. O senhor
chegou a citar um exemplo de quatro candidaturas e colocou uma coisa
com a qual concordo: precisamos não ter essa quantidade imensa de
candidatos, e isso implicaria em mais custos e em uma série de
outras questões.
Por outro lado, tenho dúvida, e estou dizendo isso para que a
gente possa fazer um debate melhor. Será que o dobro simplesmente
não cercearia a possibilidade de novas lideranças surgirem? Por quê?
Quando a gente limita um número, que seria o dobro, a gente também
faz com que se perpetuem aqueles que disputam frequentemente
eleições, vencendo-as ou não, mas que às vezes são os mesmos. E a
gente inibiria a possiblidade de termos uma renovação das
lideranças. E a candidatura facilita essa renovação de lideranças,
pois as pessoas passam a ter mais conhecidos os seus projetos, as
suas identidades e aquilo que defendem.
Então, talvez pudéssemos pensar em algo. Não seriam
necessariamente dois turnos, mas, seguindo a sua proposta de
garantir que haja uma votação primeiro na ideia e depois no
candidato, que pudéssemos pensar de que forma poderíamos melhorar
essa proposta para levá-la — eu, particularmente — ao Partido dos
Trabalhadores, para fazermos uma reflexão sobre como trabalhar numa proposta
construída conjuntamente.
Já estou finalizando, Sr. Presidente, Sr. Relator e senhores
convidados, a quem agradeço por terem aceito o convite. Em relação à
questão do financiamento público, nós o defendemos, e estamos
propensos também a acatar a proposta do financiamento de pessoa
física, ressaltando o limite de 700 reais, corrigidos obviamente
pelas correções oficiais necessárias, mas que também sejam
resguardados os 40% do total dos recursos públicos destinados ao
candidato. Eu acho que essa é uma proposição que ainda precisaria
ser melhor debatida. E eu acho que, com a contribuição que os
senhores trouxeram nesta tarde de hoje, e já vêm trazendo através
das manifestações, das audiências de que têm participado e das
cartilhas bastante didáticas e elucidativas, poderemos enriquecer
muito o trabalho desta Comissão.
Eu teria muitas outras coisas a falar, mas, respeitando o
tempo e sabendo que temos muitos outros oradores que desejam também
usar da palavra, limito-me e encerro aqui o meu pronunciamento. Ao
mesmo tempo, gostaria de parabenizá-los e de dizer que fiquei muito
feliz com a fala do Relator naquela audiência promovida nesta Casa
pela CNBB, pela OAB e pelo movimento de
coalisão
Fiquei muito feliz com a fala do Relator, naquela audiência,
promovida nesta Casa pela CNBB, OAB e pelo movimento de coalizão,
quando o Relator se colocou completamente aberto a não existir
pacote fechado e a não existir posição definida. Ele tem a sua
posição pessoal, mas está aberto a enriquecer este trabalho, ouvindo
todos aqueles que têm o interesse de contribuir. E nós,
efetivamente, não abriremos mão de que todos os segmentos da
sociedade possam ser ouvidos. Temos que conceber uma reforma
política o mais próxima possível do que pensa a população,
combatendo o financiamento que tem trazido a força do poder
econômico, limitando a participação das mulheres, dos negros, dos
índios, dos homossexuais e de todos aqueles que são, efetivamente,
não mais minoria na sociedade alguns desses segmentos, mas que
acabam ainda sendo minorias nas suas representações e nos espaços de
poder.
Finalizo, parabenizando e dizendo que vamos buscar fazer o
que nos unifica, o que há de consenso nas nossas propostas e vamos
separar o que é conflitante, para vermos se, a partir do debate, os
nossos conflitos podem ser dirimidos para chegarmos a uma proposta
em comum.
Esperava que o Presidente estivesse aqui presente. Ele não
estando, queria solicitar uma informação, Relator, se o Presidente
já tem resposta para esta Comissão da Presidência da Casa sobre a
Comissão que vai tratar dos projetos de lei. Vai ser a mesma
Comissão? Como faremos isso? E quando nos
reuniremos?
Obrigada.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rubens Otoni) - Obrigado, Deputada Moema Gramacho,
pela participação, V.Exa. que é uma das autoras do requerimento que
deu oportunidade a esta audiência pública.
Concedo a palavra ao Deputado Renato Molling, também coautor
de requerimento de participação desta audiência
pública.
O SR. DEPUTADO RENATO
MOLLING - Eu queria saudar o Presidente, o Relator, os
expositores. Parabenizo-os por trazer as entidades e por elas se
envolverem nesta questão tão importante que é a política. A
política, para atingir os objetivos, tem que melhorar a vida das
pessoas. Da maneira como nós estamos hoje, com a falta de
credibilidade, infelizmente, nós não temos conseguido atingir esses
objetivos. Durante a campanha, nós percebemos, e agora mesmo, que o
descrédito é muito grande. Não que não tenha problemas em todas as
funções, em outras profissões também, mas a área pública é bem mais
visada, mas também deixa a desejar.
Eu fiz um requerimento para debater especialmente o
barateamento das campanhas políticas. Eu entendo que uma das
maneiras mais eficazes é a unificação das eleições. Eu fui prefeito
8 anos, e a primeira coisa que eu fiz, em 2007, foi entrar com a PEC
160, que propõe a unificação das eleições. Infelizmente hoje, os
Municípios, já há bastante tempo, não têm autonomia. Eles precisam
de convênios tanto estaduais, como federais, precisam buscar
recursos para melhorar a vida das pessoas. E esses convênios,
infelizmente, não andam. Eleição de 2 em 2 anos paralisa tudo. O
dinheiro não é repassado. Pequenas empresas quebram, porque não
recebem os recursos. Obras são paralisadas. Então, não existe uma
continuidade de administração do convênio feito aqui com o Governo
do Estado e com o Município. Com certeza, a unificação das eleições
melhoraria muito a eficiência na aplicação dos recursos públicos e
também diminuiria sensivelmente o custo das campanhas. Nós temos, no
ano que vem, campanha para prefeitos e para vereadores; e, queira ou
não queira, todo mundo se envolve. É o Deputado que se envolve. É o
Governo que se envolve. E os custos são enormes.
E, daqui a 2 anos, já haverá eleições de novo. Passa muito
rápido.
Então, temos que baratear as campanhas. Aqui foi meio unânime
em se dizer que a origem da corrupção é no financiamento privado. Eu
discordo totalmente disso. Eu acho que hoje existe muito mais
corrupção do dinheiro público do que do dinheiro privado. Não que
não possa haver também. Eu acho que as empresas são fundamentais
para o nosso País, para o desenvolvimento do nosso País. Nós
precisamos valorizar cada vez mais as empresas. Infelizmente, nos
últimos anos, nós caímos. O setor industrial já representava 48% do
PIB, e, hoje, representa em torno de 14%, 15%. E nós estamos vendo
que o Brasil, ao invés de crescer, está paralisado, por quê? Porque
a área industrial que é fundamental, que gera emprego, que gera
desenvolvimento, que gera crescimento, que gera cidadania está
patinando em função da alta carga tributária e da falta de
competitividade, não consegue mais exportar.
Eu defendo os setores empresariais, especialmente os
intensivos de mão de obra, manufaturados, setor calçadista, setor
moveleiro, setor de confecção que geram muitos empregos. É muito
difícil realmente conseguir ajuda nas campanhas. A gente às vezes
tem que se humilhar, ir lá, pedir; mas é a maneira que nós temos
hoje de conseguir fazer as campanhas. Agora, dizer que a origem da
corrupção é o financiamento privado, não é verdadeiro. No meu
entendimento, o dinheiro público é muito mais. Se nós não mudarmos,
se não diminuirmos o custo das campanhas, vai continuar o caixa dois
e vai continuar a corrupção, infelizmente, nas campanhas. Então, nós
temos que baratear. E a transparência e tudo isso é importante.
Agora, não vamos nos iludir e dizer que a origem da corrupção é no
financiamento público de campanha.
Também foi defendido o voto em lista. Na audiência pública
que nós fizemos hoje de manhã, eu coloquei um caso. Eu participei
como observador do MERCOSUL na campanha eleitoral do Paraguai.
Chegando lá, nós conversamos com um Deputado. O partido dele tinha a
possibilidade de eleger 3 Deputados. Para ele figurar na lista para
ser o terceiro, o Presidente dele pediu que ele assinasse uma
promissória de 500 mil dólares. Aí ele poderia participar como o
terceiro colocado lá. Ele disse: “se eu assino essa promissória,
se nós depois conseguirmos um espaço no Governo, de repente eu não
preciso pagar; mas, se nós não conseguirmos, eu, como Deputado, vou
ter que arrumar, e aí não vale a pena”. Ele não participou, não
entrou. E o 29º da lista era um jogador de futebol, com renome, para
buscar votos para aquela lista, para poder eleger aqueles três.
Então, para poder figurar, para poder ser um dos da lista, não vai
precisar de muito dinheiro e só vão entrar aqueles que têm dinheiro?
É uma pergunta.
Eu sei que existem hoje muitos interesses, tantas
necessidades. Eu acho que nós temos que trabalhar para fazer uma
reforma possível. Temos que tentar escutar o máximo. O fim das
coligações na eleição proporcional eu acredito que fortaleça os
partidos. Hoje, nós temos muitos donos de partidos. Temos donos de
partidos que só deixam entrar três, quatro para concorrer. Sempre
são eleitos os mesmos, porque fazem coligação. Não formam
partidos.
E outra questão que temos que trabalhar é para diminuir o
número de partidos. Foi colocado hoje de manhã que o partido da
Presidenta Dilma elegeu em torno de 13% dos votos. E ele precisa
compor o Governo. Só que, para compor o Governo, isso não é de
graça. E isso não é só no Governo Federal. Se você vai para os 4 mil
e poucos Municípios que nós temos no Brasil, praticamente todos
esses Municípios têm 10, 15 partidos. Ninguém mais se elege sozinho.
Para você se eleger, você tem que fazer composição com seis, sete
partidos. Só que, para fazer essa composição, você tem que dar
cargos. Por isso é que as Prefeituras estão cheias de cargos de
confiança. Não conseguem mais investir em nada. Mas, infelizmente,
não se elege se não se faz esse tipo de aliança. Então, essa é uma
questão que nós temos que tratar também nesta reforma; senão,
infelizmente, nós não vamos conseguir melhorar a vida das pessoas,
que é melhorar a infraestrutura, que é atender melhor na saúde. Nós
estamos gastando todo o dinheiro só para pagar CC, para pagar
funcionário público. Enfim, as pessoas hoje estão bastante cheias.
Por isso que a política está nesse sentido.
Parabenizo o trabalho de cada um, a ideia de cada um; mas
peço que reflitam. A origem da corrupção não é somente no
financiamento privado. As empresas são importantes. Não que não
tenha alguma doação com interesse, mas muitas empresas colaboram
para a democracia, para que alguém possa se eleger para defender
esses setores que são tão sofridos. Acredito que eles também tenham
o direito de continuar participando, com limite, com diminuição dos
custos, porque realmente hoje é um absurdo. A maior parte, no meu
entender, não é corrupção privada, mas é pública. Muitas vezes, a
gente escuta: “para eu apoiar
aquele governador lá, eu pedi tantos milhões”, mas de onde que
vem esse dinheiro? De onde que vem esse dinheiro?
Muito obrigado.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rubens Otoni) - Obrigado, Deputado Renato Molling,
pela sua participação, V.Exa. que também é autor de
requerimento.
O SR. DEPUTADO JEAN
WYLLYS - Sr. Presidente, nós temos muitos Deputados inscritos,
certo? E eu tenho o interesse em questionar os membros da mesa sobre
o projeto de reforma que eles trouxeram. Se cada Deputado inscrito
for fazer a sua prelação sobre o projeto de reforma política que
está em sua cabeça, a gente não interroga, não questiona as pessoas
que trouxeram aqui uma proposta concreta. Então, é só para a gente
arrumar aqui o tempo, e cada um não gastar mais de 20 minutos
fazendo a sua prelação sobre a reforma
política.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rubens Otoni) - Perfeitamente, Sr. Deputado. O nosso
desejo é que se garanta o direito às inscrições, que todos os
Deputados e Deputadas possam fazer a sua apresentação. O tempo
regimental é de 3 minutos. A gente tem uma compreensão com os
Deputados e Deputadas, mas queremos também de V.Exa. a compreensão
para que o trabalho da audiência possa chegar ao seu objetivo
final.
(Não
identificado) -
Entendido, Sr. Presidente, o Deputado reforçou bem, até porque
começou a Ordem do Dia e alguns Deputados vão ter
que...
(Intervenção
fora do microfone. Inaudível.)
O
SR. PRESIDENTE (Deputado
Rubens Otoni) - Nós temos cerca de 20 Deputados ainda
inscritos.
Concedo a palavra ao Deputado Arthur Oliveira Maia, também
autor do requerimento. (Pausa.) Não está
presente.
Concedo a palavra ao Deputado Padre João, autor também de
requerimento. (Pausa.)
Não está presente.
Concedo a palavra ao Deputado Afonso Hamm. V.Exa. tem 3
minutos.
O SR. DEPUTADO AFONSO
HAMM - As primeiras considerações são importantes. Sinto-me
honrado também em compartilhar com alguns colegas a iniciativa de
convidar estas instituições, estas entidades representativas que
tiveram a capacidade de elaborar um projeto, uma proposta. É um
conjunto de 102 instituições, entidades, representações, movimentos.
Naturalmente que as 100 não têm a oportunidade de fazer o debate
aqui, neste instante, mas estão representadas.
e
naturalmente que as cem
não
têm oportunidade de aqui fazer o debate, neste instante, mas estão
representadas.
Eu assinei esse projeto ano passado porque o achei
interessante, do ponto de vista de uma das questões cruciais.
Dirijo-me ao nosso Presidente, Deputado Rodrigo Maia, ao nosso
Vice-Presidente, aos nossos colegas desta Comissão, tanto de direção
desses trabalhos, nosso relatório, que no momento não está aqui, mas
está próximo, porque esse é o esforço, ou esses são os esforços,
pois que nós precisamos ter a capacidade de estabelecer uma síntese
e uma orientação.
Então, eu vejo que, do conjunto de tantas propostas que estão
colocadas, assim como aqui foi falado, cada Deputado tem a sua
proposta de reforma, a sua ideia, a sua convicção ou as nossas
convicções — o que eu acho fundamental —, algo que encabece a
discussão do projeto. É exatamente a definição de financiamento.
Primeiro ponto: o financiamento tem de ser limitado, reduzido,
controlado e fiscalizado. São três coisas importantes. Nós temos de
estabelecer limites, o controle, que é o monitoramento, e a
fiscalização inclusive. Nós temos de ter capacidade de buscar além
do controle da fiscalização por parte de cada eleitor, de cada
cidadão, os órgãos de controle, porque com campanhas limitadas nós
vamos saber do seu dimensionamento; numa campanha em que se sabe o
número que se pode gastar, nós vamos saber se há exagero e se ela
está superdimensionada; o sentido do material, o sentido da
visibilidade, o sentido das pessoas. Então, eu vejo — está chegado o
Relator, Deputado Marcelo Castro — que o bojo, o eixo do ponto
fundamental, que é um dos eixos que foi estabelecido aqui, é
exatamente o dimensionamento, a limitação e a transparência do
financiamento. Em relação a isso, nós temos três aspectos, e aí há
algumas discordâncias, pontos divergentes, mas vou dar também a
minha opinião, porque não posso me furtar, porque também represento
muitos que pensam, como muitos que acreditam que, na condição do
País, o financiamento
privado tem de ser vetado. Por que tem de ser vetado? Porque na
verdade ele dá dimensionamento de fortalecimento de força financeira
às candidaturas, mesmo que nós venhamos a diminuí-los; não é
democrático.
Muitos não têm acesso a esse financiamento ou ficam reféns do
próprio partido, que pode, em muitas circunstâncias usar os
instrumentos, e a gente tem visto exemplos por
aí.
Queria dizer, então, que esse ponto é fundamental:
dimensionamento, limites. E aí vem a questão: público
ou privado? Quanto ao público,
já existe o fundo partidário, que hoje é próximo dos 500 milhões,
meio bilhão. Talvez ele não seja suficiente, mas também não se pode
jogar nas costas da União ou do faturamento, ou enfim, da população,
a oneração por buscar recursos públicos,
que têm dimensionamento. Colocam-se os partidos na sua estrutura, na
qual hoje é usado o fundo, e ainda bem gerido, bem administrado.
Isso ajuda um pouco nas campanhas. Esse é o financiamento
público
existente.
Não podemos fazer confusão, e aí a transparência é
importante; o debate, a audiência com os nossos Líderes são no
sentido de que uma empresa pública
não pode gerar 1 centavo para cair num processo político só por
desvios, só por corrupção, só por outras formas. É verdadeiro. E o
projeto colocou uma proposta muito boa, pois não exclui a condição
de o cidadão participar da campanha, mas tem limites — 700 reais,
próximo a um salário mínimo. É um número.
Então, eu vejo, por isso, que o projeto tem um componente de
contribuição importantíssimo para a futura lei, para as futuras
deliberações e para os parâmetros futuros em relação a essa questão
do financiamento.
Então,
eu me limito a centrar o esforço em relação a esse item, porque ele,
na nossa opinião, é determinante na credibilidade, na transparência,
enfim, por tudo que aqui tem sido dito, mas eu vejo um
aproveitamento muito importante desse componente, da forma como está
apresentado ao projeto. E o debate, na minha opinião, deve ser
aprofundado. E aí vem a pergunta, quando eles puderem responder,
pois são muitos a participar, colocar junto alguns instrumentos de
fiscalização. Nós temos que colocar juntos, nós temos de ter
capacidade de estabelecer, porque é possível, sim, haja vista alguns
argumentos que já fiz — não vou me estender —, mas eu entendo que
nós temos que colocar isso para dar tranquilidade e transparência à
sociedade, ao eleitor e a todos os
brasileiros.
Obrigado.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Obrigado, Deputado Afonso
Hamm.
Deputado Daniel Almeida. (Pausa.)
Deputado Antonio Carlos Mendes Thame.
O SR. DEPUTADO
ANTONIO CARLOS MENDES THAME - Sr. Presidente, Sras. e Srs.
Deputados, senhores palestrantes, a primeira observação: na minha
opinião o sistema atual não é totalmente falho e a ponto de ser
demonizado e exorcizado. Ele tem graves defeitos, mas não é
totalmente falho e permitiu que nós iniciássemos um processo de
consolidação da nossa democracia.
Quais são os problemas que devem ser aventados, agora, num
momento em que temos uma proposta da Comissão formada por Deputados,
ex-Senadores e uma proposta da CNBB e da OAB. Na realidade, no
momento em que um Deputado coloca suas opiniões, como nós vimos
aqui, ele está fazendo contraponto às posições colocadas. É
automático. É uma coisa imediata. Ele coloca de uma forma diferente
aquilo que foi tão bem colocado pelos representantes da CNBB, da OAB
e das demais entidades.
Quais são os problemas, a meu ver, gravíssimos, do sistema
eleitoral atual? São dois. O primeiro é o custo de campanha
altíssimo, que é decorrência da forma de escolher dos Deputados, e o
segundo, a miríade de partidos no Brasil. O que impede depois que se
faça realmente uma coalisão para defender o Estado. Não é possível
que, com trinta e tantos partidos... A não ser que haja trinta e
tantos Ministérios para contemplar trinta e tantos partidos. É
impossível conseguir realmente alguma coisa satisfatória. Então, são
esses dois problemas. O método de escolha dos Deputados e, o
segundo, a miríade dos partidos no Brasil. Como é que eu enfrento
esses dois problemas? Quais são os problemas na eleição dos
Deputados?
Vou só falar sobre isso porque não dá tempo. É muito rápido!
Vou falar sobre tudo. Eu acho que o primeiro é o custo da campanha.
Imagine o Estado de São Paulo, que tem 32 milhões de eleitores. A
Argentina inteira tem 27 milhões. Os senhores disseram que queriam
acabar com essa disputa interna no partido. Não vão! Se o partido
vai colocar duas vezes o número de candidatos em função da vaga que
vai haver no primeiro turno; não vai resolver nada. O custo de
campanha é altíssimo. Trocar o financiamento privado por público é
trocar seis por meia dúzia. A única forma de se reduzir o custo da
campanha é diminuir o tamanho do distrito. Se não dá para ter voto
distrital, vamos ter o regional. Vamos permitir que os Estados
maiores — não só em número de habitantes, mas maiores como o
Amazonas, onde em algumas cidades eu preciso ir de barco... no Pará
eu preciso de barco para chegar a essas cidades — possam se dividir
em regiões.
O segundo: o problema é aproximar os eleitos dos eleitores.
Hoje não é por acaso que os eleitores não sabem nem se lembram de em
quem votaram. Como é que vou pedir em São Paulo para um eleitor que
ele saiba as propostas de 1.200 candidatos a Deputado Estadual? Não
vai nunca saber! Isso é impossível! Ele não vai saber nunca!
De
mil candidatos a Deputado Federal. Não vai saber nunca. É querer
cobrar muito do eleitor.
Terceiro problema: todas as regiões precisam ter candidatos
eleitos que as representem. Se eu dividir um Estado em dez regiões,
por exemplo, todas as dez terão os seus
Deputados.
Por último, o sistema atual de escolha dos Deputados
desestimula as mulheres, os jovens, os profissionais liberais. Daqui
a pouco nós teremos aqui uma Câmara formada só de milionários, de
pastores evangélicos, de comunicadores sociais, de presidentes de
sindicatos. Mas um profissional liberal que só tem o seu trabalho,
que é benquisto na sua região, não vai poder ser eleito — nunca
mais. Ele simplesmente vai ser no máximo Vereador. Para ser eleito,
ele não vai entrar numa eleição em que precisa de 100 mil votos e o
custo de alguns milhões.
Era isso o que eu queria colocar, certamente em
contraposição, mas cumprimentando o belíssimo trabalho que os
senhores vêm fazendo, principalmente no combate à
corrupção.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rubens Otoni) - Obrigado, Deputado Mendes Thame, pela
contribuição.
Com a palavra o Deputado Arthur Oliveira Maia, que também é
autor do requerimento.
O SR. DEPUTADO ARTHUR
OLIVEIRA MAIA - Sr. Presidente, Srs. Deputados, o requerimento
tem por finalidade justamente trazer para este debate
importantíssimo da reforma política alguns segmentos da sociedade
civil organizada, que, eu tenho plena certeza, darão uma
significativa contribuição.
Então, é nesse sentido que nós estamos propondo que sejam
convidados a participar desta audiência pública representantes da
Confederação Nacional da Indústria — CNI, representantes da
Confederação Nacional do Comércio, Bens e Serviços — CNC,
representantes da Confederação Nacional das Instituições Financeiras
— CNF, representantes da Ordem dos Advogados do Brasil —
OAB.
E aí vale o parêntese, Sr. Presidente. Hoje, pela manhã, o
Deputado Esperidião Amin fez aqui uma colocação de que a Ordem dos
Advogados do Brasil tem reclamado muito da falta de participação
popular no âmbito desta Comissão e da reforma política. O Deputado
Esperidião Amin se queixa justamente de que a OAB, que tem sido tão
profícua nessa reivindicação e nas críticas, também deveria
realmente ser mais aberta nas suas posições, principalmente na sua
prestação de contas, que não deveria ser feita apenas pelo órgão
interno da OAB, sobretudo por ocasião da eleição do seu Presidente.
É inadmissível que o Presidente da Ordem dos Advogados do Brasil,
que tanto reclama participação popular e se arvora em tantas vezes
ser capaz de dar depoimentos contra tais e quais procedimentos, não
faça a eleição direta para Presidente. Mas queremos, de qualquer
forma, que a OAB participe deste debate.
Queremos convidar também o representante da Força Sindical,
para que todos os segmentos se façam presentes no sentido de
podermos participar e aprofundar o debate da reforma
política.
É esse o nosso propósito; é esse o nosso
requerimento.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rubens Otoni) - Obrigado, Deputado Arthur Oliveira
Maia. Esses requerimentos já foram encaminhados. Hoje nós já estamos
fazendo aqui a audiência com a presença inclusive do representante
da OAB, presente conosco, participando deste
debate.
Com a palavra o Deputado Valtenir
Pereira.
O SR. DEPUTADO
VALTENIR PEREIRA - Sr. Presidente, nobres pares, hoje, pela
manhã, nós tivermos a oportunidade de também, numa audiência
pública, ouvir aqui um palestrante que fez a análise do Direito
Comparado. Trouxe aqui os sistemas eleitorais da Alemanha, da
França; falou do sistema inglês, também do americano e de outros
sistemas. O que a gente pôde perceber é que todos os sistemas têm
vantagens e também têm as suas desvantagens.
Por isso, nobres pares, Sr. Presidente, eu entendo que nós
precisamos fazer mudanças, mas não precisamos fazer aquelas mudanças
que vão modificar totalmente o sistema que hoje nós adotamos. Por
quê? Nós já tivemos, por exemplo, um avanço, primeiro quando o
Tribunal Superior Eleitoral decidiu que haveria fidelidade
partidária. Ali, nós já pudemos ver um avanço importante, porque era
um troca-troca de partido. Inclusive, quando se faziam eleições
internas aqui, esse troca-troca de partido mudava a
proporcionalidade. Quer dizer, isso praticamente
acabou.
Em seguida, nós aprovamos aqui, com apoio popular, de
iniciativa popular — inclusive os palestrantes tiveram oportunidade
de colaborar —, a Lei da Ficha Limpa, também um outro avanço
extremamente importante que aconteceu. Em 2010, a Lei já produziu
resultados fantásticos, mesmo não tendo sido aplicada
posteriormente, o Supremo decidiu assim porque ela deveria ter
obedecido ao princípio da anualidade e não obedeceu. Mas, mesmo
assim, ela já produziu efeitos positivos no processo legislativo de
2012, 2014, e assim vem produzindo.
Então, do que nós precisamos? Nós precisamos aqui
praticamente — plagiando o programa da Rede Globo, que fala “pequenas empresas, grandes
negócios” — de pequenas mudanças com grandes soluções. E o que
nós temos a título de sugestão? Por exemplo, nós temos um modelo de
contratação de cabos eleitorais, isso é extremamente nefasto. Aqui
foi colocado que o grande problema é o custo das campanhas. Veja, eu
recebi ligação no dia eleição de que havia vários cheques de 200
reais emitidos por candidatos concorrentes. E me ligaram pedindo que
eu agisse, que denunciasse, mas aquilo estava legalizado, porque
eram cheques de campanha com tudo bonitinho, com contrato, tudo
certinho. Então, nós temos que mudar isso, revogar esse dispositivo
que permite a contratação de cabos eleitorais, porque isso além de
aumentar o custo da campanha, está, na verdade, legalizando a compra
de voto. O que mais? Placas, cavaletes, tudo isso envolve custo de
campanha. Nós temos, por exemplo, os outdoors, que é uma mídia de
grande impacto, de um custo pequeno, e não usamos esse método para
poder divulgar as campanhas eleitorais. Então, precisamos limitar a
doação, por exemplo, do próprio candidato porque, se o candidato
tiver 100 milhões de reais e resolver colocar 10 milhões da conta
dele, pessoal, na campanha, ele pode fazer isso que não há problema
nenhum. Isso desequilibra o jogo, desequilibra a disputa. Então,
essas propostas trazidas hoje por estes grupos, OAB, MCC, MCCE e
também CNBB, são importantes, e nós temos que prosseguir nessa
direção para aprimorar o nosso sistema
eleitoral.
Então, Sr. Presidente, na verdade, o que nós precisamos é
aprofundar e aprimorar o sistema brasileiro, porque os sistemas de
outros países também têm suas virtudes, mas também têm os seus
defeitos. Então, vamos trabalhar no aprimoramento do sistema
brasileiro. Olhem a urna eletrônica, ela é um exemplo para o mundo e
é uma criação do Brasil.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rubens Otoni) - Obrigado, Deputado
Valtenir.
Com a palavra o Deputado Evandro Gussi.
O SR. DEPUTADO
EVANDRO GUSSI - Sr. Presidente, parabenizo-o mais uma vez pela
condução dos trabalhos e também parabenizo a postura do Relator. Vou
seguir aqui a linha do Deputado Victor Mendes e também do Deputado
Jean Wyllys, procurando me ater, no menor tempo possível, à questão
que nos toca na audiência pública.
Em primeiro lugar, alegra-me muito ouvir, Dr. Marcelo, a
concepção de que o voto não é só um direito, ele é um direito, não
há dúvida, mas é também um dever, um dever da participação política
do cidadão, do homem comum. Se tornássemos o voto facultativo,
talvez levaríamos às urnas apenas aqueles autointeressados, de
alguma maneira, no processo político-eleitoral. Então, de antemão,
parabenizo-os por esta postura da ideia do voto obrigatório, da qual
compartilho, assim como muitos Deputados também o fazem, ou seja,
dessa necessidade de o cidadão compartilhar, tomar como sua aquela
que é a missão fundamental.
Em segundo lugar, eu parabenizo a exposição, a coragem e a
retidão de intenções que pressuponho nessa coalizão democrática,
capitaneada por um grupo de bispos da CNBB, por uma parcela da Ordem
dos Advogados do Brasil e assim por diante. Vejo aí, sim, uma
preocupação autêntica, V.Sas. nos trazem uma preocupação autentica.
Minimizarmos hoje as deficiências do nosso sistema, minimizarmos os
efeitos que isso tem causado no eleitorado seria tapar o sol com a
peneira — com o perdão da expressão mais simplória. Realmente o
nosso sistema político e, sobretudo, o nosso sistema eleitoral tem
problemas, e diagnosticar que isso não vai bem e exige reparos, acho
uma atitude de grande valia de V.Sas., e sei o trabalho que isso
demanda.
Estou preocupado com o tempo, não pelo poder que tem V.Exa.,
Sr. Presidente, de me cortar a palavra, mas justamente pela
generosidade que tem mostrado, por isso a gente sempre fica mais
preocupado. Quem perde poder muitas vezes ganha em
autoridade.
Não obstante ver essa retidão de intenções e tudo o mais,
existem algumas preocupações que me afligem, e eu as compartilho
aqui com a intenção única de iluminar o nosso debate. Vi na postura
do Dr. Marcelo algo um pouco diferente, mostrando justamente o
caráter plural, pois se trata uma proposta que precisa ser pensada,
enriquecida e assim por diante. Agradeço-lhe e ressalto que isso
também foi corroborado pelos dois oradores que lhe
sucederam.
Coloco-me o seguinte: em primeiro lugar, o nosso sistema é
ruim porque hoje o custo das campanhas é altíssimo e essa é uma das
raízes da corrupção. Isso aqui eu acho que ninguém discute. Mas o
custo das campanhas é altíssimo porque elas são realizadas num
espaço territorial único no mundo. Eu não vou dizer aqui se o voto
vai ser majoritário, se vai ser proporcional, isso é outra conversa,
a gente não pode confundir. Há duas questões técnicas: uma coisa é o
espaço territorial em que as campanhas se desenvolvem, e outra é o
critério que se utiliza para escolher quem são os primeiros
colocados nela. Então, mesmo os países que têm sistemas de lista, em
geral — salvo aqueles muito pequenos, Israel, Suíça e assim por
diante —, nenhum país com uma democracia consolidada preserva um
distrito eleitoral, uma circunscrição. Voto distrital no Brasil — é
importante que se diga — nós já temos. O voto no Brasil já é
distrital, tanto que Assis Brasil, aquele que mais propugnou pelo
voto em lista, pelo sistema proporcional, quando se pretendeu que o
voto fosse nacional, o próprio Assis Brasil, o maior defensor do
sistema proporcional no Brasil disse: “Não, se for nacional, eu retiro
a proposta”. Então, distrito já temos, agora, não há paralelo no
mundo de um distrito que seja tão grande como o nosso, e é
impossível sem a diminuição da base territorial. Primeiro, é
impossível diminuir o custo das campanhas. Segundo, é impossível
aproximar o eleitor do eleito.
O senhor vem em nome da CNBB e certamente conhece o compêndio
da doutrina social da igreja, documento importante, da lavra do
Cardeal Van
Thuan,
um homem que sofreu duras penas no Vietnã e depois nos brindou na
Comissão Justiça e Paz. E lá diz que a relação do eleitor com o
eleito precisa proporcionar uma escolha, um acompanhamento e uma
fiscalização. É impossível, como disse o Deputado Mendes Thame,
escolher no universo. E nesse ponto eu não entendo o projeto, porque
hoje um partido pode lançar 150% das cadeiras. O projeto prevê 200%,
ou seja, o número de candidatos aumenta de 150 para 200 num primeiro
momento da lista. Se não estou enganado, estou com o texto aqui, é o
§2º, do art. 5º, a, pelo menos é o que está aqui na http://www.reformapoliticademocratica.org.br/.
Mas, no primeiro turno, se pode lançar aqui o número correspondente
ao dobro das cadeiras. Bom, no segundo turno, vai bem, mas isso não
fica claro. Precisaria estar, porque aqui fala em uma lista
preordenada formada por candidatos em número máximo correspondente
ao dobro das cadeiras parlamentares em disputa. Aqui diz: “em
disputas”.
Bem, terminando, segunda coisa importante: ser um Deputado
Distrital — e eu repito o que disse pela manhã; fui votado em 589
cidades, não estou aqui advogando em causa própria — não rebaixa
nenhum parlamentar em nenhum lugar do mundo. Winston Churchill, um
dos maiores estadistas do mundo, foi eleito pelo Distrito de
Chequers, um pequeno distrito irrelevante para o cenário inglês...
(O
microfone é desligado.)
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rubens Otoni) - Faço um apelo para que a gente possa
continuar e dar oportunidade a todos os Deputados e Deputadas de se
posicionarem.
O SR. DEPUTADO
EVANDRO GUSSI - Perdoe-me, Excelência, vou para as conclusões.
Churchill perdeu. Estava já desprestigiado, mas o pequeno Distrito
de Chequers, insignificante no território inglês, permitiu que a
Câmara baixa tivesse, quando precisou, um dos maiores estadistas do
mundo, e alçado, assim, quando foi necessário.
Então, a história mostra que um deputado distrital não
rebaixa nenhum Parlamentar. Pelo contrário, permite à Casa que, nos
momentos mais graves, possa dispor daqueles que são os cidadãos
importantes.
Hoje,
vota-se em João, elege-se Pedro. No projeto, com todo o respeito,
não se vota nem em João. Não se vota em ninguém. Sabe-se lá Deus
como essas listas preordenadas... Eu sei o que o projeto tem... Eu
li atentamente e fiz anotações em cima das posições de V.Sas.,
mostrando a minha atenção a cada uma e o meu respeito ao trabalho
que desenvolvem, respeito sincero. Mas, hoje, vota-se em João ao
menos, mesmo que, muitas vezes... Eu gostaria que votassem em João,
e João fosse o eleito, mas no projeto não se vota sequer em João.
No penúltimo tema, busca-se que o cidadão seja protagonista.
E, claro, vejo a retidão de intenção de V.Sas. No entanto, no
projeto o protagonismo passa a ser de máquinas partidárias, e não
são as que a população em geral mais confiam. E aqui não faço juízo
nem do meu e nem de nenhum outro partido que contam com quadros
importantes. A palavra, portanto, não será mais do eleitor.
Questão dos limites de distritos. Quando se tem um Tribunal
Superior Eleitoral com tecnologia, com trabalho consolidado, caberia
a ele a divisão dos distritos, a quem cuida de eleições e tem
legitimidade técnico-democrática para tanto. Não seria uma
preocupação de maneira alguma.
E
eu termino dizendo que a ânsia — ânsia sincera eu sei. Conheço a
Igreja Católica um pouquinho. Sou advogado, conheço um pouco da OAB.
Enfim, eu sei que há aí uma ânsia sincera por uma reforma
democrática, da melhor qualidade possível para o Brasil. Isso eu não
questionaria e, sinceramente, os defenderia até o fim se alguém
questionasse a retidão das intenções de V.Sas. Mas essa ânsia não
pode permitir uma substituição ilegítima da sociedade civil.
Sociedade
civil, no sentido amplo, é o conjunto de todas as pessoas de um
país; sociedade civil, no sentido estrito, é, ao menos, o conjunto
dos cidadãos.
A
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que tem o meu maior
profundo respeito, há de nos liderar, nós católicos, nos dogmas de
fé, naquilo que os senhores bispos, em comunhão com o Santo Padre,
assim preservarem a doutrina da Igreja.
A
Ordem dos Advogados do Brasil deve nos liderar, enquanto advogados —
recebeu para tanto. Cada um dos senhores presidentes de subseção, de
seção ou nacional recebeu um mandato para cuidar dos interesses
próprios da advocacia. Eu sou advogado e nunca fui consultado pela
Ordem dos Advogados do Brasil sobre como deveria ser a proposta de
reforma política.
Então,
colocar-se em nome da sociedade civil, sei que, pela menor das
intenções — isso eu reconheço —, mas é um argumento perigoso, na
minha humilde e jovial opinião, porque a sociedade civil, com todo
respeito, se manifestou dizendo: “Hoje, sociedade civil e
Parlamento se encontram”.
Com
todo respeito, a sociedade civil e o Parlamento se encontraram no
dia 5 de outubro de 2014, quando os cidadãos livres e desimpedidos
foram às urnas. E, pelo direito deles, e pelo respeito à capacidade
que reconheço em cada homem e em cada mulher de escolher, sim, o seu
representante, gostaria que eles pudessem acompanhá-lo mais,
gostaria que eles pudessem fiscalizá-lo mais, e escolhê-los melhor.
E, talvez, eu nem estaria aqui numa próxima oportunidade. Mas eu não
tenho dúvida...
O SR. DEPUTADO PEDRO
FERNANDES - Sr. Presidente, falar 10 ou 15 minutos, não pode.
Deputado Victor, V.Exa. que reclamou tanto, bate aí do lado,
rapaz.
O SR. DEPUTADO EVANDRO GUSSI -
Perdão, e termino aqui.
E peço perdão, V.Exas. estão certos.
O SR. DEPUTADO PEDRO
FERNANDES - Não há nenhuma campainha aí, Sr. Presidente, para ir
dizendo, porque assim não dá!
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rubens Otoni) -
Faço um apelo ao Deputado.
O
SR. DEPUTADO EVANDRO GUSSI
- Peço perdão a V.Exas., que têm toda razão. O tema é muito
importante, me perdoem, eu também me traí aqui.
A sociedade civil se encontrou no dia 5 de outubro e se
encontra representada aqui.
Muito obrigado, uma boa tarde a todos.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rubens Otoni) - Obrigado, Deputado Evandro, pela
compreensão.
Com a palavra o Deputado Marcelo Castro, Relator da matéria.
Logo após, Deputado Victor Mendes.
O SR. DEPUTADO
MARCELO CASTRO - Eu quero cumprimentar a todos, parabenizar os
palestrantes e agradecer a presença de cada um, tão valiosa para nós
aqui nesta tarde.
Quero fazer um cumprimento especial ao Pe. Ernani,
representante da CNBB, que se encontra aqui desde o início,
pacientemente, nos ouvindo. Quero dizer à coalizão democrática o
quanto nós julgamos importante a sua participação.
Inclusive
o primeiro convite que nós fizemos foi para que a CNBB, a OAB, o
MCCE, a UNE, a CUT e mais de cem entidades representativas da
sociedade civil organizada estivessem hoje aqui.
Alguém
vai poder dizer: “Não, não
foram os primeiros, porque hoje de manhã tivemos um cientista aqui,
um jurista falando”. Mas a programação dizia que as reuniões
seriam no período da tarde. Como nós fizemos reuniões também pela
manhã, mas a intenção foi demonstrar o meu apreço, o meu respeito e,
sobretudo, a necessidade de envolvimento da sociedade organizada
para conseguirmos fazer uma reforma eleitoral. Então, sou aqui muito
agradecido ao trabalho que V.Sas. estão fazendo e a presença de
V.Sas. aqui.
Gostaria
aqui de fazer uma pergunta ao representante da OAB e ao Dr. Marcelo
Lavenère, que foi Presidente da OAB, e tem um conhecimento profundo
da nossa Constituição.
Foi
dito aqui pelo representante da OAB que o Supremo está julgando a
questão da contribuição das empresas como cláusula pétrea. Isso é
fundamental para nós, porque, se for cláusula pétrea, nós não
podemos aprovar uma PEC aqui que não vai ter nenhum efeito. Eles vão
dizer que a PEC fere a cláusula pétrea. Se não for cláusula pétrea,
evidentemente que nós podemos aprovar uma PEC aqui, e o Supremo terá
que se submeter à vontade do Congresso Nacional. Então, o Dr.
Marcelo Lavenère está com essa missão aqui de nos esclarecer porque
nós somos incipientes nesse assunto.
Outro
assunto que eu gostaria de tratar aqui é que foi questionado,
principalmente pela nossa colega, Deputada Moema Gramacho, sobre a
comissão para poder dar parecer sobre os projetos de lei.
Então,
eu já comuniquei aqui ao Plenário que estive com o Presidente
Eduardo Cunha — o nosso Presidente Rodrigo Maia também esteve —, e
ele se comprometeu a constituir uma Comissão, a pedir aos Líderes
que indicassem os mesmos membros, porque, tecnicamente, isso não é
possível — regimentalmente não é possível. Esta Comissão é para dar
um parecer sobre mais de uma PEC, que está em tramitação. Mas, para
o bom andamento dos trabalhos, nós podemos fazer aqui uma Comissão
Especial para dar parecer sobre a PEC e um grupo de trabalho
informal composto pelos mesmos membros. E aí nós poderíamos sair, no
final, com uma PEC e com um projeto de lei, o que seria uma economia
muito grande e traria uma coordenação só dos dois trabalhos, que é,
enfim, o que nós estamos nos propondo a fazer. Seria rápido. Era só
o Presidente determinar. Mas já acertou. Depois eu vou lá com o
Presidente Rodrigo Maia para a gente executar
isso.
Agora, há uma coisa aqui que faz parte de todos os nossos
pronunciamentos, que é a excessiva influência do poder econômico no
resultado dos pleitos eleitorais. Srs. Deputados, Sras. Deputadas,
senhores palestrantes, nós estamos selecionando os nossos
representantes da pior maneira, como disse aqui o nosso grande
Deputado por São Paulo Mendes Thame. Daqui a pouco, nós vamos ter um
Parlamento só de pessoas com muito dinheiro, independente da origem
desse dinheiro, e de pessoas que têm uma clientela, que têm uma
estrutura com a qual possam se eleger, porque aquelas pessoas com
dotes pessoais vão ficar sempre relegadas a um segundo plano. Não
estou falando de eleições em geral. Quem faz eleição sabe que o
poder econômico tem sua influência de maneira seletiva: para cargo
de Governador, de Presidente da República, de Prefeito de capital ou
de grandes cidades o poder econômico é importante, mas não é
determinante. Mas para o Parlamento, de Vereador e Deputado Federal,
o poder econômico vem sendo cada vez mais determinante. E aí as
outras qualidades do candidato naturalmente vão ficar ofuscadas, em
segundo plano, pela relevância e pela importância do dinheiro.
Então, essa é uma preocupação que nós precisamos ter e resolver,
para melhorar o nosso sistema eleitoral.
Gostaria, aqui, agora, de fazer uma crítica à proposta, com
todo respeito, apresentada pela OAB, CNBB, que, como disse o nosso
colega Evandro Gussi, com certeza foi feita com a melhor das
intenções.
Primeiro, a proposta defende que haja uma paridade de gênero,
que o voto seja programático, em partido, na legenda. Mas, quando a
proposta vem com o segundo turno, anula toda essa boa intenção.
Suponhamos aqui, Moema, que na Bahia V.Exa. dispute uma eleição do
PT e que o PT tenha elegido, digamos, cinco Deputados Federais na
Bahia. Então, a legenda do PT elegeu cinco Deputados. O que isso
significa? Que os dez primeiros da lista do PT vão para um segundo
turno agora disputar todo o eleitorado da Bahia, em todos os
Municípios da Bahia, com aqueles que votaram no PT e com os que não
votaram também — são novos eleitores —, e vamos ter cinco homens
disputando contra cinco mulheres, porque, como a lista exige
paridade de gênero, quando se chega ao segundo turno, tem cinco
homens de um lado e cinco mulheres de outro. Quem vai
eleito?
(Não identificado)
- As mulheres.
(Não identificado)
- Os homens. Por quê? Porque aqui só tem homem. As mulheres têm
todo espaço para disputar, mas não chegam aqui. E, quando chegam,
muitas delas ainda chegam pelas mãos dos homens: é a mulher do
Governador, é a mulher do Senador, e por aí
vai.
Então, nós precisamos ver que essa proposta da OAB, da CNBB,
do MCCE e de mais cem
entidades, ela é contra o propósito declarado dessas entidades. Como
é que nós queremos voto programático e colocamos no segundo turno os
irmãos brigando entre si, uma luta fratricida?
Eu dei esse exemplo para o Marcus Vinícius, Presidente da
OAB, quando essa proposta foi criada. Tivemos um diálogo também com
o nosso querido ex-Deputado Aldo Arantes, pessoa tão ilustre, e
debatemos sobre isso.
Citei o Piauí como exemplo, com dois Deputados Federais do
PMDB. Vamos para uma eleição no primeiro turno. Tudo bem. Voto no
candidato, na proposta do PMDB, voto programático e ideológico.
Apuram-se os votos do Piauí e o PMDB teve 10% dos votos. Então
elegeu um Deputado Federal. Quem é esse? Eu sou o primeiro da lista,
e o meu colega, que era Deputado na época, é o segundo. Aí vamos
para o segundo turno, em que eu e o meu companheiro de partido nos
destruímos um ao outro. Quando, no primeiro turno, eu tinha um
universo de 100 mil eleitores para eu trabalhar e convencê-los a
votar em mim, agora tenho um universo de 2 milhões e 300 mil
eleitores. Quem votou no PMDB, quem votou no PT, quem votou em
qualquer outro partido passa a ser um potencial eleitor para
desmanchar a briga que vai existir no partido.
Então penso que o melhor que V.Sas. fariam seria retirar esse
segundo turno, que só vem de encontro a tudo que V.Sas. estão
propondo, redução de custos, acabar com a luta fratricida entre os
candidatos do mesmo partido e propor um sistema que existe no mundo
inteiro, que é o sistema de lista fechada. Existe na Suécia, na
Suíça, na Espanha, em Portugal, na Argentina, no Uruguai, na
Dinamarca. Vários países do mundo pregam esse
sistema.
Esse segundo turno eu acho que é um desvirtuamento das boas e
honestas intenções da coalisão democrática. Com todo o respeito e
honestidade, sou obrigado a dizer isso porque é o que eu penso em
profundidade e realidade.
Fica aqui a minha observação, parabenizando e pedindo à
sociedade civil organizada essa coalisão, que continue participando
ativamente, porque nós vamos precisar de uma maneira decisiva de
V.Sas. para conseguirmos aprovar uma reforma que avance e que
melhore o nosso sistema eleitoral brasileiro.
Muito obrigado.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rubens Otoni) - Obrigado, Deputado Marcelo
Castro.
Concedo a palavra ao Deputado Pedro
Fernandes.
O SR. DEPUTADO PEDRO
FERNANDES - Sr. Presidente, vou me retirar porque tenho um
compromisso e estão me chamando. Mas queria deixar uma pergunta:
como é que a CNBB e a OAB veem um plebiscito para a decisão do voto
facultativo?
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rubens Otoni) - Está registrada a
pergunta.
Com a palavra o Deputado Victor Mendes, já agradecendo pela
persistência e pela compreensão. Depois, concederei a palavra ao
Deputado Átila Lins.
O SR. DEPUTADO VICTOR
MENDES - Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, senhores
membros da Mesa, eu vou ser uma exceção, vou falar nos 3 minutos.
Antes, porém, de contar o meu tempo, eu queria saber, do ponto de
vista metodológico, já que esta é uma audiência pública e não ainda
de caráter deliberativo da Comissão, se as agendas ficaram
confirmadas às terças e quintas-feiras. Quinta-feira vai ter reunião
normal da Comissão?
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rubens Otoni) - Terça-feira à tarde, quinta-feira pela
manhã e sexta-feira seminário nos Estados.
O SR. DEPUTADO VICTOR
MENDES - Ok, Sr. Presidente. Esclarecido. A gente tem que dançar
bem rápido para pode chegar num resultado ainda em maio.
Eu queria parabenizar a Mesa, os trabalhos. Participei de
todas as reuniões e de todos os eventos da colisão, principalmente
no Estado do Maranhão, mas em caráter de aprendizado. Não vou negar
que eu entrei aqui com um espírito e, participando, ou com umas
ideias preconcebidas da minha experiência prática, que não é tão
grande quanto a de diversos Deputados que estão aqui, mas eu
acredito que tenho uma pequena experiência já, depois de 8 mandatos
como Deputado Estadual no Maranhão. Melhorei,
avancei no meu ponto de vista em algumas situações com base no
aprendizado, no debate da coalisão, principalmente
no Estado do Maranhão.
Por outro lado, fico preocupado com um trabalho, um movimento
paralelo de desqualificação — isso eu falei para o nosso Relator —
do que vai ser produzido aqui. Não pode haver esse sentimento de
desqualificação de que o texto que foi gerado na Comissão não é um
texto válido ou não é um texto representativo. Oportunidade para
debater esta Comissão está tendo. Tem feito desde quando foi
instalada.
Eu acredito, a meu ver, que não se pode também desconstruir o
que foi produzido na Legislatura passada. Acredito que os senhores
também
participaram, contribuíram e discutiram. Tanto é que o Dr. Marcelo
já disse que seria a sexta ou sétima vez, fruto de que já houve
muito debate, mas não tem consenso e não tem
objetividade.
Espero que realmente a gente possa contribuir com a objetividade de um texto. Não vai ser
um texto perfeito. Nosso processo de evolução está em construção.
Talvez a reforma política não seja um ponto final aqui, seja um
ponto continuado. Com certeza, vai ser daqui a 8, 10, 15, 16 anos
que vamos estar sentados de novo, tentando sempre melhorar esse
sistema.
Agora, o que há de comum, tanto da sociedade civil, como, eu
acredito, dos Parlamentares, em especial os membros desta Comissão
Especial, é a vontade de fazer uma reforma política. Acho que este
sentimento nos une: o de receber críticas, tanto de um lado, quanto
de outro.
No texto das PECs, eu não concordo com tudo o que está
exposto no texto. Mas também não
concordo com tudo o que está exposto no PL vindo da coalisão. Aqui
cito um exemplo, vou ressaltar o art. 16: “Não será declarada a inconstitucionalidade de lei
proveniente da iniciativa popular (...)”. Isso está no texto da coalisão.
Está no caderninho aqui:
“Art.
16 Não será declarada a inconstitucionalidade de lei proveniente de
iniciativa popular, salvo quando formada maioria absoluta no âmbito
do Supremo Tribunal Federal (...)”.
O SR. CLÁUDIO DE
SOUZA - (Intervenção fora do microfone.
Inaudível.)
O SR. DEPUTADO VICTOR
MENDES - Oi? Sim. Mas já se esgota um debate de inconstitucionalidade logo no
texto.
O SR. CLÁUDIO DE
SOUZA - (Intervenção fora do microfone.
Inaudível.)
O SR. DEPUTADO VICTOR
MENDES - Mas sem a tramitação nos órgãos, nas Comissões? Já é...? Não
pode...
O SR. CLÁUDIO DE
SOUZA - (Intervenção fora do microfone.
Inaudível.)
O SR. DEPUTADO VICTOR
MENDES - Tudo bem. É um questionamento que a gente tem que fazer
para ficar bem claro. Talvez o texto da lei não esteja passando essa
impressão, a impressão que a gente tem logo é
outra.
Alguns pontos para concluir meus 30 segundos. Vou pedir mais
30 segundos de tolerância. (Risos.) Esse aprendizado que está tendo a
colisão está sendo muito útil para que a gente possa amadurecer
alguns temas, para que a gente possa avançar em alguns temas,
concordar e discordar, para que a gente tenha um texto de consenso,
de extrair do sentimento da sociedade civil e também um texto de
consenso daqui da Câmara dos Deputados.
Fala-se muito em redução de custos de campanha. Acho que isso
é fundamental. É o primeiro passo. Financiamento público: nós temos
que traduzir para a base, para o caboclo do meu Maranhão, para o
cidadão do meu Maranhão, do Amazonas, do Pará, de São Paulo, do
Brasil, quem vai financiar o sistema público, da onde vai sair, de
qual rubrica vai ser retirado para poder financiar o sistema
público, de onde vai sair.
Hoje já há o fundo partidário, já há a propaganda gratuita,
mas ela não atinge todos os políticos. Agora que eu estou tendo a
oportunidade de participar de um programa de alcance federal do meu
partido, mas não atinge todo mundo. Para um Vereador não vai chegar
o financiamento público de campanha na base. Então, quero entender
melhor como vai ser a prática do financiamento
público.
Em relação ao financiamento privado, em vez de proibir, por
que não se limitar? Hoje a lei traz uma limitação de 2% do
faturamento bruto. Por que não se instituir 10 salários mínimos,
tanto para pessoa física, quanto para empresa de qualquer porte,
seja ela pequena ou grande? Por que se radicalizar logo de um
todo?
São essas as contribuições que, no momento oportuno, iremos
fazer, mas o espírito geral da minha fala seria de reconhecer o
importante trabalho e o serviço que a sociedade civil está
prestando. Esta Comissão está tendo também a oportunidade de ouvir e
melhorar seus posicionamentos. Dizer que está se cerceando e que não
está se ouvindo a vontade dos representantes de um segmento da
sociedade brasileira, acho que isso não está acontecendo aqui. Nós
estamos com espírito, estamos do mesmo lado, o lado de que saia uma
reforma política que atenda a sociedade e que atenda a classe
política, porque precisa também se fazer isso. É imperiosa essa
atitude da classe política pela sobrevivência dos políticos — dos
bons políticos — também.
Já concluindo, Sr. Presidente...
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rubens Otoni) - Cinco minutos.
O SR. DEPUTADO VICTOR
MENDES - Vou terminar.
Deixo
essa sugestão de dividir em emenda constitucional e emenda de
projeto de lei. É muito bom, facilita. Muitos assuntos mais simples
a gente pode melhorar através do projeto de lei. Por exemplo, não só
se fazer o lapso territorial, o espaço territorial, mas diminuir
também os tempos de campanha. Hoje em dia, são 90 dias de campanha.
Não precisa mais. Com Internet, estradas funcionando, nós não
precisamos de uma campanha tão longa. Que se diminua também um pouco
a campanha.
Já falei demais. Passo a palavra agora, acredito, ao Deputado Átila, já passando por cima do
Presidente.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Com a palavra o Deputado Átila
Lins.
O SR. DEPUTADO ÁTILA
LINS - Sr. Presidente, meu caro Relator, quero cumprimentar
todos que integram a Mesa dos nossos trabalhos, Dr. Cláudio,
Secretário-Geral da OAB, Dr. Marcelo, que já foi Presidente também
da OAB, velho conhecido, Dr. Carlos, que representa o Movimento
Contra a Corrupção Eleitoral.
Srs. Deputados, Sras. Deputadas, quero dizer que já estou no
meu sétimo mandato. Da mesma forma que o nosso Relator Marcelo
Castro, nós já estamos mais uma vez participando de uma comissão de
reforma política. Já se tornou uma rotina. Eu espero... Estou na
mesma expectativa do Relator Marcelo Castro, que agora a gente possa
chegar a um denominador comum, pelo menos que a gente aprove algo
que seja um consenso, uma reforma possível.
Eu até comentava na reunião anterior que me lembro de que nós
fizemos aqui uma reforma do Poder Judiciário. Para que ela fosse
promulgada, foi preciso fatiá-la. A primeira etapa foi promulgada, e
a segunda etapa até hoje não foi votada. De forma que acredito que
agora temos amplas possibilidades, até porque há um sentimento
generalizado no País de que essa reforma política tenha uma
definição, que haja a possibilidade de que ela se concretize. Há
muitos temas, muitas controvérsias.
Quero aproveitar para cumprimentar os representantes
da OAB, da CNBB. Inclusive, já fui convidado para fazer um debate —
viu, meu Relator? — em função de eu ser o único Deputado do Amazonas
nesta Comissão da Reforma para ir a Manaus para um debate com o
comitê estadual de lá, que está fazendo um trabalho muito
ativo.
Fui convidado também para ir à Assembleia Legislativa, que já
formulou um convite para eu comparecer àquele Poder para levar
sugestões, debater e trazer para o nosso Relator algumas ideias, do
que pensam os nossos amigos do Estado do Amazonas, tanto os
Parlamentares Estaduais, Vereadores, e até mesmo a sociedade civil
organizada, através dessas entidades.
Em relação a esses temas, eu acho que nós poderíamos... Quero
crer que o Deputado Marcelo Castro vai trazer um texto que realmente
haverá de conseguir o consenso. Se não é possível nós avançarmos
tanto, pelo menos algum tema terá que
avançar.
Tenho a mesma ideia do Deputado Marcelo Castro quanto à
questão do segundo turno para as eleições de Deputados, mas sou
muito simpático à tese de nós não termos mais financiamento privado
ou empresarial, como está se dizendo agora. Mas tenho uma
preocupação... Queria deixar esta pergunta para qualquer um dos
senhores que possam me responder: como conciliar um financiamento
público numa escolha de Parlamentar que não seja através da lista
preordenada?
Nós sempre concordamos que houvesse o financiamento público,
mas, para que ele pudesse ser colocado em prática, teríamos
obrigatoriamente que aprovar a lista fechada. E aí eu acho que não
seria de bom alvitre, até porque já ouvi duas vezes aqui o Renato
Molling falando como é que se pode entrar nessa tal lista fechada, e
deu o exemplo do Paraguai.
Portanto, eu queria deixar essa impressão de como conciliar o
financiamento público na escolha de Deputados, de Vereadores, na
medida em que você não vai aprovar a lista preordenada. No resto,
Sr. Presidente, acredito que este debate é importantíssimo. Estou
feliz, porque me parece que nós vamos chegar, em maio, com o texto
para levar ao Plenário. Isso é muito importante.
Que
nós possamos oferecer à Nação um projeto de reforma política. Que
não seja o ideal, mas que seja o possível para que a gente possa
fazer esse avanço tão necessário, já que estamos neste debate há
tantas Legislaturas. Não é isso, Deputado Marcelo
Castro?
Muito obrigado, Presidente. Eram essas as
considerações.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Com a palavra o Deputado Marcus
Pestana.
O SR. DEPUTADO MARCUS
PESTANA - Boa tarde a todos da Mesa, Srs. Deputados, Sras.
Deputadas.
Primeiro, independente da avaliação de mérito, quero elogiar a
iniciativa da OAB, da CNBB, do Movimento Contra a Corrupção e de
tantas entidades em um momento de esgarçamento profundo no mundo
inteiro da democracia representativa, em que os quadros partidários
não conseguem vocalizar o sentimento de uma sociedade fragmentada, e
a participação dos países avançados em algumas eleições é menor que
50%, quando há essa fratura.
No Brasil, a gente tem uma crise profunda e crescente da
ideia de representação. É muito importante que setores importantes
da sociedade se reúnam e se mobilizem para dialogar com o Congresso.
Outros setores vão se pronunciar também. A sociedade civil é rica,
diversa. Nós vamos ouvir diversos setores, mas a OAB e a CNBB têm um
papel importante na redemocratização e nas lutas da sociedade
brasileira.
Mas é importante, nesta discussão, falar um pouco do pano de
fundo teórico. Democracia é uma invenção humana. Como invenção
humana, ela é imperfeita: tem pecados e virtudes. A própria ideia de
representação carrega em si uma série de distorções. Isso povoa a
literatura desde Aristóteles, Platão, passa por Rousseau, Max Weber,
Gramsci, Bobbio e por aí vai. Recentemente,
foi lançado o livreto do Jacques Rancière, O Ódio à Democracia,
colocando a crise da ideia de representação na França e na
Europa.
A ideia de representação, quando você estabelece filtros, não
é uma democracia direta, é óbvio que ela tem imperfeições. Não há
nenhum sistema perfeito, tanto que todos os países têm
insatisfações, os de lista fechada, os de distrital puro, os de
distrital misto, todos. Ser humano é assim: atavicamente
insatisfeito e rebelde.
Mas eu queria, ao elogiar, muito sincera e transparentemente,
problematizar a ideia trazida aqui pelo movimento. Primeiro, nós
temos três grandes desafios. Em cada um deles, o projeto não
responde favoravelmente. O centro da reforma política tem que ser a
aproximação da sociedade da sua representação, o aumento do controle
social sobre os mandatos.
Eu estudo esse tema há 17 anos. Tenho pesquisas reiteradas em
vários planos, nacional e local, onde 70% da população não lembram o
nome e 95% não têm a menor ideia como os Deputados votam aqui em
assuntos essenciais como salário mínimo, Código Florestal, imposto
da saúde. Isso é gravíssimo: 95%! A sociedade não controla e não
acompanha o trabalho e o processo decisório. Esse é o centro da
reforma política. A questão do financiamento não pode obscurecer
isso. É importante lidar com isso.
No entanto, a proposta trazida não avança na superação desse
dilema. Não avança, porque continua, no frigir dos ovos, com
votações nominais em território aberto, em Estados num País
continental. A proposta não avança no sentido de criar coisa que se
daria coletivamente pela lista fechada, ou com algum tipo de
distritalização, seja misto, alguma regionalização do voto
proporcional ou distrital puro. É isso que a experiência universal
nos ensina. Então, a proposta não resolve a questão mais importante
da reforma política.
Em segundo lugar está a questão dos gastos e do
financiamento. Não adianta discutir financiamento se não
interferirmos na estrutura de gastos. Aí tem que mexer no território
ou num sistema mais racional. A proposta, ao contrário, não
barateia, vai encarecer ao introduzir dois turnos. Vai agregar mais
uma etapa. Depois eu vou esclarecer, porque não acho que é possível
essa formatação. as
vocês trazem uma rica reflexão.
Vamos dizer claramente: nós estamos em uma sinuca de bico
nesta questão. Financiamento público exclusivo a população é contra.
Há pesquisas reiteradas. Basta falar que vai tirar dinheiro da
educação e da saúde para pôr nas campanhas dos políticos que perde.
Há pesquisas reiteradas, nacionais inclusive. A população se coloca
contra o financiamento público exclusivo num País de tantas
carências.
A proposta de financiamento de pessoas físicas é meritória,
mas eu quero dizer uma experiência pessoal. Em 2006, tentei fazer,
mandei 10 mil cartas. Queria financiamento pulverizado. Foi um
retumbante fracasso. Em 20 dias, arrecadei 500 reais. E olha que eu
tinha certo prestígio, tinha sido Secretário de Saúde e tal. Mandei
para profissionais liberais. Não há essa tradição cultural. Isso não
quer dizer que não possa mudar. Essa é uma tradição grande nos
Estados Unidos, inclusive de arrecadação via Internet, mas não é a
nossa cultura.
O financiamento de empresas está altamente problematizado
depois do mensalão e do “petrolão”. Vamos dizer claramente, não
vamos dourar a pílula, nem tapar o sol com a peneira, não: o tema do
financiamento é uma encrenca, mas nós temos que resolver o problema
da estrutura de gastos. Só tem jeito de caminhar ou para algum tipo
de distritalização, ou para a lista fechada, como é em Portugal,
Espanha, Itália e em outros tantos países, ou algum tipo de
distrital, como é na Alemanha, ou algum tipo de regionalização do
voto.
Eu sou de Minas. Disputo 16 milhões de votos num espaço
territorial do tamanho da França e da Espanha com 853 Municípios.
Não há lógica. Não há qualidade na opção do eleitor. Ele não compara
os 1.000 candidatos. Ele vai ter contato superficial com uns 30 dos
1.000. Então, não há qualidade no voto. A proposta não resolve isso,
não barateia a campanha. Dá sugestões, insights, opiniões
importantes pelo lado da receita do financiamento, mas na questão da
despesa eu acho que ela não avança ao não mexer na questão essencial
da estrutura de gastos, que está no sistema
eleitoral.
Por último, o terceiro objetivo é o fortalecimento dos
partidos. Aí eu fiquei surpreso quando conheci a proposta. Tenho o
espírito, a alma, a cabeça e o coração abertos para aprender com os
diferentes, mas fiquei... Realmente é uma coisa muito complicada.
Nós temos um quadro pulverizado, o sistema atual já põe os
companheiros para competir, mas esse é levar ao
extremo.
Acho que o Marcelo Castro, nosso Relator, com toda
experiência e sabedoria, disse bem. Acho que o melhor e totalmente
legítimo é assumir a lista fechada como uma posposta de sistema. Eu
estive na eleição de Portugal, na Semana Santa do ano passado, de
Deputado Europeu. Você não pode sonegar a lista no primeiro turno.
Você tem que explicitar a lista no primeiro
turno.
Eu vi os outdoors
e até me assustei. Havia retrato, para dar carne e osso. Eu falava:
“Se é lista fechada em
Portugal, porque tem retrato de gente ali?”. Quando você chegava
embaixo, estava lá: “Fulano é
o primeiro da lista”. Então, a lista tem cara e rosto. Você
explicita qual é a lista. Você não pode eleger o partido
abstratamente no primeiro turno e explicitar a lista no
segundo.
E o que introduz? No segundo turno, quando vai estar em jogo
a eleição do Governador e do Presidente da República, você vai pôr
os companheiros para ficar com foto no seu amigo de partido e
esquecer os adversários. Não há partido que saia unido e forte de
uma eleição como essa. Vai ser uma autofagia completa. Mas
vocês
trouxeram reflexões interessantíssimas. Acho que vocês
vão contribuir para o debate. Nós vamos pensar sobre tudo o que foi
dito.
Agora, para finalizar, Presidente, Relator, foi dito hoje de
manhã e aqui também que nós temos que ter um acordo de
procedimentos. Hoje o nosso Prof. Renato disse muito bem que tem que
haver coerência das partes. Independente de ser lei ordinária, lei
complementar ou PEC, é um todo. O
todo pode ser fatiado, mas ele tem que ter consistente entre si. Nós
temos que ter um acordo de procedimento, porque vai sair um pacote,
e este vai ter uma lógica. Podemos até não votar tudo, mas não pode
ser uma anarquia em que depois uma proposta vai contradizer outra.
E por isso que eu opino para os que vão conversar com o
Presidente. Só tem um jeito para que isso aconteça: a Comissão de
Estudos gerada precisa ser a mesma, com os mesmos integrantes, com o
mesmo Presidente, com o mesmo Relator. Senão, vai ser uma bagunça, e
nós vamos jogar contra o patrimônio, fazer gol contra e atrasar
ainda mais a apreciação e a votação de uma reforma
política.
Muito obrigado.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Deputado Jean
Wyllys.
O SR. DEPUTADO JEAN
WYLLYS - Obrigado, Sr. Presidente.
Embora esteja cansado de ouvir esse proselitismo para tirar
uma dúvida com os representantes da Mesa, eu resisto para fazer a
minha pergunta. Mas já que eu tive que ouvir aqui proselitismo de
todo o tipo, eu também farei o meu.
E quero lembrar que, desde o primeiro dia dos trabalhos, tem
havido uma divergência sobre o alcance da representação parlamentar
ou sobre a qualidade da representação parlamentar. Há Deputados aqui
que advogam que não há que se ouvir a sociedade civil na sua
pluralidade, porque nós já a representamos. Esse tipo de argumento
desconsidera a maneira como se dão hoje as eleições, o contexto em
que elas acontecem e a determinação da força da grana. Prova disso é
o dado trazido aqui pelo Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral:
1,5% dos doadores privados são pessoas jurídicas. Elas doam mais da
metade do dinheiro das campanhas.
Até parece que não existe constituição de curral eleitoral,
compra de votos, Deputados que são proprietários de meios de
comunicação. Parece que a sociedade civil se manifesta livre, de
fato, e conscientemente para dizer que essa representação está dada.
Nenhuma representação está dada.
E sem querer aqui fazer defesa da OAB, do Movimento de
Combate à Corrupção Eleitoral e da CNBB — não sou membro de nenhuma
das três instituições —, eu queria dizer que elas podem não ser toda
a sociedade civil, mas são parte dela. Não vi nas falas aqui nenhum
argumento, nenhuma pergunta à proposta trazida. Muito pelo
contrário, apareceu até animosidade contra a OAB e a CNBB, inclusive
com a definição de qual é o papel delas na sociedade, como se ambas
não tivessem o direito de participar do debate político e da reforma
eleitoral, o que eu acho lamentável e
arrogante.
É importante também dizer onde isso reflete. Eu entendi muito
bem a fala do Carlos Moura quando elencou todos os projetos de lei e
as proposições que estão aqui e as derrotas que os diferentes
setores da sociedade vêm sofrendo, no caso, por exemplo, da PEC 215,
e eu cito especificamente o Estatuto da Família. Embora a família
brasileira seja plural, existam diferentes arranjos familiares,
desde as famílias compostas por avós e netos, até as famílias
homoparentais, apesar dessa diversidade de família, há um estatuto
da família para ser votado aqui que quer negar o reconhecimento das
famílias homoafetivas e o direito das pessoas homossexuais a adotar
crianças. Isso significa que diferentes segmentos da sociedade não
estão aqui representados, embora haja gente defendendo que a
sociedade civil está aqui toda representada.
Bom, feito o meu proselitismo, eu dirijo a minha pergunta ao
Carlos. São duas perguntas específicas. Eu não entendi bem quando o
senhor disse que na hipótese de vir a ser aprovada a PEC, que é uma
proposta de emenda à Constituição, o Supremo Tribunal Federal pode
derrubá-la e julgá-la inconstitucional. De que maneira? Parece-me
que há um acordo tácito, não dito, não divulgado entre o Ministro
Gilmar Mendes e algum representantes desta
Casa.
O Ministro Gilmar Mendes se debruçou sobre o projeto, que já
tem seis votos, lá no STF, enquanto esta Casa, Relator, tenta
acelerar a conclusão dos trabalhos — há aqui uma pressa para a
conclusão dos trabalhos — para que aprovemos esta PEC. Então,
parece-me que se a Constituição for alterada, o processo lá perderá
sua validade. Eu gostaria que o senhor me esclarecesse
isso.
E um segundo ponto. Quero saber o que diz a proposta do
senhor sobre a candidatura avulsa. Eu devo concordar que a gente tem
que pensar nela. Como fica o cidadão que não se identifica
ideológica nem programaticamente com nenhum partido, por exemplo, o
que emerge de um movimento social, como o Movimento dos
Trabalhadores Sem Terra? Como fica a candidatura avulsa nessa
proposta?
São essas as minhas duas perguntas.
O SR. CLÁUDIO DE
SOUZA - Bom, eu gostaria de começar a responder as perguntas
formuladas pela Deputada Moema Gramacho.
Esse modelo dos dois turnos, na verdade, busca enfrentar um
problema fundamental no sistema político brasileiro. O sistema
político brasileiro, por definição constitucional, é proporcional. E
o instrumento que o sistema concebeu para quantificar a proporção da
participação de cada partido na Câmara dos Deputados é o sistema da
transferência de votos. A transferência de votos é o meio elegido
pela nossa legislação para definir quantas cadeiras terá cada
partido na Câmara dos Deputados e nas demais Casas
legislativas.
Pois bem, o que a gente propõe é a substituição desse
sistema. Para nós, o sistema de transferência de votos não está
funcionando bem. Hoje, menos de 10% dos Deputados apenas foram
eleitos com votos próprios, 90% foram eleitos com votos transferidos
— votos dados a outros Parlamentares ou à legenda partidária e
transferidos.
Se isso estivesse ocorrendo de maneira transparente,
garantindo realmente a prevalência da vontade popular, tudo bem. Mas
esse não é o diagnóstico. Então, nós queremos substituir o
mecanismo, substituir o instrumento de definição da participação de
cada partido na composição global das Casas parlamentares.
E queremos tornar muito claro as duas funções exercidas pelo
voto. No primeiro turno o candidato vota no partido. Essa função do
seu voto, que é a de definir a participação de cada partido nas
Casas parlamentares é exercida de maneira clara,
objetiva.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Sr. Carlos, peço apenas um
minutinho.
Como está tendo votação nominal — e acho que já está acabando
—, nós temos que ir ao plenário rapidinho. Iremos lá e já voltamos.
Declaro suspensa a reunião.
(A reunião é
suspensa.)
(Pausa.)
O
SR. CLÁUDIO DE SOUZA
- Essa é a resposta que teria para a Deputada Moema. O sistema é
simples, e a nossa única pretensão é alterar a forma de definição da
proporção dos partidos no Parlamento.
Um ponto importante, já antecipando um pouco um aspecto que o
Relator da Comissão apresentou sobre o sistema proporcional de lista
fechada. Ou seja, o problema é que esta nossa proposta busca ser
oferecida ao Parlamento como base para um consenso. Nesta Casa, há
Deputados que defendem de maneira muito incisiva a lista fechada.
Outros Deputados defendem de forma muito incisiva o sistema
majoritário com o argumento de que, na verdade, o povo deve ter a
última palavra sobre as pessoas que ocuparão as cadeiras no
Parlamento. Então, esta é uma proposta que busca incorporar o
fundamental da preocupação dos dois flancos em que se divide o
debate. De um lado, quem propõe a lista fechada está preocupada com
a qualificação dos partidos, com a qualificação do processo
eleitoral, querendo que o debate seja mais ideológico, mais centrado
em programas e menos centrado em pessoas. Isso está plenamente
contemplado na nossa proposta porque, no primeiro turno, o debate
será um debate programático, um debate em torno de ideias. Já quem
defende o sistema majoritário diz que, na verdade, a tradição do
Brasil é que a pessoa se identifique com a pessoa do Parlamentar. E
isso também está plenamente contemplado na nossa proposta porque, no
segundo turno, a pessoa votará na pessoa do candidato. Portanto,
caberá ao povo dar a última palavra sobre aqueles que integrarão o
Parlamento, o que inclusive reduz o poder das elites partidárias,
porque a última palavra caberá ao povo.
A Deputada Moema Gramacho ainda pergunta como se formam novas
Lideranças. Nenhum sistema é perfeito. Quando adotamos um sistema,
nós perdemos algumas vantagens de outro sistema. A nossa percepção é
de que, como temos eleição para Vereadores, para Prefeitos de
múltiplas cidades Brasil afora, para Deputados Estaduais, para
Governadores... Ou seja, nós temos muito espaço para formação de
Lideranças. Entidades representativas da sociedade civil... Enfim,
há inúmeros meios e formas de formarmos novos líderes no Brasil. É
claro que, se compararmos com o sistema atual, algo disso pode ser
perdido, mas nós entendemos que compensa pela redução do custo das
campanhas eleitorais e pela circunstância de criarmos eleições mais
programáticas e centradas nas ideias daquilo que vigora no sistema
anterior.
O Deputado Marcelo Castro e o Deputado Jean Wyllys perguntam
sobre o problema da inconstitucionalidade da PEC. Qual é o
argumento? O Supremo Tribunal Federal declara propostas de emenda à
Constituição inconstitucionais. Faz isso regularmente. Por exemplo,
agora estão debatendo o problema da Emenda Constitucional nº 62, que
é a emenda dos precatórios. O Supremo Tribunal Federal declarou a
emenda inconstitucional. Estão discutindo agora o problema da
modulação dos efeitos, desde quando a declaração de
inconstitucionalidade valerá.
O SR. DEPUTADO JEAN
WYLLYS - Esse julgamento é com base nos fundamentos e nas
cláusulas pétreas? É isso que eu queria entender, Cláudio.
O SR. CLÁUDIO DE
SOUZA - Isso. Quando uma emenda constitucional pode ser
declarada inconstitucional? Quando viola uma cláusula pétrea. Isso
está lá na Constituição, em seu art. 60, §
4º:
“Não será objeto de
deliberação a proposta de emenda tendente a abolir:
I - a forma federativa de Estado;
II - o voto direto, secreto, universal e
periódico;
III - a separação dos Poderes
IV - os direitos e garantias
individuais.”
(Não
identificado) - Mas esta cláusula pétrea é exegese do texto
constitucional.
O SR. CLÁUDIO DE
SOUZA - Exegese que tem sido exatamente feita pelos Ministros do
Supremo ao fundamentarem os seus votos na ADI contra o financiamento
empresarial de campanha. Quando nós vamos verificar os votos, eles
estão fundamentados no princípio democrático, no princípio da
igualdade política, que também integra o nosso capítulo dos direitos
políticos, e no princípio republicano. Todos são cláusulas pétreas.
Então, a inconstitucionalidade que macula a legislação atual, ao
permitir o financiamento empresarial de campanha, segundo os
argumentos que estão postos nos próprios votos do Ministro do STF,
macularia também uma emenda constitucional aprovada com esse
objetivo.
Então, é só esse o ponto que eu gostaria de trazer para a
reflexão dos Deputados, no sentido de que realmente possa ter lugar
também um grande esforço de adaptação da legislação ao que a
Constituição determina e, sobretudo, considerando também o que já
consta dos votos dos Ministros do Supremo Tribunal
Federal.
Outro aspecto que nós gostaríamos de enfatizar também,
respondendo ao Deputado Relator Marcelo Castro, é que o segundo
turno retiraria o potencial inovador e positivo da proposta. Pelo
que eu entendi, V.Exa. defende o voto em lista fechada. Eu repito a
V.Exa.: dentro da própria Coalizão, há pessoas com modelo próprio,
mas a concepção que nós estamos apresentando aos Parlamentares é um
projeto que possa ser a segunda melhor opção. Embora não seja a
opção ideal para muitos, é uma opção possível, com base na qual será
possível construir o acordo, justamente porque contempla
preocupações de quem é contra, por exemplo, o voto em lista fechada
e defende o voto na pessoa.
Então, é uma preocupação de gerar o consenso, de oferecer aos
Parlamentares uma proposta que possa, na linha do que já dizia o
Deputado Átila Lins, apresentar uma reforma política possível. A
proposta que nós estamos apresentando é a proposta de uma reforma
política possível. Se for perguntar a opinião de cada Parlamentar, é
capaz de verificarmos que cada um deles possui uma proposta própria
e específica de reforma política. Qual será aquela capaz de
construir o consenso? Esse foi o propósito que nós tínhamos ao
apresentar a proposta.
O Deputado Marcus diz que a população rejeita o financiamento
público. E rejeita igualmente o financiamento empresarial. Nós
encomendamos uma pesquisa ao IBOPE ou ao Datafolha — agora não
lembro qual, mas foi um dos dois grandes institutos — e mais de 70%
da população rejeitaram o financiamento empresarial. A nossa
percepção é de que o modelo que a população deseja é o de
financiamento democrático, em que o cidadão possa realizar as
doações.
O SR. DEPUTADO JEAN
WYLLYS - Cláudio, permite-me um aparte?
O Deputado Pestana falou que não cola no Brasil a ideia de um
financiamento privado de pessoa física, mas eu quero ressaltar que a
minha campanha foi toda financiada com doação de pessoa física no
Brasil inteiro. Ela custou pouco mais de 60 mil reais dessas doações
individuais de pessoas físicas, não pessoas jurídicas, e eu fui
eleito com quase 145 mil votos. Então, as coisas estão começando a
se transformar e há possibilidade de se transformarem, sim, não só
nos Estados Unidos.
O SR. DEPUTADO MARCUS
PESTANA - Mas V.Exa. é um líder de opinião, é uma exceção que
comprova a regra.
O SR. CLÁUDIO DE
SOUZA - Já concluindo, o Deputado Marcus ainda menciona que a
proposta não barateia as eleições. Barateia, Deputado. Nós fizemos
as contas e, se aplicada, ela reduz em 75% o número de candidaturas
individuais. Os Deputados que concorreriam no segundo turno são
apenas 25% do que os que concorreriam nas eleições
gerais.
O SR. DEPUTADO MARCUS
PESTANA - Vocês não podem esconder a lista no primeiro
turno.
O SR. CLÁUDIO DE
SOUZA - A lista se mantém aberta no primeiro
turno.
O SR. DEPUTADO
MARCELO CASTRO - No primeiro turno, a lista é
fechada.
O SR. CLÁUDIO DE
SOUZA - Mas, por razões de transparência, é preciso divulgar os
Deputados que integram aquela lista — é claro! Mas a campanha é
feita com base em ideias. Não é possível fazer
uma...
O SR. DEPUTADO MARCUS
PESTANA - Mas então eu não entendi. Vamos supor que há uma lista
de 30 candidatos do Rio de Janeiro: do PT, do PSOL, do PSDB, do
PMDB. Aí se fez cinco cadeiras e se pode lançar dez. Havia 30 na
lista. O partido faz uma reopção e exclui 20?
O SR. CLÁUDIO DE
SOUZA - Exclui 20. Os dez primeiros da lista vão disputar as
cinco cadeiras. É isso. Há um preordenamento, feito por meio de
eleições primárias e divulgado à população. Será feita uma primeira
eleição programática, centrada nas ideias. E, é claro, os partidos
com candidaturas fortes ao Executivo terão também um bom cabo
eleitoral de votação no partido. No segundo turno, se o partido tem
três vagas, seis são os candidatos que vão
disputar.
O Deputado menciona que esse segundo turno vai gerar disputas
intrapartidárias. As disputas intrapartidárias prevalecerão. Agora,
repito, não existe proposta perfeita. Com toda proposta, nós
perdemos ou ganhamos alguma coisa. A nossa percepção, porém, é de
que o modelo atual é muito ruim e de que a população está
absolutamente insatisfeita com ele. Temos que alterá-lo! E a
alteração que nos parece possível, que não é importada de outro
país, que não sabemos como funcionará concretamente entre nós, que
parte do modelo em vigor e busca corrigir suas disfunções, ou
reduzi-las, pelo menos, é baseada nessa proposta que estamos
apresentando.
A Coalizão não tem uma posição sobre candidatura avulsa — que
eu saiba não houve a discussão sobre esse tema — nem a OAB. Então,
eu não poderia, Deputado Jean Wyllys, trazer uma opinião das
entidades sobre esse assunto.
O SR. DEPUTADO JEAN
WYLLYS - Mas o senhor não tem uma consideração individual a
fazer?
O SR. CLÁUDIO DE
SOUZA - Não. A princípio...
O SR. DEPUTADO MARCUS
PESTANA - É incompatível com a lista
partidária.
O SR. CLÁUDIO DE
SOUZA - Enfim, minha posição pessoal é de que não seria uma boa
alternativa neste momento.
Concluo, Presidente, novamente agradecendo a oportunidade de
falar aos Deputados, de a OAB vir aqui. E reafirmo que nós
oferecemos essa proposta aos Parlamentares como uma contribuição. É
uma contribuição que busca não ser nem do Governo nem da Oposição. É
uma contribuição que busca, ao mesmo tempo, se distanciar e
incorporar o que há de fundamental no que é defendido pelos diversos
partidos que integram esta Casa.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - V.Exa. vai querer
falar?
O SR. DEPUTADO MAX
FILHO - Sr.
Presidente, antes de mais nada, quero saudar a participação dos
senhores e a paciência em estarem participando conosco, mesmo diante
de um plenário que foi esvaziado em razão da votação nominal no
plenário da Casa. Quero ressaltar a participação da OAB, da CNBB e
de outras entidades.
Na verdade, a Constituição Federal até dificulta iniciativas
populares de projetos de lei, dado o alto percentual de assinaturas
exigido do eleitorado para subscrição das propostas. Especialmente a
proposta da Coalizão Democrática toca nos dois pontos centrais: a
questão do sistema eleitoral e do financiamento de campanha. O
Relator Deputado Marcelo Castro, inteligentemente, agrupou esses
dois pontos no primeiro bloco, como sendo dos mais importantes. Eu
acho que é a nossa decisão primeira, e a legislação
infraconstitucional deve regulamentar as decisões de fundo que
haveremos de tomar.
Sobre esses dois pontos, eu queria fazer breve análise e
tentar me ater àqueles 3 minutos combinados. Quanto à questão da
lista fechada, a grande crise de credibilidade hoje afeta,
sobretudo, os partidos políticos. Talvez, nós precisássemos fazer
uma reforma partidária até antecedendo uma reforma do sistema
eleitoral de votação por listas partidárias.
Nós hoje temos a questão partidária. Os partidos políticos no
Brasil são casas fechadas, não estão abertas. Na verdade, a Lei
Orgânica dos Partidos Políticos definiu, em 1996, que os partidos
políticos fossem pessoas jurídicas de direito privado onde não há
matéria de ordem pública regendo a vida interna dos partidos. Hoje,
os partidos sendo pessoas jurídicas de Direito Privado são regidos
pelas suas leis internas, pelos seus estatutos que fazem lei,
agremiações partidárias que não têm vida orgânica, não elegem seus
diretórios. Quem controla o partido em Brasília, controla o partido
em cada Unidade da Federação. São esses personagens que irão decidir
quem serão os eleitos.
O Relator Marcelo Castro coloca, inclusive, a sua situação
pessoal na Paraíba: de que há ele e outro Deputado do PMDB. Se o
PMDB fizesse apenas uma cadeira, V.Exa. não iria disputar com outro
Deputado, porque tem que haver alternância de sexo: candidatura do
sexo masculino intercalada com a do sexo feminino. O partido iria
rifar um dos senhores e entregar quem seriam os eleitos. As cúpulas
partidárias que nós temos hoje, eu acho que é uma preocupação de boa
parte dos membros desta Comissão.
Quanto ao financiamento das campanhas, eu, particularmente,
sou partidário do financiamento público das campanhas. Gostei muito
da proposta. Talvez ela não resolva a questão do custo da campanha.
Por exemplo, para não “fulanizar” a discussão, a candidata que se
sagrou vencedora na eleição presidencial, o seu teto de gasto foi de
383 milhões de reais, e o do seu principal oponente — também
evitando citar nomes para não “fulanizarmos” o debate — foi em torno
de 290 milhões. Em apenas um cargo em disputa, nós já teríamos meio
bilhão de reais, que, certamente, viria dos cofres públicos.
Uma questão que tem de ser elucidada é a fonte desse
financiamento. Se nós teríamos que aumentar impostos, onde teríamos
que cortar do Orçamento da União custos dessas campanhas, que
são muito altos. Eu concordo com alguns Deputados que ponderaram a
questão do território geográfico onde vão-se disputar as campanhas,
tornando-as muito caras, custosas.
A quantidade de partido político que nós temos hoje no
Brasil, na verdade, todos eles, certamente, receberiam recursos
públicos para as suas campanhas. Essa multiplicidade de partido
politico faz-me lembrar de uma frase de Ulysses Guimarães, que
defendia o pluripartidarismo. Ele dizia: “Pluripartidarismo sim,
multipartidarismo não”.
E como é que fica o financiamento da campanha? Vamos ter
dinheiro para financiar todos esses partidos que nós temos hoje?
Qual seria o limitador desse gasto público?
O Brasil fechou suas contas no ano passado com o maior rombo
das suas contas públicas da história. Isso não foi culpa apenas do
Governo Federal — claro, o Governo Federal pilotando —, mas dos
Governos Estaduais e dos Governos Municipais
também.
Como faríamos com o candidato laranja, ou seja, aquele
candidato que é lançado apenas para ocupar o espaço de tempo de
televisão de determinado partido e, às vezes, cumprindo tarefa de
outro candidato interessado na disputa? O poder público financiaria
a campanha desse candidato laranja, que, certamente, não vai fazer
campanha; vai ocupar apenas esses espaços, prestando serviço para
outra candidatura?
Então, são algumas preocupações que tenho, diante da
perspectiva da adoção do financiamento público das campanhas.
Um artigo do projeto de lei de que nós estamos tratando, de
autoria da OAB e das demais entidades, me chamou a atenção, porque
começa a alterar a Lei Orgânica dos partidos Políticos, a Lei nº
9.096. O art. 4º — eu estou lendo a página 50 — altera o art. 31, em
seu § 2º. Diz textualmente o seguinte: “É vedada a doação de empresas
privadas aos partidos políticos.”
E aí eu me perguntei: será que empresa pública estaria aí, já
que estamos falando de financiamento público das campanhas? Tudo
bem. É certamente algo que a gente pode corrigir e aperfeiçoar no
texto.
Eu creio que o financiamento dos partidos políticos é, de
fato, a origem de boa parte dos nossos males, porque os candidatos
podem arrecadar recursos para as suas campanhas a partir do registro
das suas candidaturas. Só então eles podem arrecadar recursos.
Concordo que nem todos os homens públicos conseguem arrecadar
recursos para a sua campanha sem fazer disso uma moeda de troca no
exercício do mandato, remunerando, de certa forma, aqueles seus
financiadores de campanha. Agora, a doação ao partido político, de
fato, é um problema, porque o partido político pode arrecadar em
época de campanha e fora de época de campanha.
E o que nós temos assistido dos escândalos que se sucedem é
exatamente isso: doações legais, loteamento da máquina pública, das
empresas estatais, partido tal controlando diretoria tal — e
arrecadou de forma legal. Eu acho que isso que vocês estão trazendo
aqui é importante. Nós devemos nos debruçar sobre esse texto, talvez
aperfeiçoando algum aspecto, mas esse é o fundo da questão. Acho que
essas contribuições são importantes.
Saúdo a presença de vocês. Agradeço a paciência de estar
aqui, num plenário um tanto quanto esvaziado. Eu não gostaria de
perder a oportunidade da presença dos senhores para a gente poder
esmiuçar e debater esses pontos, que são muito importantes no
contexto da reforma.
Obrigado, Sr. Presidente.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Deputado Henrique, quer falar?
O SR. DEPUTADO
HENRIQUE FONTANA - Peço 3 minutos, Sr.
Presidente.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Não, 1 minuto. De manhã, V.Exa. falou
10.
O SR. DEPUTADO
HENRIQUE FONTANA - Está bem Presidente.
Na verdade, eu tive outro compromisso e voltei. Talvez o meu
questionamento já tenha sido respondido pelo nosso Relator. Não vou
abordar hoje o projeto que está em debate. Eu tenho participado de
muitas reuniões. Tenho uma afinidade muito grande com a proposta
aqui explicitada hoje, mais uma vez, pela OAB, pela CNBB, pelo
Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral, mas eu estou com a minha
preocupação focada no nosso Regimento, que é implacável. Se está
confirmada a informação que eu tinha até hoje de manhã, temos como
prazo limite para apresentação de emendas...
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Dia 10.
O SR. DEPUTADO
HENRIQUE FONTANA - Dia 10, ou seja, terça-feira da semana que
vem. Então, melhorou, inclusive, em relação à expectativa anterior,
que era sexta-feira.
(Intervenção
fora do microfone. Inaudível.)
O SR. DEPUTADO
HENRIQUE FONTANA - Obrigado, Presidente. Antes eu tivesse esse
poder. O Regimento deve ter nos ajudado: algum dia não houve a
sessão ordinária; então, nós ganhamos 1 dia.
Eu sei que é da vontade do nosso Relator e do Presidente
também que nós tenhamos nesta Comissão o funcionamento das duas
Comissões, que nós estamos apelidando aqui de “Comissões gêmeas”.
Faríamos um apelo aos partidos políticos para que nomeassem os
mesmos integrantes; o Relator relataria as suas Comissões e o
Presidente as presidiria. Nós, ao final dos trabalhos, poderíamos
ter um projeto de lei e uma PEC ou mais de uma PEC, se a sugestão
que eu e outros estamos trazendo fosse acolhida para poder, pelo
menos, dividir alguns assuntos, não colocando tudo dentro de uma
única emenda constitucional, o que dificulta a votação para todos
nós.
Eu dizia hoje — Deputado Pestana, naquele momento, não estava
na reunião —, por exemplo, que estou convencido de que o fim das
coligações proporcionais é importante para aperfeiçoar o nosso tempo
político e vou trabalhar muito para que se mantenha o voto
obrigatório, que acho ser mais democrático. Então, se estão as duas
na mesma PEC, fica mais difícil de votar.
E a nossa preocupação, Sr. Presidente, é de como apresentar
as emendas, porque hoje de manhã, quando eu fiz a reunião com a
nossa equipe, me disseram que escreveriam, por exemplo, toda a
proposta de financiamento eleitoral apresentada aqui pela OAB, pela
CNBB, pelo Movimento Eleições Democráticas como emenda à
Constituição, o que não é a técnica legislativa adequada, porque a
Constituição é para as grandes diretrizes, e o financiamento
eleitoral não deve ser debatido a título de alteração
constitucional.
Então, pergunto se V.Exa. pode nos responder se teremos as
duas comissões, se poderemos emendar, se teremos um dos projetos a
orientar o debate na Comissão que vai tratar do projeto de lei, e
como a gente deve se conduzir nesses próximos 7 dias, que é o
período que temos então até a (ininteligível).
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Eu prometo que hoje, assim que encerramos
aqui, eu vou com o Relator ao encontro do Presidente para tentarmos
uma solução, e informaremos à Comissão por e-mail entre hoje e
amanhã.
O SR. DEPUTADO
HENRIQUE FONTANA - Obrigado, Sr. Presidente. Era só
isso.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) Com a palavra o Deputado Tadeu
Alencar.
O SR. DEPUTADO TADEU
ALENCAR - Quero proferir breves palavras, Sr. Presidente, apenas
para cumprimentar a Comissão da Reforma Política pelos trabalhos de
hoje. Está sendo um dia muito rico. Acho que é muito importante a
gente participar de todos esses debates, em especial desse que
começou com a participação da Coalizão pela Reforma Política
Democrática e Eleições Limpas.
Quero cumprimentar a CNBB, através do Dr. Marcello Lavenère e
do Padre Ernane, que já esteve uma temporada lá no nosso Pernambuco;
o Sr. Aldo Arantes; nosso companheiro da OAB, Cláudio de Souza, o
Carlos Moura, do Movimento de Combate à Corrupção
Eleitoral.
Sr. Presidente, eu acho que nós estamos num momento de
degradação muito grande da política e é por isso que, a despeito de
todas as tentativas debalde de fazer uma reforma política... Não
quero perder, mesmo sendo Deputado de primeiro mandato, a
expectativa que vejo depositada por muita gente com quem conversamos
Brasil afora, de que de fato precisamos de uma reforma política que
possa atingir vários objetivos mencionados aqui, um deles, sem
dúvida nenhuma, a diminuição do poder econômico nas eleições. É algo
extremamente insalubre a forma como o processo eleitoral vem-se
dando, gerando uma promiscuidade de todo inadequada ao espírito
republicano.
Além disso, há a questão do sistema eleitoral. Eu acho que
hoje aqui, desde a exposição do Professor Renato, passando pela
proposta da Coalizão, discutimos e, ouvimos a opinião de vários
Deputados experimentados, como o Deputado Marcus Pestana, como o
Relator, Deputado Marcelo Castro, enfim, ouvimos muitas visões que
vão clareando a perspectiva de que a gente deve aproveitar o tempo
curto que temos.
E esse é um desafio para a Coalizão, não apenas o de espelhar
o que ela representa, sem dúvida nenhuma, com um grau de
legitimidade extraordinário, porque são instituições que ao longo da
vida brasileira estiveram sempre na linha de frente da defesa da
democracia em momentos cruciais, como a OAB, a CNBB. Eu quero
recusar, de modo muito firme, muito peremptório, qualquer tentativa
de diminuir o papel da CNBB, dessas entidades e da OAB na
representação da sociedade civil, que efetivamente não se esgota
nessas entidades, por mais importantes que sejam. Mas esse papel não
pode ser diminuído.
E acho que, se a gente conseguir diminuir o poder econômico,
aproximar o eleitor de seus representantes, fortalecer os partidos,
aumentar a participação e o controle social e resolver esse problema
da sub-representação das mulheres e de outras ditas minorias, mesmo
quando são claramente maiorias expressas no conjunto da sociedade.
Seja qual for a fórmula que encontremos para resolver esses
problemas, eu acho que essa busca é um desfio grande, mesmo com esse
espírito que o Deputado Henrique Fontana mencionou existir na
Comissão, em que há claramente um esforço mesmo daqueles com
posições que foram inconciliáveis no passado, sendo responsáveis por
uma certa paralisia das propostas anteriores.
E quero, Sr. Presidente, cumprimenta-lo pela sua condução
democrática, permitindo que todos se manifestem da forma mais
abrangente possível.
Eu quero dizer que o PSB, o meu partido, ao longo desta
semana, está fechando uma posição sobre todos esses pontos, sem
dúvida, muitos deles afinados aqui, salvo quanto a um ponto ou outro
da proposta da coalizão.
Muito obrigado.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Antes de encerrar, quero agradecer a
presença da OAB, da CNBB e do Movimento Contra a Corrupção
Eleitoral. Como Presidente, digo que a Comissão está à disposição
para que outros debates possam acontecer, não necessariamente uma
audiência pública, mas a gente pode fazer reuniões menores,
discutir. Eu estava conversando aqui com o Carlos e acho que há
alguns pontos que precisam ser debatidos. A grande crítica da lista
fechada é o caciquismo, e essa questão não é resolvida nesse projeto
de lei.
Agora, o segundo ponto — a eleição restringindo o número de
candidatos — vai convergente ao distritão: reduz o número de
candidatos que não têm nenhuma chance e estão ali apenas para
cumprir tabela. E acaba que os governos têm uma força muito grande,
porque nomeia todo mundo e depois monta uma chapa com os nomeados.
Então, eu acho que a gente pode avançar no debate de algumas
questões. Acho que é importante que se tente chegar a um projeto do
qual todos façam parte, do qual todos se sintam parte, os que têm
mandato e aqueles que têm representação na
sociedade.
Antes de encerrar, agradeço, mais uma vez, a participação de
cada um.
A SRA. DEPUTADA MOEMA
GRAMACHO - Presidente, só a título de esclarecimento: V.Exa. já
tem um calendário das novas audiências?
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Eu vou...
A SRA. DEPUTADA MOEMA
GRAMACHO - Só como sugestão!
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Toda terça-feira e quinta-feira.
A SRA. DEPUTADA MOEMA
GRAMACHO - Não, eu falo porque vários requerimentos foram
aprovados em audiências específicas.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Nós temos, quinta-feira, o Deputado
Marcelo Castro e o Deputado Esperidião Amin, que vão apresentar a
PEC original da criação desta Comissão, para que todos saibam de
onde...
O SR. DEPUTADO
HENRIQUE FONTANA - Quinta-feira de manhã,
Presidente?
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - O quê?
O SR. DEPUTADO
HENRIQUE FONTANA - Quinta-feira?
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Quinta-feira de
manhã.
A SRA. DEPUTADA MOEMA
GRAMACHO - Não, não é isso o que eu estou falando.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Calma!
A SRA. DEPUTADA MOEMA
GRAMACHO - Estou falando em relação às audiências
públicas...
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Eu estou falando que é só uma
audiência pública.
A SRA. DEPUTADA MOEMA
GRAMACHO - Ao convite das pessoas.
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Sim! Na terça-feira à tarde, eu sei
que o Presidente do TSE já confirmou a presença. Eu não sei na
terça-feira de manhã. O Vice-Procurador-Geral Eleitoral vem pela
manhã na terça-feira. Na outra quinta-feira, virão os representantes
dos Municípios. Nesta quinta-feira, serão os Deputados Marcelo e
Esperidião Amin.
O SR. DEPUTADO MARCUS
PESTANA - E nós teremos reuniões às terças-feiras de manhã,
sistematicamente?
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Teremos.
O SR. DEPUTADO MARCUS
PESTANA - É?
A SRA. DEPUTADA MOEMA
GRAMACHO - Terça-feira de manhã?
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Rodrigo Maia) - Terça-feira pode ser às 11 horas da
manhã, se preferirem. Assim, quem vem na terça-feira não precisa
acordar tão cedo.
Então, eu quero, mais uma vez, reafirmar aqui o meu
compromisso com esse debate, com a participação da OAB, da CNBB e do
Movimento Contra a Corrupção Eleitoral. À hora que quiserem, é só
falar comigo, falar com a assessoria, falar com o relator, falar com
o Deputado Jean Wyllys. A gente está pronto para discutir. Estamos
montando uma estrutura de participação via Internet, via TV Câmara. Vamos falar com o
Presidente da Câmara para que nós, de forma bem transparente,
possamos — como o Deputado Jean cobra, não apenas os que têm
mandato, mas os que têm participação na sociedade —
participar.
Muito obrigado e boa noite.