Saúde

Especialistas apontam violações de direitos humanos em atendimento a pacientes com transtornos mentais

11/09/2019 - 15:15  

Restrições orçamentárias e violações de direitos humanos são alguns dos problemas encontrados na rede de assistência a pessoas com transtornos mentais no País, segundo debatedores de uma audiência pública realizada sobre o assunto na Comissão de Legislação Participativa da Câmara dos Deputados na terça-feira (10).

De acordo com o presidente do Conselho Nacional dos Direitos Humanos, Leonardo Pinho, há um retrocesso na política de saúde mental. "Precisamos apostar na reabilitação piscossocial e não só nas internações involuntárias ou compulsórias", apontou.

Luis Macedo/Câmara dos Deputados
Profissionais apontam retrocessos da política de saúde mental durante audiência pública

Conselheira do Conselho Federal de Serviço Social, Elaine Junger Pelaez criticou a falta de respeito à dignidade humana das pessoas com transtornos mentais no Brasil na adoção de práticas que que propõe a volta de encarceramento. "Faz parte do compromisso ético e político do conjunto de profissionais da saúde de denunciar essas violações e denunciar práticas profissionais que sejam contarias aos nossos princípios”, afirmou.

Leonardo Pinho cobrou mais verbas para a rede pública de atenção psicológica social e questionou a falta de  fiscalização organizada em nível nacional das instituições privadas de atendimento aos pacientes. “É preciso usar o recurso público para financiar os equipamentos de saúde mental previsto no Sistema Único de Saúde”, defendeu.

Representante do Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura, Daniel Melo relatou problemas encontrados em comunidades terapêuticas, como condições insalubres, falta de tratamentos adequados e exploração de profissionais que fazem trabalho voluntário. "Sem contar o uso de contenção sem equipe médica nenhuma, sem nenhum cuidado ou treinamento com esse sujeito e também o uso da religiosidade como única prática adotada nesses espaços", criticou.

Luis Macedo/Câmara dos Deputados
Kleidson Oliveira Beserra promete resistência contra o fechamento dos CAPS em Brasília

CAPS
Durante o debate, os especialistas citaram os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), em unidades do Sistema Único de Saúde (SUS), entre os serviços de referência para acompanhamento de pacientes com transtornos mentais, em substituição aos manicômios. Nos CAPS, é oferecido acolhimento à pessoa com transtornos e, caso seja necessário, ela é encaminhada para outro serviço especializado da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).

Kleidson Oliveira Beserra, usuário de serviços de saúde mental, também defendeu o fim do tratamento manicomial durante a audiência e falou sobre a importância dos CAPS. “Aqui em Brasília estão tentando acabar com os CAPS, mas a gente está lutando. Estão pensando que aqui não tem resistência, mas aqui tem e eu vou mover até o último esforço da minha vida para que o CAPS continue funcionando porque eu dependo do CAPS”.

Nações Unidas
Autora do pedido para a realização da audiência, a deputada Érika Kokay (PT-DF), também falou em retrocessos e lembrou a perspectiva antimanicomial trazida pela reforma psiquiátrica, de 2001 (Lei 10.216/01). A deputada vai sugerir que informações sobre o assunto sejam incorporadas pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara em relatório para as Nações Unidas.

“A reforma psiquiátrica que aponta na perspectiva antimanicomial tem como essência a própria democracia. E nós vamos tentar incorporar [esse tema] ao relatório que está sendo construído pela Comissão de Direitos Humanos dessa Casa que será encaminhada a Genebra”.

A audiência sobre saúde mental no país, na Comissão de Legislação Participativa, não contou com representantes do Ministério da Saúde.

Reportagem - Giovanna Ribeiro
Edição - Geórgia Moraes
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