Trabalho, Previdência e Assistência

Brasil oferece chances para profissionais qualificados, diz sociólogo

16/06/2010 - 13:35  

Não falta emprego no Brasil, falta mão-de-obra qualificada. A afirmação é do sociólogo José Pastore, professor titular da Universidade de São Paulo, pesquisador da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas e consultor em relações do trabalho e recursos humanos, que deu nesta quarta-feira a palestra “O Futuro do Trabalho para o Jovem Brasileiro”.

Pastore, o segundo convidado do ciclo de palestras “Trabalho em Debate”, na Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público, garantiu que há vagas em qualquer profissão para quem está preparado. Segundo o doutor honoris causa em Ciência e doutor em Sociologia pela Universidade de Wisconsin (EUA), ao contrário do que se pensa, o Brasil não forma profissionais em excesso. Pelo menos não bons profissionais.

Enquanto na Índia graduam-se 200 mil engenheiros por ano, no Brasil esse número fica em 40 mil. “Na construção civil, por exemplo, a escassez de mão-de-obra já aumentou os salários em 20%”, disse o palestrante. O problema atinge também setor de tecnologia da informação (TI). A deficiência na área chega a 100 mil profissionais. “Esse número pode dobrar nos próximos anos”, calculou o sociólogo, autor de 31 livros sobre trabalho, educação, costumes e instituições sociais.

A carência de trabalhadores capazes de produzir bons resultados, segundo Pastore, tem gerado “pirataria” entre as empresas. “Uma empresa acaba fazendo propostas para o profissional que já está empregado”, explicou.

Qualificação
Apesar das projeções de crescimento do mercado de trabalho, as empresas estão mais exigentes e não aceitam em qualquer profissional. Para Pastore, as empresas não estão atrás de jovens “adestrados”, mas “educados”, capazes de encontrar soluções lógicas e que tenham bom senso para chegar logo às respostas.

Na avaliação dele, os jovens que se dedicarem e se esforçarem para ficar acima da média têm muita chance de ter sucesso no mercado de trabalho. “As ciências sociais, por exemplo, têm atraído pouco os jovens. Mas essa área desenvolve um traquejo muito grande na leitura e da escrita, o que é muito importante nas empresas”, disse.

De acordo com Pastore, há 40 anos a procura era por habilidade profissional; hoje as empresas querem pessoas capazes de aprender continuamente. “Pesquisa da Fundação Dom Cabral constatou que 70% das empresas se queixam da falta de profissionais qualificados”, afirmou.

A exigência por qualificação vem da mudança de perspectiva em relação ao fator gerador de empregos. Na avaliação de Pastore, em décadas passadas, era o dono da empresa que decidia sobre o posto de trabalho. Depois os sindicatos passaram a participar do processo. “Hoje é o consumidor o dono do emprego, porque se ele não for adequadamente atendido, a empresa quebra”, destacou.

Áreas promissoras
Pastore apontou ainda quais profissionais devem ganhar mais espaço com o crescimento econômico do País. São eles:

- administradores, principalmente na área de marketing;
- bons advogados;
- engenheiros ligados à mineração, metalurgia e infraestrutura e bons profissionais de nível técnico na área;
- aqueles que atuam com meio ambiente e agrobusiness;
- profissionais de TI habilitados a fazer banco de dados;
- profissionais da área da saúde, principalmente que lidam com crianças e idosos e no manuseio de novos equipamentos;
- educadores da área escolar e não-escolar; e
- profissionais da área de turismo e de entretenimento.

Educação tardia
O gargalo para a qualificação tem, para Pastore, forte componente histórico. Segundo ele, em 1850, 90% da população brasileira era analfabeta. “O País demorou a entrar no campo educacional”, afirmou.

Atualmente no Brasil a média de escolarização da força de trabalho é de sete anos. São três anos a menos de estudo em relação a trabalhadores sul-coreanos e japoneses e cinco anos a menos do que estudaram norte-americanos e europeus.

“Além disso, o Brasil ocupa do 52º lugar no Pisa, um teste que avalia a capacidade da população de entender o que lê e de efetuar as quatro operações aritméticas básicas. Isso num grupo de 57 nações”, citou.

Para ele, a deficiência no ensino, além de ter reflexo na qualidade do profissional, compromete o exercício da cidadania. “A educação não tem por objetivo apenas remunerar as pessoas, mas também formar cidadãos para atuar nas instituições e participar do processo democrático”, conclui.

Reportagem – Rachel Librelon
Edição – Ralph Machado

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