Seminário
"A Importância Social e Econômica da Mandioca para o Brasil"
Brasília, 18 de outubro de 2001
Promoção: Câmara dos Deputados, Comissão de Agricultura e Política
Rural, Câmara Setorial da Mandioca de São Paulo, Embrapa e Sebrae.
Coordenação: deputado federal Aldo Rebelo
A SRA. APRESENTADORA (Lilian Daher) Declaro aberto o
Seminário "A importância Social e Econômica da Mandioca para o Brasil",
evento promovido em conjunto pela Comissão de Agricultura e Política Rural da Câmara
dos Deputados, pela Câmara Setorial da Mandioca de São Paulo e pela EMBRAPA.
Este seminário é uma grande oportunidade para o debate em âmbito
nacional de novas tecnologias e políticas para a agricultura.
Neste momento, convidamos para compor a Mesa o Exmo. Sr. Deputado
Severino Cavalcanti, 1º Secretário da Mesa, representando o Presidente da Câmara,
Deputado Aécio Neves; o Exmo. Sr. Deputado Luis Carlos Heinze, Presidente da Comissão de
Agricultura e Política Rural; o Sr. Alberto Portugal, Presidente da EMBRAPA; o Sr.
Sérgio Moreira, Diretor-Presidente do SEBRAE; o Exmo. Sr. Deputado Aldo Rebelo, autor do
Projeto de Lei nº 4.679/01; e o Exmo. Sr. Deputado Inácio Arruda, Relator do Projeto de
Lei nº 4.679/01. (Palmas.)
Com a palavra o Deputado Severino Cavalcanti.
O SR. COORDENADOR (Deputado Severino Cavalcanti) -
Senhores membros da Mesa, minhas senhoras e meus senhores, é uma satisfação muito
grande estar aqui representando o Presidente da Câmara dos Deputados, Aécio Neves, em
evento desta envergadura. Conhecemos as dificuldades por que passa toda a sociedade
brasileira, principalmente os trabalhadores de baixa renda, micro e pequenos
proprietários, e sabemos que a mandioca pode ocupar um grande espaço, evitando o
desemprego nas regiões mais pobres do País, que são as mais atingidas.
A Região Nordeste, que era grande produtora de mandioca, hoje está
bem abaixo da produção média nacional. Precisamos dar uma ênfase especial à mandioca,
que pode ocupar o espaço da cana-de-açúcar no Nordeste, que se encontra em franca
decadência, sem poder competir com os grandes centros produtores de açúcar: Mato Grosso
e São Paulo.
Existe uma diferença com relação à mandioca. Com ela, podemos
atingir os micro e pequenos proprietários, de até dez hectares. No Nordeste falo
dele porque sou de lá, vivo e sinto aquela Região não há orientação, o que
existe data do tempo dos índios. Não se modificou absolutamente nada. A EMBRAPA, por
mais que tenha feito, esqueceu-se da mandioca. Precisamos, naturalmente, envidar esforços
para que a dona de casa, que tem de cuidar dos seus filhos, possa plantar a mandioca e
sustentar sua família.
Para isso, é preciso orientação, que os bancos olhem o
microempresário rural, que não tem acesso aos bancos oficiais, e que o SEBRAE saia um
pouco da sua ostentação e grandeza, promovendo a parceria diretamente com o micro e
pequeno empresário, para dar nova vida ao rurícola. O SEBRAE, embora esteja promovendo
muitas ações, precisa ir ao encontro principalmente do microempresário rural, aquele
que mais necessita de ajuda.
Tenho certeza de que, com este seminário, chegaremos ao ponto alto. O
dileto companheiro Deputado Aldo Rebelo contribuiu para que esta Casa pudesse acordar para
os benefícios da mandioca no País.
Neste momento, passo a presidência ao nobre Deputado Aldo Rebelo. A
Presidência manda os cumprimentos, por nosso intermédio, a todos os participantes.
Muito obrigado. (Palmas.)
A SRA. APRESENTADORA (Lilian Daher) Com a palavra o Sr.
Sérgio Moreira, Diretor-Presidente do SEBRAE, importante parceiro deste evento.
O SR. SÉRGIO MOREIRA Caríssimo Deputado Aldo Rebelo,
Presidente da Mesa, inspirador deste seminário; Deputado Luis Carlos Heinze, Presidente
da Comissão de Agricultura e Política Rural; Deputado Inácio Arruda, Relator do projeto
em discussão neste seminário; prezado Presidente da EMBRAPA, Alberto Portugal; Sr.
Secretário da Produção do Ministério da Agricultura e do Abastecimento, Pedro de
Camargo Neto; senhores empresários, trabalhadores, companheiros do SEBRAE presentes,
senhoras e senhores.
Agradeço a deferência de falar em primeiro lugar. Em seguida, pedirei
licença a importantes participantes deste seminário, porque tenho reunião do Conselho
Deliberativo do SEBRAE, que é nosso "Poder Legislativo". Eu, como membro dele,
devo estar presente para prestar contas.
Sinto-me entusiasmado por participar do seminário que ora se inicia. O
SEBRAE, como já é sabido, trabalha a causa da micro e pequena empresa no País. Creio
que hoje o grande desafio da humanidade, particularmente do nosso País, é a inclusão
social, a geração de emprego, oportunidade e renda. Sabemos que nações conseguiram
romper ciclos de subdesenvolvimento e sabem fazer, até com certa eficiência, o
desenvolvimento econômico. No entanto, isso não tem resultado na criação de
oportunidades para a camada mais pobre da população, que são os excluídos sociais.
A única maneira de gerar emprego de modo sustentável é por meio do
privilégio à pequena produção. É fácil imaginar que uma grande empresa montadora de
veículos consiga alavancar investimentos de bilhões de dólares para duplicar sua
produção. Ao cabo desse investimento, haverá a duplicação da produção, um aumento
estúpido da produtividade e, com certeza, uma diminuição do número de empregos, dada a
tecnologia que será incorporada ao seu processo produtivo.
Somente no universo da pequena produção é que podemos gerar emprego,
renda, ocupação e oportunidade.
O Brasil tem cerca de 4 milhões de empresas formais, das quais 99%
são definidas como pequenas e microempresas pela legislação. Elas são responsáveis
por 50% do emprego formal no Brasil, mas apenas 45% da nossa mão-de-obra são
formalizados junto ao Ministério da Previdência. Além das 4 milhões de empresas
formais, temos mais 4 milhões e 100 mil agricultores familiares e aproximadamente 500 mil
grandes ou médias fazendas, perfazendo um total de quase 9 milhões de produtores
formalizados. No entanto, temos de 10 a 15 milhões de produtores na informalidade.
Precisamos criar um ambiente que os atraia para a formalização.
Falo disso porque esta é a grande oportunidade que o País tem de
aumentar o nível da pequena produção brasileira. Quando se fala da produção de soja,
pensa-se numa produção de alta competitividade em nível mundial e que se situa no
universo da grande produção brasileira. Quando pensamos na mandioca, entretanto, falamos
de uma cultura tipicamente explorada por pequenos produtores, por agricultores familiares
e por aqueles que praticam a agricultura de subsistência.
Como disse o Deputado Severino Cavalcanti na abertura dos trabalhos,
dada a constatação de que grande parte desses produtores ainda utilizam a mesma
tecnologia usada pelos índios quando os portugueses aqui chegavam, reside aí uma grande
oportunidade para um salto não apenas quantitativo, mas, sobretudo, qualitativo da
pequena produção brasileira. Podemos elevar estupidamente a produtividade,
particularmente nas áreas mais atrasadas.
Sabemos que a Índia hoje é o país com a maior produtividade, são
cerca de 24 ou 25 toneladas por hectare. A produtividade média do Brasil é de 12
toneladas por hectare, mas os Estados do Sul do País, como o Paraná, atingem
produtividade semelhante à da Índia. Portanto, verificamos que o Nordeste, o Norte e o
Centro-Oeste são as Regiões que podem adquirir rapidamente ganhos elevados de
produtividade por meio do repasse do conhecimento.
Diferentemente do que foi dito aqui no início, a EMBRAPA tem um belo
reduto de conhecimento na Estação de Cruz das Almas, que não apenas zela pelo
conhecimento de ponta. A equação é como transferirmos esse conhecimento da EMBRAPA, das
universidades e dos centros de pesquisa das grandes empresas privadas que trabalham com o
assunto para esse universo maior da produção brasileira. Como podemos universalizar o
acesso ao conhecimento?
Não estamos falando aqui em gerar uma mandioca transgência,
estamo-nos referindo à geração de baixos níveis de conhecimento que possam produzir
grandes resultados. Neste momento, a EMBRAPA está trabalhando para compor uma aliança
estratégica com o SEBRAE, cujo principal desafio é exatamente encontrar os grandes
gargalos da pequena produção brasileira.
Como exemplo desse trabalho, podemos citar o caso do bode nordestino.
Temos quase 14 milhões de caprinos no Nordeste; a França tem 1 milhão, quantidade
equivalente à do Estado da Paraíba, e produz mais riquezas. Segundo estudos da EMBRAPA
em Sobral, no Ceará, o bode nordestino pode triplicar o seu peso, pulando dos 7 quilos
habituais para 20 quilos. Em geral, quem cria bode no Nordeste é o agricultor familiar de
baixa renda. Estamos falando em triplicar a quantidade de proteína ofertada à
população numa Região onde há carência de proteína animal.
Essa é uma grande oportunidade, porque, no caso específico do bode, o
conhecimento da EMBRAPA não demandará grandes investimentos, apenas a utilização de
manejos simples e adequados. Equações como essa existem também em relação à
mandioca, mas é preciso haver uma consciência nacional de que isso é importante.
Se fizermos novamente uma comparação com a soja, constataremos que o
produto está no rol do agrobusiness, com competitividade mundial, fortes
lideranças empresariais, grande capacidade de articulação política e, sobretudo, forte
conexão com o mercado para demandar as suas necessidades. No nosso exemplo, estamos
falando de um universo de produtores que não têm voz, representatividade nem capacidade
de mobilização. No entanto, constitui-se, repito, a grande oportunidade de uma virada em
busca do desenvolvimento sustentável.
Portanto, reafirmo aqui o nosso entusiasmo com o assunto. Em cada
Estado, temos, com certeza, uma forte conexão com os que produzem mandioca. Daí o
convite para participarmos deste seminário. Mas temos certeza de que ainda podemos fazer
muito. Já fazemos muito, mas isso é muito pouco diante do desafio. Estamos aqui
exatamente para aprender, adquirir conhecimento e traçar alianças estratégicas com
setores fundamentais do universo da produção de mandioca no País.
Desculpem-me por ter falado demais e por ter de me ausentar mais cedo.
No entanto, fica aqui uma forte delegação do SEBRAE para nos representar.
O SR. COORDENADOR (Deputado Aldo Rebelo) Temos
também aqui uma delegação do Estado de São Paulo.
O SR. SÉRGIO MOREIRA Desejo aos companheiros uma boa
jornada de trabalho. Parabéns. (Palmas.)
O SR. COORDENADOR (Deputado Aldo Rebelo) Desculpem-me
por quebrar o protocolo, mas, antes da intervenção do Deputado Luis Carlos Heinze e da
saída do estimado Presidente do SEBRAE, gostaria de deixar registrado o esforço que essa
instituição, na pessoa do Presidente Sérgio Moreira, fez para que este seminário fosse
realizado.
Conheço S.Sa. há muito tempo e sei de seu espírito público, de sua
capacidade, inteligência e profunda preocupação com a pequena produção do País.
Tenho a mais absoluta convicção de que na esfera do Poder Executivo teremos
interlocutores importantes e em outras áreas, como é o caso do SEBRAE, encontraremos
parceiros, como o seu Presidente, homem que compreende e sabe da importância dessa
lavoura para a história do Brasil e para a economia e a vida do nosso povo nos dias de
hoje.
Muito obrigado, Sr. Sérgio Moreira, pela sua presença e apoio.
Desculpe, Deputado Luis Carlos Heinze, pela interrupção.
O SR. PRESIDENTE (Deputado Luis Carlos Heinze) Saúdo
inicialmente o Presidente da EMBRAPA, Sr. Alberto Portugal; o Diretor-Presidente do
SEBRAE, Sr. Sérgio Moreira; o Secretário de Produção e Comercialização do
Ministério da Agricultura, Sr. Pedro Camargo; e o Deputado Aldo Rebelo, que está
promovendo este importante evento.
A Comissão de Agricultura e Política Rural não podia deixar de
atender à solicitação de V.Exa. para sermos parceiros neste evento, que é extremamente
importante pelo que representa essa cultura para o nosso País. É um prazer estarmos aqui
junto com outros colegas Parlamentares.
Saúdo todas as delegações, o pessoal que veio do interior, trazido
de Ivinhema, Mato Grosso do Sul, pelo Deputado Waldemir Moka, e o Deputado Estadual Nelito
Câmara, que veio com essa delegação.
Em nome deles, saúdo todos os colegas produtores rurais.
Deputado Aldo Rebelo, sou também produtor de arroz e criador de gado
no Rio Grande do Sul, sei quão importantes são eventos dessa natureza. Aqui vemos
integrantes da Associação Brasileira dos Produtores de Mandioca e também produtores de
amido. Estão presentes as lideranças do segmento.
É extremamente importante a organização do setor, para que se possa
fazer reivindicação. Somos hoje cerca de 7 milhões de produtores rurais no Brasil, que
geram 17 milhões e 500 mil empregos diretos, apenas na produção primária, a que mais
emprega no Brasil.
Quanto à lavoura de mandioca, Deputado Aldo Rebelo, ela existe em
quase 5 milhões de propriedades rurais. Não deve haver uma propriedade no Brasil que
não tenha um pedaço de mandioca pelo menos para sustento da família. É extremamente
importante essa cultura, pelo número de empregos que gera e pela evolução que vem
tendo.
Números comprovam o crescimento da cultura de mandioca e de todo o
setor produtivo brasileiro nos últimos anos, bem assim o aumento da organização de todo
o segmento dos produtores. Isto é o que temos de buscar. É extenso o potencial da
produção agrícola brasileira. Nos últimos anos, temos obtido grande avanço, graças
à pesquisa, à tecnologia e também ao fato de chegarmos até os produtores. Com a
mandioca não é diferente. Mas temos de corrigir os rumos, temos de fazer mais. O grande
problema têm sido as circunstâncias em que se encontra nossa Nação. Muito se tem
feito, porém, muito mais precisa ser feito. Observem alguns números: no Brasil, em 1990,
produziam-se 58 milhões de toneladas de grãos. Estamos no ano 2001. Produzimos 98
milhões de toneladas de grãos praticamente na mesma área plantada, diminuindo ainda 500
mil hectares. O mesmo acontece com a carne bovina, a carne suína, a carne de aves, os
lácteos e as frutas. Também aconteceu com a mandioca. Em 1990, produzíamos 18 milhões
de toneladas; hoje produzimos 24.
Aqui entra a necessidade organização, de que venho falando. O
segmento tem de estar organizado. Não podemos ser apenas produtores de commodities.
O Ministro Pratini de Moraes tem reiteradas vezes dito que o Brasil é comprado.
Conversava há alguns instantes com o Maurício, que me dizia da potencialidade do mercado
mundial em relação à venda de amido a Tailândia, por exemplo. Isto se deve
muito mais à organização dos produtores e à organização da cadeia de empresários do
que a outro motivo.
Ouvi uma companheira produtora do Mato Grosso dizer do seu interesse em
industrializar. Temos a produção de raiz, logo, devemos perseguir a produção do amido.
Devemos produzir esse tipo de produto, para chegarmos aos mercados internacionais.
Dr. Pedro trabalha muito com café. Não sou dessa área, mas sei que
hoje quem menos ganha com a produção de café é o produtor e quem mais ganha é quem o
industrializa. A Alemanha fatura mais transformando o café que produzimos. É
extremamente importante que o empresariado brasileiro acorde, porque multinacionais estão
entrando no mercado brasileiro, interessadas em nosso extenso potencial. A EMBRAPA nos
oferece sua tecnologia; o SEBRAE, sua parceria. Mais do que nunca é preciso haver
organização.
Quero felicitar o Deputado Aldo Rebelo, em nome de todos os membros da
Comissão de Agricultura e Política Rural, por trazer a este evento colegas produtores
dos diversos recantos do Brasil, para aqui conhecerem, novas tecnologias, discutirem os
problemas do setor e verem o que a Câmara dos Deputados está fazendo e o que a EMBRAPA
tem em termos de pesquisa. É extremamente importante essa organização do segmento
produtivo.
O Brasil tem capacidade ilimitada. Nós, da área de grãos, estamos
hoje cultivando 41 milhões de hectares e há ainda 90 milhões de hectares de terras não
exploradas. Todos os números que vejo mostram um caminho infindável. Com esse número de
agricultores que o Brasil tem, os mais capacitados do mundo, com a tecnologia da EMBRAPA e
de outros centros de pesquisa, como as universidades estaduais, com toda a extensão de
terra do País e o clima que temos, precisamos nos organizar por sistemas de produção,
para enfrentarmos o mercado globalizado.
A respeito disso, teremos, na próxima semana, importante debate nesta
Casa promovido pelas Comissões de Economia, Finanças e Tributação, Relações
Exteriores e de Defesa Nacional e de Agricultura e Política Rural. Estaremos discutindo a
ALCA, o MERCOSUL, a Comunidade Econômica Européia, os Mercados Asiáticos. Tudo isso
estará sendo debatido nesta Casa, na próxima semana. Já faço convite aos diversos
Estados que tenham sua representação para que aqui se façam presentes. Temos muito a
explorar no mercado interno. Seguramente, em torno de 10% da nossa população é mal
alimentada e há grande espaço a ser utilizado em nosso País. Mas não adianta
produzirmos com a tecnologia que temos se não tivermos mercados internacionais
consumidores. A grande chance do Brasil está nos mercados internacionais, de qualquer
coisa, e a mandioca é um dos exemplos.
Em torno de 2 bilhões de reais é o faturamento da lavoura de
mandioca, hoje, no Brasil. Imaginem o potencial que temos a explorar, se estiverem
organizados os segmentos produtivos, as cadeias produtivas. Não adianta termos apenas o
produtor da raiz se não temos a cadeia, isto é, a industrialização e os mercados. Isso
é fundamental. A tecnologia da EMBRAPA, a parceria do SEBRAE e aquilo que os empresários
puderem fazer utilizando os recursos existentes é tudo de que precisamos. O caso
específico da mandioca não é diferente do de outros segmentos.
Dr. Pedro, temos um sonho: um Conselho Nacional de Política Agrícola
para determinar as políticas.
O Deputado Severino Cavalcanti falava nos agentes financeiros. Hoje,
infelizmente, eles não são mais parceiros nossos. As políticas que existiam há vinte
anos junto ao sistema financeiro têm de voltar. Tínhamos quase 5 milhões de contratos
agrícolas há quinze anos. Hoje temos 1 milhão e 600 mil contratos agrícolas. A grande
maioria dos produtores já não tem mais acesso ao crédito. Essa política terá de
voltar, e tantas outras, para que possamos termos realmente um norte. As potencialidades
do nosso País são infinitas, há que se ter organização.
Está de parabéns o Deputado Aldo Rebelo, autor de projeto que vem ao
encontro dos anseios do produtor de mandioca. Está de parabéns S.Exa. fundamentalmente
por reunir esse segmento altamente importante para o setor produtivo brasileiro.
Parabéns, Deputado! (Palmas.)
A SRA. APRESENTADORA (Lilian Daher) Com a palavra o Sr.
Alberto Portugal, Presidente da EMBRAPA.
O SR. ALBERTO PORTUGAL Prezado Deputado Aldo Rebelo,
Presidente nesta Mesa e autor da proposição desta reunião; Sr. Deputado Luis Carlos
Heinze, Presidente da Comissão de Agricultura e Política Rural, importante parceiro nas
questões da pesquisa em agricultura; prezado Deputado Inácio Arruda, demais Srs.
Deputados, lideranças empresariais, lideranças do setor agrícola, pesquisadores e
técnicos aqui presentes; prezado amigo Pedro de Camargo Neto, Secretário de Produção e
Comercialização do Ministério da Agricultura:
Gostaria aqui de trazer a palavra da Diretoria da EMBRAPA e também do
Ministro da Agricultura e do Abastecimento, Sr. Pratini de Moraes, enfim, do Governo
Federal, a esse segmento da agricultura.
O Ministério da Agricultura e do Abastecimento se faz presente não
só pela Diretoria da EMBRAPA. O Dr. Bonifácio, um de nossos Diretores, vai acompanhar e
liderar nossa equipe, mas participam deste debate cerca de dez técnicos. O Dr. Pedro de
Camargo Neto representa as áreas de produção e comercialização.
Gostaria de destacar a presença do Dr. Chigeru Fukuda, técnico da
EMBRAPA e Presidente da Sociedade Brasileira de Mandioca, e a do Dr. Mário Augusto, chefe
da Embrapa, Mandioca e Fruticultura, em Cruz das Almas.
Nos dias de hoje, uma das formas mais efetivas de se viabilizar a
questão da inclusão social, de gerar emprego e renda é exatamente a agricultura, feitas
as mudanças tecnológicas necessárias para que possamos ter competitividade, qualidade e
sustentabilidade, especialmente do ponto de vista ambiental, e eqüidade social, de que
não devemos nos esquecer em países como o Brasil, que significa criar alternativas para
que grande parcela dos pequenos produtores que se encontram fora do processo de
desenvolvimento possam dele participar.
Com essa visão o Governo Federal, o Ministério da Agricultura e
especificamente a EMBRAPA têm trabalhado. A EMBRAPA tem, entre seus objetivos,
competitividade, qualidade, sustentabilidade e eqüidade social.
No caso da cadeia produtiva da mandioca, talvez seja essa cultura
aquela a que se aplicam todos esses conceitos, já que, como foi dito pelo Deputado Luis
Carlos Heinze, talvez seja difícil encontrar hoje uma propriedade no Brasil que não
tenha uma pequena roça de mandioca no mínimo para sua subsistência.
A pesquisa tem procurado dar sua contribuição. Não só a EMBRAPA,
como foi bem dito. Uma série de instituições, institutos de pesquisas e universidades
têm feito grande trabalho nessa linha, juntamente com o setor privado. E esse trabalho
vai desde a pesquisa participativa com pequenos produtores, passa pelos produtores que se
encontram no início do processo, envolve técnicas avançadas de melhoramento genético,
a fim de gerar variedades mais resistentes a pragas e doenças, técnicas de manejo, de
adubação e de controle biológico, tão importante para se ter um ambiente mais limpo,
até ao processamento. Este, por sua vez, envolve desde tecnologias simples, como a casa
de farinha programas importantes e a pesquisa têm apoiado o fortalecimento dessa
técnica tradicional , até processos sofisticados, com utilização de produtos
nobres da mandioca, entre os quais se destaca o amido.
É importante mencionar também que, sobre a área dos recursos
genéticos, a EMBRAPA tem grande banco de genoplasma. O Centro Nacional de Pesquisa de
Recursos Genéticos e Biotecnologia da EMBRAPA CENAGEN desenvolve projeto
para levantamento de toda a biodiversidade da mandioca, em que o Brasil é muito rico. Na
Amazônia, nossos pesquisadores encontraram algumas variedades de mandioca usadas pelos
índios, as quais têm características extremamente interessantes: muito mais macias,
ricas em glicose produz-se diretamente , com alto teor de caroteno, indutor
da vitamina. Enfim, um potencial tremendo. É usada na produção de alimentos para
bebês. E tudo isso está sendo trabalhado pela área de pesquisa, a fim de enriquecermos
todas as alternativas dentro dessa cadeia, para que possamos agregar valor ao produto, o
que é de fundamental importância para que o pequeno produtor possa gerar receita
compatível tal que lhe permita ter um bom nível de vida. É dentro dessa lógica que
temos trabalhado.
Nosso pessoal fez um levantamento rápido. A mandioca tem aplicações
na área tradicional de alimentos. Sua fécula pode ser usada na confecção de muitos
tipos de bolos, pães e massas, mas há uma tremenda possibilidade na área de snacks,
chips, na indústria de xaropes para sorvetes; na indústria farmacêutica, na de
celulose, cosméticos, têxtil, petrolífera e de embalagens com isopor biodegradável.
Portanto, você uma tremenda gama de aplicações do amido. Certamente, o Dr. Pedro vai
falar um pouco sobre esse potencial, a área de produção e as perspectivas de
comercialização desse mercado, não só no Brasil mas em todo o mundo.
Quero cumprimentar a Câmara dos Deputados por fazer essa reunião,
permitindo uma grande mobilização. Fazem-se presentes industriais, produtores,
técnicos, representantes de órgãos de desenvolvimento, como o SEBRAE, e os políticos,
que precisam definir de que forma podemos juntar todas essas forças, principalmente, a
EMBRAPA, que traz a palavra do Governo do Presidente Fernando Henrique e do Ministro
Pratini de Moraes, para que, a partir daqui, numa grande mobilização juntamente com o
setor privado, possamos desenvolver um programa mais amplo, que nos permita, no tocante à
cultura da mandioca, produzir tudo o que ela tem a oferecer não só à sociedade como um
todo, mas especialmente aos pequenos agricultores, parcela significativa dentro do setor
rural.
Muito obrigado. (Palmas.)
A SRA. APRESENTADORA (Lilian Daher) Com a palavra o Deputado
Inácio Arruda.
O SR. DEPUTADO INÁCIO ARRUDA Bom dia a todos. Gostaria de
cumprimentar o Deputado Aldo Rebelo, autor do projeto de lei e Presidente neste importante
seminário, o Deputado Luis Carlos Heinze, Presidente da Comissão de Agricultura e
Política Rural, o Sr. Alberto Portugal, Presidente da EMBRAPA, talvez a empresa de
pesquisa mais importante de toda a América Latina que se possa citar na área da
agricultura, pecuária; é respeitada no mundo inteiro. Não há país algum que hoje não
aponte essa empresa brasileira como das mais importantes na área de pesquisa no mundo.
Companheiros do SEBRAE que aqui estão aqui, na qualidade de Relator,
sinto-me na obrigação mais de ouvir que de falar, a fim de encontrarmos o caminho mais
adequado para alavancar esse importante setor da economia brasileira, a agricultura
nacional, que tem sido exigida do ponto de vista da responsabilidade de oferecer
oportunidade para sustentar um plano econômico, mas que não tem recebido adequada
atenção do Governo brasileiro.
Cito a política econômica nacional para apontar o maior produtor de
mandioca do Brasil, o Estado do Paraná, hoje com alta produção, cujos produtores podem
vir a destruir suas lavouras, por falta de preço. Não vale a pena sequer colher a
mandioca que ali está plantada. Mesmo num país que tem grande produção de mandioca e
de outras culturas, boa parte do povo não tem como adquirir um quilo de farinha de
mandioca uma barbaridade, fruto da brutal política econômica em que vive nossa
Nação.
Fomos atingidos pelo programa de socorro às instituições financeiras
no Brasil, o PROER, hoje objeto de Comissão Parlamentar de Inquérito. Mas a agricultura
brasileira está às voltas com o sério problema de endividamento, e não consegue
resposta do Governo. Pequenos e médios produtores rurais têm dívida Governo, o que é
relativamente fácil de ser resolvido, mas não conseguem fazê-lo, porque não recebem
atenção adequada, a fim de resolverem o problema.
Alavancar a agricultura brasileira implica esse esforço evidente dos
produtores, que muitas vezes não esperam pelo Governo nem por suas políticas; vão
tocando a atividade, às vezes na marra, procurando os mercados. Já que no Brasil não se
pode comprar um quilo de farinha, procuram onde vender os produtos resultantes da
mandioca, da nossa agricultura. Os produtores, os sem-terra, os assalariados agrícolas,
os pequenos e médios produtores, todos realizam esse esforço gigantesco no Brasil com o
intuito de encontrarem caminhos que não são oferecidos de forma adequada e fácil em
nosso próprio País. A atividade que realiza esta Câmara dos Deputados tem esse
objetivo. Queremos uma legislação adequada e, sobretudo, um esforço que envolva de
forma efetiva o Governo, particularmente sua área econômica.
De fato, esse é o principal entrave para que os setores produtivos
alavanquem a economia brasileira e realizem as mudanças necessárias ao crescente aumento
da produtividade. O Deputado Luis Carlos Heinze, Presidente da Comissão de Agricultura,
nos informa que ampliamos a produção, mas, hoje, nosso PIB per capita é igual ao
de 1980. Há alguma coisa errada nesse negócio. É preciso uma explicação.
Louvo o caro Deputado Aldo Rebelo pela iniciativa deste seminário.
Este é o caminho adequado à realização de uma pressão ampla sobre a equipe
econômica, sobre o Governo, no sentido de encontrarmos soluções para a mandioca.
Encontrando soluções para a cultura da mandioca, também estaremos abrindo caminhos para
a agricultura brasileira. Não estamos limitados à mandioca. Por isso, é muito
importante a iniciativa da Comissão de Agricultura. Na qualidade de Relator, estou aberto
a ouvir V.Sas. e os demais segmentos da agricultura brasileira. Vamos encontrar o projeto
mais adequado, sempre em consonância com o autor, que teve a iniciativa de levantar essa
questão. Na qualidade de Relator, permanecerei na reunião para conhecer as mudanças,
alterações e proposições à política de retomada do crescimento dessa atividade
econômica no País. Muito obrigado. (Palmas.)
A SRA. APRESENTADORA (Lilian Daher) No momento, desfaz-se
a Mesa de honra e começam os trabalhos deste seminário, sob a coordenação do Deputado
Aldo Rebelo.
Bom trabalho a todos. Muito obrigada. (Palmas.)
O SR. COORDENADOR (Deputado Aldo Rebelo) Mais uma
vez, quero agradecer o Dr. Alberto Portugal a presença e, por seu intermédio, registrar
a insubstituível participação da EMBRAPA na motivação e elaboração deste
seminário. Seus técnicos, juntamente com os produtores, com persistência, perseverança
e capacidade estimularam-nos. Alguns chegaram atrasados porque saíram de ônibus, ontem,
de São Paulo. Sejam bem-vindos. Companheiro José Reynaldo Bastos, seja bem-vindo. Foi
exatamente o esforço coletivo desses técnicos e produtores que permitiu a realização
deste seminário.
Quero registrar a presença dos Deputados Sérgio Miranda, Rubens Bueno
e Waldemir Moka e da representativa delegação do Mato Grosso.
Antes de convidar os primeiros expositores, desejo manifestar minha
gratidão e reconhecimento aos companheiros produtores de mandioca de todo o território
nacional. O seminário não seria possível sem a participação desses companheiros.
Agradeço também ao companheiro Luis Carlos Heinze, Presidente da
Comissão de Agricultura e Política Rural, a compreensão e o apoio, que transformam a
Comissão em reduto de resistência contra determinada lógica que, muitas vezes, vê o
sagrado dinheiro público cair nas mãos de bancos falidos como medida eficiente de
economia e o socorro a uma agricultura descapitalizada e endividada como ato de
irracionalidade econômica moralmente condenável. A Comissão de Agricultura e a Casa
têm resistido a essa visão. Se alguns pensam que é lógico, eficiente e bom para a
economia nacional socorrer bancos falidos; por que não socorrer os pequenos, médios e
grandes agricultores todos eles não compõem o patrimônio agrícola brasileiro?
Elaboramos a proposta do seminário levando em conta a importância
econômica da mandioca para o País. Essa lavoura é geradora de emprego e renda, e tem
dado importante contribuição à economia brasileira. Pensamos também na importância
social, na multifuncionalidade da agricultura; não-apenas como elemento da economia, do
emprego e da renda, mas também como política demográfica, de assentamento e de
distribuição da população em lugares com condições de sobrevivência. A
concentração de maneira irresponsável em metrópoles gera desemprego, desagregação,
aculturação e a violência que testemunhamos. Agricultura é segurança alimentar, pois
a segurança de um povo não é apenas sua força armada exército, marinha e
aeronáutica , seu aparato de segurança, sua polícia; a segurança de um povo
também é a capacidade de se alimentar sem o socorro ou ajuda do estrangeiro; segurança
alimentar é autonomia e independência nacional.
A cultura da mandioca está associada à identidade do nosso povo,
nossa história e tradição. Foi o primeiro alimento que os portugueses encontraram no
Brasil, já utilizado pelos índios, como noticiou Pero Vaz de Caminha. Era tão
importante que serviu de emblema para muitas batalhas brasileiras. Nossa primeira
Constituição, da lavra do grande paulista Antonio Carlos de Andrada e Silva
irmão do patriarca José Bonifácio , não foi por acaso chamada de A
Constituição da Mandioca, exatamente por obrigar Deputados e Senadores, proprietários
agrícolas, ao cultivo de uma área mínima dessa lavoura, tão importante para a economia
do Brasil.
Quando os primeiros brasileiros começaram a lutar pela independência
os padres do seminário de Olinda, em 1817 , a forma de protesto que
encontraram foi banir da culinária do seminário todos os pratos feitos com trigo,
símbolo de Portugal, e adotar apenas os pratos advindos e derivados da plantação de
mandioca. Da mesma forma, nos brindes que faziam nas lutas pela independência, baniram o
vinho do Porto e o substituíram pela cachaça. A mandioca não serviu apenas a Pedro
Álvares Cabral e Pero Vaz de Caminha; ela foi usada na expansão do território
brasileiro. Os paulistas mamelucos, filhos de portugueses com índias, que ocuparam o
vasto território nacional, não poderiam marchar pelos sertões brasileiros carregando
sacos de trigo às costas. Eles marchavam semeando a maniva, depois, voltavam colhendo-a.
Essa era a única forma de penetrar no grande espaço geográfico que herdamos como
Pátria.
Na verdade, à sombra de uma cultura temos a história, a sociologia, a
política, a identidade nacional e as possibilidades econômicas.
Ontem, conversei em São Paulo com um Deputado da Venezuela, onde
também se produz mandioca em grande escala, que me disse o seguinte: Na cerveja
venezuelana, basicamente se substituiu a cevada pela mandioca. Se quisermos tomar cerveja
na Venezuela sem malte derivado da mandioca, temos de importar o malte. Recebi, também,
em minha casa um alimento com alto teor nutritivo, vindo da folha da mandioca, que pode
ser usado na merenda escolar. Mas este assunto é para outro debate.
Em resumo, além das questões de política financeira e econômica,
podemos discutir iniciativas e medidas abrangentes de forma a estimular, proteger e
incentivar um produto que muito já fez e pode fazer pelo País.
Por esta razão, mais uma vez, agradeço aos senhores a presença. Meu
projeto é apenas um instrumento pequeno nesta batalha; é apenas o gancho; a abordagem. O
mais importante é tomarmos a iniciativa de reunir os Poderes Executivo e Legislativo,
entidades como EMBRAPA e SEBRAE, assim como os produtores, os agricultores e os
trabalhadores para, quem sabe, criarmos um instrumento, na esfera federal como
existe em São Paulo a Câmara Setorial da Mandioca , que envolva os interessados,
para termos uma ação duradoura, permanente e profunda, contemplando ainda a diversidade
e a desigualdade do País. Por exemplo, alguns chegaram de avião, outros de ônibus e,
para outros, tivemos que pagar a passagem. Já existe uma produção com alta intensidade
de tecnologia não de capitais, porque o Brasil não vive essa situação ,
há ainda uma outra agricultura, muito pobre, com certo atraso tecnológico, mas que
emprega mão-de-obra. Precisamos preservar a composição de todos esses interesses
legítimos, desde o semi-árido nordestino, onde a lavoura da mandioca cumpre um papel
fundamental, até aquela mais intensiva em capital ou tecnologia, resultado da própria
diferenciação, da desigualdade existente no Brasil.
Precisamos desse esforço comum e coletivo, que une todas essas pontas,
para levar nossa tarefa adiante. Mais uma vez, muito obrigado. (Palmas.)
Antes de iniciarmos os debates, passamos a palavra ao Deputado Luis
Carlos Heinze, Presidente da Comissão de Agricultura e Política Rural, para prestar
esclarecimentos de interesse geral.
O SR. PRESIDENTE (Deputado Luis Carlos Heinze) Uma
produtora do Mato Grosso e outra do Paraná nos perguntaram a respeito do endividamento
agrícola. Esse é um assunto importante para o pessoal que tem securitização, PESA,
RECOP, para os que ainda tem dívidas na Justiça e para os pequenos agricultores, que
estão fora de todos esses tipos de dívida há também o FUNCAFÉ, o PRODECER e os
fundos constitucionais.
Quero dizer aos senhores que está sendo discutida na Casa, numa
comissão mista de Deputados e Senadores, a medida provisória que levou 101 bilhões de
reais dos devedores da casa própria e também dos devedores da agricultura para o Tesouro
Nacional, saídos do BASA, do BNB, do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal.
Há um conjunto de propostas, discutidas na Comissão de Agricultura e
Política Rural, que trata sobre o endividamento. Construímos uma proposta com a CNA, a
CONTAG e a OCB, já entregue ao Ministro da Agricultura. O PT também tem um projeto
específico a respeito da renegociação; o Deputado Augusto Nardes tem outro projeto
específico sobre o mesmo assunto e há 18 emendas nessa medida provisória.
Há mais de um mês estamos conversando com o Ministro Pratini de
Moraes e, na última terça-feira, a Deputada Yeda Crusius Presidente da Comissão
que estuda a medida provisória , o Senador Jonas Pinheiro seu Relator
, e eu, fomos levar esse conjunto de propostas ao Ministério da Fazenda. Eles a
receberam; e hoje deverá ter uma reunião. Eles estão analisando as diversas propostas
apresentadas. Esperamos que até 31 de outubro, data em que vence a securitização,
tenhamos um desfecho. Sei que há dívidas vencidas de pequenos agricultores
referentes ao PESA e ao RECOP , que não puderam ser pagas. Estamos trabalhando
nessa questão desde junho; estamos conversando desde setembro com o Ministro Pratini e,
nesta semana, fomos ao Ministério da Fazenda, onde são decididas essas coisas.
No Congresso Nacional, estamos organizando um grupo de Parlamentares.
Deputado Aldo Rebelo, se precisarmos ir a voto, e até ao enfrentamento, tenho certeza de
que a grande maioria nos dará apoio. Estamos negociando uma definição até o dia 31 de
outubro. Pela imprensa, vocês saberão. Manteremos todos devidamente informados por
intermédio da CONTAG, da CNA, da OCB, dos sindicatos e das cooperativas.
Era este o recado que lhes queria dar. Estamos empenhados em trabalhar
pela solução do endividamento. Para vocês terem uma noção, existe hoje em torno de 30
bilhões de reais já contratados nos diversos tipos de dívida que citei e outros 5 a 6
bilhões estão na Justiça os bancos acionando os produtores. Estamos procurando
uma solução para esse universo. Um abraço. (Palmas.)
O SR. COORDENADOR (Deputado Aldo Rebelo) Agradecemos ao
Deputado Luis Carlos Heinze as palavras.
Os senhores viram como são as coisas. Isso tudo será arbitrado pelo
Ministério da Fazenda, ou seja, por pessoas que provavelmente não sabem a diferença
entre um pé de mandioca e uma jaqueira. (Risos.) Um Ministro já disse que
conheceu uma vaca quando tinha mais de 50 anos!
Quero registrar a presença do Deputado João Grandão, prezado amigo e
batalhador pelas causas dos pequenos produtores brasileiros.
Para compor a primeira Mesa de debate, convido o Dr. Pedro de Camargo
Neto, Secretário de Produção e Comercialização do Ministério da Agricultura, a quem
agradecemos a presença; (Palmas.) o Dr. Chigeru Fukuda, Presidente da Sociedade
Brasileira da Mandioca e pesquisador da EMBRAPA de Cruz das Almas, Bahia. (Pausa. )
o companheiro Chigeru Fukuda não se encontra no momento; o companheiro
José Reynaldo Bastos da Silva, Presidente da Câmara Setorial da Indústria da Mandioca e
do Sindicato da Indústria da Mandioca de São Paulo. (Palmas.)
Agradeço aos companheiros Gabriel e Custódio, e à caravana do
Noroeste do Paraná as presenças.
O companheiro Fukuda deu uma saída.
Com a palavra o companheiro José Reynaldo Bastos da Silva, Presidente
da Câmara Setorial da Indústria Mandioca e do Sindicato da Indústria da Mandioca de
São Paulo. (Palmas.)
Chamamos o companheiro Fukuda e o companheiro Reinado para iniciarmos a
nossa primeira rodada.
(Não identificado) - (Intervenção fora do microfone.)
O SR. PRESIDENTE (Deputado Aldo Rebelo) - Está certo, Gabriel e
Custódio. Registro a presença da caravana do noroeste do Paraná. É verdade. Muito
obrigado pelas presenças. Muito obrigado aos companheiros do Paraná.
Convidamos também os companheiros de todos os Estados. Depois vamos
fazer o registro de quem for chegando, do Maranhão, do Piauí do Mato Grosso já
registramos , da Bahia... Vamos registrando o comparecimento de todos e agradecendo.
Passamos a palavra, no primeiro momento, ao Dr. Pedro de Camargo Neto,
Secretário de Produção e Comercialização. Temos mais de 15 expositores para o dia
inteiro: técnicos, produtores... Convidamos até o companheiro Vice-Presidente da
Associação Brasileira do Trigo, porque o nosso debate tem de ser democrático, não pode
ser imposto a ninguém.
Solicitamos que nossos expositores sejam sucintos. Sei que é pedir
muito para que se manifestem em dez, quinze minutos, mas, procurando dizer o essencial,
vai dar para todos emitirem sua opinião e dar o seu recado.
Com a palavra o Dr. Pedro de Camargo Neto. Muito obrigado pela
presença.
O SR. PEDRO DE CAMARGO NETO Muito obrigado, Deputado.
Certamente, vamos tentar ficar no tempo, porque temos de, antes de tudo, ser eficientes na
administração do tempo.
Agradeço à Comissão o convite e compareço aqui com grande
satisfação. O convite veio muito mais para o Pedro de Camargo do que para o próprio
Secretário de Produção e Comercialização do Ministério da Agricultura. A Secretaria
não tinha grande atuação, e nos seis meses em que lá estou a mandioca tem estado
permanentemente na agenda, mas, certamente, não temos feito o necessário.
O Pedro de Camargo há 20 anos se interesse por mandioca, acompanha a
mandioca e tem, sempre que possível, apoiado tudo o que tenha a ver com o tema. O José
Reinaldo, companheiro de São Paulo desses anos todos, tem visto que a mandioca é
certamente o gigante adormecido da agricultura brasileira. É um desperdício de potencial
que o Brasil faz ao não aproveitar esse produto com tudo que ele merece.
Há 20 anos fiz um investimento, mais uma idéia do que um rumo, que
acabou não vingando, uma proposta de industrialização da mandioca. A partir dessa data,
tenho acompanhado e visitado lavouras, indústrias e sentido o desperdício desse
potencial.
Se é verdade o que foi dito aqui hoje de que em cada propriedade tem
mandioca e que as nossas avós sempre souberam plantar, colher e colocar na mesa uma
mandioca de excelente qualidade, hoje, para um Brasil urbano, um Brasil que se
industrializou, colocar essa mesma mandioca na mesa do consumidor urbano é um desafio que
não conseguimos fazer com o potencial possível e que merece.
Talvez por uma cultura nossa, talvez por essa importação de valores
culturais alheios a nós, tenhamos deixado de investir, tenhamos deixado de dedicar,
deixado de falar nesse alimento tão importante, tão ligado à nossa cultura e tão fino.
Não é trivial colocar uma mandioca frita na mesa de um bar ou na mesa
de um brasileiro com a qualidade que queremos. Não é trivial mas é possível. Está
evidente e claro que tecnologia existe, mas a tecnologia não é só para existir, é para
ser aplicada, é um espaço imenso que temos de enfrentar e vencer.
A mandioca talvez seja o exemplo mais claro de diferença entre o que
temos de tecnologia disponível para o que temos de tecnologia aplicada, não só na
cultura como na industrialização. A lavoura da mandioca, salvo exceções, ainda tem
muito a caminhar no seu grau tecnológico de eficiência e produtividade. E a indústria
também tem muito a caminhar, assim como os novos segmentos.
Temos o potencial da mandioca e o potencial dos produtos da mandioca, o
potencial do amido... Já foi dito pelo Presidente de Portugal a gama de produtos
possíveis de serem fabricados com o amido da mandioca hoje, com esse grau de tecnologia
baixo, que já é o amido mais barato. O que não será um amido produzido com tecnologia
de lavoura e tecnologia industrial?
O Brasil poderia, poderá e deverá, e é obrigação nossa trabalhar
para que isso ocorra, tornar-se um grande produtor de amido, não só para nós como
também para exportar e para se tornar um grande exportador. Estamos ausentes do mercado
internacional no que diz respeito aos produtos da mandioca. Os volumes que exportamos são
tão baixos que é mais comum em pequenas quantidades do que com potencial que represente
o que pode ser feito.
Parabéns pela realização do evento e contem conosco no Ministério
da Agricultura, contém comigo pessoalmente para que possamos transformar em realidade
esse potencial e acabar com esse desperdício que, certamente, a Nação brasileira não
permite É um gigante adormecido que cumpre a nós aqui acordar e por em aplicação essa
gama de tecnologias disponíveis, para colocar na mesa do consumidor urbano hoje os
produtos da mandioca, desde a cozida até a frita, desde a farinha até os amidos, os
inúmeros produtos que são feitos a partir de amido. Hoje ainda usamos outros amidos mais
caros por não conseguir organizar essa produção e tornar realidade o potencial da
mandioca no Brasil.
Parabéns, Deputado. Não é a única, mas é uma frustração nesses
seis meses não ter conseguido apoiar mais a cultura a mandioca, porque nesses anos todos,
em tudo que tenho visto, está evidente que o potencial está aí.
Agora, mais recentemente, quando vi o próprio capital internacional
começar a chegar ao amido, parei para pensar: será que serão os de fora que vão nos
mostrar as oportunidades perdidas? Como é que nós, brasileiros, estamos com tudo aqui e
deixamos passar o tempo, desperdiçando oportunidades de criar riqueza, emprego, de
valorizar a nossa cultura e torná-la mais disponível?
E não só hoje. O amido tem tantas aplicações, Deputado, que
já foram enumeradas umas tantas aqui eu poderia passar mais tempo ainda enumerando
outras aplicações. São coisas simples que podem ser feitas, mas tem faltado alguma
coisa. Eu, que acompanha o trabalho do José Reynaldo há tantos anos, vejo seu esforço
lá em São Paulo, trabalhando nisso, e que tem produzido resultados concretos, um
esforço que tem feito as coisas acontecerem
em uma velocidade em que, certamente, se conseguirmos maior apoio,
catalisar tudo que o Brasil tem, poderíamos ter feito muito mais do que ele quase que,
junto com outros produtores, em um esforço heróico, tem produzido no Brasil. Estou à
disposição no Ministério e quero ver se não saio frustado por não ter feito nada pela
mandioca.
Obrigado.
O SR. PRESIDENTE (Deputado Aldo Rebelo) Obrigado, Dr. Pedro
de Camargo Neto. Temos a mais absoluta convicção de que o senhor será um dos que mais
tem condições de contribuir para que se articule na esfera do Governo Federal, com o
Poder Executivo e com os próprios produtores, uma iniciativa mais permanente, já que é
um homem que compreende e que tem dedicado sua vida também a esse interesse do nosso
País.
Muito obrigado pela sua contribuição e pela sua presença.
Passo a palavra ao companheiro Chigeru Fukuda, Presidente da Sociedade
Brasileira da Mandioca e Pesquisador da EMBRAPA de Cruz das Almas, na nossa gloriosa
Bahia.
O SR. CHIGERU FUKUDA Cumprimento a todos através do
Deputado Aldo Rebelo. Sinto-me bastante emocionado neste dia porque, depois de 28 anos
trabalhando em uma empresa como a EMBRAPA, é a primeira vez que me sinto fisicamente
presente nesta Casa onde se decide a maioria das ações do destino do País. Então,
sinto-me bastante emocionado e devo isso a uma só coisa: a cultura da mandioca.
Trabalho há 28 anos dedicado a essa cultura e cada vez mais o meu
sentimento se eleva, ao ser agraciado como pesquisador da cultura da mandioca. Também
agradeço a minha empresa, a EMBRAPA, por ter me dado, por todos esses anos, a
oportunidade de ser um pesquisador da cultura da mandioca. A EMBRAPA tem apoiado, em todos
rincões do Brasil, oportunidades de participação de pequenos agricultores, grandes
plantadores, visitando todo o território brasileiro com a cultura da mandioca.
Quero discutir um pouco a importância social e econômica da cultura
da mandioca. Desde já cumprimento o Deputado Aldo Rebelo pelo evento.
Hoje a produção de mandioca, em diferentes países, situa-se
exatamente nesse quadro. Por incrível que pareça, apesar de a cultura da mandioca ser
comprovadamente de origem brasileira, hoje o país que mais produz é a Nigéria. A
África produz hoje 19,1% da produção mundial. O continente africano produz exatamente
92 milhões de toneladas de raiz, até quatro vezes mais que a produção brasileira. Em
seguida vem o Brasil com 13,4% de participação mundial. Podemos dizer que estamos hoje
na faixa de 24 milhões e 600 mil toneladas.
Observem que a Tailândia, que não consome talvez 1% de sua
produção, tem toda a produção destinada à exportação, gerando, aproximadamente,
entre a Tailândia, Indonésia e Malásia, 2 bilhões e 500 milhões de dólares só com a
cultura da mandioca. Isso para vermos o potencial que tem a cultura da mandioca não só
no campo interno, como também no campo externo.
Na África, temos de compreender a importância da cultura no contexto
social, 91 milhões de toneladas de raiz são destinadas praticamente para a alimentação
humana, quer dizer, eles vivem praticamente da cultura da mandioca para matar a fome. Por
incrível que pareça, em alguns países como a Tailândia e a República do Congo o
consumo per capita é de 300 kg anuais. Praticamente os africanos comem um quilo de
mandioca por dia. Assim, podemos compreender a importância da mandioca nesse contexto
mundial e como realmente a sua cultura merece toda atenção da humanidade.
A distribuição da mandioca no Brasil. Vou discutir muito pouco,
porque acho que esses segmentos todos mostram a importância da cultura, da produção da
mandioca, mas vale a pena lembrar um pouco como está a distribuição hoje da mandioca no
Brasil.
O Nordeste detém o percentual elevado de 34,7%, sendo a Bahia, em
termos de Nordeste, o maior produtor e no contexto do Brasil participa com 17,3%. Em
seguida podemos ver a Região Norte com 25,1%, sendo o Pará o maior produtor não só da
Região Norte, mas o maior produtor do Brasil, com 18,6%.
E o que alavanca realmente em termos industriais, o que vemos na
perspectiva da cultura é a Região Sul e o Centro-Oeste com a industrialização. O
Paraná hoje, em termos de Sul, é um dos maiores produtores, com 17%.
Vamos comentar um pouco sobre a importância da mandioca em termos de
extrato por área. O Deputado Severino Cavalcanti falou da importância da cultura da
mandioca na agricultura familiar. Praticamente 70% da produção de mandioca é derivada
de lavouras que detém menos de 50 ha. Isso é importante no contexto social, de geração
de emprego. Se houver o apoio dos poderes públicos, da sociedade como um todo, a mandioca
pode contribuir para a geração de emprego. Não tenho dúvida nenhuma de que a
contribuição da mandioca
A mandioca pode contribuir exatamente para gerar emprego, e não tenho
dúvida nenhuma de que sua contribuição nisso vai ser decisiva, desde que receba,
naturalmente, o apoio necessário. É preciso o apoio de toda a sociedade, especialmente
do Governo, porque se trata de cultura essencialmente nacional. Ela tem realmente elevado
cunho social.
Estou apenas apresentando cultura que tem grande expansão de área no
Brasil, uma cultura industrial, como poderia ser também a cultura de soja. É uma pequena
comparação que faço; não há nenhum objetivo realmente.
Comparando com a mandioca, o trigo é cultivado numa área maior, de
67%. Ele tem maior exploração econômica e menor cunho social, em termos de geração de
emprego.
No aspecto geral da cadeia produtiva que não vamos discutir
aqui , talvez a cultura da mandioca seja a que possui cadeia produtiva mais complexa
entre as culturas brasileiras. Não há outra cultura que apresente tanta complexidade.
Ela começa exatamente fora da propriedade e empresas de insumos, equipamentos,
maquinários são altamente exigidos nesse ambiente. Há vários sistemas de produção e
cada um mais importante do que outro. Não existe destaque para nenhum deles. São eles:
unidade doméstica, unidade familiar e unidade empresarial, como são exemplos o Paraná,
Mato Grosso, São Paulo e até parte de Minas Gerais.
Há também segmento de processamento. Se tentar comentar esse segmento
da produção hoje, passarei uma semana falando, mas não conseguirei determiná-lo. Ele
é tão amplo que nenhuma outra cultura oferece variação tão grande como a da mandioca.
A distribuição, da mesma forma, está em todos os segmentos, na dona
de casa, no processador, nos distribuidores, nas associações, nas cooperativas, nos
caminhoneiros, nos intermediários que vendem em feiras livres, supermercados
, nos atacadistas, na CEASA. E aqui temos segmento de consumo, que vai desde da
produção de consumo interno até a viabilidade de exportação muito ampla. Então, é
uma cadeia bastante complexa, mas, ao mesmo tempo, é uma cultura nacional.
Em relação à distribuição da produção de amido no Brasil, vou
enfocar um pouco a questão do amido, porque a questão da farinha já está bastante
definida e talvez não tenhamos muito que interferir. Ela vai continuar com valor
altamente social, inclusive econômico, em termos de consumo, de base alimentar para a
população brasileira. Teríamos de explorar um pouco mais o amido, porque é um produto
mais nobre e talvez norteie todas as ações da cultura da mandioca. Tenho certeza de que
o José Reynaldo também vai concordar com isso.
O amido pode hoje dar origem a mais de 200 produtos e, se as
tecnologias industriais de pesquisas se desenvolverem, até a 500 produtos. Não tenho
dúvida nenhuma. Hoje, estamos com mais de 200 produtos derivados da mandioca. Pergunto
aos senhores aqui qual a cultura que tem essa alternativa, essa diversificação? Nenhuma.
Só a cultura da mandioca. Tenho certeza absoluta disso.
O amido comum representa hoje 43%, dois quais 46% hidrolisados e 11%
modificados, mas, no futuro, esse segmento vai crescer incrivelmente. Acrescento também
que 69% dos amidos hoje são destinados a uso alimentício; 17% para indústrias de papel
e 25% para indústria têxtil. Mas tenho quase certeza de que as pesquisas atuais vão
modificar muito essa situação. A parte industrial deve crescer um pouco em detrimento da
indústria de alimentos. Eu gostaria que o Reynaldo, especialista nessa área, depois
comentasse um pouco mais sobre isso. Mas hoje o quadro é esse.
A importância da cultura da mandioca é percebida quando se verifica
esta situação: a produção de mandioca é transformada em farinha e fécula, gerando
receita equivalente a 600 milhões em farinha e 150 milhões de dólares em fécula. Não
há dúvida nenhuma da importância econômica da cultura da mandioca. E considerando a
fase de produção, o processamento de mandioca dentro de um parque industrial, ela gera
mais de 1 milhão de empregos diretos. Pergunto mais uma vez que cultura agrícola gera
tanto emprego nesse setor? A mandioca, certamente, é a cultura que mais tem essa
importância.
A mandioca está situada hoje na sexta cultura de maior importância no
Brasil. Anualmente, ela gera uma receita bruta equivalente a 2,5 bilhões de dólares.
Não sei o que é isso, mas é uma quantidade expressiva quando se fala em dólar, além
de representar grande contribuinte tributário. Ela contribui com 150 a 200 milhões de
dólares com o Governo, e não apenas retira recursos dele. Era para isso que o Governo
deveria olhar.
Vamos discutir rapidamente sobre os aspectos gerais da cadeia produtiva
da fécula. Isso aqui está simplificado, mas vejam bem no que a fécula pode se
transformar. Pode ser transformada em inúmeros produtos, como disse, em mais de 200
atualmente. Esse é apenas um exemplo de como o amido pode contribuir. Quem não conhece o
polvilho azedo, ingrediente do bolinho de queijo mineiro famoso, que hoje está nas délicatesses,
no aeroporto? É um produto altamente relevante a ser apreciado.
Eu gostaria de que Reynaldo e o Maurício Iamakawa, nosso grande
industrial do Paraná, confirmassem esses dados. Parece-me que hoje a distribuição da
produção de fécula teria maior participação do Paraná, com 60%; Mato Grosso, com
20%; São Paulo, com 10% e os demais Estados, com 10%. O Paraná parece que vai roubar o
cenário deste seminário, com a participação impressionante de 60%, mas esse é o
aspecto industrial.
Quando nos referimos à produção doméstica, o Nordeste tem
participação expressiva, que normalmente não aparece em estatísticas, mas estou certo
de que o volume de amido produzido hoje por fabriquetas caseiras do Nordeste é elevado.
Tanto é que a Região Nordeste participa com percentual muito alto de consumo de fécula,
sendo talvez o maior os senhores podem confirmar. O Paraná pode dar exemplo disso
e inclusive agradecer ao Nordeste exatamente por consumir também o produto da fécula.
Como definimos a situação da fécula e da mandioca no Brasil? Hoje,
temos a produção de 550 mil toneladas de fécula, enquanto o consumo neste momento é de
40 mil toneladas, portanto, temos um superávit. Esse realmente é nosso gargalo, e vamos
estudá-lo. Se conseguirmos, através desta Câmara, a inclusão ou a valorização da
mandioca para outro uso, esse consumo será facilmente absorvido, e poderemos até criar
nova produção, dobrando-a. A previsão é, em 2005, chegarmos exatamente a 1 milhão de
toneladas de amido, o que o Maurício pode confirmar. Em 2005, a produção vai ser
derivada em diversos produtos, e até a porcentagem de exportação, com certeza, vai
crescer. Hoje temos o amido orgânico, o amido açúcar vemos coisas fantásticas
acontecendo com a cultura de mandioca.
Eu digo que temos realmente a capacidade de dobrar a produtividade,
exatamente por esse fator. Hoje, a capacidade ociosa das fecularias está em torno de 50%.
Grandes fecularias que poderiam moer até 600 mil toneladas, estão moendo exatamente a
metade, 300 mil toneladas aproximadamente. Com toda capacidade industrial implantada no
Mato Grosso, Paraná, São Paulo e Santa Catarina, há capacidade ociosa de 50%. Isto é
importante ressaltar: a indústria está preparada para dobrar a produção, basta
produzir.
Como resumo da palestra, eu falaria do aspecto positivo da mandioca.
Ninguém tem dúvida de que a produção de mandioca é grande geradora de emprego e que
fixa o homem no campo. Estamos vivendo uma situação em que a população está
caminhando para a zona urbana, e a mandioca pode promover uma fixação melhor do homem no
campo. Portanto, há menor êxodo rural e menor custo social nas grandes cidades com o
plantio da mandioca.
Faço aos senhores uma indagação: será que as casas urbanas que o
Governo tanto implanta nas grandes cidades estariam acontecendo se cuidássemos um pouco
da agricultura? Acredito que não. Então, a agricultura será a base de sustentabilidade,
realmente, não só a cultura da mandioca, mas outras culturas agrícolas. A importância
da agricultura realmente está nesses aspectos sociais.
Outra vantagem da cultura da mandioca é exatamente o pequeno uso de
insumo químico e agrotóxico, por isso, temos gosto de trabalhar com ela. No Nordeste,
nem adubo se aplica. A mandioca na Região Nordeste é praticamente orgânica, produzida
sem nenhuma interferência tóxica. Talvez nenhuma outra cultura seja capaz de responder
às questões ambientais que todos vão discutir no futuro a questão da água, da
poluição do rio. A mandioca está aí, como uma contribuição ambiental realmente
espetacular.
Outra vantagem do plantio da mandioca é a menor mobilização do solo.
Vejam bem, a mandioca permanece até 18 meses, isto é, não se planta constantemente, a
cada três ou quatro meses. Ela realmente dá essa contribuição de movimentação. Uma
outra vantagem é a menor poluição dos afluentes, açudes, etc. Eu poderia até falar
muito mais desses aspectos da cultura da mandioca que louvamos. Vinte minutos são muito
pouco para dizer essas coisas.
Eu não estou propondo, nem a EMBRAPA, mas poderíamos considerar,
simplesmente numa discussão ampla, o que poderia implicar se de fato essa ação
ocorresse: seria a geração de mais de 50 mil empregos diretos a quantidade de
empregos indiretos que seriam gerados é quase infinita, impossível calcular e uma
divisa da ordem de 105 milhões de dólares.
O que poderia fazer isso? Que mecanismo se poderia utilizar? Eu tenho
certeza de que vamos ser muito questionados. Se, de fato, temos capacidade de resolver o
déficit que hoje existe e se incorporarmos os 10% da farinha, precisaremos de 700 mil
toneladas a mais, praticamente o dobro do que realmente estamos produzindo. Mas, se existe
mercado para a cultura da mandioca, todos aqui vão responder à altura da necessidade .
Na primeira fase, é claro que vamos trabalhar no centro-sul no
Paraná e no Mato Grosso , onde a infra-estrutura agrícola já existe, e a
tecnologia hoje é suficiente para responder às necessidades. Na segunda fase, vamos
fazer uma descentralização e premiar as Regiões Norte e Nordeste, bastante carentes em
tecnologia. Não falo de tecnologia agrícola, porque hoje a EMBRAPA a tem, mas o problema
é sua utilização. Mas, havendo mercado, o produtor vai responder a isso através do uso
das técnicas disponíveis hoje.
Terminando a palestra, gostaria de mostrar quanto há de avanço
tecnológico relacionado à mandioca: temos plantadeira mecânica altamente eficiente;
plantios grandes, com saúde; colheitadeira mecânica, para responder, se houver demanda
de produção. A própria máquina, que colhe e praticamente coloca a produção no
caminhão automaticamente. Temos a big bag carregando a mandioca.
Essa é a indústria. Não possuímos apenas uma, mas aproximadamente
100 indústrias distribuídas, cada uma processando 600 mil toneladas, podendo chegar a 1
milhão de toneladas. Está aí a resposta da cultura à modernização.
Essa é uma fotografia do Maurício Iamakawa produzindo amido
orgânico. Eu nunca imaginei que se produziria amido orgânico exatamente para alcançar
um nicho de mercado internacional.
Eu agradeço pela oportunidade, pedindo desculpas pelo tempo que
ocupei. Termino dizendo que quem trabalha com a cultura da mandioca é um brasileiro
diferenciado posso dizer isso. Esse brasileiro tem realmente amor à Pátria,
porque se trata de cultura muito importante. Nós nos orgulhamos muito disso.
Obrigado. (Palmas.)
O SR. COORDENADOR (Deputado Aldo Rebelo) - Muito obrigado,
companheiro Chigeru Fukuda, não apenas pela brilhante e fecunda exposição, mas também
pelo entusiasmo, confiança e esperança. Não se trata de pessoas que somente realizam,
mas que têm perseverança naquilo que fazem. Agradeço a V.Sa. a contribuição.
Passo, de imediato, a palavra ao companheiro José Reynaldo Bastos da
Silva, Presidente da Câmara Setorial da Indústria da Mandioca e do Sindicato da
Indústria da Mandioca do Estado de São Paulo, com quem mantive, ao longo dos anos,
interlocução permanente para que este Seminário pudesse ser realizado. Contamos, entre
outros incentivos, com a participação de S.Sa., que agradeço de público.
O SR. JOSÉ REYNALDO BASTOS DA SILVA - Bom dia a todos.
Trago agradecimento especial do setor mandioqueiro, especialmente do
paulista, ao nobre Deputado Aldo Rebelo, bravo combatente no ramo. S.Exa. se tornou
mandioqueiro seja bem-vindo. Nós o acolhemos com carinho e dedicação, para
respaldá-lo no que sabemos fazer: produzir.
Quero saudar meus amigos de São Paulo. Viemos num ônibus patrocinado
pelo SEBRAE nacional, pela interveniência do Deputado Aldo Rebelo, e franqueado aos
produtores e industriais da região de Cândido Mota, Paraguaçu Paulista, Palmital,
Platina, Porto Ferreira, Santa Maria da Serra, Borá e Ubirajara. Peço à nossa turma que
se levante, por favor. (Palmas.)
Vou utilizar meu tempo apresentando algumas transparências simples.
Enquanto se prepara o retroprojetor, farei uma introdução.
Carrego comigo um mostruário de duas dúzias de produtos industriais
derivados da mandioca da nossa região de Cândido Mota. Ao final da minha exposição,
farão uso da palavra dois Vereadores, um de Cândido Mota e um do Borá, mandioqueiros
típicos, para saudar os nobres Deputados e os demais presentes.
Quero refrescar a memória de todos: em 6 de agosto, perdemos o
eminente Jorge Amado. Quem não conhece o papa da literatura brasileira? A turma da Bahia
está presente. Ele disse, já no final da vida, quando não tinha mais a energia típica
do bom baiano: "aonde eu vou, levo o Brasil comigo, mas, ai de mim, não levo farinha
de mandioca!" Se tivéssemos nos aproximado mais, certamente colocaríamos, na mala
dele, um punhadinho de farinha de mandioca, para que jamais se esquecesse dela.
A mandioca está sendo hoje propagada principalmente pela grande
imprensa, devido, em grande parte, à iniciativa do Deputado Aldo Rebelo, em movimento
inédito na história do setor mandioqueiro nacional. Pela primeira vez, conseguimos
realizar um Seminário Nacional de Mandioca, para falar o dia inteiro sobre o produto, na
Câmara dos Deputados.
A voz do Legislativo se levanta hoje, liderada por S.Exa., para
reconhecer uma cultura genuinamente brasileira. O jornal Estado de S. Paulo
publicou na sexta-feira, 17 de agosto de 2001 logo após a morte de Jorge Amado
, artigo intitulado: "A Mandioca: As Raízes do Brasil", em que constata
que a história da mandioca se confunde com a do Brasil.
Vamos passar à fase técnica, rapidamente, para que possa cumprir meu
cronograma. Temos uma séria crítica aos dados oficiais do Anuário Estatístico do IBGE:
eles são deficientes. O Instituto faz seu levantamento informativo sistemático por
amostragem, mas, quando queremos planejar as ações do setor mandioqueiro, temos dados
apenas relativamente confiáveis, cuja única fonte é o IBGE.
Destaca aquele Anuário que, no ano de 1998, quando na Rodada Uruguai
se discutia a criação da Organização Mundial do Comércio, a mandioca ocupava a quinta
posição entre os principais produtos da agropecuária brasileira, com um faturamento
médio anual de 1.747.153.000 dólares.
Se, do ponto de vista do valor econômico, essa é a expressão
oficialmente divulgada pelo IBGE, do ponto de vista social, a única fonte que conseguimos
encontrar para medir o potencial de geração de emprego pelo setor mandioqueiro nacional
é a Fundação SEADE, do Governo do Estado de São Paulo. Esse órgão revelou que, em
1998, a geração, em equivalentes homens/ano, era de 621.335 empregos. Esse dado colocava
a mandioca na terceira posição naquele ano, em comparação com os demais produtos
nobres da agricultura brasileira.
Já foi apresentada aqui, mas faço questão de reafirmar a enorme
diversificação na fabricação, nos usos e nas aplicações dos derivados da mandioca,
principalmente os industriais: fécula e farinhas. Vejam os senhores as seis grandes
colunas, que representam expressivos mercados em que a mandioca hoje comparece na
culinária trivial do brasileiro, da população dos países tropicais de todo o mundo e
também em aplicações industriais e na alimentação animal direta: mandioca fresca,
picada, para porco, para vaca leiteira, para todo tipo de animais.
Temos a mandioca diretamente transformada em álcool, não o carburante
se bem que agora, dado o alto valor desse produto, talvez possamos até considerar
essa possibilidade , mas o destinado às indústrias de bebidas etílicas e de
perfumes.
A mandioca tem neutralidade de cheiro e de sabor que se presta à
aplicação de qualquer derivado, pois preserva as características originais do outro
produto, por exemplo, do perfume francês, no caso do álcool de mandioca. Entretanto, ela
deve ser manuseada em unidades pequenas, em minidestilarias, num modelo diferente do
concebido dentro do PROALCOOL, malsucedido porque feito em escala extensiva.
Pensava-se que mandioca era o mesmo que cana-de-açúcar. Ela foi
plantada em alta escala, sem uma mecanização eficiente. Foi um erro fatal. Queimaram a
mandioca dentro do PROALCOOL, porque não foi utilizada com critérios adequados. A
mandioca se destina principalmente para o álcool em minidestilarias, para bebidas
etílicas, drogarias e perfumarias.
A raspa de mandioca, muito propagada, é conhecida principalmente nas
Regiões Norte e Nordeste para alimentação animal, na sua forma a granel ou peletizada.
As várias formas de farinha de mandioca branca, fina, grossa, biju, torrada,
amarela, copioba, tapioca , dentro das características de consumo de todas as
regiões, têm íntima ligação principalmente com as culturas nordestina e nortista, que
felizmente hoje se propagam por todo o Brasil, auxiliando-nos com sua força de trabalho e
contribuindo para que o País prospere.
Nesse sentido, conclamo toda a bancada nordestina da Câmara dos
Deputados a somar esforços em torno do projeto do Deputado Aldo Rebelo, que pode ser a
redenção do setor mandioqueiro nacional.
Na alimentação humana direta, a mandioca é consumida na forma de
raiz ou congelada para fritura instantânea, como a batata. Uma cooperativa de pequenos
agricultores de Ubirajara, no interior do Estado de São Paulo, pré-coze, congela, embala
e vende essa mandioca para vários nichos de mercado. Temos exemplares do produto, na
entrada deste plenário.
A fécula já foi bem-propagada. O Presidente da Associação que
representa o setor poderá, melhor que ninguém, expor os usos e aplicações da fécula e
dos amidos modificados.
Quero acrescentar um detalhe: descobriu-se, em 1993, com o respaldo da
Pastoral da Criança da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, o potencial
nutricional da farinha de folha de mandioca, que apresenta níveis expressivos de vitamina
C e principalmente de vitamina A, para combater a anemia ferropriva de crianças carentes
das periferias.
Está presente um companheiro da Vila São Judas, de Cândido Mota,
onde se utiliza uma multimistura, por orientação da Pastoral da Criança, que inclui
essa farinha, para melhorar os níveis de vitamina A, que combate a deficiência visual;
de cálcio, vitaminas do Complexo B e ferro, no combate à anemia; de proteínas e
calorias. Portanto, a farinha da folha de mandioca é produto nobre, de baixas calorias, diet,
que tem de conquistar espaço no mercado desculpe-me, Deputado Aldo Rebelo, pelo
estrangeirismo, que afronta seu brilhante projeto sobre a língua portuguesa.
Quando se fala da mistura de mandioca e trigo, temos o atestado
técnico de uma entidade que tem credibilidade oficial, o Instituto de Tecnologia de
Alimentos do Governo do Estado de São Paulo. Todos os níveis de mistura possíveis para
cada um dos produtos finais, ou seja, para os diferentes tipos de pão incluindo o
francês e o de forma , permitem o uso da farinha de raspa, que estamos expondo ali
fora.
Está presente um fabricante dessa farinha, de Palmital. Quando foi
criada a política de subsídio ao trigo, dentro do monopólio da comercialização do
produto na época da ditadura militar, ele e o pai heroicamente resistiram e mantiveram
sua fábrica até hoje, vendendo para o mercado de amendoim japonês é aquela
casquinha crocante. Mas eles têm esperança na retomada desse mercado de mistura, para
voltar a produzir, a todo vapor, a farinha panificável de mandioca. Portanto, temos aqui
um testemunho pessoal.
São esses os níveis de mistura. Se for biscoito, aumenta o percentual
permitido, principalmente na forma de amanteigado. Se for fécula comum, o máximo é 35%;
se for pré-gelatinizada, produto de domínio da indústria atual, até 40%; e, no
mínimo, 3% de farinha de raspa comum no pão francês, o pão nosso de cada dia.
Quero falar dos resultados da luta do nosso setor. Em 1989, assumi a
Presidência do Conselho Superior da Sociedade Brasileira de Mandioca, hoje presidida pelo
companheiro Chigeru Fukuda, da EMBRAPA de Cruz das Almas, Bahia. Conseguimos
"arrancar" uma portaria engavetada nos Ministérios da Agricultura e da Saúde
sabemos por que ela estava lá, mas não nos cabe dizer. Conseguimos que ela fosse
assinada e entrasse em vigor imediatamente, depois de muita pressão, na época ainda sem
apoio político, que agora temos, principalmente do Deputado Aldo Rebelo. Trata-se da
Portaria nº 224, de 5 de abril de 1989, publicada na pág. 53, seção I do Diário
Oficial da União de 7 de abril daquele mesmo ano, em vigor até hoje.
Porém, só a permissão passiva da mistura não é suficiente, porque
o setor mandioqueiro não consegue se articular tão fortemente como o do trigo. Hoje,
estamos dando o primeiro passo na nossa organização política, mas outros produtos como
trigo e milho, importantes na economia do País e sucedâneos na dieta alimentar do
brasileiro, já estão estruturados politicamente há muito mais tempo. Este evento
também tem o objetivo de sensibilizar esses setores para que nos permitam uma pequena
participação nesse grande mercado dos pães, biscoitos, macarrão e massas em geral.
Portanto, a portaria, por si só, não é suficiente, porque não dá o
respaldo legal para que efetivamente criemos esse mercado. Precisamos de leis que balizem
a discussão democrática de causas e efeitos. Para isso, existe o Legislativo, a Câmara
dos Deputados. Daí a função deste evento, brilhantemente organizado pelo Deputado Aldo
Rebelo.
(Apresentação de transparências.)
Hoje esse evento visa sensibilizá-los, para que abram a possibilidade
de pequena participação nossa no grande mercado de pães, biscoitos, macarrão, massas
em geral.
Assim, essa portaria, por si só, não é suficiente, porque não dá
respaldo legal para criarmos esse mercado. Precisamos de leis para isso, existe o
Legislativo que balizem a discussão democrática das causas e dos efeitos.
Daí a função deste evento, brilhantemente organizado pelo Deputado
Aldo Rebelo de forma democrática, com participação de todos os segmentos que compõem a
cadeia produtiva da mandioca, e outros, como consumidores, que participam de forma direta
ou indireta da questão. Discutimos e tentamos pelo menos chegar ao consenso. Em seguida,
vamos escrever, preto no branco, por meio de uma lei, e essa é a função de um Deputado
que desempenha muito bem suas funções, por sinal.
O próximo, por favor. Se podemos substituir a importação do trigo,
hoje produzido principalmente nos Estados Unidos, no Canadá, na Argentina e no Uruguai,
pela exportação de derivados da mandioca, estaremos contribuindo com a balança
comercial do nosso País, economizando e gerando dólares.
Vejam a participação dos países asiáticos no mercado da União
Européia, por exemplo. Hoje este mercado está dominado quase totalmente pela soma da
produção da Tailândia, Indonésia, Malásia, China. E o Brasil está entre os demais
países, ou seja, é ínfimo o percentual de exportação de produtos derivados da
mandioca. Recentemente o Governo brasileiro abriu a possibilidade de rediscutir essas
tarifas junto à União Européia. Então, mais do que nunca é oportuno que ampliemos a
cota brasileira de exportações, com tarifa zero, de produtos de mandioca para a União
Européia. Trata-se de pleito muito importante, nobre Deputado Aldo Rebelo.
Sobre a taxa, 6% era a média atribuída aos países asiáticos. Quanto
ao Brasil, Deputado, 28%. De que forma entraremos naquele mercado com essa diferença de
22%? Então, é fundamental quebrar essa barreira para estabelecermos condições de
competitividade iguais. É só isso que estamos pedindo, ou seja, comercialização em
igualdade de condições com os produtores asiáticos da Tailândia, da Indonésia, da
Malásia, da China, mas que deixem maior espaço para os produtores brasileiros.
O próximo, por favor. Rapidamente, o potencial da magnífica planta da
mandioca. Para quem não conhece, está aí um pé de mandioca. Há uma zona nas raízes
que contém essencialmente amido, carboidratos, ou seja, energia vital para homens,
animais, além de diversas aplicações industriais. A partir das raízes da planta, há
decréscimo do teor de amido, mas, em compensação, acréscimo de alimentos protéicos
nobres, vitamínicos, sais minerais, como cálcio, ferro, magnésio. Ou seja, o conjunto
da planta pode ser utilizado como alimento ao homem e também aos animais. Podemos fazer
silagem da parte aérea da mandioca para os animais; podemos fazer excelente feno. E o
produtor pode agregar o valor e produzir carne, leite, ovos. Essa também é a função da
mandioca na parte aérea.
O próximo, por favor. Falando mais da industrialização da mandioca,
precisa dar significativo salto, pois há espaço para isso. Aliás, digo isso ao
Presidente Horácio Piva, da FIESP, a grande casa da indústria de São Paulo, que muito
se sensibiliza com a questão. Enfim, precisamos industrializar mais a mandioca,
precisamos agregar mais valor através da indústria, principalmente de amidos, amidos
modificados, de novos amidos para panificação, como esse amido fibroso. Por quê?
Porque, hoje, o parque industrial forte da mandioca se concentra aqui, nesse grande
eixão. Noroeste do Paraná.... Onde estão os amigos do noroeste do Paraná? Por favor,
peço que se levantem. (Palmas.) São Paulo, que foram os companheiros de ônibus,
mais uma vez. Oeste paulista. (Palmas.) Mato Grosso do Sul, sudeste do Mato Grosso
do Sul, Ivinhema, particularmente. (Palmas.) Grande Nelito, ex-Prefeito da cidade
de Ivinhema, e atual Deputado Estadual em Mato Grosso do Sul. E de Santa Catarina, veio
alguém? Eu convidei. Talvez pela distância, mas o sindicato foi convidado, algumas
cooperativas. É forte produto principalmente de amido de mandioca. Enfim, daqui se
originaram os empresários atuais, que estão produzindo no Paraná, no Mato Grosso do
Sul, alguns em São Paulo. Onde estão os catarinenses, hoje empresários no Paraná, no
Mato Grosso do Sul, em São Paulo? Por favor, levantem-se. Estão aqui os catarinenses
fortemente presentes. Eles são os pais da indústria da mandioca.
O próximo, por favor. Da fécula da mandioca, vem corrigido pelo
Presidente da Associação, Maurício Yamakaua, do Paraná. Então, se temos indústrias
poderosas, que hoje processam mil toneladas de raiz de mandioca por dia, isso se deve ao
fato de que temos plantações vigorosas na região do Mato Grosso do Sul, nesse caso
específico, Bataguaçu; no Estado de São Paulo, no Estado do Paraná, no Estado de Santa
Catarina, que correspondem ao suprimento dessa matéria-prima para tocar a agroindústria,
modelo de complexo agroindustrial sustentado, que hoje se aplica muito bem à mandioca na
região centro-sul do Brasil.
O próximo, por favor. Podemos verificar belas indústrias, modernas,
preocupadas com o meio ambiente, habilitando-se ao certificado da ISO 9000, da ISO 14000
do meio ambiente. Elas estão bem localizadas, à beira das rodovias federais. Tudo pronto
para escoar o produto, só falta política de produção e principalmente de
comercialização.
O próximo, por favor. Tomei essa iniciativa através da Câmara
Setorial, nobre Deputado, e não é só da indústria. Ocorreu erro, não seu, mas da
organização. A Câmara Setorial da Mandioca do Estado de São Paulo reúne todas as
atividades relacionadas com a cultura da mandioca, produtores, industriais, pesquisadores,
extensionistas, universidades. É nosso fórum permanente de debates, para trazer
inovações, ganhos tecnológicos para o produtor e para o empresário principalmente.
Estamos hoje apresentando esse pleito em nome do setor mandioqueiro
nacional. E vamos pedir anuência dos paranaenses, dos sul-mato-grossenses, através de
assinaturas. Queremos passar esse documento diretamente às mãos do Presidente da
Câmara, Deputado Federal Aécio Neves. O Deputado Aldo Rebelo está tentando trazê-lo
aqui para receber em mãos nosso pleito. Inclusive uma cópia desse documento irá para o
Deputado Federal Aldo Rebelo, que sem dúvida nenhuma irá monitorar o encaminhamento de
nossas reivindicações passo a passo, a fim de que consigamos tirar o setor mandioqueiro
nacional do atoleiro em que ele se encontra hoje o mais rápido possível.
Para encerrar, Deputado Aldo Rebelo, só faltam os itens. Vou falar
rapidamente, não vou detalhar. Deputado Aldo Rebelo, tenho mais tempo?
O SR. COORDENADOR (Deputado Aldo Rebelo) (Intervenção
fora do microfone.)
O SR. JOSÉ REYNALDO BASTOS DA SILVA - O primeiro grande item é
sem dúvida o apoio ao Projeto de Lei nº 4679/01, de autoria do Deputado Aldo Rebelo,
relatado pelo Deputado Inácio Arruda, que institui o mercado das farinhas mistas. Se esse
projeto for implementado para se ter noção de grandeza no índice médio
de mistura mandioca/trigo de 10%, teremos novo mercado de aproximadamente 500 mil
toneladas/ano de produtos derivados industriais de mandiocas adequados. A fécula, como
disse o Sr. Chigeru Fukuda, 150 mil toneladas, está pronta para entrar já no mercado.
Depois, podemos completar as outras 350 mil com a própria fécula. E também reativar
fábricas de farinhas panificáveis de mandioca, como as que tínhamos. No Estado de São
Paulo, antes da década de 70, tínhamos 300 pequenas fábricas, que foram simplesmente
aniquiladas pelo regime da ditadura militar, quando ali se implantou forçosamente
política equivocada de subsídio ao trigo, do monopólio da sua comercialização, que
gerou rombo nas contas externas do nosso Brasil de 20 bilhões de dólares. É um dos
componentes da nossa dívida externa, que está aí até hoje. E nós, brasileiros, temos
de pagar no dia-a-dia com o imposto gerado pelo nosso trabalho, ou seja, suamos no campo
para pagar a ineficiência daquele Governo, cujas conseqüências estão aí até hoje,
infelizmente.
Próximo. Não, esse faz parte do documento dois. Volta só o item 1,
do 2. Há uma transparência página 1, antes, com item 6 no fim. Está aí.
Medidas emergenciais para tirar o setor mandioqueiro brasileiro do
atoleiro já, agora. Reinclusão da farinha de mandioca nos programas sociais das cestas
básicas do Governo Federal. Comparecíamos, a CONAB comprava direto na bolsa de cereais.
Hoje não compra mais, mas compra cesta básica pronta. O setor não tem condições de
montar cesta completa e tampouco participa expressivamente como antes participava,
vendendo direto, através das bolsas de cereais, farinha de mandioca para abastecer
PRODEA, outros programas sociais. E principalmente a merenda escolar, em que
estrategicamente estão tirando o hábito alimentar das nossas crianças, substituindo a
mandioca por outros produtos sucedâneos, outros produtos derivados principalmente de
milho e trigo, sem nenhuma razão. Nosso produto é nobre. As crianças trazem no seu gene
vontade de consumir bons produtos alimentícios de mandioca, mas por questões
circunstanciais e equivocadas, principalmente decisões políticas, estamos perdendo
também o mercado da merenda escolar, que precisamos reativar.
Os recursos para respaldar a produção. Empréstimos do Governo
Federal, os chamados EGFs. Aquisições do Governo Federal em regiões onde haja excesso
de oferta, como, por exemplo, Paranavaí, Ivinhema, Cândido Mota. O Governo vai lá,
enxuga com pouquinho dinheiro, compra bastante farinha de fécula e recupera o preço do
produtor de raiz de mandioca rapidamente. Se o Governo quiser, ele pode e deve fazer isso.
Liberação de recursos para o plantio. Sempre nas épocas corretas. O
calendário é de pleno domínio da rede de extensão rural. Cada região tem o seu. Mas
não pode faltar o dinheiro na hora certa, quando o produtor quer plantar mandioca.
Liberação para investimentos agroindustriais no parque fabril. Criado
o novo mercado, precisamos remodelar as farinheiras, montar as novas, ampliar as
fecularias, para atender à demanda juntamente com o trigo. Para isso, vamos precisar de
dinheiro para investimento, a juros compatíveis com o mercado internacional. Esses juros
de TJ, cobrado pelo BNDES, inviabiliza o investimento. Em cinco anos, dobra o valor tomado
no empréstimo. Tem de cair a TJLP nos investimentos agroindustriais, pelo menos de
mandioca, do BNDES.
A revisão dos preços mínimos carrega defasagem de 35%. Hoje é o
produto da agricultura que tem a maior defasagem da política de garantia de preços
mínimos do Governo Federal. Aliás, hoje o Governo não está garantindo nada a essa
política. Então, primeiro, revisar o preço mínimo efetivamente. Os custos são de
domínio público. Entidades credenciadas, de credibilidade, como, por exemplo, o Centro
de Pesquisa de Economia Aplicada da Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiroz, da USP,
de Piracicaba. Correu, percorreu, Deputado, todas as regiões. Está se fechando o custo
hoje, debatido democraticamente, em seis regiões diferentes São Paulo, Paraná,
Mato Grosso do Sul, Santa Catarina , para ter neutralidade e o domínio estatístico
e se chegar a um número. Esse número já me adiantaram. Vamos fazer a próxima reunião
da Câmara Setorial Estadual da Mandioca de São Paulo em Piracicaba, em dezembro.
Aproveito para convidar a todos a participarem. Na oportunidade vão divulgar oficialmente
o resultado da pesquisa. Mas eu já sei que para produzir mandioca hoje no Brasil, de modo
geral, em média, na região centro-sul, o custo é aproximadamente de 40 reais a
tonelada. Não tem sentido o preço mínimo de 30. Portanto, a defasagem em torno de 35%,
que precisa ser imediatamente corrigida pela CONAB, principalmente.
Liberação de consumo de energia elétrica. Nossas indústrias são de
mini e pequeno porte. Não tem sentido essa restrição. Geramos empregos, a mandioca,
muitas vezes, apodrece no campo por falta de energia elétrica. Algumas indústrias têm
mercado cativo para sua produção industrial e só não trabalham hoje 24 horas em
virtude da restrição do consumo de energia elétrica.
Próximo, por favor. Credenciamento de armazéns nas diversas regiões
produtoras, com intuito de estocar o excedente na fabricação da safra de mandioca.
E negociação na Organização Mundial do Comércio, particularmente
na União Européia, com objetivo de fixação de alíquota zero para
internacionalização de produtos derivados de mandioca do Brasil, ampliando a cota para
até 500 mil toneladas a partir do ano que vem.
Por outro lado, para ilustrar, quando saímos ontem de Cândido Mota, a
cooperativa de lá, COOPERMOTA, nossa parceira hoje nesse evento, juntamente com
sindicatos rurais de Cândido Mota, Palmital, Paraguaçu Paulista todos aqui
presentes , conseguimos que a farinha de trigo, tirado de pesquisa da Trigonet, do
próprio setor do trigo, custa hoje..., preço médio da farinha de trigo especial, no Rio
de Janeiro, preço médio tabelado pelos moinhos de trigo: farinha, saco de 50 quilos, 42
reais e 50 centavos. Sabe quando custa um saco de farinha de mandioca em São Paulo?
Alguém falou 13. Quando consegue pegar, pois geralmente pega 12. Vejam o disparate!
Então, hoje, mais do que nunca é viável economicamente substituir trigo importado...
Não vamos mexer no trigo nacional; deixemos o Brasil aumentar sua produção de trigo
nacional nas regiões que têm vocação climática para o produto. Mas vamos tirar uma
fatia desse bendito trigo que vem de fora sem nenhuma razão. Ora, tem viabilidade
econômica, tem respaldo técnico. O Dr. Armed Aldashi falará com toda a autoridade do
respaldo técnico. Ele é da UNICAMP, da Faculdade de Engenharia de Alimentos.
Então, o que falta? Falta decisão política. E decisão política se
faz com lei. Portanto, Deputado Aldo Rebelo, somos totalmente favoráveis, por questão de
ética, de seriedade, de princípios, à aprovação, o mais rápido possível, do seu
projeto de lei.
Muito obrigado, Deputado Aldo Rebelo.
Um grande abraço a todos. (Palmas.)
O SR. COORDENADOR (Deputado Aldo Rebelo) Muito obrigado,
José Reynaldo, pela sua exposição.
Quero, antes de prosseguir, registrar a presença do Deputado Roberto
Pessoa, também um entusiasta do nosso projeto e dos nossos objetivos. Companheiro do
Ceará
A presença do Deputado Roberto Pessoa, companheiro do Ceará, que
também é entusiasta do nosso projeto e dos nossos objetivos. Muito obrigado pela
presença. (Palmas.)
Contamos com o apoio de determinados amigos e promotores para
realização deste seminário. O próprio SEBRAE não nos faltou nessa hora, por razões
de natureza técnica ou política e pela relação pessoal que tenho com seu Presidente.
Sou Deputado por São Paulo, mas venho de Alagoas, Estado a que pertence o Presidente do
SEBRAE. Fomos colegas de faculdade. Portanto, ele não poderia deixar de nos apoiar na
realização deste evento. Também fui contemporâneo de movimento estudantil do qual
participou o Sr. José Reynaldo. Ele estudando Geologia em Rio Claro, eu cursando Direito
na Universidade Federal de Alagoas, ambos participamos do mesmo Congresso de
reconstrução da União Nacional dos Estudantes. Estamos nesse caminho, que sempre
permite reencontros como esses, o que é muito bom para o País e para o povo.
Preparamos um coquetel. Temos tapiocas, quindins, macaxeira, enfim,
tudo. Vou reduzir o intervalo destinado ao almoço. Quem quiser almoçar, poderá ir a um
bons restaurantes e churrascarias que há em Brasília. Na Câmara também. No entanto,
aqueles que quiserem pegar no trabalho pesado, podem fazer um lanche aqui mesmo ao lado,
aproveitando o que a Casa nos oferta. Vamos procurar fazer com que nosso dia tenha
rendimento maior. Há muita gente para falar, teremos contribuições importantes. Peço
paciência.
Registro a presença das seguintes autoridades: José Roberto Ronqui,
Presidente do Sindicato Rural de Palmital, Cândido Mota, Paraguaçu Paulista; Vitorino
Gianegitz (?), Presidente da COOPERMOTA em Cândido Moura, Palmital; Ademir Aparecido
Lopes, Vereador de Borá pelo PSDB; Joaquim Caetano da Silva, Vereador de Cândido Mota
pelo PMDB; Clóvis Schelli(?), do Núcleo de Ação Política da FIESP e do CIESP; e Luís
Carlos Lósio(?), do Diretor da Yoki Alimentos S/A.
Vamos pedir aos Vereadores que façam uma breve saudação.
Tem a palavra o Vereador Joaquim Caetano.
O SR. JOAQUIM CAETANO DA SILVA Senhores, bom-dia. Sou
Vereador de Cândido Mota pelo PMDB, portanto, aqui represento a Câmara de Vereadores e o
Prefeito do Município, Cidinho de Lima. Sou agricultor. Planto soja, trigo, milho e
grande quantidade de mandioca. Sou sofredor, como todos os que estão aqui.
Saúdo todos os Deputados e demais autoridades presentes e peço a
todos, principalmente ao Sr. José Reynaldo, autor do projeto, que votem na Lei da
Mandioca, por nossos mandioqueiros e demais agricultores. Farinha da mandioca misturada à
farinha de trigo!
No ano passado, esteve em nossa cidade o Secretário da Agricultura.
Fez ele uma grande palestra para os agricultores de Cândido Mota. Nesse dia, havia
enorme quantidade de vendedores de implementos de mandioca. Foram vendidas, na ocasião,
80 máquinas para plantio de mandioca. E nós, como todos os agricultores do Vale do
Parapanema e do Paraná, Estado vizinho, que se fazem presentes, plantamos a mandioca.
Se analisarmos bem, precisaremos gradear a mandioca, porque o retorno
financeiro que ela nos dá não paga sequer a despesa. O preço por tonelada baixou de 126
reais para 26 reais. Portanto, temos de passar a grade e plantar outro produto.
Nossa fala é simples e humilde, mas espero que todos os Deputados se
sensibilizem ao ouvi-la.
Cândido Mota tinha quinze fábricas de mandioca. Hoje, apenas três
estão funcionando. Doze fábricas estão fechadas. Não foram destruídas, estão
fechadas, porque nem o agricultor, nem o fabricante têm como trabalhar. Queremos que
pequena parcela de Deputados venha defender o agricultor e o fabricante. Assim todos
ganham. Não é preciso que preço da tonelada da mandioca seja de 120 reais, 50 ou 60
bastam. Todo mundo ganha. O custo da produção, como disse o Presidente José Reynaldo,
é de 40 reais. Se a mandioca for tabelada em 50 ou 60 reais, ganhamos nossa parcela,
agricultores os fabricantes.
Esperamos que isso aconteça a partir desta Câmara dos Deputados. Que
o Deputado Aldo Rebelo, autor do projeto, sensibilize todos os demais Deputados. Esperamos
essa aprovação.
Muito obrigado. (Palmas.)
O SR. COORDENADOR (Deputado Aldo Rebelo) Muito obrigado,
Vereador.
O SR. APRESENTADOR (Reynaldo Bastos da Silva) Com a palavra
o Vereador Ademir Aparecido Lopes, PSDB de Borá/SP.
O SR. ADEMIR APARECIDO LOPES Srs. Deputados, companheiros de
luta, também sou Vereador na minha cidade. Aqui represento o Prefeito e a Câmara
Municipal de Borá.
Como agricultor daquela cidade e com muito orgulho , o
menor Município do Estado de São Paulo, não poderia deixar de enaltecer o brilhantismo
destas palestras, tendo em vista que nosso Município depende da mandioca. Temos, hoje,
400 alqueires de mandioca plantados na região. Assim como o companheiro acaba de falar,
com a tristeza e sofrimento, teremos de gradear a terra, porque o preço não é
condizente com o valor do produto. O Governo cita números, exige que os mandioqueiros e
farinheiros apresentem inovações em suas indústrias. No entanto, não lhes dá
condições para trabalharem. Falar em números é muito fácil, duro é estar na roça e
fazer com que essa mandioca retorne ao agricultor.
Sr. Deputado, que esse projeto realmente tenha o apoio de todos os
companheiros. O senhor teve a feliz idéia de nos apoiar. Contamos com esse apoio. É
triste ver um Município carente, depende da mandioca, viver tal situação. Os
companheiros de Cândido Mota sabem disso, porque que compram a mandioca que produzimos.
Esperamos ter avanços a partir deste evento. Creio no nobre Deputado. Tenho assistido os
programas de televisão onde V.Exa. tem trabalhado. Estamos muito felizes por ter um
patriota para defender essa bandeira.
Essas são as palavras que trago em nome do meu Município.
Muito obrigado a todos. (Palmas.)
O SR. COORDENADOR (Deputado Aldo Rebelo) Muito obrigado,
Vereador.
O SR. APRESENTADOR (Reynaldo Bastos da Silva) Concedo a
palavra ao Vereador Jorge Vani, PDT de Ivinhema/MS.
O SR. JORGE VANI Primeiramente, quero agradecer ao nobre
Deputado Aldo Rebelo a iniciativa de promover o primeiro seminário para discutir a
importância social e econômica da Mandioca para o Brasil, que se realiza aqui em
Brasília, e ao Presidente José Reynaldo, grande companheiro
O SR. JORGE VANI Primeiramente, quero agradecer ao nobre
Deputado Aldo Rebelo a iniciativa de propor a realização deste seminário e ao
Presidente José Reynaldo Bastos da Silva, um grande companheiro de muitas brigas,
principalmente em Ivinhema, Mato Grosso do Sul, por causa da situação da lavoura de
mandioca.
Temos um sério problema em nosso Estado, que os nossos Deputados
Nelito Câmara, Moca e outros têm tentado resolver, que é o racionamento de energia
elétrica, do qual o Estado deveria estar fora. Hoje, a região tem cerca de quinze a
vinte indústrias de farinha e quatorze ou quinze fecularias, que estão funcionando com
30% ou 40% de sua capacidade. A maior parte das farinheiras estão paradas por falta de
energia elétrica. Mas temos energia sobrando no nosso Estado.
Por isso, gostaria que a Câmara dos Deputados tentasse, juntamente com
os Deputados do nosso Estado que estão trabalhando nesse sentido, resolver o problema de
energia elétrica do nosso Estado.
Outra questão é o desemprego na nossa região. O Município de
Ivinhema tem hoje cerca de 8 mil hectares de mandioca plantados, numa região ultrapassa
25 mil hectares. Mais de 8 mil pessoas, os chamados bóias-frias, estão desempregadas,
porque, além do preço, que passa por dificuldades, não há energia para as indústrias
funcionarem. Essa é a situação do Município. Temos batalhado, corrido atrás, mandamos
documentos, mas não conseguimos nenhum resultado em relação à energia elétrica.
Há ainda o problema da comercialização de produtos, por causa da
questão de barracões, mas conseguimos algumas coisas. Hoje, a CONAB está comprando
algumas coisas de Mato Grosso do Sul, pegando os produtos lá em Ivinhema e trazendo para
Rio Verde, onde há barracões, porque não temos barracões credenciados na nossa região
para armazenar os produtos.
Então, os principais problemas da nossa região são a energia e o
preço defasado da produção, que vem causando sérios problemas para a agricultura da
mandioca. Sou um plantador de mandioca, assim como outros que estão aqui. Realmente, é
muito difícil a nossa situação. Por isso, mais uma vez quero parabenizar o Deputado
Aldo Rebelo, pela iniciativa e pelo trabalho que desenvolve. Pediria uma salva de palmas
para o Deputado. (Palmas.) Que ele continue olhando para os pequenos, olhando para
os agricultores. Assisto muito à TV Senado, e, esta semana, vi o Senador Pedro
Simon dizer: "Nós, que estamos aqui nos gabinetes, pisando em tapetes, não estando
em contato com os produtores, às vezes não sabemos a sua situação". Hoje, estou
vendo que há alguém que, mesmo pisando em tapetes e lidando com pessoas de paletós e
gravatas, está olhando também pelos produtores que estão no campo e trabalhando para o
sustento do nosso Município, do nosso Estado e do nosso País.
Meus agradecimentos também ao companheiro Maurício, de Nova
Andradina.
Muito obrigado a todos. (Palmas.)
O SR. PRESIDENTE (Deputado Aldo Rebelo) Deputado Regis
Cavalcante, do glorioso PPS das Alagoas, muito obrigado pela presença.
Vamos prosseguindo, companheiros. Convido a tomar assento à mesa o
companheiro engenheiro de alimentos, formado pela Universidade Aime Famis, do Egito,
professor e pesquisador do Departamento de Tecnologia de Cereais da UNICAMP, Armed
Aldashi; o companheiro Valmir Rodrigues Chaves, Presidente da Cooperativa dos Produtores
da Reforma Agrária do Pontal do Paranapanema, e a professora nutróloga e pediatra do
Ministério da Saúde, Dra. Clara Brandão, que também irá fazer uma exposição.
Vamos fazer esta rodada e, depois, daremos a palavra ao companheiro
Nelito Câmara, para, sucintamente, manifestar o apoio da Assembléia Legislativa do Mato
Grosso do Sul a este esforço conjunto. Depois, iremos suspender os trabalhos, para um
lanche rápido, voltando em seguida aos trabalhados.
Concedo a palavra à nutróloga e pediatra do Ministério da Saúde,
Dra. Clara Brandão, agradecendo-lhe a presença e o apoio que nos tem nos oferecido.
A SRA. CLARA BRANDÃO Boa-tarde. É um prazer imenso estar
presente e falar um pouco sobre a folha da mandioca. Pasteur, o grande cientista, disse:
"Não pergunto qual a sua cor, origem ou religião, mas qual o seu sofrimento".
Cada vez que um brasileiro sai do campo para a cidade, o Brasil perde em alimentos e ganha
em fome, mas isso é muito relativo. Morei muitos anos no Pará e vi a quantidade de
farinha que deixou de ser produzida por falta, inclusive, de preço.
O melhor alimento sempre começa com os melhores ingredientes. Quero
mostrar aos senhores algumas coisas que o Ministério da Saúde pesquisou, por intermédio
do Estudo Multicêntrico. O estudo mostrou que o brasileiro tem deficiência de todos os
cinco nutrientes pesquisados: vitamina A, ferro, cálcio, B1 e B2, embora a folha da
mandioca seja rica em todos esses nutrientes. O que chamou atenção foi a deficiência de
cálcio, que chega a ser superior a 50%.
As pessoas pensam que a deficiência de cálcio causa apenas
osteoporose, mas quero mostrar que, por exemplo, a deficiência de cálcio está
relacionada ao aumento de colesterol, insônia e hipertensão, sem contar com todos os
outros problemas que já conhecemos, como cárie dentária, bruxismo, a própria
osteoporose, dores articulares, cãibras etc. Queria mostrar ainda a diferença, em termos
de adequação nutricional, entre a raiz, que é a parte mais utilizada, e a folha da
mandioca.
Enquanto 100 gramas da raiz da mandioca contém 8% de cálcio, a folha
da mandioca contém 67%. Em termos de vitamina A, a raiz praticamente não tem nada,
enquanto 100 gramas da folha da mandioca chega a suprir 260% da necessidade diária da
pessoa.
Hoje, com a história do bioterrorismo, é importante que todos nós
saibamos, que todas essas doenças são infecciosas. Qualquer doença infecciosa, como
malária, AIDS, tuberculose, hanseníase, diarréia, pneumonia, cólera, dengue
todas elas , se a pessoa tiver níveis normais de vitamina A e zinco, a gravidade da
doença é mínima.
Portanto, gostaria de insistir: não podemos falar apenas da parte
social e econômica da mandioca, mas da parte nutricional, e que ela deveria ser usada
principalmente pelo produtor. Se não tivermos recurso humano realmente sadio, todo o
resto passa a ser resto.
Queria mostrar aos senhores a diferença entre uma folha verde escura e
uma folha verde clara. Esta aqui é melhorada geneticamente, e esta é praticamente 100%
jogada fora, embora seja uma das folhas mais ricas que o mundo possui.
Agora, os senhores vão sair daqui correndo com esta notícia: aqui em
Brasília o pó da folha da mandioca está custando 45 reais o quilo. Nos outros locais do
Brasil, ele custa, em média, 5 reais o quilo.
Falamos tanto do leite como fonte de cálcio. Cem gramas de leite
proporciona 25% da necessidade humana diária; a folha da mandioca, 67%.
Vou mostrar agora rapidamente algumas fotos. Fazemos esse trabalho há
26 anos no Brasil. O componente mais importante da multimistura é o farelo de arroz ou de
trigo. Em seguida, vem a folha da mandioca. Essa criança aqui é de Sergipe. O agente
comunitário tira essa foto ganhando um salário mínimo, pagando aluguel e sustentando a
família, porque ele sabe que vai tirar as outras duas, tal é a certeza que ele tem. Ele
paga o fotógrafo. Vejam que coisas muito simples podem mudar a qualidade de vida das
pessoas.
Essa criança é da Bahia. Vejam a diferença dessa criança, em quatro
meses!
No Maranhão, uma criança de oito anos, e três meses depois, só com
orientação alimentar, tendo como um dos componentes básicos a folha da mandioca.
Aqui, temos uma criança da Bahia que, com tuberculose e desnutrição,
com certeza iria a óbito. Aqui, três meses depois, e onze meses depois.
O milagre do uso da multimistura com a folha da mandioca não é a
recuperação. Qualquer um recupera. O difícil é manter por dois anos dentro da curva de
normalidade. Esse que é o milagre. Só que a mãe, usando recurso próprio, sem ninguém
dar nada, pode mudar a situação de qualidade de vida. Quanto menor a criança, mais
rápida é a recuperação.
Esta criança aqui, três meses e um ano depois. Ela recuperou 70% do
peso no primeiro mês, mas se manteve recuperada por dois anos e meio. Esse realmente é
um milagre.
Na periferia de Recife, uma professora primária deu um curso para
mulheres e, como é professora primária, ela fez uma avaliação interessante. Ela deu
papel e lápis, e as mulheres fizeram um desenho antes. Essa daqui não existe. É um
fantasma. Um mês depois, estava completamente diferente.
Essa outra talvez seja um monte de rama de mandioca; não
sabemos um mês depois, ela fez este desenho. Como estava em época de seca no
Nordeste, os senhores podem ver a chuva, o sol, a lua, estrela, árvores etc.
Aqui, Vale do Jequitinhonha, interior de Minas. Cerca de 1.500
famílias hoje vivem principalmente fazendo pó de folha de mandioca. Elas estão
produzindo em média duas toneladas. Numa época de safra, elas produziram quatro
toneladas de pó de folha. Quatro quilos e meio a cinco de folha fresca dá um quilo de
folha seca.
Aqui está o padre, que faz questão de pessoalmente moer a folha da
mandioca. Aqui, temos a secagem.
Em termos de vitamina A e ferro e já disse da importância
desses elementos , aqui estão, no Brasil, as três folhas mais consumidas. A
alface, campeã de aprovação no paladar brasileiro, tem 87 de vitamina A em cada 100
gramas, enquanto a folha da mandioca tem 1.960. De ferro, ela tem 1.7, enquanto a folha da
mandioca tem 7.2.
Em relação aos dados internacionais, hoje trabalhamos muito com o que
chamamos de alimentação inteligente ou aquela que promove a saúde, que pode retardar,
prevenir ou mesmo curar doenças. Esses alimentos hoje são os mais pesquisados no mundo
todo, em particular no Japão. Estamos usando esses alimentos funcionais, no âmbito
popular, há 26 anos. A folha da mandioca, sozinha, é um grande alimento funcional. Ela
tem tudo que queremos como antioxidante: ferro, cálcio, vitaminas A, C e E, magnésio,
selênio etc. Se uma mulher grávida aidética tiver níveis normais de vitamina A, ela
pode reduzir em quatro vezes e meio a probabilidade de a criança ser aidética. A folha
da mandioca pode reduzir a gravidade de todas as doenças.
Utilizando duas tabelas de composição de alimentos Guilherme
Franco e IBGE , vemos que entre os alimentos mais ricos em vitamina A a folha da
mandioca é a mais rica que o Brasil possui. Na prática, isso significa, segundo dados da
UNICEF, que se a criança tiver níveis normais de vitamina A, numa população de mil
crianças, 80 terão doenças respiratórias; se faltar, esse número sobe para 180. Em
termos de doença diarréicas, segunda causa de morte de crianças no Brasil, havendo
falta de vitamina A, de 80 cresce para 250 o número de crianças com diarréia. No total,
níveis normais de vitamina A, mortalidade de cinco; se houver deficiência grave de
vitamina A, com cegueira noturna e mancha de Bitô, essa mortalidade é multiplicada por
nove.
De novo, na tabela de composição, podemos ver que a folha da mandioca
tem, de ferro, 7.6, enquanto a carne tem 3.2. Então, a folha da mandioca tem o dobro de
ferro da carne, e é de graça. Está disponível para todo mundo. Se os senhores
analisarem os sinais clínicos de deficiências nutricionais de minerais e vitaminas
retardo de crescimento, redução do apetite, diarréia, aumento de infecções e
anemia , constatarão que praticamente todos os nutrientes indispensáveis para
prevenir tudo isso estão presentes na folha da mandioca. O mesmo acontece com a
deficiência de micronutrientes, pois ela tem magnésio, cálcio, ferro, manganês, cromo
e zinco.
Estivemos há dois anos no Peru, na Universidade da Selva. Eles estão
produzindo não corram, porque os dados são alarmantes saquinhos de chá de
pó de folha de mandioca, com dois gramas. Uma embalagem de 100 gramas custa 7 dólares e
meio. O Brasil produz mais de 3 bilhões de toneladas de frango, e as empresas maiores
estão importando cravo de defunto dos Estados Unidos e do México a 7 dólares o quilo,
para dar cor à pele do frango o nordestino, principalmente, jamais compra um
frango cor-de-rosa. A folha da mandioca, pelo preço que custa, resolveria muito mais esse
problema. É um dos trabalhos que estamos fazendo junto à Associação Gaúcha de
Avicultura. Se dermos pó de folha de mandioca para as galinhas, haverá aumento de
cálcio, ferro, niacina e principalmente vitamina A em sua alimentação. Teríamos frango
e ovo de qualidade superior pelo mesmo preço, só que o ovo vai quebrar menos, tanto na
coleta quanto no transporte. Isso agregaria valor à plantação do pequeno produtor que
vive da mandioca. Nesse trabalho, solicitamos aos criadores que comprassem a farinha da
folha da mandioca do pequeno produtor. Seria o benefício social do projeto.
Estamos fazendo também, em vários pontos do Brasil, a farinha
enriquecida. Quando adiciono produto químico, como vitamina A e ferro, estou fortificando
Quando acrescendo alimento a outro, no caso da farinha de mandioca,
estamos adicionando dendê, gergelim, semente de abóbora, abóbora inteira, mesocarpo de
babaçu e folha da mandioca para melhorar o valor nutritivo final. O sabor fica não
apenas muito agradável como a aceitação. Estamos apenas com o problema de vida de
prateleira que teríamos de pesquisar melhor. Fiz um trabalho, quando morei no Pará, com
agricultores, em que produzimos farinha de mandioca com farelo de arroz e de trigo, numa
proporção de um para três a um para quatro em volume. Triplicamos o valor em proteína
e quadruplicamos em minerais. E baixamos o custo. Isso não existe em nutrição.
Em relação aos metais pesados, hoje há problema seriíssimo. Os
senhores sabem que o chumbo pode provocar desde irritabilidade, nervosismo, pesadelo,
crises de epilepsia, hiperatividade, até falta de amor próprio, etc. Há estreita
relação entre metal pesado e violência no mundo. Todas as substâncias que ajudam a
retirar o metal pesado do organismo, do que é consumido diariamente, estão praticamente
presentes na folha da mandioca. Como disse anteriormente, a carne de boi tem 3.2 de ferro.
E o Brasil é o país da anemia. Em São Paulo, Estado mais rico da Federação, há 65%
das crianças anêmicas com menos de cinco anos. Em Pernambuco, esse índice chega a 85%.
E oferecemos ferro quando poderíamos acrescentar subproduto o que está sendo jogado fora
em toneladas. Será que existe proteção natural contra radicais livres? Quem os produz?
Estresses físico e mental, álcool e cigarros, radiação ultravioleta, poluição
ambiental, aditivos e conservantes nos alimentos e alimentos contaminados. Eles farão o
quê? Destruirão proteínas ou farão mutação da mensagem genética e a destruição da
membrana celular. E a folha da mandioca é riquíssima em antioxidantes.
Falou-se na cegueira. É bom que todos saibam que o Ministério da
Saúde até o final do ano irá liberar verbas para 500 mil cirurgias de catarata. E
perdemos grande oportunidade, porque não se diz como é feita a prevenção contra a
catarata. Mas devemos preferir desde cedo alimentos ricos em vitaminas A, C e E. A folha
da mandioca é um suco dessas vitaminas. Geralmente, há degeneração do olho acima de 50
anos de idade. Contra ela, devemos comer verduras. Quais são as vitaminas existentes? A,C
e E. A folha da mandioca contém, repito, nessas vitaminas. Sempre somos campeões do que
não presta. A primeira causa da mortalidade materna é a hipertensão gravídica,
relacionada à deficiência de cálcio. E as folhas verde- escuras, as sementes, a
própria casca de ovo têm muito cálcio, assim como a folha da mandioca. A segunda causa
da mortalidade materna é o excesso de sangramento. O zinco é substância presente em
grande quantidade no farelo, principalmente na folha da mandioca, tanto que o Peru está
usando de seis a oito sachês de chá por dia para prevenção e tratamento de câncer de
próstata. O zinco é responsável pela contração da musculatura uterina e liberação
da placenta na hora do parto. Então, com o uso de tudo o que foi referido, podemos
melhorar o sofrimento humano. Hoje, criança que nasce com menos de dois quilos e meio,
dois quilos e setecentos tem probabilidade na idade adulta de adquirir hipertensão,
diabetes. Doenças cardiovasculares aumentam significativamente. Se trabalharmos com
adolescente, gestante de risco, porque há peso e estatura baixa, a probabilidade de
doença aumenta mais ainda. E a folha da mandioca seria uma das responsáveis para mudar
esse quadro no Brasil.
Para concluir, senhores, vou mostrar a última foto e queria que
prestassem muita atenção a ela. É de uma família do Maranhão. Reparem os senhores a
fisionomia de perdedora dessa mulher. Abaixo, ela é vencedora um ano depois. Está com a
mesma roupa. Vejam a criança e a casa. Isso é possível apenas ensinando as pessoas a
comerem melhor, aproveitando o que há disponível não apenas na sua região como no seu
país. Creio que o maior capital é o humano. Devemos investir maciçamente não só no
produtor, mas em toda a população e aproveitar essa folha que é jogada fora em tão
grande quantidade.
Em relação à merenda escolar, hoje foi descentralizada. Em vários
Municípios, escolarizada. A Pastoral está realizando trabalho para que todos os dias
tenha farofa na merenda escolar enriquecida. Uma freira em Volta Redonda, com recursos do
BNDES, está produzindo cerca de uma tonelada de multimistura e conseguindo com a
comunidade plantar 400 mil pés de folha de mandioca. Vende só para uma instituição 500
quilos de mandioca. É todo um trabalho organizado juntamente com a comunidade. Portanto,
sem essa parceria direta da comunidade, não seria possível chegarmos a lugar algum. No
final das contas, queremos não só pagar as nossas dívidas e ganhar dinheiro, mas
conseguir também potencial humano. E isso tem de começar desde muito cedo na vida das
pessoas. Não é preciso dinheiro, mas informação correta.
Era o que tinha a dizer. Muita obrigada.
(Palmas.)
O SR. COORDENADOR (Deputado Aldo Rebelo) Muito obrigado,
Dra. Clara Brandão, do Ministério da Saúde, pela importante contribuição.
Creio que esclarecimentos dessa natureza deveriam compor com
relevância alguns dos informes obrigatórios do Governo Federal, em horário nobre para
todo o Brasil, por meio de rede de televisão, e deveriam ser oferecidos ao povo
brasileiro. (Palmas.)
Concedo a palavra ao Prof. Armed Aldashi.
O SR. ARMED ALDASHI Sr. Presidente, senhoras e senhores, boa
tarde! É imenso prazer estar hoje relatando aos senhores pesquisa que iniciamos em 1974.
Estamos vendo luz no fim do túnel, a qual poderá ser implementada. Em 1974, fui
convidado para iniciar pesquisa com o objetivo de aumentar a segurança alimentar no
Brasil.. O problema iniciou-se nos anos 50, nos Estados Unidos, onde houve grande
produção de trigo. Eles chegaram ao ponto de jogar trigo no mar, porque não havia
compradores.
Instituíram a Lei nº 480, que permitiu aos países de Terceiro Mundo
a compra de trigo a preços extremamente baixos. Naquela época, uma tonelada de trigo
custava 150 dólares. Os Estados Unidos ofereciam por 40 dólares pagos em moeda nacional
divididos em quarenta anos. Realmente, havia situação econômica inacreditável.
Evidentemente, o Brasil, como muitos outros países também, optaram por esse programa e
compraram o trigo americano. A situação continuou muito bem até 1972, quando houve
quebra de safra de trigo na Rússia. Os Estados Unidos assinaram contrato de venda de
trigo a esse país para os próximos três anos, de 1972 a 1975. O preço do trigo no
mercado internacional em sessenta dias subiu para 250 dólares a tonelada. Então, podemos
imaginar um país que estava comprando a tonelada de trigo por 40 dólares, em sessenta
dias, passou a adquirir por 250 dólares. A maioria dos países de Terceiro Mundo
implementou programas de subsídios, o que significava tomar dinheiro emprestado dos
bancos americanos para comprar trigo a 250 dólares e vendê-lo, nacionalmente, a quarenta
dólares. Num prazo de vinte anos, o Brasil teve dívida de mais de 20 bilhões de
dólares só para subsidiar o trigo. Não apenas isso. Mas o costume de consumir produtos
nacionais também foi perdido. Esse é o motivo de a maioria das fábricas de mandioca ter
fechado, porque não tinham como concorrer com trigo vendido a quarenta dólares a
tonelada. Situação totalmente absurda! Ela foi conveniente naquela hora. Mas, a longo
prazo, acabou com a indústria de produtos nacionais.
Em 1974, começamos esse programa para aumento de segurança alimentar,
dividido em três etapas: a primeira, a curto prazo, só para substituir o trigo
importado, pelo menos, parcialmente, com produtos farináceos nacionais, como mandioca,
milho, sorgo; a segunda, a médio prazo, seria o desenvolvimento de novos produtos a
partir das farinhas nacionais para introduzi-las na indústria alimentícia; a terceira, a
longo prazo, introduzir as farinhas nacionais, incluindo farinha de mandioca na indústria
de químicas finas para transformá-las em produtos especialmente de alto valor químico,
nutricional e financeiro.
Apresentarei aos senhores, de maneira muito rápida, o resumo dessas
pesquisas. Num primeiro momento, nós a conduzimos em laboratórios e chegamos a
resultados fantásticos. Sempre duvidei desse tipo de pesquisa, porque trabalhamos em
laboratório com pessoas bem treinadas, equipamentos modernos, situações totalmente
diferente da que encontramos na indústria. Quando terminamos a pesquisa com
participação de entidades como UNICAMP e EMBRAPA, achamos que o melhor antes de
divulgar dados para o mercado, porque fazíamos testes industriais , seria testar os
resultados. O que fizemos? Escolhemos quatros lugares no Brasil: Ceará, Salvador, São
Paulo e Rio Grande do Sul para realizar esses testes. Compramos farinha de trigo no
mercado e misturamos com a que gostaríamos de examinar, farinha de mandioca, de milho, de
sorgo e de soja, e levamos para ser processada na indústria para fabricação de vários
produtos: pão francês, pão de forma, pão doce, bolos, biscoitos e macarrão e
analisamos os resultados obtidos. Uma coisa interessante: nessa mistura não foi
adicionado nenhum melhorador; foi testado o que estava exatamente no mercado. Isso foi
feito pelos operários da indústria. Antes do início dos testes, fizemos apenas reunião
para explicar aos operários as modificações que deveriam ser feitas. Como, por exemplo,
no caso da mandioca, seria preciso reduzir a absorção de água, o tempo de mistura para
que obtivéssemos farinha ou massa com qualidade adequada para fabricação do produto. A
partir desse momento, tornamo-nos observadores para ver o que estava acontecendo,
analisando os resultados finais que eu gostaria de compartilhar com os senhores.
Vejam os senhores que este pão tem 15% de farinha de mandioca e 85% de
farinha de trigo. Observem que as características internas são muito boas. Pão com 20%
de farinha de raspa de mandioca e 100% de farinha de trigo. É muito difícil notar a
diferença entre os dois. Características internas muito boas. Não há diferença alguma
entre pães doces com 20% de farinha de mandioca. Na indústria de biscoitos, o trabalho
ficou bem mais fácil. Usamos 20% de farinha mandioca e 80% de farinha de trigo. As
características do biscoito recheado, como estamos vendo na segunda linha, são muito
boas. Em termos de expansão de volume, é normal. Enche um saco de duzentos gramas. Não
houve quebra nem desperdício. E todos de acordo com testes industriais. Não se trata
mais de laboratório. O mesmo ocorreu com a elaboração dos produtos de biscoito de
maisena. Houve expansão muito boa e qualidade normal. Houve grande surpresa para nós com
relação aos biscoitos Waffers e Cream Cracker. Como os senhores estão
vendo, com 20% de farinha de raspa de mandioca, o volume de Cream Cracker aumentou
mais em relação ao uso de farinha de trigo. É fator importante para a indústria,
porque ele tem de encher determinado volume. Se o biscoito não aumenta o volume, o
produtor é obrigado a colocar mais biscoito. Em vez de colocar duzentos gramas de
biscoito, adiciona 250 gramas o pacote. No caso da mandioca, foram usados 20% de farinha
de mandioca e não houve problema algum. Também fizemos pizza e obtivemos sucesso.
Produzimos bolos na escala industrial com 20% de farinha de raspa de mandioca, o que é
normal segundo os padrões técnicos.
-Zilfa industrial com 20% de farinha de raspa de mandioca, normal,
dentro dos padrões técnicos. Bolos caseiros também não apresentaram problemas.
Expansão de volume dentro dos padrões. Passamos também para a fabricação de
macarrão. Conseguimos fazer o macarrão com 20% de farinha de mandioca. Esse macarrão é
produzido com os mesmos equipamentos que a fábrica de macarrão usa hoje. Não há
diferença alguma. Na hora em que analisamos a composição das farinhas, realmente,
notamos que não houve muita diferença entre elas. Incorporando 20% de farinha de
mandioca, não houve muita redução do valor nutritivo do produto.
Com relação à segunda parte da pesquisa, é muito importante saber
se o consumidor realmente aceitaria ou não esses produtos. Essa foi uma grande surpresa
nossa. O único produto que foi melhor aceito do que a farinha de trigo foram os produtos
com 20% de farinha de mandioca, especialmente em São Paulo e Rio Grande do Sul. Esses
resultados são confirmados estatisticamente e analisados. Em outras palavras, temos
confiança de até 5%. Noventa e cinco por cento demonstram que esse fato pode se repetir.
Esses são os produtos que fabricamos com 20% de farinha de mandioca na
escala industrial, como vocês estão vendo. É possível fazer isso. A segunda linha de
pesquisa seria preparar novos produtos para a indústria de alimentos. Para esses produtos
aqui, usamos maquinários especiais disponíveis no Brasil. Só para ter uma idéia, uma
tonelada desse produto, hoje, custa no mercado cerca de quatro mil reais. Em outras
palavras, provavelmente, além de lutarmos para introduzir essas farinhas no pão,
precisamos também desenvolver outras linhas mais nobres com essa farinha. Quatro mil
reais para uma tonelada faz muita diferença na produção.
Nessa linha, fazemos um produto muito interessante: o macarrão
instantâneo. Na hora em que comecei a palestra, coloquei este macarrão instantâneo na
água, o macarrão só feito com farinha de trigo. Com tecnologia especial, conseguimos
fazê-lo com 100% de farinha de mandioca. Não há nem 1% de farinha de trigo. Ele tem as
mesmas características do macarrão de trigo, só com uma diferença, não é preciso
cozinhá-lo, basta colocá-lo na água, colocar o molho e esquentar. (Palmas.)
O problema dessas tecnologias é que elas saem do laboratório já para
o mercado. Precisa haver treinamento das pessoas que trabalham com os equipamentos e que
as pessoas acreditem no produto. É preciso um trabalho contínuo para chegarmos lá. Mas
a tecnologia está pronta e disponível.
O terceiro aspecto seria a química fina. No fundo, quimicamente
falando, a farinha de mandioca não é nada mais nada menos do que glucose ligadas umas
às outras. Quimicamente falamos ligados alfa 1-4. Isso só para defini-lo, porque, no
fundo, ele é glucose. Se você quebra essas ligações, o que é enzimaticamente
possível pois todas essas enzimas estão disponíveis no mercado, você pode transformar
toda essa farinha de mandioca ou amido de mandioca em glucose, que seria a matéria-prima
da vida. Você pode transformá-lo em frutose, que é um doce, em soroptor. Há centenas
de produtos que se pode fazer a partir de glucose. É incompreensível que essa parte não
esteja sendo aproveitada de maneira mais maciça. Atualmente, um litro de soroptor custa
cerca de quatro reais. Em outras palavras, se você transforma farinha de mandioca em
glucose e depois passa para soropitor, você vai agregar um tremendo preço nele. O
produto vai custar cerca de quatro, cinco mil reais a tonelada. Aí não há mais
necessidade de se aumentar o preço de 12 para 15 ou de 15 para 30.
Essa linha precisa ser desenvolvida de maneira maciça. É preciso
participação do Governo, de centros de pesquisa, para resolver aqueles pequenos detalhes
antes de colocá-lo no mercado.
Foi isso que fizemos nos últimos 15 anos com a participação da
EMBRAPA. Publicamos todo esse trabalho, que foi feito numa escala industrial junto à
EMBRAPA. Há sete livros, que tratam desse assunto, disponíveis na EMBRAPA, a quem
agradeço pela visão que teve quando começou essa pesquisa. Aliás, foi uma coisa boa e,
quem sabe, pode começar a dar retorno para o País agora.
Muito obrigado. Foi um prazer falar com os senhores. (Palmas.)
O SR. PRESIDENTE (Deputado Aldo Rebelo) Muito obrigado,
Prof. Armed. Há outro colega seu lá na UNICAMP, acho que da área de biologia, Prof.
Mohamed, que também trabalha nessa área, o que mostra que a universidade brasileira
também pode contribuir para abrir e alargar horizontes, a fim de resolver problemas
fundamentais da vida do nosso País e do nosso povo.
Concedo a palavra ao Sr. Valmir, depois ao Dernani para complementar a
exposição com outras informações sobre a pesquisa de Cascavel. O companheiro Valmir é
Presidente da Cooperativa dos Assentados da Reforma Agrária do Pontal do Paranapanema.
O SR. VALMIR RODRIGUES CHAVES Boa tarde. Este debate está
sendo um aprendizado tanto para os agricultores quanto para os empresários da área e
para os técnicos. Ainda não havíamos tido um debate tão avançado como esse. Fazemos
parte de um movimento social na área do campo: o MPA. Também encontra-se aqui uma
representante do Movimento dos Pequenos Agricultores MPA de Pernambuco, o
pessoal do Estatuto da Terra de São Paulo, o pessoal do movimento atingido por barragens,
do Movimento dos Sem-Terra e da CPT.
O consumo interno do País, juntamente com a diversificação da
pequena produção, é o grande debate para acabarmos com a fome e a miséria. Não é
verdade que somente 10% passam necessidade neste País, são mais de 30%. O problema não
é de Deus. Às vezes desanimamos com os problemas de chuva, apagão etc. Outra coisa,
eles colocam o pequeno agricultor para brigar com o médio, que depois briga com o
produtor. O problema é que nós estou falando nós, porque sou assentado da Gleba
15 e Presidente de uma cooperativa que planta 5.200 hectares de mandioca e na nossa volta
há 7.500 hectares de mandioca prevíamos uma renda de, pelo menos, 60, 70 reais.
Mas não foi isso que aconteceu.
Aí o pessoal todo já falou sobre isso, e é um problema generalizado
no Brasil inteiro. Mas o problema é que esta está sendo a pior política dos últimos
anos para a agricultura no Brasil. Qualquer Governo inteligente, se quiser, pode combater
a fome neste País. Já vimos aqui, hoje, o que fazer. Não dá para combater a fome neste
País? Dá, e com coisas nossas, internas, do País. Vamos produzir muito para o nosso
pessoal comer. Não é preciso mais exportar tanto. É só introduzir aqui, para termos
acesso a isso. Já consumia a nossa produção toda. É um absurdo.
Então, se não há política para o combate à fome e para a pequena
produção, estamos excluídos do projeto da agricultura para este País, estamos
excluídos. Escrevam isso. A pequena e a média produção estão excluídas. Atualmente,
7 bilhões da dívida da agricultura brasileira de 52 bilhões os que chegam até
200 mil reais, creio que são os médios são dos juros de inadimplência. Se
tirarem os juros, essa dívida cai para 4 bilhões o que devem os pequenos produtores
neste Brasil, e uns graudinhos, até 200 mil. Mas sobraram 7 bilhões de dívida. E é por
isso que estamos brigando para negociar essas dívidas. Essas 400 mil famílias de
assentados no Brasil devem 1 bilhão e 127 milhões, incluídos nos 7 bilhões. Se tirarem
os juros de inadimplência, a dívida cai para 1 bilhão.
O que está em jogo nessa agricultura é usar... Tecnologia tem. Vocês
falaram em tanta tecnologia que eu nunca tinha ouvido falar. O problema é que não está
priorizado no Governo... Quando se trata de transgênicos, isso já avançou, já brigamos
com a EMBRAPA esses dias. A culpa não é tanto deles, mas da política.. Já se fez
acordo com a Monsanto. A outra questão é que foram priorizadas para o Brasil algumas
coisas. Essa briga da ALCA vai ser muito boa. A discussão será na próxima semana?
Serão priorizados alguns produtos, como arroba de boi, soja, suco de laranja, laranja,
cana. Mas esses outros produtos, que não são prioridades para o pessoal no âmbito
internacional os americanos poderiam ser priorizados os nossos produtos para
o consumo interno. Creio que o Governo põe a gente para brigar entre nós mesmos, aqui
dentro do Brasil. Às vezes brigamos com o Ministro Pratini de Moraes e com o Secretário
da Agricultura de São Paulo, Sr. João Carlos de Souza Meirelles, que só falam de
agronegócio. Como vamos chegar lá se não temos prioridade nesse agronegócio? Não
tiram algumas tarifas que, a cada dia, vão empurrando para cima do pequeno e do médio
agricultor. Está difícil avançarmos. Estamos passando por uma violenta crise. A
tonelada da raiz sempre custou aproximadamente 25 dólares, um negócio histórico, e
agora deu esse... Acreditamos que a pequena produção, sem diversificação por
exemplo, um pedaço de mandioca mansa para ele comer e dar ao gado e essa que falamos que
é braba para a indústria , não vai. A reforma agrária neste País, sem isso,
não vai. Estou falando aqui pelo Movimento dos Pequenos Agricultores. Estávamos reunidos
até anteontem. Sem diversificação, a mandioca, tanto para o consumo tanto para a
cultura brasileira... Você falou do baiano, eu vou falar do Xangai. Se farinha fosse
americana seria banquete de bacana. O Xangai, um cantor nordestino, canta essa música.
Então, teria outro paladar mundo afora.
Quero dizer que a briga está correta, está certa. Precisamos falar
com o Deputado Aécio Neves. Essas coisas têm que ser pressionadas. Esse povo é como
feijão velho, só vai na pressão. De outro jeito, não vai, pessoal, não vai na boa
conversa. Esqueçam disso. Os outros setores são muito mais fortes que vocês, e nós,
pequenos e tudo... Os caras vão na pressão de outro jeito. De outro jeito, não sobra
alternativa.
É brilhante, por exemplo, o que a professora disse sobre a área de
saúde. Nossos acampados, se não tivessem os remedinhos, como ela disse, iriam morrer de
fome. A cesta básica, nesses meses anteriores, veio três vezes sem farinha de mandioca.
É um absurdo, e nós sem sabermos onde pôr farinha. Isso é um absurdo, Deputado Aldo
Rebelo. V.Exa. também vai encontrar um problema nesta Casa, pois aqui também não é
tão fácil passar as questões de interesse dos médios e pequenos. Todos sabem disso.
Precisamos que V.Exa. organize algumas coisas que sirvam como pressão para fazermos.
Precisamos falar com o Deputado Aécio Neves. Vamos articular com os demais, para que
S.Exa. apóie esse brilhante projeto de até 20%. Até 20%, Deputado Aldo, fica legal,
porque alguns produtos vão com 15%, outros com 10%.
Agradeço a todos as exposições que fizeram aqui. Foi um grande
aprendizado. Continuaremos na luta no Brasil. Se precisarem de nós, dos pequenos
movimentos sociais do campo, podemos contribuir, sim. Queremos dividir o lucro com os
empresários; senão, os agricultores se lascam. Os meios de comunicação não trabalham
com o material que a professora citou hoje. Poderiam trabalhar isso, não é? Há momentos
que o Governo gasta demais com propaganda. Disseram que o Governo gastou 20% na reforma
agrária e 80% em propaganda. O Governo trabalha com propaganda, deveria, então, jogar
esses produtos que a professora mencionou para a mídia distribuir para nós. Assim, vamos
ser mais felizes no campo e, com certeza, vamos fazer nossas associações para tratar das
nossas crianças. Parece-me que ela falou até dos grandes. Então, é interessante.
Fico por aqui, pessoal. Em nome dos nossos movimentos da Via Campesina,
vim debater com vocês, mas vim falar mais de uma área política do que do problema de
pesquisa que vocês abordaram e ainda irão abordar, mas já está de bom tamanho. Só
falta investir.
Outra questão, Deputado Aldo Rebelo: foram muito prejudicadas a EMATER
e a EMBRAPA. Cada vez mais o Governo corta os recursos para a pesquisa. Não é isso
professor? Qualquer Governo sabido acabava com a fome deste País. Há outra coisa que
disseram, que deixei por último não sei quem falou , que são duas coisas
impressionantes. O Frei Leonardo Boff disse que hoje temos que lutar mais pela terra e
pela água do que, quem sabe, pelo ser vivente, porque, sem essas duas coisas, é
impossível a humanidade sobreviver. E mandioca não dá problema para isso, não é?
Então, fico por aqui, muito agradecido
E a mandioca não dá problema para isso.
Era o que tinha a dizer.
Agradeço a todos a oportunidade. (Palmas.)
O SR. COORDENADOR (Deputado Aldo Rebelo) Muito obrigado,
companheiro Valmir.
Antes do intervalo para o almoço, concedo a palavra ao companheiro
Dermânio.
O SR. DERMÂNIO TADEU LIMA FERREIRA Vou falar rapidamente.
Usarei apenas cinco minutos. Trabalho na área há doze anos. Nela tenho mestrado e
doutorado. Ao longo dos anos, venho acompanhando todo o processo para incluir a raspa e,
hoje, a fécula do trigo. Desde o começo tentei fazer isso. Contudo, com o preço do
trigo subsidiado pelo Governo, não tinha nem como pensar em fazer esse trabalho andar.
Hoje, graças ao bom senso, estamos vendo a possibilidade de retomar o processo que morreu
há cerca de 20 anos.
Segundo o professor que acabou de expor, tecnicamente é possível
usarmos até 20% da fécula de mandioca. Esse trabalho para os senhores terem
idéia não é de hoje, mas de 15 anos atrás. Ele foi iniciado com a ABAM,
juntamente com outro programa existente no Estado do Paraná: o Projeto Paraná
Agroindustrial. Hoje, estou na FUNDETEC, órgão de pesquisa da cidade de Cascavel.
Estamos fazendo mais a conscientização das pessoas do que pesquisa propriamente dita.
Estamos reunindo sindicatos de panificação, industriais na área de
bolacha e macarrão, e fazendo vários cursos, mostrando-lhes que o pão com 20% realmente
fica ótimo. Não há diferença alguma. Na cidade de Cascavel, existe um sindicato que
envolve todo o oeste do Estado, cerca de 56 Municípios. O sindicato de Cascavel apoiou
essa idéia. Eles viram na prática a qualidade do pão. Promovemos um curso, ensinamos os
padeiros a fazer o pão. Na hora em que vamos mexer no pão, não é apenas a farinha que
importa. Temos de pensar nos outros componentes contidos nos diferentes tipos de pão.
Muitos deles interferem na sua qualidade. Algumas vezes, um padeiro diz: "fiz o pão,
e ficou bom". O vizinho dele faz o mesmo e diz que o dele não prestou. Então, é a
mandioca que está ruim. Não adianta. Nesses cursos do Paraná, estamos conscientizando
os padeiros sobre a importância da raspa da mandioca. Muitos deles nunca ouviram falar
dela. São pessoas novas, que não têm conhecimento técnico de como fazer um pão
francês. O próprio moinho vende trigo com qualidade boa, média e até ruim. Acreditam
os padeiros que o pão não saiu bom por causa do tipo do trigo. Estamos ensinando-lhes a
usar a fécula como mistura.
Não vou ficar falando tecnicamente. Esse tipo de abordagem não cabe
neste momento. O trabalho está sendo muito bem encaminhado juntamente com a ABAM, SEBRAE
e agora com o Programa Empreendedor.
Estivemos na semana passada em Paranavaí, onde demos um curso, do qual
o pessoal gostou muito. Estão querendo implantar na cidade nossas técnicas. A partir da
próxima semana, iremos visitar outras cidades do Paraná. Em todas os lugares que formos,
vamos reunir os padeiros, ministrar cursos e mostrar-lhes os fatores que interferem na
qualidade do pão.
Estamos conseguindo fazer o pão de cachorro-quente com 25% de amido de
mandica. Ele fica ótimo e mais macio. Aliás, todo tipo de pão fica mais macio. Há
outra qualidade: o pão francês, depois de feito, dura três horas. Quentinho, ele fica
macio. Depois de três horas, o pão francês fica duro, vira uma pedra. Usando a fécula,
isso não ocorre. Ele vai durar mais seis horas na prateleira, ficando macio. O uso da
fécula torna o pão mais comercial.
Essas coisas não são novas. Ninguém está inventando nada agora.
Trata-se de problema de consciência. O Governo até hoje não se preocupou em fazer isso.
Muitas vezes não estudamos o assunto em faculdade e nem ouvimos falar que é possível
colocar fécula no pão. Todos os padeiros com os quais conversei disseram que ninguém
lhes havia dito que poderia ser feito esse tipo de coisa. Não tinham visto isso escrito
em lugar algum.
Estamos iniciando esse projeto no Paraná. Acreditamos que ele vai
surtir grande efeito, juntamente com a lei que está sendo proposta. Entendemos que esse
trabalho deveria ser realizado em outros setores.
Muito obrigado. (Palmas.)
O SR. COORDENADOR (Deputado Aldo Rebelo) Muito obrigado.
Passo a palavra, para fazer breve saudação, ao Deputado Nelito Câmara, Vice-Presidente
da Assembléia Legislativa do Mato Grosso do Sul. S.Exa. está aqui apoiando nossa luta.
O SR. NELITO CÂMARA Serei breve, devido ao adiantado da
hora, até porque estamos falando tanto em comida que o pessoal está realmente com fome.
Sou Deputado Estadual em Mato Grosso do Sul. Nossa região, o Vale do
Ivinhema, depende exclusiva e economicamente da cultura da mandioca. É muito importante o
que falou o Vereador Jorge Vani, quando se referiu aos problemas localizados. Com certeza,
outras regiões do País possuem problemas semelhantes. Quem sabe não trocaremos
experiências e os resolveremos conjuntamente. Deputado Aldo Rebelo, não sei nem como lhe
agradecer a realização deste seminário. Admiro a posição de V.Exa. em defesa da nossa
região, ou melhor, do País. Em Ivinhema, dependemos muito da cultura da mandioca.
Vivíamos batendo cabeça, pensando no que iríamos fazer para resolver o problema. Temos
produção, produtividade e certa tecnologia. Ivihema é quem mais produz mandioca no
Estado, mas não sabia o que fazer com ela. Deus iluminou V.Exa., que teve a brilhante
idéia de acrescentar 10%, até 20% da mandioca na confecção do pão. Isso é importante
demais para nossa região. Vamos sair daqui satisfeitos, com um projeto já resolvido.
Quero dizer-lhe que, como Deputado Estadual embora não tenha tanta força ,
farei o que puder. E o que é isso? Vamos sensibilizar os colegas da Assembléia para
pressionar e hoje já passaram por esta Comisão os Deputados Federais Waldemir
Moka e João Grandão o Governo e esta Casa para a importância da mandioca.
Alguém disse aqui que há Ministros que, aos 50 anos de idade, não conhecem pessoalmente
uma vaca e Deputados que não sabem como é um pé de mandioca.
O SR. COORDENADOR (Deputado Aldo Rebelo) Quem disse isso
foi o próprio Ministro. Apenas reproduzi o que S.Exa. disse.
O SR. NELITO CÂMARA É importante que nossa bancada, que
é de um Estado pequeno e ruralista, sensibilize os Deputados para a importância da
mandioca. Muitos não conhecem a luta do produtor, daquele que trabalha na roça,
promovendo o progresso do País. Pedimos aos Deputados, em especial aos do Mato Grosso do
Sul, que pressionem as outras bancadas no sentido de resolver o problema. E como faremos
para resolvê-lo? Transformando o projeto de V.Exa. em lei. É disso que precisamos. Temos
de transformar rapidamente a questão em lei. Temos de sair do buraco em que nos
encontramos.
Deputado Aldo Rebelo, conte comigo dentro de meus limites. Essa idéia
não aparece sempre. Temos que aproveitá-la.
Era o que tinha a dizer.
Muito obrigado. (Palmas.)
O SR. COORDENADOR (Deputado Aldo Rebelo) Agradeço ao
Deputado Nelito Câmara e aos demais companheiros do Mato Grosso do Sul a presença.
À tarde, contaremos com a presença do Dr. Roberto Torres, Gerente
Executivo da Diretoria de Agronegócios do Banco do Brasil, que falará sobre o tema
relacionado com a questão da mandioca; o Zootecnista e Consultor da Divisão de
Desenvolvimento de Agronegócios do SEBRAE, de São Paulo, Sr. Paulo Marcelo Ribeiro, que
já possui programa e planejamento na questão da mandioca; o Sr. Reino Pécala Rai, o
Vice-Presidente Executivo da Associação Brasileira da Indústria de Trigo; o Sr.
Maurício Iamakawa, Presidente da Associação Brasileira de Produtores de Amido de
Mandioca; e o companheiro Francisco Miguel de Lucena, Secretário de Formação e
Organização Sindical da Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura
CONTAG.
Há uma cachaça, chamada Tiquira, feita de mandioca. Trouxe duas
garrafas para cá. Uma do Piauí; outra, do Maranhão, mas comprada em São Paulo. Quem
quiser experimentá-la, recomendo prudência, porque a bebida possui forte teor
alcóolico. Lá fora, teremos um lanche. Quem quiser almoçar, a Câmara dos Deputados
possui vários restaurantes.
Retornaremos às 14 horas, quando reiniciaremos nossos trabalhos.
Está suspensa a sessão.
O SR. COORDENADOR (Deputado Aldo Rebelo) Havendo número
regimental, declaro abertos os trabalhos da presente reunião da Comissão de Agricultura
e Política Rural.
Retomando nossos trabalhos, convido para compor a Mesa o Sr. Roberto
Torres, Gerente Executivo da Diretoria de Agronegócios do Banco do Brasil; Sr. Paulo
Marcelo Ribeiro, consultor da Divisão de Desenvolvimento e Agronegócios do SEBRAE de
São Paulo; Sr. Reino Pécala Rae, Vice-Presidente Executivo da Associação Brasileira da
Indústria de Trigo; Sr. Francisco Miguel de Lucena, da CONTAG.
O principal objetivo deste seminário não é tratar do projeto de lei
que obriga a adição ou a mistura das farinhas de trigo, de mandioca e outras.
A EMBRAPA de Teresina, Piauí, está fabricando farinha de feijão de
corda, grão muito produzido na Zona da Mata e no semi-árido do Nordeste. O produto serve
para fazer sopas, dentre outras coisas.
O projeto, que já está na Comissão de Defesa do Consumidor, Meio
Ambiente e Minorias, tem como Relator o Deputado Inácio Arruda. S.Exa. certamente
realizará audiências públicas para discutir seus riscos, desafios, possibilidades e
limitações. Tenho certeza de que tanto o Deputado Inácio Arruda quanto a própria
Comissão de Defesa do Consumidor, Meio Ambiente e Minorias, ou mesmo outras, ouvirão
todos os setores interessados. Se o projeto for aprovado é porque o debate foi
suficientemente eficaz e maduro.
Temos de raciocinar como Jesus Cristo diante da pergunta sobre os
impostos de César: "Dê a César o que é de César, a Deus o que é de Deus."
Então, que seja dado aos produtores e aos industriais dos derivados da
mandioca seus direitos, afinal suas reivindicações são legítimas e justas.
A representatividade dos produtores de mandioca ainda não foi
alcançada. O Poder Público nunca os incentivou, como fez com os fabricantes de açúcar,
álcool, trigo, soja, café, cacau e borracha. Estes sempre tiverem acompanhamento atento
por parte do Governo e possuem institutos próprios.
Os produtores de mandioca sofreram e têm sofrido o pão que o diabo
amassou. Esta na hora de o Poder Executivo dar-lhes atenção. A mandioca tem grande
importância para o País. Tanto o é que foi chamada de pão dos trópicos pelo Padre
Antônio Vieira.
Nosso País possui 8,5 milhões de quilômetros quadrados. Em tão
vasta área, todos falam o mesmo idioma, possuem a mesma cultura. Nossa população é
majoritariamente mestiça. Graças a Deus, não temos nenhum tipo de ódio racial ou
religioso, essa coisa negativa que desgraça a vida de muitas pessoas do planeta. O
português, o índio, o negro, o mulato, o mestiço e o mameluco, principalmente saindo de
São Paulo, percorrem, sem problema, distâncias ainda hoje difíceis de serem
percorridas.
Quantos dos senhores já viajaram até as altas cabeceiras do Rio Negro
e do Rio Solimões, lá no alto Amazonas? Poucos fazem isso hoje. No séc. XVI e XVII,
alguns brasileiros fizeram isso. Saíram nessas caminhadas. Se não fosse a presença
dessa raiz tão adaptada ao nosso solo e clima, talvez esse milagre não tivesse sido
possível.
Ela inspirou como já falei os que lutaram pela nossa
independência e, em determinado momento, foi adotada como símbolo da luta pela
emancipação do País. A mandioca, que batizou a primeira Constituição do Brasil
independente, é hoje responsável pelo sustento de milhares de agricultores.
Este seminário, portanto, tem como objetivo o debate do valor dessa
cultura como um todo. A Europa já não tem a agricultura como atividade econômica
multifuncional. Para os europeus, a agricultura é a segurança alimentar. O povo japonês
não abre mão de produzir seu próprio arroz, independentemente de seu elevadíssimo
custo. A agricultura como política demográfica é o melhor caminho. O custo do homem na
cidade, principalmente nas grandes metrópoles, é insuportável. Abastecer de água ou de
luz elétrica uma comunidade de 50 a 60 mil pessoas, numa pequena cidade, em torno da qual
se organizam a produção agrícola viável, é muito diferente de que se ampliar o
fornecimento de água para uma população de 5, 6, 10, 15, 20 milhões de pessoas.
Dificilmente, a ampliação em larga escala do fornecimento de água de
São Paulo significa investimento inferior a 1 bilhão de reais. Contudo, com 50 ou 60 mil
reais, pode-se abastecer uma pequena comunidade agrícola. Fiz emendas ao Orçamento de
50, 60 mil reais, para assentamentos agrícolas em São Paulo. O lado positivo das emendas
é o baixo custo; o negativo é que não conseguimos aprovar nenhuma até hoje. Ou seja, o
Brasil gastou entre maio e junho, mais de 20
End/Marlúcia
O Brasil gastou entre maio e julho mais de 20 bilhões de reais só com
a alteração da nossa taxa de câmbio, sem tomar nenhum centavo a mais emprestado. A
nossa dívida aumentou em mais de 20 bilhões só pela desvalorização da nossa moeda
frente ao dólar, já que a dívida privada brasileira hoje, em grande parte, é em
dólar.
Quando o Presidente Fernando Henrique Cardoso assumiu o Governo, em
janeiro de 1995, a nossa dívida interna contabilizava 61, 63 bilhões de reais.
Encerrará o Governo com uma dívida de 800 bilhões de reais. Isso não ocorreu em razão
do endividamento. Quase toda a dívida é resultado de juros.
Dela abatemos todas as privatizações. Vendemos ativos no valor de
quase 500 bilhões de dólares. É quase o PIB brasileiro na venda de ativos públicos e
privados. Não só as teles e as empresas de energia foram privatizadas. Não restou em
São Paulo quase nenhuma empresa de autopeças em mãos de empresários brasileiros. Todas
foram vendidas a empresários estrangeiros.
Portanto, não houve investimento real, mas transferência de
patrimônio com a entrada de dólares, que serviram para pagar os juros.
Não resta quase nada também no setor de alimentos. São poucas as
empresas que existem.
E com toda essa entrada de capitais, nossa dívida externa passou de 63
bilhões para 800 bilhões.
E hoje temos nossa agricultura, que financiou, em boa parte, o sucesso
o Plano Real todos se lembram do preço do frango com esse endividamento. O
rebaixamento dos preços, o controle dos preços, ou seja, o financiamento por parte da
agricultura de um plano que hoje está no impasse, levaram a nossa agricultura a um
impasse maior ainda.
Retornando à nossa questão, realizamos seminário como parte do
debate, sobre a situação do nosso País, da nossa economia, da nossa agricultura e,
dentro da nossa agricultura, de uma lavoura das mais descapitalizadas e que recebe menor
atenção do Poder Público, principalmente do setor de finanças.
Quero dizer o seguinte: pôr o destino dos agricultores brasileiros nas
mãos de técnicos do Ministério da Fazenda é como pôr o destino das galinhas num
conselho de raposas. Tem o aviário, as galinhas estão gordas, e aí o conselho de
raposas vai discutir o que será feito do aviário. A mentalidade é esta mesma:
financista, de pagar os juros à custa da situação que todos percebemos.
Dito isso e como o companheiro da CONTAG, Francisco Miguel Lucena, e o
Gerente Executivo da Diretoria de Agronegócios do Banco do Brasil, Sr. Roberto Torres,
ainda não estão presentes, passo a palavra ao Sr. Reino Pécala Rae, Vice- Presidente
Executivo da Associação Brasileira da Indústria do Trigo.
O SR. REINO PÉCALA RAE Deputado Aldo Rebelo, companheiros
da Mesa, autoridades presentes, representantes da imprensa, minhas senhoras e meus
senhores, depois de meio-dia de trabalho exaustivo sobre o tema da mandioca, causa certa
estranheza chegar aqui o Vice-Presidente da entidade que congrega os moinhos de trigo para
falar de trigo, uma espécie de patinho feio, um voto vencido que espero seja um voto
vencido simpático.
O SR. PRESIDENTE (Deputado Aldo Rebelo) Ou de cisne no meio
dos patos (risos).
O SR. REINO PÉCALA RAE Gostaria de fazer um breve
retrospecto do passado remoto para encaixar nele o trigo. É uma história interessante.
Há cem séculos, dez, doze mil anos, do ponto de vista da
alimentação, os homens viviam como os animais.
Os animais, na vida selvagem, gastam 90% da sua energia na busca da
alimentação. Quando jovens, gastam pouca energia em brincadeiras que são treinamento
para a fase adulta. Quando adultos, gastam um pouquinho de energia para manutenção da
espécie e reprodução. Fora disso, estão atrás de comida. Quando se fartam, descansam
e dormem.
Assim eram os homens atrás dos rebanhos: migrações de mil, dois mil,
três mil quilômetros a cada ano, indo e voltando, conforme as estações.
De repente, inventou-se a agricultura, que, além de aliviar o trabalho
de andar mil, dois mil quilômetros a pé, tinha a propriedade, como tem até hoje, de, em
determinada área de terreno por exemplo, 1 hectare obter muito mais caloria
do que a pecuária.
Ainda hoje é assim.
Naquele tempo, o nível de tecnologia era assim: algo como dez, quinze
vezes mais calorias na agricultura do que na pecuária.
No Nordeste preciso de dez hectares para sustentar um boi, que, depois
de três anos, dá 150 quilos. Em três anos, em dez hectares, obtenho toneladas de
feijão.
Essa invenção nos salvou de estar aí passeando pelas florestas e
savanas. Pudemos nos fixar nas cidades.
Um povo muito esperto, os sumérios, que viveram onde hoje mora Sadam
Husseim, aquela figura simpática do Iraque, fez algumas invenções. Inventou a roda e a
irrigação, uma coisa muito especial, porque se passou a produzir muito mais alimentos do
que era capaz de se consumir.
Foram capazes de sustentar vilas, depois, cidades, posteriormente,
cidades-Estado. Desenvolveram a primeira grande civilização. E como tinham alimentos
sobrando no momento em que povos vizinhos passavam fome, nas entressafras, trocavam
alimentos por aquilo de que necessitavam. Lá da Mesopotâmia, dos rios Tigre e Eufrates,
puxavam, por exemplo, madeira de lei e cedro do Líbano, minério da Antióquia, da
Capadócia, hoje Turquia, e também do hoje Irã e do finado Afeganistão.
Os sumérios inventaram a primeira globalização e, para controlar
esse comércio, tiveram que fazer registros. Criaram a língua escrita para controlar o
comércio do trigo, que era o produto que se produzia lá, produto não perecível, que
agüentava aquelas viagens longas.
Isso é muito curioso. Os jornalistas presentes passam a ficar sabendo
que sua ferramenta de trabalho, a escrita, nasceu com o trigo.
E não só com o trigo, porque os chineses, no rio Amarelo e no rio
Yang Tse, também descobriram a irrigação separadamente. Para comercializar o excesso de
arroz, criaram a sua escrita.
No Nilo, com as cheias que fertilizavam este rio e lhe davam alta
produtividade, o excesso de trigo pôde ser vendido, e tivemos os hieroglifos.
Em épocas parecidas, mas, independentemente, foi criada a escrita para
esse comércio de grãos. Tinha um pouco de cevada, mas, basicamente, era isso.
Quero dizer isso porque o trigo está no DNA das pessoas há cem
séculos. Não é por coincidência que a Bíblia fala pouco de tomate e de pão e trigo
repetidas vezes. O "Padre Nosso" dos católicos fala no pão de cada dia como
representante de todos os alimentos. Não é por coincidência que a hóstia é feita de
farinha de trigo. Se Cristo tivesse nascido na China, a hóstia seria de farinha de arroz.
Não tenham a menor dúvida disso.
Fato muito curioso que poucas pessoas têm acompanhado é que as
civilizações líderes, que se destacaram, vencedoras, começando pelos sumérios,
assírios, babilônios, egípcios, gregos, romanos, árabes, de 700 a 1.200, e
chegando aos europeus, comiam trigo.
Quando digo que comiam trigo, não estou falando dos reis, dos nobres,
dos generais, dos Bispos da Igreja. Esses tinham mesa farta e variada. O povão, até o
século XVIII, na Europa, comia pão de trigo e mingau de trigo. O resto era 5%, 2%. Como
na Ásia era o arroz e nas Américas, o milho. Aqui é a mandioca.
Fernan Brodel, eminente historiador francês, chama atenção para
isso. Por que essas civilizações tidas como vencedoras que fazem a nossa civilização
cristã ocidental foram vencedoras? Ele explica: Porque se um comia arroz, outro trigo e
outro milho e se o trigo tem muito mais proteína do que os outros dois, se a proteína é
essencial para o desenvolvimento físico e mental e é dada mais proteína para um povo
durante século, ele cresce e fica mais inteligente.
É algo que se repara pouco, mas estou trazendo essas historietas
antigas para dizer que o trigo tem um carisma especial porque tem sustentado
civilizações vencedoras.
Vamos chegar mais para perto do Brasil.
Pelos anos 30 do século passado, dois produtos tinham conotação
psicológica, emotiva, da população em torno deles, sobressaindo-se sobre os outros:
trigo e petróleo. De tal forma que o Governo foi obrigado a olhar para aqueles dois
produtos de maneira diferente.
Ambos consumiam escassas divisas, eram essenciais e a população não
admitia a suspensão no abastecimento. Em ambos os casos, havia o anseio pela
auto-suficiência. Resultado: intervenção governamental forte nesses dois produtos.
Tivemos o monopólio da PETROBRAS, e, no caso do trigo, a partir de 1952, o Governo foi o
único comprador de trigo estrangeiro. A partir de 1962, foi o único comprador de trigo
nacional.
Esse regime de monopólio estatal durou até a década de 1990.
A compra estatal teve suas vantagens: desenvolveu a triticultura no
Paraná e, especialmente, no Rio Grande do Sul, reorganizou as cooperativas de produção
dos Estados do Sul e a indústria de moagem e garantiu o abastecimento.
Com a intervenção estatal, atualmente, tivemos problema na qualidade
dos produtos, porque o Estado, quando vai ao mercado, do ponto de vista de marketing
e qualidade, as coisas ficam prejudicadas.
Mas, durante quase 30 anos, o Governo recebia o trigo de fora do
Brasil, mandava semanalmente para os moinhos. Aquele mecanismo funcionava e muitas pessoas
se interessaram para jogar naquele caminho seu produto. Todo mundo gosta de mercado
cativo.
Na Câmara dos Deputados, tivemos dúzias de projetos obrigando a
adição de farinhas sucedâneas à farinha de trigo. Havia projetos obrigando a adição
de farinha de mandioca, farinha de soja, farinha de trigo sarraceno. Mandava adicionar 5%
de trigo sarraceno à farinha de trigo, embora o País não produzisse trigo sarraceno.
Tinha projetos mandando adicionar farinha de triticale, um parente pobre do trigo, e
farelo na farinha de trigo. O moinho é para separar o farelo da farinha e projeto mandava
colocar de volta. Tivemos projetos casando trigo nacional com trigo estrangeiro, obrigando
adicionar farinha desengordurada de milho e farinha de arroz.
Diga-se em favor desta Casa e da democracia que nenhum projeto
frutificou. A maioria da Câmara e do Senado colocou-se contra esses projetos, que não
atendiam ao interesse da população. Atendiam ao interesse dos produtores que queriam um
mercado cativo.
Mas isso foi no âmbito do Legislativo. Na área do Governo, foi
diferente. Tivemos decretos, portarias e circulares obrigando a entrar em vigor. Por
exemplo, em 1938, obrigando 10% de raspa de mandioca, em 1939, 18% de adição, sendo 10%
de raspa, 5% de milho e 3% de arroz, em 1941, 20% de raspa.
Estávamos na Segunda Grande Guerra, que se estendeu até 1945. Esses
decretos entraram em vigor, de certa forma, a pretexto de regime de economia de guerra.
De 1942 a 1951 foram suspensas todas as adições. Por que não havia
fabricante de farinha sucedânea? Absolutamente. Porque o povo refugava aquela mistura,
não aceitava aquele pão. Os protestos foram tantos que, até 1951, foi suspensa qualquer
adição.
Em 1952, como já disse, entrou a compra estatal, e aí voltaram as
propostas de mercado cativo.
Já em 1951 era 12% de farinhas panificáveis.
A farinha panificável, realmente, é a farinha de trigo, mas estava
escrito no decreto que eram farinhas sucedâneas panificáveis.
Uma portaria de 1957 mandava adicionar 3% de raspa, mais 1% de farinha
de soja e mais 2% de farinha panificáveis.
A Portaria Super, de 1968, mandava adicionar 2% obrigatórios e 3%
facultativos. Na portaria de 1976 virou facultativo.
Com a liberação do setor, com a quebra do monopólio estatal, não
havia mais nada obrigando.
É preciso compreender qual é o papel do moinho de trigo. Ele faz
farinha de trigo.
Para quem não conhece, parece uma commodity. Vou explicar como
elfunciona. O grão de trigo tem por fora a casca, que vira farelo na produção. Por
dentro, o endosperma é composto principalmente de proteína e amido. A proteína vai de
8% a 15% mais ou menos. Fora disso, tem traços de sais minerais, vitaminas e óleo. Mas o
grosso é, de um lado, proteína e, do outro lado, amido.
Podemos dividir as proteínas, grosso modo, em proteínas
solúveis em água e insolúveis.
Do ponto de vista da panificação, as solúveis não importam muito.
As proteínas insolúveis em água e digo "as" porque um grão de trigo
tem centenas de proteínas diferentes formam aquilo que o público conhece como
glúten, que é a mistura de gliadinas e gluteminas, cada uma delas com propriedade
diferente.
Portanto, essa mistura faz com que a massa tenha esse ou aquele
desempenho na panificação ou na fabricação de macarrão ou de biscoito.
Cada variedade de trigo tem um desempenho diferente na fabricação. Grosso
modo, tem o trigo duro, em que o grão é duro, hard, como se chama em Inglês,
no mercado internacional geralmente, vítreo, translúcido , e o trigo mole,
macio, em que o grão é branco por dentro.
De outro lado há os trigos que têm boa força de panificação,
força de glúten, como nós chamamos, os trigos médios e os trigos fracos. Não existe
trigo ruim nem bom. Existe trigo adequado e inadequado a cada aplicação. Então quais
são as aplicações no mercado brasileiro? Isso é muito importante de ser entendido.
Três quartas partes da farinha produzida no Brasil vai para a fabricação de pão e
macarrão. Estou generalizando em macarrão, todas as massas curtas e longas: talharim,
espiral etc. Esses três quartos do mercado exige trigo de glúten forte. Não se faz um
pão, que o público aceite, com trigo de glúten fraco.
Temos um pouco menos de 10% das farinhas em biscoitos e bolachas. São
produtos que exigem proteína mais baixa e menos força de glúten. E há outras
aplicações como pizza, até frituras domésticas, cada uma com a sua característica. O
fabricante da farinha se empenha em tipificar, em dar aquilo que o comprador quer. Porque
é assim que ele vai pra frente. Isso é o que se chama marketing, ou seja,
entregar ao cidadão o produto que ele quer. Não empurrar, como se fazia no Acre,
colocando pedra dentro da borracha para exportar. Quando acabou, a Indonésia ficou com
todo o mercado de borracha e nós com nada.
Temos de trabalhar para o consumidor. O que o consumidor quer? Não
posso fabricar farinha com trigo fraco pra fazer macarrão. Sai aquela água com amido,
aquela massa preguenta que não é o quê o consumidor quer. Com dez anos eu falei
em dez mil anos, cem séculos comendo pão as pessoas sabem o quê é pão. Mesmo
as analfabetas sabem o gosto do pão, cheiro de pão, aspecto de pão, cor de pão, crosta
do pão e miolo macio. As pessoas sabem. Sabem quando o pão é ruim. Assim o fabricante
de trigo se empenha em fazer a farinha adequada àqueles mercados. E cada produtor se
empenha em ser bem recebido pelo seu cliente. Porque o mercado é fatal. Se o fabricante
não atender ao desejo do cliente, está tudo acabado. Nós viemos de uma situação em
que os derivados do trigo, durante a intervenção, não tinham a qualidade que o público
queria. Porque o Governo ao distribuir o trigo, distribuía o trigo importado do norte
para o sul, e o produzido no sul, do sul para o norte, de maneira que regiões como
Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul tinham de trabalhar com trigo nacional, de
glúten mais fraco, ou seja, fabricando pão e macarrão de qualidade inferior.
É importante que o cliente seja respeitado. O empenho, não só da
indústria de trigo, como de todos os derivados, é atender ao cliente. E não atender a
essa ou àquela diretriz econômica.
Estamos deixando registrada a nossa posição minoritária. O
seminário é em favor da mandioca, mas minoritariamente não quero que ninguém concorde
com a minha opinião, apenas compreendam que nós não nos colocamos a favor de uma
adição obrigatória de qualquer farinha à farinha de trigo. Porque o nosso cliente não
quer. Essa idéia de se fazer mercado obrigando o consumidor não prospera. Temos uma
inviabilidade, vamos dizer, nessa adição. Não preciso repetir os estudos realizados
tanto pela EMBRAPA, como em São Paulo, no qual se constatou que o produtor de trigo que
leva mistura perde em qualidade. Se eu misturar somente 0,01%, ele só perde 0,01% de
qualidade; se eu misturar 10%, ele perde 10%. Quer dizer, do ponto de vista
técnico-científico não tenho nenhum motivo para piorar a qualidade do pão. Eu tenho
medo. Porque o panificador, se for obrigado a usar farinha que contenha mais amido do que
devia, e amido de outra procedência, ele vai querer fazer um pão razoável. Ele vai
meter produtos químicos. Quem sabe bromato? Eu não gosto de bromato porque dizem, não
sei se é verdade, que dá câncer e impotência. Essa é uma dupla que me causa medo. Mas
o padeiro, para ter o pão com aspecto de pão, com jeito de pão, ele pode usar bromato
ou outras substâncias químicas, como polisorbato, ou outros ingredientes que existem por
aí.
Do ponto de vista do mercado, se misturar outras farinhas no pão ou no
macarrão fosse bom, todo mundo estaria fazendo. Não havendo a mistura...
Durante o tempo em que se era obrigado a colocar outras farinhas na
farinha de trigo acontecia o seguinte: o fabricante era obrigado a colocar 10%. O
panificador chegava no moinho e dizia: "Olha, eu sei que vou ser obrigado a comprar
essa outra farinha, o senhor é obrigado a vender; mas vamos fazer o seguinte: me dá nove
sacos de farinha boa, e um saco desse negócio aí." Aí ele fazia o pão com a
farinha de trigo, pegava o outro saco e jogava no mercado. Ele não era profissional
daquele outro mercado, e acabava inclusive prejudicando o nível de preço da outra
farinha. Então o pedido do panificador prevalecia: "Se você é obrigado a mandar
essa outra farinha, mande separado, e não misturado."
O que acontece com o macarrão? Não dá para fazer macarrão com amido
solto. Não sei se eu estou ficando com pouco tempo, então vou terminar minha
participação por aqui, para alívio do pessoal a favor da mandioca.
Argumenta-se que três quartos ou quatro quintos do trigo são
importados, 20 ou 25% da produção interna. É verdade. Ocorre que o País importa trigo
da Argentina, Estados Unidos e Canadá, principalmente. Essas são regiões que
naturalmente, e há mais de dois séculos, plantam trigo, enfim, são regiões
vocacionadas para o trigo. Em outras palavras: eles dispõem dos melhores trigos do ponto
de vista de panificação e de fabricação de massas.
Nosso clima é desfavorável ao cultivo do trigo. É uma proeza da
pesquisa, especialmente do setor público, a EMBRAPA, termos hoje uma produção razoável
de trigo nacional. Ele não foi feito para o nosso clima. Mas chegou-se a 90% do
abastecimento há vinte anos. O que tem prejudicado o desenvolvimento da triticultura é a
concorrência estrangeira. Como nossas condições são desfavoráveis, temos de gastar
mais em insumos, e o trigo fica menos competitivo. Quem planta soja e milho, pode plantar
trigo, mas esse é o chamado trigo nacional.
Se eu por acaso for obrigado a colocar farinha de outra procedência,
farinha de mandioca ou farinha de milho no trigo, vai prejudicar o trigo nacional, e não
o estrangeiro. Eu tenho que tirar muito do nacional, aumentar a força de glúten do trigo
estrangeiro, para ainda conseguir fazer um produto. Quer dizer, o prejudicado não serão
os produtores de trigo importado, mas sim do nacional. Vou tirar emprego de uma área
da área considerada quente quente da agricultura, em comparação a outra
menos desenvolvida, mais da enxada.
Há impedimento portanto nas áreas técnica, científica e
mercadológica. Na chamada geração de emprego não há melhoria, mas impedimento legal.
A Constituição Federal, no Capítulo da Ordem Econômica, libera uma industrialização,
ou seja, somos livres, não somos obrigados a misturar nada.
Hoje é permitido misturar farinha de trigo com outras farinhas. Essa
mistura é feita em alguns momentos, pois há alguns tipos de biscoitos que querem uma
farinha de proteína muito baixa. Para se fabricar o biscoito Maizena, tenho que usar o
amido de milho da própria Maizena. Mas cada fabricante do produto final é quem julga:
"Eu, aqui, posso acrescentar um pouco disso, ali eu não posso."
No passado, por dezenas de vezes, os moinhos foram obrigados a misturar
um, dois, cinco, dez por cento, depois eles foram liberados. E ainda há a lei do trigo,
que diz que é livre a comercialização e a industrialização do trigo
interpretei essa lei à minha maneira e conclui que ela não obriga a nada.
Enquanto neste projeto em tramitação entende-se acrescentar mandioca
ao trigo, há outro esforço para utilizar o trigo como veículo na área da saúde.
Existe grupo de trabalho Ministério da Saúde juntamente com
representantes da FAO, do UNICEF, da ONU, da Câmara dos Deputados preocupado com
três questões básicas na área da nutrição: acrescentar iodo ao sal de cozinha para
resolver o problema do bócio inclusive existe lei obrigando a isso, mas certas
leis no Brasil não são cumpridas, isso precisa ser cumprido ; existe um empenho
para acrescentar vitamina A ao leite para resolver o problema de cegueira; e um projeto
para acrescentar ferro ao trigo e à farinha de milho para resolver o problema de anemia
ferropriva.
Não se trata de mercado cativo para o fabricante, mas de problema de
saúde nacional, pois metade das crianças brasileiras sofrem de anemia. Essas crianças
têm seu futuro prejudicado em termos físicos e mental. Um quarto das gestantes sofrem de
anemia. Além do risco de morte sofrem o risco de morte no parto , imaginem o
feto ou a criança que se alimenta de mãe anêmica. Então, repito, esse é um problema
de vulto. Não se quer ganhar um dinheirinho a mais, fazer monopólio, arranjar saída
para um produto que não está sendo vendido. É um problema de saúde pública!
Ainda assim nós a indústria do trigo queremos
argumentar Por que existe anemia? Porque a dieta não tem ferro suficiente. Então a
solução é empurrar o ferro na população? Não exatamente. Temos de dar o anzol e não
o peixe, temos de explicar à população o que é anemia e como é fácil curá-la. Custa
de um a dois centavos de reais não é dólar não , por saco de 50 quilos de
farinha de trigo, de milho, ou do que for, para resolver o problema da anemia. Não há
custo. Mas o negócio não é empurrar à revelia do conhecimento, mas explicar o porquê.
Defendemos a posição de que o público deve saber o que é anemia e qual a solução
para esse problema, enfim, como é fácil resolvê-lo.
Qualquer mãe quer um filho robusto e inteligente. Se ela souber que
para curar a anemia daquele filho esmirradinho custa poucos centavos, ela mesma vai
providenciar a cura dessa criança.
Existe farinha de trigo fortificada com ferro no mercado, não há
saída, não há imagem popular, ninguém quer levar ferro. Então a idéia não é
obrigar, mas sim explicar. Temos de ensinar a pescar e não ficar dando o peixe.
Estou citando o problema de adição obrigatória. E ainda assim nós
estamos discutindo, porque nós temos de explicar ao povo pra que isso servirá. Daí não
precisa obrigar. Se a mãe souber o benefício que traz o ferro adicionado à farinha com
que se faz o pão, o macarrão, para o filho dela, ela vai comprar esse produto
não tenho a menor dúvida.
Hoje existe nas prateleiras, em pequena quantidade, produtos com ferro
que não têm saída, porque ninguém o quer, pois não sabem para que serve. A história
de levar ferro não tem uma conotação psicológica boa.
Estou dando exemplo de uma adição que se quer obrigatória, mas nós
defendemos o esclarecimento, através de campanha nacional, para explicar os benefícios
dessa adição. Todo moinho quer oferecer esse produto, mas isso não deve ser
obrigatório.
Esse é um assunto importante de saúde nacional. Não interessa
absolutamente à indústria de moagem nem aos seus clientes que utilizam essa farinha
macorroneiro, padeiro, fabricante de pizza, de bolo receber farinha
misturada. Quando um produtor requer farinha com pouco glúten e não há, ele mistura com
farinha de trigo.
A farinha de mandioca tem de procurar o seu mercado. Ela tem
características que a de milho não tem, é um produto nobre, mas não é tratado
nobremente no mercado, é um produto que deve ser levado com marketing para que
haja demanda. Se for empurrado não vai prosperar, não é uma novidade.
Citei obrigatoriedades que vêm desde o trigo, nos anos 30, que não
deram certo. Temos de valorizar a mandioca assim como toda a nossa agricultura, mas
buscando um caminho para que o consumidor queira trocar o seu escasso dinheirinho por
aquele prazer, por aquela satisfação. Se empurrado goela abaixo, não funciona.
Em sendo aprovada essa lei, fica naquelas cestas das que não deram
certo.
Como disse no início da minha exposição, houve tentativas para
criação de nove farinhas diferentes e nenhuma foi aprovada por esta Casa. Acredito que
neste caso também não o será. Devemos cuidar para que o produto final seja enriquecido.
Temos de arranjar mercados específicos para os amidos de mandioca, que
são mais puros do que os de milho. Os alimentos infantis com amido de mandioca têm
apresentação muito melhor dos que os de milho, têm restos de proteínas que coagulam. O
marketing dos produtos de mandioca tem de conquistar o consumidor e não se criar
uma lei obrigando comer o que não quer.
Muito obrigado.
O SR. PRESIDENTE (Deputado Aldo Rebelo) - Agradecemos do Reino
Pécala Rae, Vice-Presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo. a sua
contribuição.
Perguntamos se o Sr. Roberto Torres, do Banco do Brasil, está presente
MONICA
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Perguntamos se o Sr. Roberto Torres, do Banco do Brasil, já está
aqui. O Deputado Werner Wanderer, do PFL do Paraná e das Comissões de Relações
Exteriores e de Defesa Nacional, também freqüenta a área da agricultura.
O SR. DEPUTADO WERNER WANDERER - Meu Presidente, Aldo Rebelo,
trabalhamos muito nas áreas de defesa nacional e relações exteriores. Passei quase duas
horas em uma reunião discutindo a compra de aviões e uma série de outros temas. Estou
sem almoço. Não sei se V.Exa. conseguiu almoçar. É um prazer estar aqui no meio dos
amigos.
Represento a região oeste do Paraná, que é um Estado que produz
muito. Cumprimento todos os amigos e parabenizo V.Exa., nobre Presidente. Trata-se de uma
área muito importante para a economia do Brasil. Os produtores estão passando por muitas
dificuldades. Como toda cultura, há altos e baixos. Estamos agora na baixa. Temos de
resolver esse problema. Vou fazer tudo que eu puder para melhorar essa situação. Somos
parceiros, independente de partidos. Temos de ajudar as pessoas que produzem e trabalham
neste País.
Concluindo, cumprimento mais uma vez V.Exa., nobre Presidente, por essa
iniciativa. Tenho certeza de que os produtores do Brasil são gratos a meu amigo Aldo
Rebelo.
O SR. PRESIDENTE (Deputado Aldo Rebelo) - Muito obrigado,
Deputado Werner Wanderer pela sua presença e pelo apoio. (Palmas.)
Gostaria de convidar também o companheiro Mauricio Yamakawa,
Presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Amido de Mandioca.
O SR. DEPUTADO WERNER WANDERER - Vou pedir licença. Tenho uma
audiência agora com o Presidente da Casa. Na terça-feira, vem aqui uma delegação da
Alemanha. Também estou organizando esse evento.
O SR. PRESIDENTE (Deputado Aldo Rebelo) - Obrigado, Deputado
Werner.
O companheiro da CONTAG também não chegou.
Passo a palavra ao companheiro Mauricio Yamakawa, Presidente da
Associação Brasileira dos Produtores de Amido de Mandioca. Logo após, ouviremos o
companheiro Paulo Marcelo Ribeiro, da Divisão de Desenvolvimento de Agronegócios do
SEBRAE de São Paulo.
Antes quero fazer um comentário sucinto, que também é uma
curiosidade histórica. Integramos, segundo dizem, a civilização cristã ocidental,
resultado de uma religião não ocidental, mas oriental, já que o cristianismo nasceu no
oriente. Agora vejo também que ela teve como base alimentar um cultivar que também não
é originário do ocidente, mas do oriente. O trigo é originário da região do Oriente
Médio, da chamada Mesopotâmia. Também é do Vale do Bekka, entre a Síria e o Líbano,
que durante muito tempo abasteceu Roma.
Em resumo, somos de uma civilização oriental e ocidental. Ora mais
oriental do que ocidental, ora mais ocidental do que oriental. Devemos fazer o esforço de
buscar nas duas experiências o que mais contribui para que tenhamos uma civilização
mundial que recolha a melhor contribuição do oriente e do ocidente.
Com a palavra o Sr. Maurício Yamakawa, Presidente da Associação
Brasileira dos Produtores de Amido de Mandioca.
O SR. MAURÍCIO YAMAKAWA - Gostaria de dar meu boa tarde a
todos. Se for elogiar a iniciativa do Deputado Aldo Rebelo, vou ser bastante repetitivo.
Contudo, é importante manifestar nosso preito de gratidão. Esse projeto de lei realmente
provocou esse maravilhoso ajuntamento de pessoas. Podemos observar aqui um nível de
discussão raramente visto no nosso setor. Citemos, por exemplo o Presidente da
Associação Brasileira de Mandioca, Chigeru Fukuda, e o José Reynaldo, Presidente do
Sindicato das Indústrias de Derivados de Mandioca do Estado de São Paulo.
Gostaria de tentar explicar para a platéia que o movimento
mandioqueiro tem certa dificuldade de se organizar totalmente no Brasil devido às
diferentes realidades do nosso País. A mandioca prospera em todos os Estados do Brasil.
Temos aqui o Gabriel Bak(?), da Associação dos Produtores de Mandioca do Noroeste do
Paraná, o Hermes Campos Teixeira, da famosa marca de farinha Pinduca, que é Presidente
da Associação de Produtores Industriais de Derivados de Mandioca da região de Araruna,
no Paraná, o Nilton Jacobsen, futuro Presidente do Sindicato das Indústria de Derivados
de Mandioca do Estado do Paraná. Temos sentido a ausência dos companheiros de Santa
Catarina, berço da indústria de fécula de mandioca no Brasil. Temos também sentido
bastante a ausência dos companheiros do Norte e Nordeste, em termos de produtores, porque
aqui temos representados, através da EMBRAPA, vários companheiros nordestinos, alagoanos
e cearenses, inclusive o companheiro do trigo, Sr. Reino Pécala Rae, que nos deu uma aula
de cultura e muito enriquecedora.
O setor mandioqueiro muitas vezes é visto como interessa para quem
analisa. Temos no Centro-Sul, nos Estados do Paraná, Mato Grosso do Sul e São Paulo, o
setor industrial da fécula de mandioca, que a nossa associação representa. Temos um
associado do Ceará e alguns associados de Santa Catarina também. Em Santa Catarina, a
produção de fécula entrou em decadência, apesar de ainda persistir. O Paraná tem mais
de 60% da produção nacional de fécula. As coisas têm acontecido, evoluído e mudado no
setor mandioqueiro. É importante dizer que a cultura da mandioca não é a mesma da
época em que se obrigava a misturar farinha de raspa de mandioca. O produto é diferente.
O momento é totalmente outro. As tecnologias e os controles qualitativos são totalmente
diferentes, bem como os controles governamentais e os impostos. Tendo uma nova realidade,
é importante analisar friamente para que não saiam prejudicados ninguém do nosso País
e o mesmo saia ganhando.
Vou tentar mostrar rapidamente algumas transparências, falando sobre a
mandioca no Brasil. O Paraná, pela primeira vez na história, em 2001, será o maior
produtor nacional de raiz de mandioca com 4.437.000 toneladas. Em relação ao ano
passado, houve um incremento de quase 10% de produção.
A Bahia e o Pará são os outros Estados-destaques, porém não
produzem fécula de mandioca, mas raiz de mandioca, quase que na totalidade, que se
transforma em farinha de mandioca, totalmente absorvida pelo Nordeste brasileiro.
O Rio Grande do Sul é o quarto Estado, para surpresa nossa, porque
também não produz fécula nem farinha, mas são largamente utilizadas na alimentação
animal.
O Maranhão está em quinto lugar. Em destaque, o Mato Grosso do Sul,
em sexto lugar, com 970.000 toneladas.
Há um dado que impressiona muito: quando ouvi meu amigo Jorge Vani(?)
do Campo falar sobre as dificuldades em relação ao consumo de energia, o Mato Grosso do
Sul foi um Estado que mais aumentou sua produção de um ano para o outro, ou seja, 64%. O
Estado do Mato Grosso do Sul produziu 591.000 toneladas na safra 1999/2000 e, para este
ano, a previsão é de 970.000 toneladas. Provável e infelizmente poderá não se
concretizar, porque simplesmente o racionamento de energia está proibindo as indústrias
de trabalhar em sua plena carga, o que seria necessário. De um ano para outro, a
produção aumentou em 64%, mas não se pode produzir porque não tem energia elétrica.
A ABPAM representa a fécula de mandioca brasileira. Fizemos
recentemente a organização do setor, que é relativamente novo. Fizemos um levantamento
do que poderemos produzir neste ano e em 2002. Apenas quatro Estados detêm quase a
totalidade da produção. Temos uma previsão de produção para 2001 de 549.000
toneladas, praticamente 550.000.
Para que vocês tenham uma idéia, no ano passado, produzimos em torno
de 400.000 toneladas. Há dez anos, quando fundamos a nossa associação, produzíamos
180.000 toneladas, ou seja, em dez anos, crescemos de 180 para 550.000 toneladas.
Para o ano 2002, temos uma produção estimada de 700.000 toneladas,
sendo que a capacidade instalada é em torno de 850.000 toneladas.
Temos previsão de excedente para 2001 de 64.000 toneladas e para 2002
de 102.000 toneladas. Explico: esse excedente era previsto baseado no consumo do ano 2000,
porém já detectamos aumento de consumo no ano 2001. É importante citar que um dos
setores que mais aumentou a sua demanda foi o de massas alimentícias, especificamente
macarrão e biscoitos.
Temos esperança de que em 2002 possamos avançar mais ainda no mercado
e conquistar o nosso lugar, que é o que estamos tentando alcançar com a ajuda de uma
recente organização.
Outra transparência que julgo importante mostrar é sobre a evolução
do preço da raiz de mandioca de 1979 até 2001. Não sei se estão notando que existe uma
senóide que sobe e desce, devido àquela questão de quase todo produto agrícola: quando
o preço está alto, o produtor se anima, planta, a produção aumenta, o preço cai e
ninguém mais planta. No outro ano o preço sobe e assim por diante. A raiz de mandioca
chegou a ser comercializada acima de 110 dólares.
É importante notar que, de 1996 até 2000 esta linha vermelha
tenta representar, em dólar, o custo de produção , foram anos remuneradores para
o produtor. Tivemos aumento de área de 1996 a 2001 por conta dos preços remuneradores.
Neste ano, assistimos a uma verdadeira derrubada dos preços. Houve um
desequilíbrio, notadamente no setor farinha de mandioca, exatamente porque o Nordeste
avançou em produção de farinha. Desde 2000, houve uma diminuição muito grande da
demanda por farinha de mandioca no Nordeste, e o Centro-Sul, produzindo muito e aumentando
bastante a produção, fez com que ocorresse essa grande queda nos preços. Hoje vivemos
uma situação bastante dramática para o produtor. Alguns dizem que agora os
mandioqueiros estão em má situação e vêm querer misturar no trigo para salvar a
situação deles.
Na verdade, essa curva senóide poderia manter-se numa situação
sustentável se houvesse um crescimento planejado do setor, se realmente soubéssemos se
estamos plantando mandioca, para qual mercado ela vai e como deve ser conduzida essa
cultura. Ano a ano, devemos dizer onde queremos chegar.
Ontem, na Gazeta Mercantil, foi publicada uma matéria muito
interessante falando sobre a indústria de trigo no Brasil. Hoje a demanda de trigo é em
torno de 10 milhões de toneladas e de farinha em torno de 6 milhões 780 mil toneladas,
faturando em torno de 2 bilhões e importando cerca de 7 milhões de toneladas, o que
representa algo em torno de oitocentos e poucos milhões de dólares que o Brasil
despendia para a compra do trigo importado, quase todo da Argentina.
A hóstia é feita de trigo; se Jesus tivesse nascido na China, seria
de arroz; se tivesse nascido no Brasil, poderia ser até de mandioca. O Brasil há muito
tempo não se conforma em ter de importar tanto trigo. Então, vamos produzir o trigo
aqui. Esse grande esforço, citado pelo Sr. Reino Pécala Era, até hoje não conseguimos.
A adição dos derivados de mandioca, tecnicamente, como mostrado por várias pessoas,
pode ser viável. Devemos discutir isso aberta e democraticamente, porque o nosso País
tem um potencial fantástico para produzir derivados de mandioca.
Em relação à borracha, foi citado aqui que a Malásia levou mudas de
seringueiras do Brasil e hoje tem uma presença fantástica no mercado internacional. Um
país do outro lado do mundo, chamado Tailândia, há quase 50 anos, buscou a rama de
mandioca brasileira
no outro lado do mundo, na Tailândia, há cerca de 50 anos buscou-se a
rama dab mandioca brasileira e eles começaram a fazer peletts de mandioca para
ração animal da Europa. De 10 anos para cá, houve aumento muito forte da produção de
fécula de mandioca no país recém-citado. Há 2 anos, eles estavam exportando em torno
de 1 bilhão e 700 milhões de dólares de derivados de mandioca para o mundo. A mandioca
é a segunda cultura em importância na Tailândia, só perdendo para o arroz.
No ano passado, um grupo de empresários mandiocultores brasileiros
estiveram na Tailândia e voltaram muito assustados, porque a produtividade da região
industrial brasileira, que está em torno de 20 toneladas por hectares, é muito superior
às 14 toneladas tailandesas colhidas por hectares . Também a qualidade do amido da
mandioca brasileira é superior ao do tailandês. Na mandioca brasileira, o teor de amido
é de 27% e na tailandesa está entre 22% e 23%.
Com tudo isso, podemos perguntar o porquê de o Brasil não conseguir
dominar o mercado mundial desse produto, já que tem as características de
competitividade muito melhores do que as da Tailândia. Ora, isso se explica, não só
pela falta de organização do setor, mas também pela falta daquilo que a Tailândia fez:
um grande programa de governo em conjunto com a iniciativa privada que realmente
transformou aquele agronegócio num negócio muito importante para o país.
Esse é o conceito que queremos buscar. Não queremos, realmente, meu
amigo Reino Pécala Rae, obrigar alguém a fazer aquilo que não quer. O Brasil deve
observar suas potencialidades. A mandioca é uma delas e é enorme. Desejamos que o nosso
País a transforme em algo positivo para a sua sociedade, para a sua comunidade. Como
cidadãos, podemos dar essa contribuição, mas é preciso conscientizar o setor. Talvez o
grande ponto de partida tal conscientização e para a realização dessa conversa franca
e aberta é a reunião de hoje.
Tenho muito mais a dizer, mas penso que todos aqueles que estão neste
seminário, que têm seus interesses, talvez, tenham de parar e pensar no interesse
global, no sentido de que se possa fazer o grande jogo do ganha-ganha e não o jogo do eu
ganhar e o outro perder.
Queremo-nos somar ao setor do trigo, ver aquilo que potencialmente é
possível fazer, para que se junte ao da mandioca e ambos saiam fortalecidos.
V.Exas. puderam ver o tamanho do faturamento do setor do trigo. Nós,
da fécula da mandioca, não representamos talvez 10%, mas, temos potencial, acreditamos
que a mandioca é uma cultura brasileiríssima, como diz o nosso folder, e tentamos
mostrar às pessoas que é possível e que há muitos alimentos brasileiros viáveis em
termos de custo e qualidade interessantes.
Estamos engatinhando na organização do setor. Por isso, a nossa
proposta é talvez criar algo mais abrangente do que o seu projeto de lei, mas criar o
pró-mandioca, denominado não é, José Reynaldo? Programa de
Desenvolvimento da Cultura da Mandioca PRODEMAN, com a participação da Sociedade
Brasileira de Mandioca; Associação Brasileira dos Produtores de Amido de Mandioca; dos
sindicatos e associações do setor mandioqueiro; do SEBRAE; da CNA, através das suas
federações e sindicatos e da CNI, porque , a produção de mandioca também interessa
às indústrias, especialmente, através das suas federações e sindicatos; dos governos
estaduais e municipais, diretamente interessados na cultura da mandioca; do Ministério da
Agricultura; do Ministério da Economia e do Ministério das Relações Exteriores.
Sabemos como a Tailândia foi eficaz nas suas negociações e possui interessante fatia do
mercado europeu, assim o Brasil também poderá fazê-lo por intermédio do Ministério
das Relações Exteriores.
Além das entidades citadas, outras poderiam estar conosco, planejando
um setor que sem dúvida nenhuma tem muito potencial, pois se baseia num alimento, em
matéria-prima industrial, que poderá trazer muitas divisas ao País. Poderemos reduzir a
importação de alguns produtos e aumentar a nossa pauta de exportações.
Por isso, Deputado Aldo Rebelo, este é um momento bastante sério.
Devemos desenvolver mais projetos com relação à cultura da mandioca, pois ela pode
trazer benefícios, até mesmo para a triticultura.
Devemos conversar conscientemente, frente a frente, de forma
democrática e aberta, sempre buscando o jogo do ganha-ganha. Vamos ganhar todos juntos,
principalmente, porque a sociedade, a comunidade mais carente do nosso País, os pequenos
produtores, os assentados, enfim, todos aqueles que vêem na cultura da mandioca uma
possibilidade de criar o seu sustento e o da sua família são os que mais precisam do
Governo.
Por isso, agradeço muito a presença de todos os que vieram de
longínquas distâncias, dos Estados do Paraná, Mato Grosso do Sul, de São Paulo, do
Nordeste, e estão interessados em olhar para o setor de forma séria.
Gostaria que a nossa proposta ficasse registrada e proponho formarmos
uma comissão que desenvolva um programa de planejamento estratégico do setor e de
desenvolvimento da mandioca.
Cito a presença do empresário italiano, seu nome é Gino Cara?
, (palmas.), representante de uma empresa européia que parece
está investindo em três projetos no Estado de Goiás fecularias ,
iniciativa que vemos com bons olhos. Esperamos que tenha sucesso no Brasil, especialmente
com o apoio desse aparato de mandiocultores, para que a nossa cultura possa realmente
prosperar cada vez mais. (Palmas.)
O SR. COORDENADOR (Deputado Aldo Rebelo) Agradeço ao Sr.
Maurício Yamakaua. De pronto, acatamos sugestão de V.Sa. e vamos pô-la em prática
livremente, de forma que seja aprovada como parte deste nosso evento. Temos um tempo, até
mesmo para formulá-la e apresentá-la ao Governo, como desfecho, decisão ou
desdobramento deste seminário. Seria nossa contribuição a uma política permanente,
duradoura, profunda e conseqüente para essa área da nossa agricultura e da nossa
economia.
Antes de conceder a palavra ao companheiro Paulo Marcelo Ribeiro, quero
fazer um comentário em relação à exposição do Sr. Maurício Yamakaua. Dos quatro
primeiros produtores de mandioca de raiz do Brasil, há três regiões diferentes no
País. O primeiro produtor, um Estado do Sul, Paraná; o segundo produtor um Estado no
Nordeste, Bahia; o terceiro produtor, um Estado da Região Norte, Pará; o quarto produtor
também da Região Sul, o Rio Grande do Sul.
Entre os oito, há dois Estados do Sudeste, São Paulo e Minas Gerais.
Entre os dez, há um do Sul, do Nordeste, do Norte, do Sul, do Nordeste, do Centro-Oeste,
do Norte, do Sudeste, do Nordeste e Sudeste, novamente.lProvavelmente, essa
diversificação não existe em nenhum outro cultivar brasileiro. Talvez exista alguma
variação da cana-de-açúcar, em São Paulo, no Nordeste, no Paraná, em Minas
Gerais. O café e o trigo, certamente, não se enquadram nessa situação. Atualmente,
certa região de Pernambuco tenta produzir café. Como disse o Dr. Reino Pécala Rae, o
trigo vem do Oriente Médio, da Mesopotâmia, entre os Rios Tigre e Eufrates; o arroz, da
China e do Japão. A civilização brasileira deve boa parte do seu sucesso à presença
dessa raiz que Pero Vaz de Caminha tanto elogiou. Até mesmo elogiava o aspecto saudável
dos índios, que a tinham como base da sua alimentação.
Com relação à segurança alimentar, neste mundo tão conturbado,
todos têm acompanhado o fechamento de fronteiras em todo o Planeta. Na Segunda Guerra
Mundial, V.Sa. deve saber disso o objetivo principal da Alemanha não era
bombardear Londres. Bombadear Londres fazia parte da guerra psicológica. A Alemanha
deslocou os seus torpedeiros, para tentar impedir que a Argentina e o Uruguai abastecessem
a Inglaterra de trigo. Como a guerra foi travada principalmente no Oceano Atlântico, a
principal forma de a Alemanha enfraquecer a Inglaterra era impedir o abastecimento.
Para um país que vai depender da importação de alimentos, a
iniciativa dos anos 70, descrita pelo Prof. Ahmed El-Dash, foi um esforço razoável e
mostrou que precisamos estar preocupados com a solução desse problema. O aspecto
defendido pelo Dr. Reino Pécala Rae deve ser respeitado, uma vez que traz problemas ao
consumidor. Antes de mercado, somos uma Nação, uma comunidade com responsabilidade
coletiva e objetivos nacionais definidos. O Governo tem de cuidar daquilo que é de
interesse permanente e coletivo e não só se preocupar com o mercado, mas com o
consumidor.
Se temos a graça e o privilégio de o nosso solo produzir com tanta
facilidade esses produtos, devemos respeitar o consumidor, o mercado, os interesses
nacionais, o País e a economia nacional. O mercado também tem seus mecanismos de
propaganda. Não sei como uma agricultura descapitalizada e sem os meios para fazer
publicidade como a nossa poderá concorrer com outras. Os hábitos alimentares também
são formados a partir da propaganda, de interesses comerciais e do mercado. A título de
exemplo, no caso do milho, todas as manhãs em minha casa, faz-se cuscuz de milho. No
Nordeste chama-se de pão de milho. Hoje as pessoas consumem milho industrializado, é o
sucrilho, é não sei o quê. É o mesmo milho, é a mesma coisa. Mas, muitas vezes, a
industrialização muitas vezes permite outras alternativas. No caso da mandioca isso
também é possível.
Convidamos o colega Roberto Torres, do Banco do Brasil, para fazer
parte da Mesa e agradecemos a presença.
O colega Francisco Miguel Lucena ainda não chegou.
Passo a palavra ao Dr. Paulo Marcelo Ribeiro, zootecnista, Consultor da
Divisão de Desenvolvimento em Agronegócios do SEBRAE, de São Paulo, que apresentará os
projetos da entidade, que já tive o privilégio de conhecer.
Agradecemos à Direção do SEBRAE, de São Paulo, e ao Dr. Paulo a
presença.
O SR. PAULO MARCELO RIBEIRO Boa-tarde, senhoras e
senhores, agradecemos, em nome do SEBRAE de São Paulo, o convite feito pelo Deputado Aldo
Rebelo, para apresentarmos os projetos e programas que estamos desenvolvendo,
especialmente sobre a cadeia produtiva da mandioca, que é uma das nossas propostas de
trabalho.
(Apresentação de transparências.)
Primeiro, falaremos um pouco do trabalho que o SEBRAE vem
desenvolvendo na área de agronegócios desse produto, à qual temo-nos dedicado mais nos
últimos seis anos. Como podem ver, é muito recente. O SEBRAE sempre trabalhou muito
voltado para a indústria, serviço e comércio, mas, de alguns anos para cá, conseguimos
demonstrar com dados técnicos à Diretoria e aos representantes do SEBRAE a importância
do agronegócio dentro dos ramos de serviço, indústria e comércio, como essas cadeias
estavam interligadas e qual a importância da agricultura para esse mercado. Quarenta por
cento do PIB brasileiro é oriundo do agronegócio. Se analisarmos mais profundamente,
verificaremos que a produção agrícola não tem grande representatividade. Mas, quando
incluímos toda a cadeia produtiva, todo o processamento, ou todos os elos envolvidos no
beneficiamento e na comercialização desses produtos, essa representatividade aumenta
muito. Daí, a grande importância do setor de agronegócios para o SEBRAE.
Em São Paulo, nos agronegócios, estamos trabalhando com dois projetos
sobre a cadeia produtiva da mandioca.
O primeiro deles é o projeto do Sistema Agroindustrial Integrado
SAI , que fornece assessoria gerencial administrativa ao micro e pequeno produtor
rural.
De que forma é desenvolvido esse projeto? O SEBRAE, por intermédio de
algumas parcerias, principalmente com a Secretaria da Agricultura, sindicatos rurais e
Prefeituras municipais, viabiliza a presença de um técnico da área rural ou das
ciências agrárias vamos chamar assim nos Municípios do Estado para, junto
com os técnicos da Secretaria de Agricultura, fornecer informações principalmente com o
objetivo de tentar gerar novos canais de comercialização nas regiões.
Os primeiros módulos do projeto foram implantados por meio do SAI, na
região de Ourinhos, Marília e Ribeirão Preto. Dos 668 Municípios do Estado de São
Paulo, hoje, o SAI atende 545. Estão faltando pouco mais de100 Municípios para receber
atendimento em todo o Estado. Principalmente, na região de Marília, Ourinhos e Bauru,
logo que começamos a trabalhar, identificamos grande demanda na cadeia da mandioca. Como
muitos produtores de mandioca estavam pedindo atendimento, visualizamos um grande
potencial na cadeia de mandioca, não só na parte de farinhas e féculas, mas também na
de diversos subprodutos que aqui foram citados. Muitos produtos eram considerados
subprodutos antes da implantação do projeto sobre a cadeia produtiva da mandioca.
Não entrarei muito nos detalhes técnicos, porque o Deputado me
apresentou como zootecnista e eu conheço muito pouco da parte técnica da mandioca. Temos
grande experiência na gerência e administração de mercado, que é o enfoque do
trabalho do SEBRAE.
Quando o SEBRAE detectou essa oportunidade de mercado, tomou a decisão
de desenvolver um trabalho, que seria o segundo projeto da nossa área: o Projeto de
Cadeias Produtivas vivendo essa oportunidade de mercado, tomou-se a decisão de se fazer
um trabalho, que seria o segundo projeto da nossa área. Trata-se do projeto de cadeias
produtivas agroindustriais que, na verdade, foi desenvolvido em Minas Gerais, com a cadeia
produtiva do leite. A experiência foi trazida para Brasília, e o SEBRAE nacional
disponibilizou uma metodologia de trabalho para os diversos Estados. É com ela que
estamos trabalhando.
Quando vimos a importância que a mandioca estava trazendo para o
setor, ou trazia aos produtores que estávamos atendendo, decidimos fazer um trabalho em
cima dessa cadeia produtiva. É o trabalho que iremos mostrar, dizendo o que esperamos e
como trabalharemos essa cadeia produtiva em São Paulo.
(APRESENTAÇÃO DE TRANSPARÊNCIAS)
O objetivo geral do trabalho é melhorar a competitividade da cadeia
produtiva da mandioca. Esse seria o principal enfoque ou ênfase que estaríamos dando ao
trabalho, sempre voltados para a pequena e a microempresa ou empresários de pequeno
porte. Elencamos alguns objetivos específicos. Aqui não estão todos, mas os principais
deles.
Primeiro, caracterizar e analisar a cadeia produtiva como um todo. Hoje
em dia, debatemos apenas um dos elos da cadeia produtiva, o produtor, que é afetado mais
rapidamente quando se tem um problema de crise ou um fator favorável. Na verdade, temos
de analisar a cadeia produtiva como um todo. Nós temos que analisar como está o
fornecedor do insumo, o produtor, a indústria, o mercado varejista, o atacadista e, por
final, o consumidor. O consumidor é o elo principal da cadeia produtiva, pois temos que
saber produzir de acordo com as especificações que o mercado quer. Temos que conhecer o
nosso mercado e, daí, tentar trabalhar a cadeia como um todo. Então, o primeiro objetivo
específico seria analisar a cadeia como um todo nas diversas regiões do Estado.
O segundo objetivo específico seria identificar eventuais pontos de
estrangulamento e medidas que poderiam ser implementadas na correção desses pontos de
estrangulamento. É outro ponto importante porque, além de pegarmos o ponto de
estrangulamento, vemos o ponto forte. O importante é saber que ponto forte podemos
priorizar, ou melhorar, dentro dessa cadeia, para trazer resultado num processo de
ganha-ganha, como foi citado, para todos os elos da cadeia produtiva. Não é só a
indústria ganhar e massacrar o produtor, ou, então, o produtor parar de comprar e a
indústria de insumo ir para o brejo, como dizemos na roça. Tem de ser uma cadeia
extremamente coordenada. O processo tem de ser em toda a cadeia, e não num elo
específico.
Outros itens que podemos citar: desenvolver ações de
conscientização e capacitação gerencial e tecnológica; acesso a novos mercados e a
novas informações. Qual o grande problema do produtor brasileiro e também dos outros
integrantes dos elos da cadeia? É muito difícil saber. Às vezes, tem-se a informação,
mas essa chega na hora errada, e, muitas vezes, a pessoa não sabe trabalhar a
informação que tem.
Exemplo típico, que uso em diversas palestra que faço por todo o
Estado: sou descendente de produtor rural; minha família trabalha com produção de café
até hoje; eu chego em casa e pergunto: "Mãe qual é o teu custo de produção de
café?" Ela responde que na região está em torno de 70 ou 80 dólares a saca. Eu
torno a perguntar: "Mas qual é o teu custo?" O custo varia de propriedade para
propriedade, de empresa para empresa. Se eu tiver um mobilizado alto, ou seja, muito
trator na minha fazenda, terra ociosa etc., meu custo é diferente do de outra propriedade
que não tem esse critério. E se nós, produtores ou empresários, não sabermos como
analisar o custo, como é que vamos saber se o preço que estamos vendendo nosso produto
é bom ou ruim. Então, essas ações de capacitação gerencial de saber como; de
processos; de tomadas de decisão são extremamente importantes, principalmente
para o pequeno e o microempresário, que estão mais desprevenidos nessa área.
O último objetivo acho que está baixinho aqui e não vai dar
para todos lerem , é disseminar novas técnicas junto a essas cadeias produtivas,
buscar parcerias, quantidades de pesquisa que desenvolvam novas tecnologias, para
disseminar essas informações.
Qualificar as cadeias produtivas quanto ao gerenciamento e seus
negócios. Isso está naquela primeira idéia de como estaríamos mapeando essa cadeia.
Conscientizar os segmentos dessa cadeia da necessidade de interação,
ou de trabalhar em conjunto. Acho que este é o grande desafio: conseguirmos trazer todos
os elos que compõem a cadeia, para tentar fazer um trabalho em conjunto. Não adianta
querermos trabalhar e implementar uma ação sozinhos, que o SEBRAE não vai dar conta e
não é nosso papel. Então, a solução é trazer todos para trabalhar em conjunto o
setor.
Outro objetivo, relacionado com o anterior, seria articular e promover
a integração das entidades que atuam na cadeia e posicionar o SEBRAE como elemento
catalisador. Ou seja, nós somos mais um parceiro na luta de que estamos levantando a
bandeira hoje aqui, que é a de desenvolver o setor ou a cadeia produtiva da mandioca.
Resultados esperados: melhoria da produtividade, com aumento da
produção, um dos itens de impacto ou de melhoria de competitividade de uma cadeia;
melhoria da eficiência gerencial das atividades produtivas; incremento de renda,
proporcionando a participação dos pequenos e microprodutores nas cadeias
agroindustriais, ou seja, trazer, muitas vezes, o produtor que está à margem da cadeia
para integrar essa cadeia.
Qual a importância de trazer o pequeno e o microempresário para a
discussão ou para trabalhar com a gente no desenvolvimento de cadeias produtivas? Muitas
vezes aqui foram citados problemas de mercado. Quando o preço está bom, todo mundo
compra. Um ou dois anos depois, o preço está lá embaixo, e todo mundo perde. As
principais pessoas que muitas vezes entram e acabam estruturando um processo produtivo
são pequenos microprodutores que não têm formação de mercado. Muitas vezes eles
investem o dinheiro que têm, porque o produto está dando dinheiro e, depois, perdem
dinheiro, porque o preço vai cair. Ou seja, mais uma vez teremos que capacitar o pessoal
para entender como é que funciona o mercado e como é que eles poderiam estar atuando
nesse mercado.
Melhoria de qualidade da matéria prima; melhoria da regularidade de
oferta. Ou seja, o mercado de hoje trabalha com qualidade de produtos que vamos entregar e
também com regularidade.
O projeto do Deputado é uma das ações, como ele mesmo mencionou,
para se tentar melhorar a competitividade desse mercado, mas há diversas outras maneiras
de atuar, pelas quais possamos melhorar, talvez, a competitividade nessa área. Uma delas:
trabalhar com super e hipermercados e trazer o produto já acabado e de forma diferente
para o consumidor final, de maneira que seja melhor para ele estar consumindo aquele
produto.
Hoje, o grande desafio de todas as áreas é trabalhar com qualidade.
Vejam o exemplo do café. Está-se trabalhando com café de qualidade. A parte de
laticínio se profissionalizou muito rapidamente e hoje está entregando um produto mais
seguro e de melhor qualidade ao consumidor. A indústria da laranja também está tentando
se profissionalizar. Temos de estar preocupados com o mercado consumidor e observar sempre
como atacá-lo.
O problema do mercado da mandioca pode ser, em parte, cultural. Temos
de desenvolver novamente a cultura da mandioca e seus produtos, com trabalho de marketing,
para criar novos nichos de mercado e ter um mercado competitivo para a nossa produção.
Melhoria na segurança do alimento; melhor adequação das demandas de
mercado e geração de novas oportunidades; melhoria da eficiência técnica operacional e
gerencial das empresas beneficiadoras e disseminação e fortalecimento da cultura
empreendedora. Acho que esses são os resultados esperados.
Nos últimos anos o SEBRAE vem trabalhando muito para disseminar o que
é cultura empreendedora. O Brasil é um país empreendedor. Lemos muito que, quando a
pessoa fica desempregada, muitas vezes seu primeiro passo é abrir o negócio próprio. Ou
seja, temos espírito empreendedor e muitas vezes sonhamos em juntar dinheiro para montar
um negócio próprio. Então, temos esse espírito, mas precisamos saber como fazer isso
de maneira correta.
Metodologia do projeto. Trabalhamos em quatro etapas. A primeira etapa
seria organização interna. Ou seja, estamos buscando conhecer, dentro do SEBRAE, quais
são as áreas que poderiam ajudar a cadeia da mandioca, estamos identificando parceiros
que possam estar somando conosco no processo. O José Reynaldo começou um trabalho
conosco. Já estamos conversando há certo tempo. Na última reunião da câmara setorial
estivemos presentes, para tentar nos envolver no processo, conhecê-lo e buscar quem são
os líderes dessa cadeia, para sentar e discutir o problema da mandioca em conjunto.
A segunda etapa seria planejamento do projeto estadual e como seria
essa ação. A metodologia prevê que teremos um diagnóstico de como está a cadeia nesse
período no Estado. É um diagnóstico de informações secundárias e de mercado, ou
seja, não é aquele diagnóstico acadêmico, que demoraria muito tempo para ser feito.
O prazo que estamos prevendo para ele ficar pronto é de quatro meses.
Logo após, estaremos discutindo, com Lideranças, produtores e representantes dos
diversos segmentos que compõem essa cadeia, se as ações que foram identificadas são
viáveis, se podem dar resultados e qual o grau do impacto desse resultado, para
priorizarmos as ações que seriam desenvolvidas na terceira etapa, ou seja, a execução
das ações identificadas como prioritárias, a fim de atuarmos dentro da cadeia
produtiva.
A última etapa seria monitoria e avaliação. Cada vez mais o SEBRAE
bate na tecla de que os programas de desenvolvimento têm que ser monitorados e avaliados.
Não adianta aplicar recursos públicos e não conseguir impacto nessa aplicação. Às
vezes, em algumas ações isso é complicado, é difícil de se medir, mas podem causar
bons indicadores. O principal deles é o canto doce do lucro para pequeno e
microempresário rural. Não adianta falar em benefício social e melhoria para a cadeia
produtiva. Se a ação não trouxer dinheiro para quem está tocando a cadeia produtiva, e
boa distribuição de renda dentro dessa cadeia, seu impacto não será viável, pois não
estaremos conseguindo gerar emprego ou distribuir renda.
Organização do projeto no Estado, nas duas primeiras etapas, em
conjunto, na parte de organização interna. Estamos motivando a criação de um grupo
gestor interno do SEBRAE. Fica aberto o convite àqueles que quiserem integrar esse grupo
gestor. Estamos buscando identificar quais são as parcerias. As ações estão sendo
desenvolvidas nos escritórios ou áreas que têm a maior produção de mandioca no
Estado. Na parte do projeto estadual, já estamos contratando as entidades de pesquisa que
irão elaborar o diagnóstico para nós, ESALQ, UNESP, Universidade Federal de São Carlos
e USP, por intermédio da FEA. Essas entidades foram contatadas e estão apresentando
propostas para a realização desse diagnóstico. O prazo para início desses trabalhos é
o final deste mês. Quer dizer, no começo do ano que vem faremos um workshop para
definição ou validação das ações que forem propostas sobre essa cadeia produtiva.
Essas são as transparências que tínhamos para mostrar. O projeto
está em desenvolvimento, ainda numa fase embrionária. Estamos também num processo de
articulação com o próprio SEBRAE nacional, para a obtenção de recursos a serem
aplicados na cadeia produtiva da mandioca no Estado de São Paulo, que está também
entrando com recursos do SEBRAE estadual.
Este é o recado que eu queria passar: temos oportunidade de negócio
muito grande na cadeia produtiva da mandioca. Existem outras cadeias produtivas que
também estão sendo desenvolvidas e elas têm que coexistir não digo pacificamente, mas
de maneira harmônica, dentro do sistema produtivo. Não adianta tentarmos desenvolver só
a mandioca ou só o café. Temos que desenvolver o agronegócio brasileiro. Temos de
buscar novas alternativas eficientes de colocar nosso produto tanto no mercado externo
como no interno. Temos que buscar os dois. Existem maneiras para isso. Ao invés de
exportarmos a fécula de mandioca para a Europa, porque não exportarmos a tapioca pronta?
Vamos levar nosso produto lá para fora e mostrar como é consumido nosso produto. Vamos
tentar encontrar outras maneiras de desenvolver mercados dentro do Brasil, para que se
possa ter benefício maior dentro dessa cadeia produtiva.
Era o que tinha a dizer.
Agradeço ao Deputado Aldo Rebelo o convite para estar aqui e reitero o
convite a quem quiser participar desse trabalho conosco. Estamos à disposição.
Muito obrigado. (Palmas.)
O SR. PRESIDENTE (Deputado Aldo Rebelo) - Muito obrigado, Paulo,
pela sua contribuição muito viva, rica e prática e pelo exemplo que o SEBRAE de São
Paulo nos dá de cooperação e parceria com os interesses econômicos e sociais do nosso
País.
Não é a primeira experiência nem o primeiro esforço que esta Casa
faz em relação a setores da economia do Brasil. No início do Governo do Presidente
Fernando Henrique, com base em cálculos puramente financeiros e de mercado, chegou a ser
anunciada a extinção do Programa do Álcool. Argumentava-se, nos idos de 1995, que o
preço do petróleo estava baixo no mercado mundial, que o custo da produção do álcool
no Brasil estava elevado, portanto, não valia a pena bancar a conta de álcool, que
ficava para a PETROBRAS, e melhor seria desativar o programa. As montadoras pararam de
produzir carros a álcool, o setor passou a viver uma crise, e nós criamos a Frente
Parlamentar do PROÁLCOOL, integrada por Deputados de todos os partidos. Integrei essa
frente, como Coordenador, mesmo não sendo usineiro, produtor ou trabalhador, apenas como
Parlamentar. Também não sou produtor de mandioca e nem sou Deputado que tenha base
eleitoral em área de produção da mandioca. Minha base eleitoral é a cidade de São
Paulo, bairro de Pinheiros, onde provavelmente não se cultiva um único e milagroso pé
de mandioca.
O trabalho dessa frente demonstrou que estávamos certos: o preço do
petróleo não era estável no mundo; aquilo que custava 14 dólares poderia chegar a 30
dólares, do dia para a noite, dependendo da conjuntura e da situação do planeta, como
de fato aconteceu; íamos desativar o Programa do Álcool, quando Estados Unidos e Europa
estavam contratando os técnicos brasileiros que criaram o PROÁLCOOL, a fim de criarem
programas semelhantes, os Estados Unidos, com base no milho, e a Europa com base na
beterraba. No entanto, os estudos do PROÁLCOOL deles estava em pleno funcionamento,
porque os europeus achavam que o petróleo subsidiado por 100 bilhões de dólares das
tropas norte-americanas presentes no Oriente Médio não dava segurança a ninguém.
Graças a Deus e ao esforço dos produtores, realizamos um seminário
como este, que reuniu trabalhadores rurais, produtores, plantadores e usineiros. Como diz
o companheiro Paulo, é preciso haver entendimento entre todos. Os plantadores de cana que
se comprometeram, na época, a entregar 200 mil carteiras de trabalho assinadas ao
Ministro do Trabalho como parte desse processo.
Enfrentamos também essa situação no setor têxtil. Visitamos
Americana, em São Paulo, e cidades de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. O setor
têxtil brasileiro tinha sido praticamente dizimado. Tínhamos uma cota de exportação de
produtos têxteis para a Europa de 2 mil e 500 toneladas, e, como não tínhamos cotas,
vendíamos 2 mil e 500 toneladas e comprávamos 60 mil toneladas por ano. Quebrou o nosso
setor. O Governo dizia que a nossa produção era incompetente, atrasada etc, como se
fosse possível modernizar a nossa produção comprando equipamentos a juros praticados no
Brasil, enquanto produtores de outros países têm juros praticamente subsidiados. Fizemos
também um esforço nesse sentido, e o Governo foi obrigado, por pressão de produtores,
trabalhadores e sindicatos, a adotar medidas a respeito. De Americana não vieram apenas
os donos das indústrias, mas também os trabalhadores.
Repetimos a experiência também no setor da borracha.
Portanto, nossos esforços têm que contar com a persistência e a
confiança de todos os interessados, mesmo sabendo que as coisas são difíceis e que
sobre o Governo há pressões muitas vezes mais poderosas e eficazes que as nossas. Nosso
único caminho é articular o esforço coletivo, de maneira ampla, mostrando que isso não
é interesse de partido político planilhas para articular o esforço coletivo de maneira
ampla, mostrar que isso não é do interesse de partido político nem de cooperativistas
que querem monopólio ou ganhar dinheiro fácil; isso é do interesse da economia, dos
produtores e dos trabalhadores deste País.
Acho que a contribuição do companheiro Paulo Ribeiro, de São Paulo,
foi muito importante.
Se sobrar tempo, poderemos conceder também a palavra aos ouvintes para
que façam perguntas e dêem suas opiniões.
Concedo a palavra ao nosso gerente executivo da Diretoria de
Agronegócio do Banco do Brasil, Sr. Roberto Torres.
O SR. ROBERTO TORRES Obrigado, Sr. Presidente. Prometo
ser breve, mesmo porque o tema está se esgotando. A princípio, parece-me bem claro que
organização é o grande poder para alavancar gente de qualquer setor. Quando se fala em
cadeia produtiva bem sucedida hoje no Brasil, principalmente as relativas a agronegócio,
verifica-se que há um pacto entre todos os seus segmentos. Temos exemplos claríssimos e,
com certeza, com a mandioca não seria diferente.
Gostaria de começar o meu pronunciamento pedindo desculpa pelo Dr.
Ricardo Conceição, nosso Vice-Presidente, que não pôde comparecer devido a chamado
urgente da Presidência da Casa. Agora vou tentar apresentar a V.Sas. um pouco do Banco do
Brasil Rural.
Ao longo dos últimos anos, o Banco do Brasil vem sofrendo mudança
bastante significativa, principalmente depois de ter sido orientado pelo Governo para
atuar dentro do mercado rural de modo diferente que era feito anteriormente. Aquele Banco
do Brasil anterior a 1994 não existe mais. No período de 1994 a 1995, houve séria crise
no setor rural. Transferência brutal da renda rural para a renda urbana causou todo o
problema. Hoje ele está devidamente equacionado, pois há vários programas de
alongamento de dívida dos produtores.
O que assistimos de 1995 para cá foi um forte retorno do Banco do
Brasil a essa área, em que sempre atuou, mas, da qual se afastou durante algum tempo.
Para que os senhores tenham noção do que o Banco do Brasil hoje
representa hoje, vou informar alguns dados: Possui um ativo de 147 bilhões de reais,
patrimônio líquido de 9 bilhões e cerca de 12 milhões de clientes, devendo chegar a 14
milhões até o final do ano. O seu quadro de funcionários, que antes de 1995 era de
cerca de 130 mil pessoas, passou para 79 mil. Há cerca de 8 mil pontos de atendimentos no
Brasil estamos presentes em quase todos os Municípios brasileiros e 34
agências no exterior.
Após a Medida Provisória nº 2.196, que determinou a transferência
de certas operações para o Tesouro Nacional, a carteira de agronegócio, que
representava cerca de 50% dos ativos, permanece como a maior carteira do Banco do Brasil,
com cerca de 30% de todos os ativos, o que demonstra claramente sua intenção de
continuar sendo o maior agente financeiro na área rural brasileira.
Dentro do Sistema Nacional de Crédito Rural, o Banco do Brasil se
manteve na posição de principal agente financeiro. Dos 19 bilhões de reais aplicados no
meio rural na safra de 2000 a 2001, o Banco do Brasil participou com cerca de 15,5
bilhões de reais, ou seja, continua tendo a parcela de participação de cerca de 55% a
60% no financiamento de crédito rural, ou seja, os demais agentes brasileiros que operam
no crédito rural não correspondem nem à metade do que o Banco do Brasil aplica.
Como eu vinha dizendo, a equalização vamos dizer assim
do problema existente entre o setor rural e o Banco do Brasil motivou o distanciamento
brutal entre os contratos financiados e a renda rural, e todo o problema de inadimplência
foi solucionado com programas de Governo como securitização, PESA, RECOOP.
De lá para cá, o Banco do Brasil pôde, paulatinamente, retornar ao
setor de financiamento. Em 1997, financiou 6 bilhões de reais. Hoje são cerca de 10,5
bilhões de reais planejados para serem aplicados somente nesta safra. Isso significa que,
nos últimos 3 anos, houve crescimento de aproximadamente 20% ao ano. Sabemos que são
valores ainda insuficientes para toda a demanda, mas, de qualquer maneira, são volumes
crescentes. E só estamos conseguindo atingir tal número por causa de um importante
fator: nossos índices de inadimplência são baixíssimos, o que demostra claramente que
o produtor rural só não paga quando não tem condição. Sem dúvida, ele sempre foi, em
toda carteira do Banco do Brasil, o cliente com o menor índice de inadimplência. (Palmas.)
Esse quadro demonstra outro fator importante: o financiamento à
agricultura familiar. O Brasil é muito pobre em estatísticas e, pior, não conseguimos
traçar comparativos. Durante muito tempo o Banco Central estabeleceu regras para o
pequeno produtor rural. Conforme o dinheiro do Tesouro Nacional ia se tornando escasso, ia
diminuindo a classificação do produtor, de tal forma que parecia estarmos assistindo
cada dia a mais e mais produtores rurais, o que não era verdade. A função era, na
verdade, de alteração do porte.
De um tempo para cá, ficou mais fácil verificar se estamos ou não
crescendo, uma vez que agora só há duas classificações para de produtor rural no
País.
Um é o produtor que é assistido pelo PRONAF. Conseguimos classificar
dentro do PRONAF todos os produtores da chamada agricultura familiar, que hoje tem
Ministério próprio, o Ministério do Desenvolvimento Agrário. Independentemente do
porte outros, são eles classificados como demais. De qualquer forma, temos apresentado
crescimento vertiginoso na quantidade de contratos que temos realizado com esses
produtores. Foram cerca de 800 mil dentro na área rural, na safra passada. Desse número,
650 mil contratos foram realizados com a agricultura familiar, não com o micro ou com o
pequeno produtor, somente com agricultura familiar. O valor médio desses contratos é de
4 mil reais. Há então grande diferença entre o Banco do Brasil e os demais agentes
financeiros. Enquanto a nossa média por contrato é de 4 mil reais, a dos demais agentes
é de 45 a 50 mil reais. Isso demonstra claramente a vocação do Banco do Brasil.
Dos 1,4 bilhões de reais, inteiramente aplicados na agricultura
familiar na safra passada, para a próxima estamos prevendo cerca de 2 bilhões de reais.
Especificamente quanto à mandioca, não obstante a crise que
verificamos com relação a preço, desde a safra 1997/1998 o Banco do Brasil vem
aumentando suas aplicações nessa cultura. Percebemos que o valor médio de contratos
para a cultura da mandioca é inferior a 2 mil reais por contrato, o que demonstra
claramente a que tipo de produtor estamos assistindo. Aplicamos cerca de 80 milhões de
reais na safra passada e realizamos aproximadamente 40 mil contratos.
Com relação aos Estados que receberam crédito para aplicar em
plantio de mandioca, o Paraná vem sendo beneficiado com maior alocação de recurso.
Participei de várias palestras sobre cadeia produtiva e sei da
necessidade de novas formas de produção. O Brasil sempre foi conhecido pela excelência
da produção. Sem dúvida, sabemos produzir! Para o brasileiro, agricultura não é
problema. Tanto é que, nos últimos anos, com a mesma área plantada, nossa produção
pulou de cerca de 76 milhões de toneladas para 100 milhões. Não houve aumento da área
plantada no País, o que houve foram ganhos de produtividade. Efetivamente, é a
tecnologia sendo levada ao campo.
No ano passado batemos os Estados Unidos em produtividade média de
soja, coisa que há pouco tempo seria inimaginável. Fala-se que não exportamos milho, e,
de fato, não exportamos um só grão. Mas, na verdade, ele é exportado quando exportamos
frango. Faz parte da cadeia de produção. É preciso que isso aconteça com outras
cadeias produtivas.
No último mês de fevereiro, visitei uma feira de produtos orgânicos
na Alemanha. Todo o café apresentado na feira era da Itália, mas a Itália não planta
café. Eles compram o grão da Colômbia e do Brasil, industrializam-no e o vendem. Temos
capacidade de fazer o mesmo. Temos que aprender a agregar valor. Não podemos continuar
exportando só commodityes para os países industrializados. Exportamos um navio de
soja e importamos dois computadores. E a nossa área agrícola é muito competitiva. O
Brasil é um dos grandes players do mercado, sem dúvida. A tecnologia fornecida
pela EMBRAPA nos permite produzir 200 milhões de toneladas de grãos, tranqüilamente.
Só que não podemos introduzir no mercado 200 milhões de toneladas de grãos porque o
preço seria deprimido, iria lá embaixo e, mais uma vez, o nosso produtor seria o
primeiro a perder. Então, precisamos conquistar novos mercados, não só o de commodityes.
Para o Banco do Brasil, de 1995 para cá, ficou muito claro que o
Brasil sabe plantar. Investimos no desenvolvimento de novos produtos para aprimorar nossa
participação na comercialização dos produtos agrícolas. Mas o Brasil não sabe
comercializar. Até 1995, era aquela loucura, o Governo intervinha na comercialização e
o Banco do Brasil chegou a administrar estoques da ordem de 18 milhões de toneladas, que
representavam, à época, cerca de 30% da nossa produção. Isso é inadmissível para um
país com altíssimos custos, principalmente porque o Governo é ineficiente para
administrar estoques.
Hoje, temos cerca de 2,5 a 3 milhões de toneladas que representam o
estoque estratégico e todo o restante da produção brasileira de grãos está nas mãos
da agroindústria. Assim é que deve ser. E temos de criar mecanismos para garantir
competitividade. Daquela época até hoje, foram lançados vários produtos e fala-se
muito em integração. O nosso agronegócio está estruturado dessa forma. Existe uma
gerência que cuida do antes, outra que cuida do dentro e outra que cuida do depois. O
Banco do Brasil não concebe financiar qualquer tipo de atividade agrícola se não
enxergar a cadeia produtiva inteira. O Banco do Brasil não é mais a mãezona de
antigamente, quando o produtor rural, principalmente o médio e grande produtores, pegava
o dinheiro barato do crédito rural e trabalhava com o Bradesco, Itaú, e com outros
agentes financeiros. Não queremos isso, mas, sim, ser parceiros de toda a cadeia
produtiva, integrando não só os fornecedores de insumos, e também as demais
agroindústrias que trabalham com o produto final. É assim que o Banco do Brasil vê.
Dessa forma, está forçando a sua competitividade de igual para igual com os demais
agentes financeiros, porque eles também têm crédito rural, têm também recursos do
MCR-62. E fica mais cômodo para o Banco do Brasil exigir esse tipo de participação das
agroindústrias, porque só assim conseguiremos capitalizar mais recursos. Quanto mais
forte for o Banco do Brasil nessa área, mais recursos poderá aplicar. É por isso que
tínhamos 60% de participação no agronegócio. Dentro do Sistema Financeiro Nacional
continuamos o principal agente financeiro e vamos continuar assim se tivermos condição
de fazer esse giro, pois a nossa carteira rural é a mais forte.
Sr. Presidente, o Banco do Brasil lançou o BBAGRO, produto de
convênio com agroindústrias fornecedoras de insumos. Temos o BBCONVIR. Nesse programa o
Banco do Brasil se dispõe a financiar todo produtor que estiver vinculado à uma
agroindústria, desde que ela garanta assistência técnica gratuita ao produtor. O preço
deverá ser acordado antecipadamente, e deverá remunerar todo o custo da produção. Já
foram fechados alguns convênios de integração rural com produtores de mandioca e
indústrias. Existe o modelo desde 1910, quando as fumageiras chegaram ao País e
resolveram investir na cultura. Vimos, por exemplo, os nordestinos destruírem toda a
produção de algodão por causa de briga entre os produtores e as agroindústrias daquela
região. Acabaram com a produção de algodão do Nordeste. É preciso que todo o setor se
una e perceba que essa união pode propiciar a alavancagem de todos. Não pode haver
aquele jogo de perde-ganha porque sempre quem perde é o produtor rural e perceber que
essa união pode propiciar alavancagem de todos, em vez de ficarmos naquele jogo de perde
e ganha. E, em 90% das vezes, quem perde é o produtor rural, o mais desassistido,
principalmente na cadeia que envolve o pequeno produtor, que não tem condições de
competir no mercado, dado o pequeno volume de sua produção. É, portanto, necessário
criarmos condições para que essa cadeia cresça.
O SEBRAE mencionou novamente sobre a organização da cadeia produtiva.
Oferecemos ao SEBRAE ajuda aos projetos; se preciso for, o Banco contribuirá no que for
possível. É preciso profissionalizar nosso agricultor, ou seja, fazer com que ele saiba
registrar e controlar seus custos. O agricultor deve saber exatamente quanto gasta. A
partir do momento em que se traz moderna administração para o campo, certamente dá-se a
profissionalização, profissionalização essa que faz o Brasil crescer. Tanto que, como
disse, nossa produtividade vem aumentando a olhos vistos, dentro da mesma área plantada,
simplesmente por causa da profissionalização.
O mercado é implacável com quem não é profissional; ele liquida,
sem querer saber se é de mini, pequeno, médio ou grande porte. E a agricultura é um
mercado. Estamos falando de dinheiro, de rentabilidade, de custo de produção. Quem
desconhecer seu custo de produção e os mecanismos de reduzi-lo para rentabilizar sua
atividade, estará fora do mercado. E quando me refiro a mercado, não estou falando de
mini, pequeno, médio ou grande, mas, sim, de profissionais. Tanto é assim que existem
inúmeros casos de mini e pequenos produtores agrícolas altamente bem sucedidos.
Agricultores pequenos e competitivos no mercado. Afinal, nichos de mercado encontram-se
hoje no mundo inteiro.
Tirei uma fotografia da feira que visitei na Alemanha e a enviei ao Sr.
Ministro. Enquanto exportamos commodities, a Europa vende comida orgânica para
cachorros e gatos. Há mercado para isso, ou seja, trata-se de nicho de mercado. Não
importa se é bonito ou se é feio, se é social ou não: o mercado não perdoa. Temos de
descobrir nichos de mercado, para a mandioca, por exemplo. Temos de lançar produtos novos
e encontrar mercados para eles, fazendo como fez a Tailândia, que investiu na
reorganização de toda a cadeia produtiva. Afinal, se temos capacidade de produzir muito
com baixíssimos custos em comparação com qualquer outro país do mundo, falta-nos
somente a organização: assistência técnica, financiamentos aos produtores e,
sobretudo, comercialização.
Lançamos vários outros produtos. Um exemplo é o leilão eletrônico
do Banco do Brasil. Temos hoje o maior site de agronegócios do País. Já
comercializamos mais de 210 milhões de reais via Internet. Não há outro site que
consiga esse tipo de coisa, pois damos credibilidade ao mercado. Quando se fala do Banco
do Brasil, garante-se tanto o comprador quanto o vendedor, e nenhum outro site
consegue fazer isso, pois lhe falta o cadastro que tem o Banco do Brasil. E quando falo em
cadastro, falo em história, e quando falo em história, volto a 1840, quando tivemos a
primeira nota promissória de financiamento de café. Essa é a história do Banco do
Brasil, que, desde o começo, confunde-se com a história rural brasileira. Não fosse
assim, certamente a sociedade brasileira não precisaria do Banco do Brasil. O Governo
não precisa de um banco para vender seguros, para vender Ourocap ou coisas assim; precisa
de um banco de apoio ao desenvolvimento agrícola.
Agora, somente com o apoio à área rural não seríamos competitivos.
Por isso o Banco do Brasil tem outras áreas, que apóiam o movimento do banco em prol do
desenvolvimento, tais como o balcão de Agronegócios e os classificados. Estamos
lançando agora salas de agronegócios em vários Estados brasileiros. Para quem não
conhece, esta é nossa página na Internet: nela há respostas para todas as perguntas de
quem está sempre à procura de informações sobre o Banco do Brasil, querendo saber como
funciona tal linha de crédito, qual o prazo, qual o custo do financiamento etc. Basta
acessar a página www.agronegocios-e.com.br.
Aqui se encontra toda a área rural do Banco do Brasil, inclusive outros tipos de
informações. Também estamos tentando fechar convênios para contemplar o comportamento
climático de todas as Regiões do País. Pretendemos que da tela destinada ao nosso
produtor rural constem todas as informações sobre qualquer linha de financiamento.
Por fim, gostaria de dizer que o Banco do Brasil não tem limitações
ao financiamento de crédito rural em qualquer cadeia. Dada a insuficiência de recursos
para atender todos, o Banco do Brasil tem estabelecido prioridades, o que significa fazer
escolhas, o que, por sua vez, significa atender um e deixar de atender outro. Qual será o
escolhido? Certamente o mais bem estruturado, o mais bem organizado, o que puder dar maior
retorno para ele e para o próprio País.
Ressalto que estamos, como sempre, dentro da área rural, financiando
toda e qualquer cadeia produtiva, dispostos a apoiar qualquer movimento de organização.
Assim como conseguimos estruturar convênio de integração com uma grande agroindústria
de mandioca, estamos dispostos a auxiliar qualquer movimento, em qualquer parte do País.
O mais importante neste Seminário é promover a discussão deste tipo
de propostas. O Banco do Brasil está à disposição de V.Exas.
Obrigado. (Palmas.)
O SR. COORDENADOR (Deputado Aldo Rebelo) Agradeço a
participação ao Sr. Roberto Torres, Gerente de Agronegócios do Banco do Brasil.
A última vez que estive com o Sr. Ricardo Conceição, Vice-Presidente
da Carteira de Crédito Agrícola, foi na cidade de Picos, interior do Piauí, durante a
assinatura de convênio para pequenos apicultores e produtores de rapadura.
A partir de agora, franqueio a palavra aos presentes para que
manifestem suas opiniões ou façam perguntas aos expositores. Ainda estão presentes os
Srs. José Reynaldo Bastos da Silva, Chigeru Fukuda, Ahmed El-Dash e Valmir Rodrigues
Chaves, além dos que fizeram suas exposições na tarde de hoje.
Ficamos sabendo o percentual de financiamento agrícola sob a
responsabilidade do Banco do Brasil. Sabemos, entretanto, que há quem queira privatizar
essa instituição, que há idéias a esse respeito, e que tramita nesta Casa projeto de
lei nesse sentido. Imaginem V.Exas. a agricultura brasileira na dependência do
financiamento de bancos estrangeiros, já que não há como pensar que o Banco do Brasil,
se privatizado, será adquirido pelo BRADESCO ou pelo Itaú. Imaginem V.Exas. o
financiamento da agricultura brasileira na dependência de bancos de negócios ou dos
grandes bancos estrangeiros que estão chegando ao nosso mercado.
Também por isso é importante preservar o Banco do Brasil, como
também a EMBRAPA, que também esteve sob risco de privatização, no início dos anos 90,
quando determinado Presidente, que não chegou a concluir seu mandato,
também pôs a EMBRAPA na alça de mira houve até despejo de
parte da empresa, que ficou sem ter onde guardar arquivos.
Então, é preciso combinar as diversas frentes de luta para que não
tenhamos vanguarda sem retaguarda.
Agradeço aos funcionários do cerimonial, das relações públicas, do
áudio, do som, da TV Câmara, do Jornal da Câmara, da Agência Câmara, aos
fotógrafos, enfim, a todos os que nos ajudaram na realização deste evento; aos
funcionários do Departamento de Arquivo, que fizeram a exposição aquela é a
original, a constituição original de 1823, a constituição da mandioca. O original
está exposto lá fora.
Concedo a palavra aos presentes. Com a palavra o Sr. Reynaldo.
O SR. JOSÉ REYNADO BASTOS DA SILVA - Quero me comportar
inicialmente como espectador da platéia, para fazer pergunta ao representante da ABTRIGO
e, em seguida, darei minha interpretação pessoal, sem nenhum prejuízo ao setor
mandioqueiro nacional, que fique bem claro.
Pergunto ao representante dos moageiros de trigo: por coerência,
baseado na sua explanação, como o senhor explica o auge das farinhas mistas acontecendo
antes da implantação da política de subsídio ao trigo e do monopólio da
comercialização, sendo que, naquele momento, na década de 70, o consumidor brasileiro
era o mesmo de hoje. Está certo de que hoje ele é mais exigente, mas não tem como
parâmetro o mercado das farinhas mistas. Quero perguntar ainda se o senhor tem profundo
conhecimento do seu próprio setor. Já participei de reuniões em São Paulo e
constatamos que alguns empresários do trigo, principalmente os gaúchos e paranaenses,
que produzem trigo nacional de altíssimo teor de glúten, até precisam adicionar amido
e o amido mais puro, o de melhor qualidade, é o da mandioca para diluir
este altíssimo teor de glúten em vários nichos de massas. Que interesse o senhor
representa dentro do seu próprio setor?
Na história que o senhor contou, datada de 7 mil anos atrás, havia
civilização dominante, que culturalmente se espalhou pelo mundo, mas também tivemos
civilização sendo formada por povos marginalizados, nossos indígenas, tão antigos
quanto os da Mesopotâmia. Trata-se história sociologicamente comprovada, que utiliza o
tipiti, instrumento típico de prensagem da massa da mandioca, como a primeira ferramenta
de trabalho do homem sobre a terra. O senhor deu sua interpretação. Ouça agora a nossa,
de um país tupiniquim: a mandioca se originou da cultura indígena e fortaleceu o
domínio de culturas exploradoras, que entraram no Brasil para nos explorar e escravizar o
negro, oferecendo mandioca como instrumento originado pelo índio, que só servia para
alimentar o negro. Talvez seja esta a grande questão. A discriminação apoiava-se em
preconceitos rançosos das relações das civilizações do mundo todo, infelizmente.
Talvez por isso o mundo esteja entrando em eclosão social, o que ocasiona atentados
terroristas. Este desequilíbrio tão grande, caro trigueiro, talvez seja a explicação
para o fato de que doem pelo menos os anéis, para que um dia não lhe cortem os dedos.
Já disse publicamente que o setor moageiro de trigo quer manter a todo
custo outra forma de monopólio; quer revisitar seu monopólio. Não quer ceder nenhum
pedacinho sequer, porque na hora em que o consumidor descobrir que os produtos são
melhores, cai por terra toda sua falaciosa política monopolista, que traz tamanha
destruição à economia e a formação de sociedade genuinamente brasileira na produção
de mandioca, de milho, e até mesmo de trigo.
Esta é minha impressão. Assumo a responsabilidade se o setor
mandioqueiro nacional, como um todo, não a quiser assumir. Obrigado. (Palmas.)
O SR. REINO PÉCALA RAE - É mais fácil responder a perguntas.
Responder a discurso é complicado.
Não tenho a menor pretensão de fugir de nada. Estou aqui para
colaborar. Agradeço muito o convite para participar de reunião cujo tema é mandioca.
Não tenho preconceito.
Como o senhor mesmo disse, o amido da mandioca é superior a outros
amidos e há de encontrar seus nichos de mercado, há de desenvolver marketing
e de vender os produtos desejados.
A respeito de farinhas mistas, ao tempo em que havia obrigação legal,
a qualidade dos produtos finais era fraca, não há o que discutir.
Compreendemos este projeto em andamento, mas há desinformação,
porque em relação ao povo, não vejo vantagem. Embora exista a idéia de que o setor da
mandioca gere empregos, é preciso lembrar que o primeiro prejudicado é o trigo nacional.
Neste caso, puxamos o cobertor de um lado e descobrimos o outro, ou seja, não há nenhum
resultado.
Não há nenhuma ligação, conforme o senhor afirmou, dos ataques
terroristas com a venda de farinha de trigo. Portanto, sobre isso não tenho comentário a
fazer.
Quanto a minha preocupação de que macarrão e pão são produtos de
consumo popular disse até que rico não come pão, porque faz regime, e por isso
contei a história dos cem séculos , é importantíssimo o teor, o leque de
proteínas do trigo e sua qualidade. Não vejo nenhuma vantagem para o povo a diminuição
do percentual de proteínas no pão ou no macarrão. Energéticos são fáceis de ser
obtidos, mas proteínas não. Especialmente para o pobre, o acesso à proteína animal é
mais difícil, então, em preços relativos, a proteína mais barata é a fornecida por
meio do pão, apesar de não haver nenhum estudo neste sentido.
Gosto de defender o império, a soberania do consumidor. Se o
consumidor quiser produto de mandioca com...
(Manifestação fora do microfone.)
Se o senhor me permite, gostaria de concluir.
O SR. COORDENADOR (Deputado Aldo Rebelo) - Sr. José Reynaldo,
vamos permitir que o senhor Reino conclua.
O SR. REINO PÉCALA RAE É necessário diálogo. Não tenho
nada contra a mandioca. Também não tenho nada a favor de obrigatoriedade. Mercado cativo
empurrado goela abaixo não prosperou no século XX e não vai prosperar agora. Cada um
tem de buscar seu mercado, os produtos naturalmente feitos
END LIZ
século XX e não vai prosperar agora. Cada um tem de buscar o seu
mercado, os produtos naturalmente feitos com farinha de trigo exigem farinha de trigo.
Façamos outros produtos!
Não me lembro se falei a respeito das baby foods, que ficam
melhores se produzidas com amido de mandioca. Trabalharemos, portanto, nesse e em outros
setores. Vamos exportar, como foi sugerido. Não vamos agregar a venda da mandioca à do
tomate e à do feijão. Cada produto tem o seu caminho. Obrigar a venda por meio da
farinha de trigo significa que sou incompetente para vender diretamente. Traduzindo em
miúdos: venda diretamente, defenda seu marketing, faça seu cliente. Se o produto
não tem proteína, sinto muito.
(Intervenções simultâneas ininteligíveis.)
Fábrica de macarrão, sinto muito. Se está vendendo voluntariamente,
aplaudo. Não há o que fazer. Não quero obrigar o panificador a protestar.
(Intervenções simultâneas ininteligíveis.)
Represento o setor e sou democrata, pelo amor de Deus! Estou aqui para
dialogar.
(Intervenções simultâneas ininteligíveis.)
Trouxe o Vice-Presidente, responsável pela área técnica.
(Intervenções simultâneas ininteligíveis.)
A minha foi pela competência.
O SR. PRESIDENTE (Deputado Aldo Rebelo) - Vamos prosseguir.
O SR. REINO PÉCALA RAE - Isso não leva a nada.
O SR. PRESIDENTE (Deputado Aldo Rebelo) O Sr. Reynaldo já
falou. Depois, se quiser, pode se manifestar novamente. Vamos esperar que se o Sr. Reino
termine a sua resposta.
O SR. REINO PÉCLA RAE - Não há mais clima para resposta.
(Manifestações fora do microfone.)
Se o senhor não acredita na minha versão, diz que ela não é uma
resposta. Liberdade no mercado, não há para seu produto e para nenhuma outra farinha.
Citei aqui que tentaram estabelecer nove farinhas diferentes e o Congresso rejeitou todos
os projetos, por inteligência.
(Intervenções simultâneas ininteligíveis.)
Tudo bem. Faça o papel.
O SR. PRESIDENTE (Deputado Aldo Rebelo) Por favor, senhores.
Vamos interromper o diálogo, que monopoliza o debate.
O SR. REINO PÉCLA RAE Eu agradeço.
O SR. PRESIDENTE (Deputado Aldo Rebelo) Não creio que o
Congresso tenha rejeitado somente por inteligência, mas, sim, porque o lobby que
é muito forte.
Se a mandioca tivesse representação verdadeira não estaria hoje um
Deputado do Partido Comunista, que possui dez representantes nesta Casa, depois de
décadas, tomando a iniciativa de realizar o seminário.
Lamentavelmente, dentro da Casa e do Poder Executivo, muitas vezes,
não há equilíbrio entre aqueles que precisam ser representados, ter os seus direitos e
o seu espaço. Os que têm mais recursos, mais peso no PIB e na economia de importação,
fazem com que suas reivindicações sejam ouvidas pelo Congresso Nacional e pelo Poder
Executivo.
Precisamos, sem ferir os direitos fazem parte do convívio em sociedade
e estão inseridos na economia, equilibrar o espaço político, o econômico e as
preocupações do Poder Público em todas as áreas.
É necessário, porém, ouvir outros companheiros, que participam da
reunião. Antes de encerrarmos a reunião temos de constituir comissão que trabalhe
dentro de prazo mínimo, mediante proposta elaborada pelo companheiro Maurício, em
documento que tomaremos como base, para que o Executivo, com a pressão e o apoio do
Legislativo, defina também política mais permanente em relação à cadeia produtiva da
mandioca.
Com a palavra o próximo orador inscrito, Sr. Santos Lima.
O SR. SANTOS LIMA - Felicito o Deputado pela excelente oportunidade
que eu, um homem de 80 anos, tenho de aprender. Como apreendi hoje! Estou encantado.
Fala-se muito do Legislativo, mas não se diz que há iniciativas desse peso e quilate.
Lembro-me de algo que me surpreendeu desagradavelmente. Todo mundo
falou sobre o trigo, sobre o Oriente Médio, sobre as civilizações cristãs ou não, mas
não ouvi nenhuma palavra sobre talvez já esteja superado, pois já tenho 80 anos
o fato de o Brasil ser predominantemente um país tropical. As estações
climáticas não são definidas, como nas regiões temperadas. Quem de nós se lembrou do
paralelo que corta o sul do Brasil, dividindo-o em duas partes: a pequena Austrália, com
as graminhas verdes do Sul; e o grosso do País, com 87 milhões que não tem as mesmas
características. Não produz trigo, o abacaxi é ruim e há uma série de outros
problemas, típicos da economia tropical e, o que é pior, de região com pouca umidade,
salvo a Amazônia.
Pensei que, ao se falar de trigo, fosse possível lembrar que não se
trata de cultura tropical. Ele está onde Deus o plantou e o homem arrumou.
Discutimos assunto da maior importância: a questão da mandioca. No
Brasil, País que não possui o cenário europeu, a mandioca cresce de norte a sul, de
leste a oeste, sem limites.
Com as descobertas sobre as suas potencialidades, o vegetal tem de
assumir lugar na solução das preocupações nacionais. Se ele se chocar com o trigo,
não há o que fazer, porque o trigo não será nosso, mas da Argentina, do Canadá, dos
Estados Unidos, de todos os países não tropicais. O trigo requer para o seu cultivo
muita água, frio, calor, estiagem na hora da colheita. O que ocorre no Rio Grande do Sul
é muito comum: o trigo está muito bonito, mas vêm as chuvas e prejudicam tudo. As
máquinas não resolvem mais.
Então, na minha geografia, há a linha Equador, na região Norte do
País, e o Trópico de Capricórnio, no sul de São Paulo. Quando caminhamos para o Sul,
as paisagens ficam diferentes. Observem como muda a cor dos campos de futebol. Por quê?
Porque, nos locais em que há boa pluviosidade, as temperaturas são agradáveis e tudo
frutifica. É mais ou menos como um jardim francês. Mas a nossa realidade é outra. O
problema é grave. Somos um País que decidiu comer trigo, porque, nos primeiros dias da
colonização, o português nos enfiou o produto goela abaixo. Nós comemos e eles puxaram
a farinha para eles, porque viram que o que se comia por aqui era farinha. Português é
muito esperto, ao contrário do que muitos de nós pensamos. (Risos.)
O Brasil se transformou num País que olha para os jardins franceses e
quer trazê-los para Brasília. Por exemplo, a grama que deve ser plantada aqui é a
pé-de-burro, não a graminha bonitinha que cresce em Versalhes.
Achei estranho talvez esteja superado, meus 80 anos já estão
me jogando no lixo não ouvir nenhum comentário sobre a tropicalidade brasileira e
seus problemas. Se for possível falar algo a respeito do assunto, pelo menos me condenem.
(Palmas.)
Muito obrigado.
O SR. PRESIDENTE (Deputado Aldo Rebelo) Muito obrigado.
Aliás, um dos defensores da civilização tropical era o grande pernambucano, sociólogo
e intérprete brasileiro: Gilberto Freire. Há vários trechos na sua obra sobre a
adaptabilidade da mandioca à construção da civilização brasileira, como nos textos de
Câmara Cascudo e tantos outros.
Muito obrigado pela singular contribuição.
Com a palavra o companheiro Dermânio.
O SR. DERMÂNIO TADEU LIMA Convido o representante do
setor do trigo a ir a Cascavel e provar o pão que estamos fabricando nas padarias com 20
% de fécula. O público está gostando muito. No pão de cachorro-quente o percentual é
de 25%. Quando o senhor visitar a cidade, procure-nos para experimentar o pão.
Também faço a seguinte pergunta: se o setor é contrário às
atitudes impostas, por que aceitou que o Governo financiasse o trigo e forçasse o povo
brasileiro a comprá-lo, gastando o nosso dinheiro para pagar a diferença do produto que
não temos aqui? (Palmas.)
O SR. REINO PÉCALA ERA Tecerei pequeno comentário sobre o
assunto.
Este é um País com 8,5 milhões de quilômetros quadrados. Com
inteligência e tecnologia, podemos produzir praticamente tudo. Dificilmente traremos o
caviar do Mar Cáspio para cá, mas salvo pequenas exceções, podemos produzir tudo.
Usando a tecnologia, já adaptamos a soja de clima temperado e estamos cultivando-a no
Piauí. O trigo realmente é uma gramínea que nasceu no Oriente Médio, como já
foi dito, requerendo clima frio no primeiro período, água no seguinte, e calor na época
da maturação, sem chuvas.
O desenvolvimento da triticultura foi uma proeza realizada pelos
pesquisadores brasileiros, especialmente os da EMBRAPA, mas também de outras entidades. A
cada ano eles desenvolvem variedades ainda melhores. A área que vai do Estado do Mato
Grosso do Sul ao Rio Grande do Sul tem capacidade para suprir toda a necessidade
brasileira, que hoje em termos A produção pode ser realizada somente nos Estados a que
me referi. Isso não está sendo feito, porque somos um País do Terceiro Mundo. A Europa
e os Estados Unidos disputam subsídios: governos ricos pagam aos seus produtores para
jogar no mercado produto barato demais. Tal política prejudica não só os brasileiros
mas também os argentinos. A Argentina ainda está no mercado, porque o clima úmido do
Pampa é um milagre da natureza. Lá o trigo é plantado quase sem requisito nenhum.
No Brasil, já produzimos 6 milhões em ano cujo o consumo era 6,5
milhões de toneladas mais ou menos. Acredito que podemos produzir todo o trigo
necessário na região Sul e, em parte, na Centro-Oeste, na medida em que acabem os
subsídios do hemisfério norte que tolhem o nosso desenvolvimento com agressiva política
de subsídios.
Não temos condições de produzir trigo na área tropical. Obviamente,
trata-se de planta que nasceu em determinadas condições e é muito exigente. Porém,
temos áreas suficientes para o plantio do trigo e abastecimento das necessidades de
consumo. Devemos criar mercado para todos os outros produtos, não há preconceito algum.
É fácil explicar a demanda que o trigo e seus derivados têm no mercado, porque o
produto nos foi empurrado, como foi dito, pelos portugueses. Não foi estabelecida a
cultura de plantar o que se adaptava mais facilmente à terra.
Respeito o consumidor. Estamos aqui para atendê-lo, conforme a
demanda. No entanto, se o consumidor quer, por exemplo, o macarrão de trigo, não vamos
entregar um produto falsificado, que na panela é diferente. Se for possível,
utilizaremos o arroz, o amido de milho, de mandioca, etc. Não somos contrários a isso,
absolutamente.
Agora, o País, graças à pesquisa nacional e não à importada,
conseguiu milagrosamente cultivar trigo. Nenhuma outra cultura exigiu tanto do pesquisador
brasileiro. A pesquisa continua e todos os anos são lançadas variedades cada vez mais
competitivas que demandam trigo de glúten forte no mercado brasileiro.
Houve progresso. Não sou contra o surgimento de produtos de origem
diversa. Há mercado para todos. Não podemos estabelecer mercados cativos. O setor do
trigo já adotou essa política e, hoje, é livre.
(Intervenções simultâneas ininteligíveis.)
O SR. REINO PÉCALA ERA Mamou nas tetas não é propriamente
uma expressão delicada, mas aproveitou-se, digamos assim.
(Intervenções simultâneas ininteligíveis.)
O SR. REINO PÉCALA ERA Continua por força de lei.
(Intervenções simultâneas ininteligíveis.)
O SR. REINO PÉCALA ERA Pessoalmente, sempre aplaudi o
esforço da produção do álcool renovável, etc. Tudo bem que o seminário não é sobre
o álcool, mas em resumo ...
(Intervenções simultâneas ininteligíveis.)
O SR. REINO PÉCALA ERA Iniciei minha exposição dizendo
que o seminário é da mandioca e que sou uma espécie de patinho feio e contava com a
colaboração de todos para ouvir opiniões diferentes. E tive essa paciência. Queria
cumprimentar...
(Intervenções simultâneas ininteligíveis.)
O SR. PRESIDENTE (Deputado Aldo Rebelo) Reynaldo, você é
integrante da Mesa também, se quiser se manifestar, peça a palavra e opine de forma
organizada, para que as pessoas também possam ouvir.
Concluiu?
O SR. REINO PÉCALA ERA Não querendo exagerar daquele
prazer é que ouvir a própria voz, concluí.
O SR. PRESIDENTE (Deputado Aldo Rebelo ) Muito bem. Há mais
oradores inscritos.
Farei sucinto comentário sobre o que é obrigatório, proibido
ou de livre escolha, dentro de uma sociedade organizada, em que o Estado se encarrega de
impor muitas coisas.
A primeira delas o nome já diz: imposto. Se não fosse imposto,
funcionava?
A vacinação até hoje no Brasil é obrigatória. Houve ameaça de
revolução no Brasil. Aconteceu uma rebelião e quase derrubaram o Governo no início da
República Velha por causa da vacinação.
Falaram aqui sobre o exemplo do álcool e a obrigação da mistura. O
álcool foi bom para Brasil e para o consumidor também, porque não há apenas o sujeito
que dirige o carro. O consumidor respira o ar, e o álcool polui menos do que a gasolina.
Ou seja, há desconforto para o consumidor, na medida em que o carro pode apresentar algum
problema mecânico, mas também há o benefício de respirar um ar mais puro, de viver
numa sociedade socialmente mais equilibrada. O cidadão tem poder aquisitivo para comprar
um carro e vive num país em que, se houver mais desemprego, mais agricultores quebrados,
mais gente morando na favela, mais pessoas sem escola e trabalho, haverá mais violência
e desespero. Tudo isso faz parte das obrigações sociais, das escolhas pessoais, enfim,
do que o mercado decidir. O mercado tem como objetivo o lucro, a acumulação de capital.
Há, porém, outros interesses dos consumidores que devem considerados.
A obrigatoriedade muitas vezes parece ser ruim, mas a sociedade
funciona melhor porque o uso do cinto de segurança passou a ser obrigatório, assim como
o limite de velocidade e a obediência a determinadas leis e Códigos, em benefício do
respeito à vida. O Código Penal estabelece que é proibido tirar a vida de outra pessoa.
Precisamos relativizar o problema da obrigatoriedade, quando vivemos num ambiente
coletivo, numa sociedade que é baseada em direitos.
No Brasil, usamos muito a palavra "direito" quando falamos de
nós. Mas a sociedade também é firmada em deveres. O dever, se não for estabelecidopor
lei, é muito difícil de ser cumprido.
As perguntas podem ser dirigidas a quaisquer integrantes da Mesa e
participantes do debate. Alguns compõem a Mesa, outros a integram e estão no plenário,
mas podem responder ou comentar qualquer pergunta.
O pesquisador Oston Thomaz Santos do Nascimento está inscrito. (Pausa.)
O Sr Chigeru Fukuda deseja se manifestar novamente? (Pausa.)
Concedo a palavra ao Sr. Chigeru Fukuda.
O SR. CHIGERU FUKUDA - Trata-se de fervorosa discussão. Convivemos
em sociedade e todos somos brasileiros. Discutimos os problemas e a maneira como os
brasileiros devem sensibilizar os seus irmãos. Somos todos irmãos. Há espaço para
todos. Não tenho dúvida nenhuma disso.
Reivindicamos o pequeno percentual de 10%. Não é a substituição
total. Quanto à proteína do trigo, a quantidade não é tão significativa. A mandioca e
a fécula também têm proteína. Como disse, a EMBRAPA e outras instituições de
pesquisa produzirão variedades que tenham também alto teor de proteína. Estou certo
disso. Já produzimos grande variedade de raiz amarela, que possui grande quantidade de
proteína.
Então, há a discussão a respeito de que o trigo também pode
desenvolver variedades que sejam auto-suficientes. O Deputado disse que o trigo poderia
sê-lo, mas a que custo neste momento? O trigo argentino, com certeza, é muito mais
barato. A que custo poderemos ser auto-suficientes? Será que realmente vamos produzir
trigo mais barato agora? Acredito na EMBRAPA, que, com certeza, vai solucionar o problema
do trigo.
Como Presidente da Sociedade Brasileira de Mandioca não como
pesquisador da EMBRAPA, porque não tenho autorização da Direção da instituição para
me manifestar sobre essas questões , peço permissão para dizer o que penso em
relação à cultura da mandioca.
Neste momento, represento a Sociedade Brasileira de Mandioca e não
falo em nome da EMBRAPA, porque não posso envolver a empresa nessa discussão. Fico muito
triste quando converso com algumas pessoas da elite que dizem que a mandioca é cultura de
pobre. Mandioca é cultura de pobre? Não é. Pelo contrário, a mandioca beneficia a
sociedade, a população e as pequenas propriedades.
Sr. Deputado, V.Exa. é do Ceará e sabe que, quando chega o período
da seca, a única cultura que realmente alimenta a população pobre é a da mandioca. Há
dados que comprovam que a cultura da mandioca tem desempenhado papel relevante na época
da seca. Então, devemos também preservá-la e homenageá-la porque tem grande valor,
principalmente para a população pobre. Não podemos nos esquecer do importante papel da
mandioca.
A sociedade elegeu seus representantes no Congresso e eles sequer falam
do problema da mandioca. São raras as iniciativas, como a do Deputado Aldo Rebelo, que
dão oportunidade à discussão do assunto
Pergunto aos Deputados do Ceará: qual é a cultura que dá mais
emprego às mulheres? Garanto que é a da mandioca. Nessa cultura, a mulher participa
desde o plantio até o processamento. No Nordeste, a mulher participa de 80% da atividade
exercida no plantio da mandioca. E qual a outra cultura que dá a mesma oportunidade às
mulheres? Não há outra. No Nordeste, não há muita opção, porque convivemos
eternamente com a seca, que é um castigo da natureza, não do homem. Não temos como ser
contra São Pedro e contra Deus.
Precisamos unir o governo e a sociedade, a fim de que a cultura da
mandioca seja considerada como fator de desenvolvimento no Brasil.
Muito obrigado. (Palmas.)
O SR. PRESIDENTE (Deputado Aldo Rebelo) Muito obrigado.
Prof. Ahmed.
O SR. AHMED EL DASH Compreendo perfeitamente a preocupação
do Dr. Reino em relação ao problema, mas o nosso comportamento sempre deve se adaptar à
situação.
O Brasil está vivendo situação difícil, porque precisamos de
dólares para comprar trigo. É um problema que precisa ser enfrentado. Seria diferente se
a produção fosse brasileira. Os juros, conforme foi relatado hoje de manhã, são
alarmantes.
Então, cada setor deve contribuir para solucionar o problema. Na hora
do racionamento de energia, toda sociedade se mobilizou. Agora, é o momento de a
indústria moageira colaborar. Antigamente, o trigo comprado pelo Banco do Brasil, não
era escolhido pela qualidade, mas por causa do preço. Na maioria das vezes, o trigo era
ruim, de qualidade baixa. Quando a indústria moageira tentava vender a farinha no
mercado, enfrentava muitos problemas.
Hoje a situação é bem diferente. Quem compra o trigo é a indústria
moageira. Há tecnologia desenvolvida, conforme percebemos no mercado. Por exemplo, há a
tecnologia dentro dos moinhos para fazer pré-misturas para o pão francês e o de fôrma.
Há também os laboratórios de análises, que otimizam a produção.
Em outras palavras, a indústria moageira evoluiu em relação há dez
anos. Então, o Dr. Reino não deve se preocupar tanto. A indústria moageira tem
condições de enfrentar a situação da mistura com tranqüilidade. Terá que se adaptar.
O que importa para nós não é a farinha mestra ser definida por força de lei ou de
acordo com a opinião do consumidor. Ela deve fazer parte de um programa de sucesso. Após
a implementação, parte-se para a conquista do mercado.
Para tanto, são necessários três fatores fundamentais. O primeiro é
uma farinha de mandioca de boa qualidade. Não pode ser a mesma farinha dos anos 70.
Precisamos ter certeza de que o setor tem condições de fabricar farinha de mandioca de
maneira constante, não produzir muito em um mês e nada em outro. Isso inviabilizaria o
projeto e perderíamos a oportunidade.
Antes de implementar a lei, recomendo o seguinte: confirmar que o setor
é capaz de gerar farinha de boa qualidade, com preço compatível com o do trigo. Assim,
o projeto terá sucesso. Senão, é necessário parar um pouquinho, acertar o mercado
para, depois, implementar o programa.
Obrigado. (Palmas.)
O SR. PRESIDENTE (Deputado Aldo Rebelo) Obrigado, Prof.
Ahmed.
O SR. MAURÍCIO YAMAKAUA Deputado, a contribuição do
Dr. Ahmed foi fundamental.
Sr. Reino, neste momento, devemos realmente parar, pensar, analisar e
permitir que os laboratórios estudem profundamente as alternativas. Em pesquisas
realizadas, tive oportunidade de ver fazer os pães. Provei pão francês com 20% de
fécula, quando pensava que o percentual máximo era de 15%.
As pré-mesclas, conforme mencionado anteriormente, representam
interessante recurso, na medida em que utilizam a fécula de mandioca, com resultado
similar ao da farinha de mandioca e com vantagens de custo.
Gostaríamos que houvesse abertura dos moageiros de trigo no sentido de
pelo menos não estabelecer o preconceito de que a mandioca é maléfica. No passado, o
consumidor já adotou tal postura. A mandioca representa possibilidade real e a sua
textura suave já foi comprovada pelos técnicos. Além disso, o custo da fécula o
derivado mais caro da mandioca representa metade do preço da farinha de trigo.
Então, temos condições de desenvolver a pesquisa. Temos qualidade,
preço e queremos o nosso espaço no mercado. O fato de a cultura ser legitimamente
brasileira nos dá mais força e a realização deste seminário comprova isso.
Obrigado. (Palmas.)
O SR. PRESIDENTE (Deputado Aldo Rebelo) Passo a palavra para
a Sra. Eled.
A SRA. ELED Meu nome é Eled e sou produtora de farinha de
mandioca, em Cuiabá, Mato Grosso.
Falaram sobre os números de produtividade da mandioca nos Estados do
Paraná, Mato Grosso do Sul. Nada foi falado a respeito do Estado do Mato Grosso.
Pergunto se os senhores têm os números relativos ao consumo da
mandioca in natura, sem ser amido?
O SR. MAURÍCIO YAMAKAWA - Olha, infelizmente, não tenho tais
números.
Sabemos que os Estados que têm destaque, no consumo in natura,
são Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. O impressionante é que o consumo é influenciado
principalmente pela cultura paraguaia. Mas eu não sei se o Sr. Fukuda ou se o Sr. José
Reynaldo dispõem de algum dado nesse sentido. Mas a pergunta da senhora foi em relação
ao Estado de Mato Grosso.
A SRA. ELED Tenho os números do consumo interno dentro do
Estado, principalmente da Capital.
Consumimos, diariamente, em média, de 8 a 10 caminhões, com 80, 100,
120 sacas de 50 quilos cada um. O produto é vendido todas as noites na feira do Verdão,
em Cuiabá. Sou produtora e forneço o produto para toda a rede de mercados. A produtora
vizinha não tem terra, e todos os produtores que utilizaram os quatro mil reais do
PRONAF, plantaram.
Falaram também que a área de produção é, em média, de um hectare.
O menor produtor da região plantou 2, 5 ou 10 hectares. Não se falou em nenhum momento
da produção de Mato Grosso. O Estado está prejudicado, porque, fora as fábricas de
amido, todas as outras foram fechadas. Há quatro anos não há preço que incentive o
plantio. O quadro que V.Exa. mostrou a respeito do sobe e desce da produção retrata a
nossa realidade. Por isso as fábricas estão todas fechadas. Não dá para vender 1
tonelada a R$20,00. É essa a situação que o produtor encara.
Agora chegamos ao limite, não temos mais onde vender, não há o que
fazer com a mercadoria.
Os assentados que utilizaram o PRONAF vão passar o trator em cima da
terra e gradear tudo, porque não têm para quem vender o produto. Foi mencionado que a
farinha de mandioca seria uma alternativa em relação à farinha de trigo. Fiz um
financiamento no Banco do Brasil para custeio pecuário, porque não havia verba estadual
disponível. O gerente do banco ofereceu recursos o para custeio da mandioca, e meu
marido, que tem 30 hectares de terra, utilizou o dinheiro para custear sua criação de
gado nelore. Na hora de colher a mandioca dos 30 hectares, pensamos: "E agora?"
Trituramos a mandioca, a rama e a folha, secamos igual café, e adicionamos à ração.
Nesse ano o saco de ração de engorda da Sadia valia R$5,80. Vendíamos o saco de
mandioca de 50 quilos na fazenda a R$6,00.
Hoje compro, quando não tenho para abastecimento próprio, o saco de
50 quilos a R$8,00. É a única alternativa para dar vazão à produção dos pequenos
agricultores. Não há mais nada no Estado, nenhuma fecularia, nada que possa absorver a
grande produtividade. Fiquei admirada, porque não se falou da produtividade do Estado do
Mato Grosso.
Pergunto aos senhores: há três anos, fui ao ITAE, em Campinas,
e ao SEBRAE, em São Paulo, a procura de projeto de exportação para os pequenos
produtores. Poderíamos exportar, por exemplo, a mandioca pré-cozida.
Falou-se muito sobre as variedades da mandioca, mas não se chegou a
nenhuma conclusão. Vim ao seminário e vou voltar confiante de que os senhores vão
encontrar um modo de dar vazão à mandioca que produzimos. O mesmo ocorre com os outros
produtores do Pontal do Parapanema. Nós, pequenos agicultores, com grande produtividade,
precisamos de respaldo.
Sr. Deputado Aldo Rebelo, estamos aqui para apoiar V.Exa., mas
precisamos que V.Exas. hajam rapidamente, porque não podemos esperar mais. Os produtores
vão gradear o terreno, vão acabar com tudo e não plantarão no ano que vem. Assim, o
preço subirá novamente.
O preço da mandioca nunca subiu. Desde que coloquei minha mercadoria
no mercado, o preço sempre foi o mesmo. Sobe o preço do combustível e o da mandioca
continua o mesmo. Se subir, não vendemos.
Como disse o Fukuda: é mercadoria de pobre? Não! Todos comem.
Qualquer pessoa, de baixa renda ou não, tem acesso ao produto. Faz parte da mesa do
cidadão. Precisamos de mais força.
Sr. Presidente do SEBRAE, represento a Federação dos Agricultores de
Mato Grosso FAMAG. Se o Diretor do SEBRAE, no Estado, Miguel Shell, implementa um
projeto sem saber se vai dar certo, inviabiliza a produção do pequeno agricultor. Como
fica o homem da roça que tem de pagar o empréstimo de quatro mil reais?
Precisamos de resposta imediata para o pequeno lavrador, para que ele
possa plantar e produzir seu amido.
Obrigada. (Palmas.)
O SR. PRESIDENTE (Deputado Aldo Rebelo) Muito obrigado, Dona
Eled, pela sua contribuição e pelas informações que prestou sobre o problema do Estado
de Mato Grosso.
O SR. MAURÍCIO YAMAKAUA - Deputado, justifico que, realmente, o
evento foi direcionado para a área de farinha, fécula, devido ao projeto de lei.
O mercado da mandioca in natura é exuberante, com os
produtos congelados e pré-cozidos. A mandioca de mesa é um nicho do mercado que mostra
seu potencial. Deve, portanto, fazer parte do PRODEMAN A Sra. Eled poderia participar do
grupo que vai ajudar a redigir o PRODEMAN, representando o Mato Grosso e a mandioca in
natura.
Está feito o convite, com a devida permissão do Deputado.
O SR. PRESIDENTE (Deputado Aldo Rebelo) Com certeza.
Assim ganha força a presença feminina no movimento, além da Dra.
Clara, que falou na parte da manhã.
Registro a presença do companheiro Joselito Silva Mota.
Vamos seguir a ordem de inscrição.
O Sr. Bonifácio Nakasu, deseja fazer uso da palavra?
Primeiro, José Roberto, depois, o senhores Walmir Bil, Bonifácio e
Joselito. Com a palavra o Sr. José Roberto.
Vamos ser breves devido à hora adiantada.
O SR. JOSÉ ROBERTO Sou Presidente do Sindicato Rural de
Palmital.
Estou aqui juntamente com a comitiva de Palmital e Cando Mota. Viajamos
de ônibus por vários quilômetros.
Nossa região felizmente é grande produtora de mandioca. Temos
industriais competentes, inclusive a segunda maior indústria de amidos modificados de
mandioca. Temos imenso potencial produtivo.
Por outro lado, a região também produz trigo. O médio Vale do
Parapanema é local privilegiado para o cultivo de trigo durante o inverno em rotação
com a soja, principal cultura de verão.
Sabemos que o trigo argentino é cotado a 120, 122 dólares a tonelada.
Direciono a pergunta para o senhor. Por favor, não a interprete como ofensa. Faço-a para
satisfazer minha curiosidade. Em setembro, houve colheita na região e os preços
praticados estavam em torno de 250 reais a tonelada. O trigo argentino a 122 dólares
corresponde ao preço médio de 350 reais a tonelada. Por que os preços do trigo
nacional, do sul do Estado de São Paulo e do Paraná, têm o valor de 250 reais a
tonelada?
O SR. REINO PÉCALA RAE Trata-se de pergunta muito
pertinente.
Lamentavelmente, não temos nos países subdesenvolvidos sistema capaz
de conduzir a safra. Se colhemos durante três ou quatro meses, ou, por exemplo, no
Paraná, em dois meses, e o consumo se alonga pelos doze meses, como podemos
compatibilizar as diferenças?
O trigo nacional e o importado hoje são cotados pela velha e não
revogada lei da oferta e procura. Quando há pressão de venda pela colheita e a demanda
é um doze avos por mês, os preços caem.
Precisamos de mecanismos de proteção não somente para a
triticultura, mas para outros produtos sazonais. A principal responsável pela diferença
de preço no momento é a pressão de venda. Não há consumo correspondente,
especialmente no Paraná, que é o maior e, perdoem-me os gaúchos e o
melhor produtor de trigo. O trigo do norte e do oeste do Paraná tem condições de
competir com o argentino.
No Centro-Sul, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, onde há outro
traço climático, não temos a mesma variedade do glúten ainda, logo, trata-se de trigo
pronto para mistura ou para algumas aplicações como o biscoito. Em resumo, a diferença
de preço deve-se à pressão da oferta. Se houvesse uma maneira de essa oferta ser
estendida no tempo, o resultado para o agricultor seria melhor. O papel do Governo é
providenciar isso. Nos países mais ricos, é muito mais fácil. Imaginem a quantidade de
dinheiro que tem as agências americanas, inclusive para subsidiar o preço final. Disse
que, na década de 80, o Brasil produziu 6 milhões e 150 mil toneladas de trigo e agora
produzirá 2 milhões e 800 mil. Pergunto: por que caiu tanto? Porque a demanda diminuiu?
Não. Ocorre que há disputa de mercado entre europeus e americanos. Dessa forma, acaba
sobrando para o argentino que, embora não tenha a remuneração devida e como seus custos
são mais baixos, ainda compete. Mas o produtor argentino não está bem de vida. Agora,
os grandes comerciantes sempre estão bem de vida, porque o rio corre para o mar.
Finalmente, respondendo a sua pergunta, acho que deve-se à pressão de oferta. Há sempre
a questão de força de glúten, ou seja, quanto mais força de glúten mais valorizado
este é no mercado. Então, fica difícil competir com o argentino da região Sul
de Necochea a Bahia Blanca e não com os argentina da região Norte, que é parelho
nosso. O mercado de trigo na Argentina, um dos melhores do mundo, colocou seis, sete
milhões de toneladas no mercado brasileiro, todavia, pioraram, reologicamente, na
propriedade da farinha e fisicamente, colocando um caminhão de palha dentro do
carregamento. E o Brasil não tem alternativa; se for comprar do Canadá e Estados Unidos,
pagará maior frete e imposto de importação. Não sei se respondi razoavelmente a sua
pergunta.
O SR. PRESIDENTE (Deputado Aldo Rebelo) Com a palavra o
companheiro Walmir.
O SR. WALMIR RODRIGUES CHAVES Não iremos resolver esse
problema hoje. Acredito que há certa resistência do pessoal dos moinhos de trigo,
representado pelo companheiro Paulo. Não é preciso ficar tirando água de pedra.
Defendemos mesmo é uma política nacionalista para pobres, que são maioria neste país.
Não tem que ter vergonha de uma produção de pobre. É dos índios, dos negros, mas aí
diz-se: desgraçou tudo. Investiu-se em tantas pesquisas, mas não se trata apenas dos
índios e negros como na época do escravismo. Os pesquisadores que passaram por aqui são
de alto porte. Então, há prova científica. É como quando estamos querendo dizer alguma
coisa, dizemos: "O povo está falando". Então, não acredito que o nosso
pessoal, que tem hábito de comer mandioca, neste País, vai rejeitar pão com farinha. Do
jeito que vai a política, daqui a alguns dias, nem pobre irá comer pão. Estamos
querendo buscar parceria com o seu setor, não aquela em que entramos com o cavalo e
vocês com o cavaleiro. A discussão até agora chamou atenção do problema nacional de
alimentação do Brasil e as pesquisas (ininteligível) desenvolvimento deste
País. Porque é possível cada setor ceder um pouco. Há lei para tudo neste País.
Acredito que não é o mercado que tem que mandar neste País o mercado manda no
nosso Presidente. Mas não é possível que isso não tenha fim. Precisamos jogar força e
peso nesse setor, porque os outros são fortes, este é fraco, mas não precisamos ficar
de quatro perante ninguém. (Palmas.) Os Deputados têm o dever de elaborar lei e
fazer pressão a fim de resolver o problema da maioria. Não vamos arrodear não. Vamos
conscientizar os que querem ganhar dinheiro, vamos dividir lucro, pelo amor de Deus. Até
quando essa casca de rico vai crescer? Daqui a alguns dias, como viverão os ricos no
Brasil? Deverá ser criada lei para manter sua sobrevivência. Repito: precisamos de
parceria, sem radicalismo, mas com bom senso. E vamos tocar essa luta. O Brasil não é
presidencialista, possui vários presidentes, várias organizações ligadas ao campo e à
mandioca. Contamos, então, com essa parceria e queremos também parceria com o pessoal
dos moinhos de trigo. Desejamos gerar mais emprego e alimentos para a sociedade
brasileira. Queremos morrer aqui, sem terrorista, porque, do jeito que está, daqui a
pouco, os ricos acabarão com os demais pobres. Obrigado pela contribuição que os
senhores têm-nos dado. Deputado Aldo Rebelo, vamos para a frente! Precisamos aproveitar
toda a tecnologia de que se falou, aqui, o dia inteiro. (Palmas.)
O SR. PRESIDENTE (Deputado Aldo Rebelo) Obrigado, Sr.
Walmir, pela nova contribuição.
O Presidente da Casa, Deputado Aécio Neves, que havia marcado uma
audiência para receber alguns documentos, segundo informações recebidas, agora,
comunica-nos que cancelou toda sua agenda e que não aparecerá nesta Casa na tarde de
hoje. Por essa razão, será impossível a realização desse encontro. De qualquer
maneira, serei o portador de um ofício, destinado ao Presidente Aécio Neves, assinado
pelo Sr. José Reynaldo Bastos da Silva, o qual precisa ser assinado ainda pelos Srs.
Maurício, Chigero Fukuda, Walmir Rodrigues Chaves e Antonio Donisete Borges, Presidente
da Associação dos Produtores de Mandioca e Derivados Estado de São Paulo.
Há sobre a mesa outro ofício, destinado ao Presidente Aécio Neves,
assinado pelos Srs. Maurício, Chigero, Walmir, Antonio Donisete, faltando apenas a
subscrição de S.Exas. Esse ofício diz respeito ao interesse da Casa e Presidência em
acompanhar e apoiar iniciativas relacionadas com a cultura da mandioca no Brasil.
Com a palavra o Sr. José Reynaldo.
O SR. JOSÉ REYNALDO BASTOS DA SILVA Sr. Presidente, foram
lidos dois documentos, que estão sendo assinados, agora, alvos de explanação durante
minha palestra. O primeiro documento, de número 2, deve ser assinado também pelos Srs.
Chigero Fukuda e Walmir, com o seguinte teor: a assinatura do Sr. Antonio Donisete Borges,
Presidente da Associação dos Produtores de Mandioca e Derivados do Estado de São Paulo
pode ser substituída pela
Agnaldo Fadel(?), membro da Diretoria, para que sejam assinaturas
representativas de cada entidade.
Esse documento diz quais são os pleitos emergenciais: 1. reinclusão
da farinha de mandioca na cesta básica e na merenda escolar; 2. liberação de recursos
financeiros para AGF/EGF Mandioca; 3. liberação de recursos financeiros para o custeio
do plantio da mandioca; 4. liberação de recursos financeiros para investimentos
agroindustriais no parque fabril mandioqueiro; 5. revisão dos preços mínimos e garantia
do Governo Federal para a raiz de mandioca e todos os seus derivados industriais, pois
encontram-se defasados, de um modo geral, em 35% em relação aos custos reais de
produção nas regiões produtoras; 6. liberação imediata do consumo de energia
elétrica para as indústrias de produtos derivados de mandioca, na totalidade,
necessário o suficiente para atender à demanda de mercado; 7. credenciamento de
armazéns para estocagem de produtos derivados de mandioca nas regiões produtoras; e 8.
negociação, na Organização Mundial do Comércio e, particularmente, na União
Européia, para fixação de alíquota zero para internalização de produtos derivados de
mandioca do Brasil, ampliando a quota brasileira para até 500 mil toneladas, a partir do
ano de 2002. E assinam essas pessoas.
Se alguém for contra, que se manifeste, como se fosse a força de uma
assembléia aqui constituída. Creio ser esse o fundamento, Deputado.
O segundo documento, de número 1, manifesta apoio, direcionado também
ao Presidente da Câmara dos Deputados, Aécio Neves. Por questão de hierarquia, todos
eles com cópia para o Deputado Aldo Rebelo, organizador desse evento. Esse documento pede
a Aécio Neves e ao nobre Deputado Aldo Rebelo a gentileza de transmitir a todos os
Deputados da Câmara Federal nossos votos de esperança na aprovação do Projeto de Lei
de sua autoria, que institui o mercado das farinhas mistas, trigo e mandioca, tendo como
Relator o nobre Deputado Federal Inácio Arruda, dizendo que se trata de projeto que, se
implementado num índice médio de mistura mandioca-trigo de 10%, respectivamente, gerará
mercado novo de aproximadamente 500 mil toneladas por ano de produto derivado industrial
da mandioca adequado o produto pode ser a fécula, pode ser a farinha panificada,
sem problema , 2 milhões de toneladas por ano de raiz de mandioca, um mercado novo
que se abre, 100 mil hectares por ano de área de plantio de mandioca, considerando a
produtividade média de 20 toneladas apor hectare/ano. Contribuirá numa economia de
divisas para o Brasil com algo em torno de 90 milhões de dólares/ano pela substituição
de 10% do trigo atualmente importado pelo Brasil, e numa receita fiscal de 13,5 milhões
de dólares por ano à União, aos Estados e aos Municípios mandioqueiros. Geraremos com
isso mais 50 mil novos empregos diretos no campo de pequenas cidades do interior
brasileiro, que têm na mandioca um sustentáculo econômico e social.
Esse é o teor do documento. Se os companheiros concordam, assinem.
Falta a assinatura do Walmir e do Agnaldo Fadel.
O SR. PRESIDENTE (Deputado Aldo Rebelo) O Sr. Maurício
precisa encaminhar proposta final à comissão que vai elaborar um plano, uma proposta.
O SR. MAURÍCIO YAMAKAWA Devido à exiguidade de tempo,
sugiro que o José Reinaldo coordene o trabalho de formulação do Programa de
Desenvolvimento da Cultura da Mandioca, que cada Estado escolha dois representantes.
Pedimos também apoio da Câmara dos Deputados, por interméido do Deputado Aldo Rebelo.
Que nos reuníssemos nos próximos 30 dias para dar início a esse trabalho árduo.
Falaremos, inclusive, sobre a mandioca de mesa, farinha, fécula, farinha da folha de
mandioca da qual não poderia me esquecer, pois foi brilhante a palestra da Dra.
Clara.
Sugiro, então, que o José Reinaldo seja eleito coodenador-geral do
programa e que nominemos pelo menos dois representantes de cada Estado presente. Se essa
proposta pudesse ser aprovada, ficaríamos agradecidos.
O SR. PRESIDENTE (Deputado Aldo Rebelo) Creio que ela será
aprovada por ausência de alternativas. Nem que seja de forma provisória, o José
Reinaldo pode ficar na coordenação da comissão. Além da próxima reunião que vocês
devem marcar, deve-se também levar em conta que essa comissão se articule e discuta, via
correio eletrônico, proposta inicial.
Acho que os Estados aqui representados poderiam indicar ao José
Reinaldo o nome dos dois representantes. Ao constituir essa comissão, que tomará as
primeiras iniciativas, estaremos dando passo fundamental. Devemos, ainda, permitir a
participação de setores e Estados que não puderam comparecer. Não devemos dar a esta
comissão caráter definitivo, mas sim provisório, ou seja, a cada reunião ela poderá
ser ampliada e se tornar mais representativa. Conversarei com o Presidente da Comissão de
Agricultura, Deputado Luis Carlos Heinze, para que a Comissão possa contribuir muito mais
do que eu, individualmente, que darei essa sustentação política, mas que a Comissão
possa dar sustentação política e institucional também, ser uma referência e, quem
sabe, abrir um espaço na própria página ou como alguns querem dizer, site
da Comissão. Quem sabe esta comissão possa até constituir uma página própria
na Internet, Maurício, e depositala todas as informações. Se tivermos desde o filme do
professor Cooperman, que não pôde comparecer, mas está sendo exibido ali, a palestra da
Professora Clara, as exposições que foram feitas aqui hoje, dá para fazer uma bela
página sobre a mandioca na Internet, acessível a todos, com uma sala de debates, onde se
possa trocar idéias a respeito dos documentos.
Temos de encerrar esta reunião às 18 horas e ainda temos alguns
inscritos. Gostaria que S.Sas. fossem breves.
Concedo a palavra ao Joselito.
O SR. JOSELITO Serei breve. Cumprimento o Deputado e demais
presentes. Minhas considerações dão ênfase a essa cultura. Ouvi atentamente a palavra
de um senhor de idade aqui, e seguramente estamos tratando do camelo vegetal. E, para
sermos mais precisos, talvez a hibridação do camelo com o bovino, dada sua utilização
integral, porque até a maniva-mãe, depois de colhida, vai para o forno e também é
aproveitada para gerar calor na produção de farinha.
Seguramente a mandioca é a mais brasileira das culturas, especialmente
por ser a base de energia para que o produtor e, especialmente, o pequeno lavrador possa
produzir mandioca e outras culturas. Quando a cada dia ele se desloca para sua rotina
diária, leva na sua capanga, mochila ou embornal um pedaço de carne seca, rapadura,
farinha de mandioca e uma cabaça de água. Mas o que vai pesando na mochila, no embornal
é a farinha. Por isso, de forma jocosa, no ano passado tivemos a oportunidade, num
programa de TV, de qualificar a farinha de mandioca como aquela que, no prato, aumenta o
que está pouco, esfria o que está quente, engrossa o que está ralo e, na pança, é
quem dá sustança.
Essa é a nossa mandioca, que qualificamos como a mais brasileira e,
seguramente, a mais completa de todas as lavouras.
A palestra da Dra. Clara mostrou que temos uma preciosidade na planta
que ainda é muito pouco conhecida, justamente a parte aérea da mandioca. Dizem que
determinado pesquisador estudou exaustivamente sobre a mandioca e chegou à conclusão de
que a planta é tão fantástica que produz até raiz, porque a riqueza estava justamente
na parte aérea.
Apenas para descontrair, cito o que bem disse o Walmir: que esse
feijão velho, na pressão, possa cozinhar bem. (Palmas.)
O SR. PRESIDENTE (Deputado Aldo Rebelo) Joselito é um
entusiasta. Quando integrava a Liderança do PCdoB, já há alguns anos, ele trazia da
Bahia algumas iguarias para demonstrar a variedade e as possibilidades da mandioca.
Obrigado, Joselito, pela sua presença.
Tem a palavra o companheiro Bonifácio, Diretor Executivo da EMBRAPA.
O SR. BONIFÁCIO HIDEYUKI NAKASU Primeiro, quero
cumprimentá-lo por este belo seminário, pela maneira inteligente e muito educada com que
V.Exa. conduziu toda a discussão. Aprendemos muito hoje.
Sou da área da fruticultura, mas sou responsável também pela
supervisão das unidades do Nordeste, portanto das unidades que trabalham com mandioca e
fruticultura. E durante toda essa discussão vimos, com bastante clareza, a importância
da cultura e, mais que isso, a quantidade de alternativas que se têm com essa cultura.
Naturalmente acreditamos e damos toda ênfase que o Fukuda tem dado à
mandioca na EMBRAPA, mas também damos ao trigo, porque o Governo vem incentivando a
cultura do trigo. Temos que chegar à auto-suficiência quanto ao trigo. O Deputado
mencionou hoje de manhã que o Japão protege a produção própria do arroz, mas não
disse o preço. Um quilo de arroz no Japão custa de 6 a 7 dólares, e hoje compro 5
quilos de arroz de primeiríssima qualidade no supermercado por 4 reais. Então, o preço
é bastante diferente.
Como o Governo vem incentivando a cultura do trigo e nós, da EMBRAPA,
como V.Exa disse, temos pesquisado muito, este ano estive numa lavoura a 170 quilômetros
daqui, em Goiás, com uma produtividade de 5 toneladas por hectare, trigo de alta
qualidade. Então, isso tudo é Brasil, é importante que o Brasil produza. A razão maior
do fim da União Soviética foi a falta de trigo lá. Só isso. Eles tinham armas,
aviões, etc., mas não tinham trigo. Lá o principal produto é batata, falta o trigo.
Então, mandioca e trigo são muito importantes.
Foi excelente a sugestão do Maurício de formar um grupo de presão
que discuta em profundidade, porque apenas um Deputado não vai fazer nada. Agora, se
associações, indústrias e produtores unidos formarem um grupo de pressão, qualquer
Governo começa a apoiar. Tivemos essa experiência em fruticultura. V.Exa. tem visto no
Nordeste a fruticultura se expandir porque nos organizamos há 10, 12 anos, não faz muito
tempo.
Tenho certeza que a mandioca tem todo um futuro pela frente, pode
caminhar sozinha, sem se encostar em outra cultura. Hoje um empresário italiano estava me
dizendo que gostaria de ter cerca de 14 mil hectares de mandioca. Então, são mercados,
frentes que surgem.
O que está faltando, Deputado? Exatamente o que foi sugerido pelo
Maurício: um grupo pensante que realmente se organize e faça uso de todas as
alternativas citadas aqui. Muito obrigado. (Palmas.)
O SR. PRESIDENTE (Deputado Aldo Rebelo) Obrigado,
Bonifácio.
Senhoras e Senhores, chegamos ao término desse seminário, do qual o
melhor proveito foi a presença das senhoras e dos senhores. Não teria nem sentido e nem
conseqüência se não houvesse o comparecimento, o interesse e a presença de todos
vocês no transcorrer do dia de hoje.
Tenho dito por aí que meu conceito de tempo é o de Gilberto Freyre,
uma combinação de passado, presente e futuro. Não existe presente sem passado e nem
futuro sem presente. Acho que com a realização deste seminário reafirmaremos a
esperança, a perspectiva de podermos transformar essa cultura tão antiga e, ao mesmo
tempo, vivendo tantas dificuldades nos dias de hoje, numa cultura que dê esperança e que
frutifique em bem-estar, em desenvolvimento, em progresso, em resultados relevantes não
apenas econômicos e financeiros, mas sociais. O Brasil precisa e precisou da cultura da
mandioca para alimentar seu povo, para constituir seu território, para se emancipar
economicamente, mas hoje é preciso que o Brasil se convença de que a mandioca precisa do
apoio do pais, do Governo, do Poder Legislativo, da imprensa e demais setores da economia
agrícola brasileira para que desempenhe suas potencialidades e possa oferecer ao País e
à sociedade todas as potencialidades que essa cultura carrega consigo.
Acho que esse esforço apenas se inicia e deve ser ampliado. Ele se
constitui materialmente, a partir dessa Comissão, da presença hoje de representantes de
órgãos do Governo Federal, desde o Banco do Brasil ao Ministério da Agricultura, do Dr.
Pedro de Camargo Neto, do SEBRAE, do Presidente da Comissão de Agricultura e pela
disposição do Presidente da Câmara em nos receber mas que lamentavelmente
cancelou sua agenda. Precisamos navegar sobre um terreno que não é muito fácil, e
tivemos essa comprovação no dia de hoje. Precisamos travar um diálogo construtivo com
outros setores da economia e da sociedade brasileira, como o representante dos moinhos de
trigo, Dr. Reino. Mas acho que é o hábito do diálogo, do enfrentamento dessas
contradições, da discussão, de demonstrar nos argumentos que temos também direito a
esse espaço, fortalecer possibilidades que às vezes nem nós percebemos, como a que nos
abriu a Dra. Clara Brandão, com o caso da folha da mandioca, ainda tão subaproveitada.
Desejo, por fim, às senhoras e aos senhores, além do agradecimento, o
bom retorno a seus Estados. Vamos continuar nessa batalha. Pelo menos façamos nosso o
verso do poeta espanhol: "Aquele que perde uma propriedade, perde muito; aquele que
perde um amigo, perde mais; aquele que perde a esperança, perde tudo." Então, a
nossa presença aqui é, pelo menos, um sinal de que não perdemos a esperança. E vamos
fazer dela o alimento para prosseguir nessa batalha.
Muito obrigado mais uma vez, em nome da Câmara dos Deputados e em nome
dos promotores deste evento, da Comissão de Agricultura, do SEBRAE, da EMBRAPA, das
associações de produtores e de industriais, dos que integraram esta mesa de debates.
Faço esse agradecimento aguardando uma nova oportunidade para um encontro como este. (Palmas.)