CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ

Sessão: 267.2018 Hora: 17h0 Fase: OD
  Data: 12/12/2018

Sumário

Despedida do orador da Câmara dos Deputados.

 O SR. CHICO ALENCAR (PSOL - RJ. Como Líder. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Rodrigo Maia, Sras. e Srs. Deputados, servidores e todos os que acompanham esta sessão, estou fazendo o meu último pronunciamento na tribuna nesta condição, depois de quase 16 anos.
A vida é feita de encontros e despedidas, de perdas e ganhos; o trem que chega é o mesmo trem da partida. E eu me inspiro em José Saramago, aquele ateu iluminado, aquele comunista inveterado, que dizia: "Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória, não existimos; sem responsabilidade, talvez não mereçamos existir."
Vivi entre erros e acertos, muito mais derrotas do que vitórias. Cheguei aqui em 2003, no bojo da eleição de Lula para Presidente, pelo PT. A partir dali, conseguimos muitas conquistas, é verdade, mas também vivemos muitas decepções.
O plural aqui não é majestático, e esse é um primeiro destaque. O nosso trabalho, para ser minimamente interessante para a população que buscamos representar, tem que ser sempre feito em equipe, e é. Sem os servidores da Casa; sem aqueles que nos transportam, inclusive, nos elevadores; sem aqueles que pacientemente nos servem o cafezinho; sem a assessoria qualificada da Casa, os nossos mandatos não prestariam. Sem um constante contato com aqueles que nos delegaram, não absolutamente, a representação - estamos aqui para representá-los, e não para substituí-los -, não prosperaríamos. E isso nós tentamos fazer -, nós, de novo; nunca sozinhos; sempre como bancada.
Felizmente, nossa bancada é crescente. No começo, com o PT, e, desde 2005, na construção do PSOL, um partido ainda pequeno, mas com vocação de grandeza.
Paulo Apóstolo - e cito o da Igreja rebelde -, às vésperas do seu martírio, na prisão, em Roma, porque os primeiros cristãos não aderiram ao Império Romano nem fizeram nenhuma conciliação com o poder, dizia, já vendo seu fim: "Combati o bom combate, terminei minha jornada, guardei a fé". Eu suponho, com a graça de Deus e de todos os santos e orixás, que a minha jornada não se esteja encerrando. Mas é evidente que aqui se fecha uma etapa, onde procurei trabalhar com o essencial de um mandato público, que é legislar, sim, fiscalizar e estimular a cidadania horizontal, a organização da população, sempre com a ética pública, a ética do amor ao próximo e da transparência republicana.
Chegamos a termo, chegamos a esse fim, e eu quero agradecer muito a todos, inclusive aos adversários mais fortes - não aqueles que acabaram, até, nesse caso com justiça, na cadeia. Não preciso agradecer a esses. Mas há aqui um aspecto da divergência que guarda algo fundamental no Parlamento: é o espaço do dissenso, é o espaço do contraditório. E assim foi feito. Cada um aqui representa grupos e classes e interesses que estão em disputa na sociedade. E nós temos que ser fiéis a isso.
O SR. PRESIDENTE (Rodrigo Maia. DEM - RJ) - Prorrogo a sessão por 1 hora.
O SR. CHICO ALENCAR (PSOL - RJ) - Creio que travamos as boas batalhas, os bons combates, guardamos a nossa convicção de fazer política com ideias e causas, buscando uma sociedade socialista e democrática, sem preconceitos, discriminação, violência, aquele ideal utópico sem o qual nós nos corrompemos. E vamos prosseguir nessa batalha.
Eu queria encerrar, Sr. Presidente, abusando um pouco da sua paciência e da dos colegas, lendo um poema do Thiago de Mello - ele não é muito grande - que eu ganhei, em outubro, dessa jovem chamada Nathalie Drumond, que está aqui, que me honra com a sua qualidade de assessora. Com esse poema eu me identifiquei demais, bastante - os meus óculos, emocionados, desmaiaram, e eu os ergo.
Em 2003, no primeiro mandato, eu não precisava disso; o cabelo era um pouco mais cinzento; mas o coração, eu acho, está agora um pouco maior. Mais sofrido, é evidente, já revascularizado - e, em parte, a tensão daqui me levou a essa condição. Mas o importante é que continuemos.
O próprio Saramago, que eu citei no início, dizia o seguinte: "Tentei na vida não envergonhar a criança que fui".
E Thiago diz o seguinte:
Para os que virão
Como sei pouco, e sou pouco, faço o pouco que me cabe me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver o homem que quero ser.
Já sofri o suficiente para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem, na própria vida, a garra da opressão, e nem sabem.
Não tenho o sol escondido no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem para quem já a primeira e desolada pessoa do
singular foi deixando, devagar, sofridamente de ser, para transformar-se
- muito mais sofridamente - na primeira e profunda pessoa do plural.
Não importa que doa: é tempo de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja de aprender a conjugar o verbo amar.
É tempo sobretudo de deixar de ser apenas a solitária vanguarda de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
(Dura no peito, arde a límpida verdade dos nossos erros).
Se trata de abrir o rumo.
Os que virão, serão povo, e saber serão, lutando.
Muito obrigado a todos.

(Palmas prolongadas.)


DISCURSO NA ÍNTEGRA ENCAMINHADO PELO SR. DEPUTADO CHICO ALENCAR.


Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados e todo(a)s o(a)s que assistem a esta sessão ou nela trabalham, "somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória não existimos. Sem responsabilidade talvez não mereçamos existir", disse José Saramago.
Missão cumprida. Esse é o sentimento derivado de nossa atuação parlamentar, ao encerrar um ciclo de quatro mandatos federais consecutivos. Nossa atuação - assim mesmo, no plural: sempre em equipe, construída coletivamente, também com meu partido, o do socialismo e da liberdade, o PSOL, ainda pequeno, mas com vocação de grandeza.
Um esforço permanente, e tantas vezes frustrado, para estimular o indispensável em uma República: a organização popular, a cidadania horizontal e ativa. Batalha por políticas públicas que viabilizassem avanços na superação da desigualdade social, nossa maior chaga; na educação, democrática e de qualidade; na saúde para todos; na mobilidade urbana; no direito à terra e ao teto; no imprescindível cuidado ambiental; na democratização da cultura e da comunicação. Tudo com transparência e compromisso com ética.
Paulo apóstolo, em sua segunda carta a Timóteo, escrita da prisão, em Roma, aproximando-se seu martírio, deixou uma frase linda: "combati o bom combate, terminei minha jornada, guardei a fé" (2 Tm, 4.7). Nossa jornada ainda não terminou, mas é certo que, entre erros e acertos, combatemos o bom combate e guardamos a fé, as convicções, a primazia das ideias e causas na nossa atuação política.
Nesse período, apresentamos 104 projetos de leis e 151 requerimentos de informações. Participamos de ricas e inúmeras audiências públicas. Nosso assíduo empenho foi baseado no tripé legislar, fiscalizar e organizar. Representar, e não substituir! Contribuir para a educação política do nosso povo, sem paternalismo ou clientelismo.
Este último livreto (separata), que agora lançamos, Combatendo o bom combate, resume essa trajetória.
Os 1.281.373 votos limpos e conscientes que tivemos nas eleições de outubro de 2018, insuficientes para garantir uma cadeira no Senado pelo RJ, não deixam de ser um reconhecimento pelo trabalho desenvolvido e uma ordem para que esse trabalho, onde for possível, continue.
Nossos ásperos tempos, com tantas ameaças a direitos duramente conquistados, exigem dedicada atuação militante. É nossa responsabilidade cidadã, no Parlamento ou fora dele. Há muitas maneiras de servir à nossa gente, em muitas frentes.
A vida prossegue; a boca devoradora do tempo parece insaciável; rapidamente o presente fica no passado. E o futuro chega, mesmo carregado do que passou, do atraso, de tantos retrocessos. É preciso estar atento e forte. Sigamos juntos!
Gratidão e pedido de perdão. Sinto necessidade dessas duas atitudes ao terminar este ciclo existencial. Sou, sim, grato a Deus, o Todo-Poderoso Amor, que, acredito, me deu o dom da vida e da já longa existência. E a compreensão do direito à diversidade de crenças e da não-crença e da importância da laicidade do Estado.
Gratidão por ter recebido do povo do meu maltratado Rio de Janeiro essa delegação para defender seus interesses, costumeiramente tão esquecidos, e por não ter faltado à sua confiança, apesar das minhas limitações.
Gratidão aos servidores da Casa, de todos os escalões e departamentos, sem os quais não teria exercido o mandato a contento.
Perdão aos que tenha agredido, injustamente, com a agulha da palavra ácida ou da indiferença. Em meu favor, ouso assumir a definitiva declaração de Saramago: "Tentei não fazer nada na vida que envergonhasse a criança que fui".
Como, para mim e para muitos, a poesia é necessária como o pão de cada dia, encontrei em Thiago de Mello a melhor síntese para esta minha despedida:
Para os que virão

Como sei pouco, e sou pouco, faço o pouco que me cabe me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver o homem que quero ser.
Já sofri o suficiente para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem, na própria vida, a garra da opressão, e nem sabem.
Não tenho o sol escondido no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem para quem já a primeira e desolada pessoa do
singular foi deixando, devagar, sofridamente de ser, para transformar-se
- muito mais sofridamente - na primeira e profunda pessoa do plural.
Não importa que doa: é tempo de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja de aprender a conjugar o verbo amar.
É tempo sobretudo de deixar de ser apenas a solitária vanguarda de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
(Dura no peito, arde a límpida verdade dos nossos erros).
Se trata de abrir o rumo.
Os que virão, serão povo, e saber serão, lutando.

Agradeço a atenção. 



CHICO ALENCAR, DEPUTADO FEDERAL, ATUAÇÃO PARLAMENTAR, TÉRMINO DO MANDATO.
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