CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ

Sessão: 133.4.54.O Hora: 15:42 Fase: GE
Orador: MANDETTA, DEM-MS Data: 14/05/2014

O SR. MANDETTA (DEM-MS. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, nobres pares, O Rei Está Nu. Essa história da carochinha do século XV nunca foi tão contemporânea. Diz essa historinha que um rei extremamente vaidoso, que morava num reino muito distante, achando-se senhor de todas as verdades, passava por cima das pessoas e cobrava vassalagem.
Certo dia, tecelões mágicos chegaram a ele e disseram: "Faremos uma roupa com fios invisíveis num tear mágico, e somente aqueles que são filhos legítimos do rei conseguirão ver todo o esplendor, toda a beleza, toda a grandeza de sua realeza". O rei, muito vaidoso, encomendou seu traje real mágico e utilizou os poucos recursos tirados do imposto cobrado da população para a confecção da nova roupa do rei.
Criou-se, dentro do reino, uma expectativa enorme pela roupa do rei. O rei mandava seus ministros visitarem os tecelões, que estavam dentro de uma redoma, e a cada hora fazia uma exigência. E os ministros voltavam e diziam ao rei: "Olha, está ficando maravilhoso! Olha, nunca vi uma roupa tão bonita! Olha, a roupa é maravilhosa! Vai ser um divisor de águas no reino!"
O rei mandou chamar toda a cidade, todas as pessoas para o grande desfile da roupa do rei. Ao sair do palácio, foi vestido pelos tecelões, que faziam ajustes, mas mandavam que ele ficasse de olhos fechados, para que nem visse a roupa que estava sendo colocada e deixasse para o povo a impressão da roupa. O rei saiu e, ao sair, foi aplaudido, levou tapinhas nas costas: "Que beleza, rei! Que maravilha!" Até que, ao andar pela parte mais pobre da cidade, um garoto disse: "O rei está nu! O rei está de ceroula!"
Houve silêncio. O rei olhou para o garoto, olhou para o povo, e o que se ouviu na sequência foi uma vaia muito grande ao orgulho do rei. Daquele dia em diante, segundo o conto de Christian Andersen, esse rei decidiu não mais ser orgulhoso e passou a entender que tinha que ouvir o povo e dar prioridade ao povo.
Na cena política contemporânea, em 31 de outubro de 2007, nosso Brasil, que, na época, pedia assento no Conselho de Segurança da ONU e era apresentado como o "B" do BRIC, o país que finalmente tinha saído para o futuro, um país de eficiência, de riquezas, foi à FIFA, aos "tecelões invisíveis", e se comprometeu a fazer aqui uma Copa do Mundo. O rei disse ao povo brasileiro que faríamos uma Copa da iniciativa privada, uma Copa que revelaria a grandeza do nosso País, uma Copa divisora de águas.
A roupa que o Brasil ofereceu foi uma roupa nunca antes desenhada na história das Copas. Faríamos não em oito, mas em dez cidades. Por que somente em dez cidades? Vamos fazer em 12. Afinal de contas, a roupa será aplaudida por todos. Faríamos uma Copa para deixar um legado em mobilidade urbana, transformaríamos as cidades. O direito de ir e vir dos cariocas e dos paulistas, em trânsitos tão engarrafados, seria garantido; o sistema de saúde seria elevado ao padrão FIFA; a educação, em 2014, estaria com suas instalações e com seu magistério organizado.
Estaríamos, neste momento, apresentando ao mundo competência de gestão em portos, aeroportos e mobilidade; e chamaríamos todos para assistir à "roupa do rei".
Os Ministros fizeram o de sempre - reuniões, choques e contrapontos -, a FIFA ditou as ordens para que a roupa ficasse no padrão FIFA; e a iniciativa privada olhou e disse: "Vamos aguardar. Este rei vaidoso vai colocar os recursos do povo, os impostos do povo, para que nós possamos usufruir da roupa do rei".
Deputado Penna, o maior templo do futebol mundial, o Maracanã, onde, como eu, tenho certeza, muitos aqui já estiveram, foi semidemolido, refeito e, ao término, entregue à iniciativa privada, com dinheiro público. Não tem dinheiro privado! É o BNDES, com dinheiro subsidiado de imposto - o seu imposto, o imposto de todo mundo! A troca, o legado, aquilo que sinalizavam ficou para trás.
Isso teria sido assim: a nossa incompetência política tradicional apostava somente no nosso grande amor e apelo pelo futebol, pela Seleção Brasileira, e, quando sair a convocação, vão todos pintar as ruas de verde e amarelo, colocar bandeirinhas nos carros, o assunto vai ser Neymar; nós vamos passar por esse desfile com a roupa do rei, e ninguém vai ousar dizer que ele está nu.
Quando, em julho do ano passado, o primeiro dos mais carentes, aqueles que estão nos ônibus urbanos sofrendo todo tipo de desrespeito, aqueles que estão nas filas de urgência e emergência, aqueles que estão nas filas de exames, aqueles que estão vendo a escola abandonada, disse "Nós queremos saúde padrão FIFA também", e o segundo, "Por que essa farra com o dinheiro público? Por que malversação desse tamanho?", vieram o primeiro, o segundo, a dezena, a centena, o milhar, e a massa questionou.
Naquele momento, tal qual o conto de Christian Andersen, o povo disse a esse Governo que aí está, à Presidenta Dilma: "O rei está nu. A rainha está nua". A promessa de gestão, a promessa de eficiência... A Presidenta gerente relaxou, esqueceu que administrar é duro, é dizer não, é cobrar prazos, é zelar, antes de mais nada, pelo nome e pela figura deste País. Perdeu a chance o Governo de dizer:
"Afinal de contas, o que somos? Para onde vamos? Que Estado é este que nós representamos? Qual é o modelo? Quais são os valores? O que nós vamos deixar para as próximas gerações? Que sonho de País é este? O que nós estamos fazendo com as instituições brasileiras, que deveriam estar respirando, cobrando democraticamente este País que nós queremos deixar como legado?"
O que nós assistimos foi a uma troca. As centrais sindicais, logo após as manifestações, foram instadas a também fazer manifestação, porque o Governo precisava de um interlocutor, afinal de contas, elas já estavam tão bem pagas pelo repasse de gordas verbas do Governo Federal. A central dos estudantes, que normalmente são o respiro, onde a juventude questiona, já está tão bem paga. Por que eles não vêm a público, se são pagos, para defender o Governo? E os movimentos sociais, os sem-terra, tão bem pagos, recebendo tantos recursos, por que não vêm a público defender a "roupa do rei"? Acontece que não eram manifestantes organizados, eram a principal força de uma Nação.
E esta Copa tem sim um legado, Deputado Stepan Nercessian: a indignação de um povo que aprendeu a ir às ruas e a dizer: "Basta! Chega! Ninguém suporta mais o descaso, a mentira, a corrupção, a falta de rumo, a falta de proposta". Nós não somos o "quanto pior melhor"; nós queremos que os nossos 11 jogadores que estiverem em campo tenham êxito; nós queremos que o Brasil vença a Copa.
A Seleção Brasileira não perdeu a torcida, quem perdeu a torcida foi esse Governo incompetente, que coloca o País nu a 28 dias da Copa do Mundo, sem condições de deixar um legado em saúde, sem condições de dizer ao povo como será a recepção nos portos e aeroportos brasileiros, que foram privatizados na calada da noite, mesmo contra aquela hipocrisia eleitoral que dizia: "Olha, eles privatizam! Nós estatizamos!" Privatizaram porque viram que, se ficassem à mercê da incompetência, da falta de visão, da falta de gestão, da corrupção, não teríamos condições de receber ninguém.
Esta Copa, para a população brasileira, significa...
O Sr. Ricardo Tripoli - V.Exa. me permite um aparte?
O SR. MANDETTA - Deputado Ricardo Tripoli, vou somente lhe fornecer alguns números, e, na sequência, concederei a V.Exa., com certeza, aparte.
O Sr. Efraim Filho - Também, na sequência, solicito aparte, Deputado.
O SR. MANDETTA - Esta Copa significa, Deputado Efraim Filho, entre o que foi gasto com estádios, a falta de 3.600 Unidades de Pronto Atendimento, a falta de 27.692 Unidades Básicas de Saúde, a falta de 12.973 postos de polícia comunitária, a falta de 5.682 creches e pré-escolas, a falta de 1.386 quilômetros de ferrovias. Daria para fazer 80% da Ferrovia Norte-Sul, 2.600 quilômetros de rodovia e pagar os médicos desse programa por 10 anos. Essa é a troca, esse é o legado.
Aí, eu pergunto a V.Exa.: o rei está nu, como grita o povo, ou insiste o Governo em dizer que a roupa invisível do rei está aí sim? E, cuidado! Muito medo, porque, se esse rei for deposto, pode acontecer um quadro tenebroso no reino do faz de conta.
Deputado Ricardo Tripoli.
O Sr. Ricardo Tripoli - Nobre Deputado Mandetta, eu quero, primeiro, cumprimentar V.Exa. pela forma tão didática com que faz seu pronunciamento, que nada mais é do que a constatação do que vem acontecendo no País. V.Exa. coloca com muita clarividência que o problema do Brasil não são os jogadores, como pretende o Governo, que agora quer colocar a culpa no técnico, nos jogadores. E diz que nós da Oposição torcemos contra a Seleção Brasileira. Muito pelo contrário! V.Exa. coloca muito bem que, se nós não temos um trabalho voltado para políticas públicas, no que diz respeito à infraestrutura no Brasil, é por que este Governo não tomou as medidas que deveria. Fez o discurso, mas a prática foi completamente diferente dos discursos que vinha fazendo. Mais do que isso, e V.Exa. coloca muito bem: não somos iguais. Há uma grande diferença! Nós, quando tivemos a coragem de fazer as privatizações, dissemos ao povo que estávamos fazendo as privatizações, enquanto eles escondem suas privatizações malfeitas, tão malfeitas que acabam quase sempre todas no Judiciário. Deputado Mandetta, meu aparte é bem breve, é para dizer da felicidade que tenho em acompanhar o pronunciamento de V.Exa., que obviamente faz uma constatação muito clara do que vem acontecendo no País.
O SR. MANDETTA - Obrigado.
Ouço o aparte do Deputado Efraim Filho.
O Sr. Efraim Filho - Deputado Mandetta, primeiro, como seu companheiro da bancada do Democratas, quero elogiar V.Exa., um Deputado de primeiro mandato que tem o desempenho de quem realmente se preocupa com os assuntos do povo brasileiro, tendo como protagonismo o setor da saúde, mas passando por outros. Sobre o tema que oportunamente traz para o Grande Expediente de hoje, concordo com V.Exa.: a culpa não é da Copa. Ouso até a dizer que a culpa nem sequer é da FIFA. O Brasil se candidatou a ser sede da Copa, que, em regra, representa oportunidade, como foi para África do Sul, Alemanha e outros países. O problema é a forma como o Governo administra a Copa; o problema são os atrasos, os desvios de recursos públicos, as obras superfaturadas. Não tenho dúvida: vai haver festa, porque o brasileiro é bom de festa. Vão curtir a Copa do Mundo. Mas, depois que passar, vai restar a frustração, a frustração da ausência de um legado, de uma herança em obras estruturantes de mobilidade urbana, saúde, segurança, educação, e vai ser essa frustração que o povo brasileiro irá às ruas cobrar, pelo descaso que o PT teve em levantar grandes estádios. Só para ilustrar, acrescente às obras a transposição do Rio São Francisco, que também não foi concluída, é uma chaga aberta no coração do Nordeste.
O SR. MANDETTA - Ouço o aparte do Deputado Emanuel Fernandes.
O Sr. Emanuel Fernandes - Deputado Mandetta, para mim, é um grande orgulho ouvir V.Exa. nesta tarde. Na minha opinião, V.Exa. traz outro legado, ou melhor, explora outro legado para a Copa. Normalmente, os governantes procuram mostrar o que de bom vai ser certa coisa. Pois bem, V.Exa. está rememorando que a população descobriu outro legado: a relação custo-benefício. A população percebe que há um custo e que esse dinheiro gasto nesse benefício poderia ser usado numa coisa melhor. V.Exa. está de parabéns pela brilhante análise.
O SR. MANDETTA - Ouço o aparte do Deputado Antonio Imbassahy.
O Sr. Antonio Imbassahy - Deputado Mandetta, eu também me associo às palavras dos demais companheiros destacando sua atuação neste Parlamento, atuação notável, que orgulha todos nós não apenas do Democratas, mas toda a Casa. Por certo, V.Exa. aborda tema de alta relevância. É absolutamente impensável que, passados 7 anos do anúncio da realização da Copa do Mundo no Brasil, o Governo não tivesse tido a competência para aproveitar essa grande oportunidade, realizar os investimentos em infraestrutura e deixar um legado tão bom para todos nós brasileiros. Mas resta agora seguir com a Copa. Como V.Exa., todos nós brasileiros queremos que as coisas corram bem e que possamos ter um bom desempenho. Mas fica o registro dessa falha, do fracasso do Governo Federal.
O SR. MANDETTA - Ouço o aparte do Deputado Stepan Nercessian.
O Sr. Stepan Nercessian - Deputado Mandetta, quero parabenizá-lo e dizer que o pronunciamento de V.Exa. não desperta em ninguém a vontade de aparteá-lo porque seria como se privar de raciocínio tão claro. Quero apenas ressaltar um aspecto que seu pronunciamento resgata: que não seja permitido que roubem de nós que dizemos que o rei está nu o direito de continuarmos sendo apaixonadamente brasileiros. Tem que acabar definitivamente essa história, essa balela de que quem diz que o rei está nu quer destruir o País. Não! Nós queremos apenas dizer ao rei que ele está nu.
O SR. MANDETTA - Obrigado, Deputado Stepan Nercessian.
Para concluir, Sr. Presidente, nobres pares, no nosso caso tupiniquim, a rainha está nua: a rainha está nua no cercadinho do crack da cidade de São Paulo; a rainha está nua na mortalidade infantil dos indígenas do País; a rainha está nua nos ambulatórios, nas urgências e emergências de todos os hospitais da rede pública de saúde; a rainha está nua em todos os ônibus superlotados e sucateados; a rainha está nua no porto de Cuba, única inauguração de seu Governo; a rainha está nua no desperdício dos grãos, pela péssima infraestrutura do País; a rainha está nua quando faz da PETROBRAS a "PTBRAS" e apresenta ao País mais um escândalo de corrupção.
A rainha está nua. Nós povo brasileiro, que somos a roupa deste País, vamos colocar nossa camisa verde e amarela não para esse Governo espúrio, incompetente e corrupto; nós vamos colocar pelos jogadores da Seleção Brasileira, em respeito à Seleção de 1994, à Seleção de 1970, à Seleção de 1962, à Seleção de 1958. Não venha depois o Governo fazer a maldade que fez com a Seleção de 1950, quando um vice-campeonato condenou o goleiro Barbosa ao ostracismo e o deixou como o responsável pelo fracasso da Pátria de chuteiras.
Nesta Copa, nosso fracasso está espelhado: menos de 10% das obras de infraestrutura concretizadas. Vamos fazer com que tenhamos, nesta Copa, uma redução de danos; vamos juntar as forças. Aqueles que quiserem se manifestar durante o período da Copa se manifestem democraticamente e digam não à quebradeira, não à agressão, não à violência. Pelo menos, nós diremos ao mundo: "O Governo e a rainha estão nus, mas, nós povo brasileiro estamos vestidos com o que nos resta de dignidade." A grande resposta ao mundo será no dia 7 de outubro de 2014, quando vamos apresentar a nova roupa a esta Nação e varrer para o esquecimento da história aqueles que mancham a história do nosso País.
Muito obrigado, Sr. Presidente.
O SR. PRESIDENTE (Felipe Maia) - Deputado Mandetta, neste momento da sessão, na condição de Presidente, eu não poderia fazer nenhum comentário sobre o pronunciamento de V.Exa. Mas não há nada mais oportuno do que o sentimento do brasileiro, na iminência de sediarmos uma Copa do Mundo vendo os Estados sem o legado que poderia ser concluído - as obras de mobilidade urbana.
Eu falo como representante de um Estado que irá sediar alguns jogos e que não vê as obras de mobilidade urbana concluídas. Ou seja, é um legado que vai comprometer futuramente as finanças, porque existe um acordo na PPP entre o Governo do Estado e o empreendedor em que o Estado não ganha na sua exaustão.
V.Exa. é muito feliz, ao fazer essa analogia do momento atual do Brasil com o conto de autoria do dinamarquês Hans Christian Andersen, sobre o rei estar nu. Eu espero que nós não estejamos nus diante da necessidade de infraestrutura no País.
Mesmo na condição de Presidente, eu não poderia deixar de tecer alguns comentários sobre o oportuno tema do seu pronunciamento.
Parabéns, Deputado!