CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ

Com reda����o final
Sessão: 210.1.52.O Hora: 16:56 Fase: GE
Orador: MILTON CARDIAS, PTB-RS Data: 01/10/2003




O SR. MILTON CARDIAS - Sr. Presidente, peço a palavra pela ordem.
O SR. PRESIDENTE (Confúcio Moura) - Tem V.Exa. a palavra.
O SR. MILTON CARDIAS (PTB-RS. Pela ordem. Pronuncia o seguinte discurso.) - Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, já se disse que democracia e imprensa livre são como vasos comunicantes, um transmitindo ao outro qualidades essenciais ao bom funcionamento do conjunto. A imprensa propicia a informação, a análise e a crítica indispensáveis a um verdadeiro regime democrático; esse deve fornecer o ambiente e as garantias básicas para o exercício da liberdade de expressão.
Se isso era verdade já nos primórdios da convivência entre jornais e Estados democráticos, ainda mais verdadeiro se torna nos tempos atuais, quando a tecnologia coloca os meios eletrônicos de comunicação dentro de nossos lares e anuncia processos interativos nem sequer imaginados há algumas décadas.
Os fantásticos avanços nessa área não prescindem, entretanto, de seculares exemplos de atuação da imprensa livre que presta informações, denuncia as mazelas do poder e esclarece a população. Nesse sentido, quero destacar um importante modelo a ser levado em conta, o Correio do Povo, de Porto Alegre, que completa nesta data, 1º de outubro de 2003, 108 anos de fundação, permanecendo, ao longo de tantas décadas, indissociável à história política, econômica e cultural do Rio Grande do Sul.
Descontadas talvez as peculiaridades da linguagem da época, o jornal, fundado em 1895 por Francisco Antônio Vieira Caldas Júnior, pode ser tomado como exemplo desde o editorial da sua primeira edição, quando proclamou: Independente, nobre e forte — procurará sempre sê-lo o Correio do Povo, que não é órgão de nenhuma facção partidária, que não se escraviza a cogitações de ordem subalterna. Caldas Júnior estava definindo ali, no primeiro editorial, o rumo do diário que se tornaria, com o passar do tempo, leitura obrigatória dos gaúchos. Falecido em 1913, ele foi substituído primeiro por sua viúva, depois pelo filho Breno Caldas, que dirigiu o Correio do Povo por 50 anos e o transformou num dos mais importantes jornais do País.
Muitas vezes o Correio do Povo esteve às voltas com a censura. Em 1918, quando foi proibido de divulgar notícias sobre a epidemia de influenza espanhola; em 1933, quando teve a circulação suspensa por um dia, a mando do interventor federal no Estado, Gen. Flores da Cunha; em 1937, quando o Brasil ingressou no Estado Novo; e durante o período de arbítrio, iniciado em 1964, chegando a ser apreendido pela Polícia Federal, no dia 20 de setembro de 1972. Não era um jornal de oposição, mas, ao procurar manter os princípios definidos no seu primeiro editorial, em muitos momentos incomodava os poderosos.
O grande golpe, contudo, foi econômico, não político. No início da década de 80, a empresa, ampliada com a criação da Folha da Tarde, da Folha da Manhã e da Rádio Guaíba, não suportou os investimentos necessários à implantação de uma emissora de TV e entrou em crise. No dia 16 de junho de 1984, pouco antes de completar 90 anos, o Correio do Povo teve sua circulação suspensa.
Parecia o fim. Porém, a frustração dos gaúchos não durou mais de 2 anos e alguns meses. Em 31 de agosto de 1986, adquirido pelo empresário Renato Bastos Ribeiro, o Correio do Povo retomou sua circulação diária. Em maio de 1987, num lance ousado, trocou de formato, transformando-se em tablóide, e inaugurou uma nova era de crescimento, de forma que, ao chegar ao centenário, em 1995, contava com cerca de 200 mil assinantes.
Assim, independente, nobre e forte, o Correio do Povo alcança agora os 108 anos de existência, justificando nossos cumprimentos à família do fundador e ao atual proprietário, Renato Ribeiro, que teve a coragem de devolver aos gaúchos o jornal que os acompanhou por todo o século XX. Nesse período, o Correio do Povo noticiou duas guerras mundiais, registrou o surgimento do cinema, do avião e da bomba atômica, abrigou em suas páginas intelectuais da maior qualidade. Tornou-se um dos símbolos do Rio Grande do Sul, como bem observou o jornalista Walter Galvani no livro Um Século de Poder —Os Bastidores de Caldas Júnior. E, sem dúvida, podemos afirmar: é, ainda hoje, um grande exemplo para todos os que desejam a imprensa livre e altiva, seja em jornal, seja em rádio, seja em televisão.
Sr. Presidente, parabenizo todos os diretores, funcionários e colaboradores do Correio do Povo e peço a Deus, em seu grande e infinito amor, que os ilumine nesta nobre missão de bem servir o Rio Grande do Sul, o Brasil e o mundo.