CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ

Com redação final
Sessão: 176.4.53.O Hora: 11h3 Fase: HO
  Data: 23/08/2010

Sumário

Transcurso do centenário de criação do Terreiro Ilê Axé Opó Afonjá.




O SR. PRESIDENTE (Zezéu Ribeiro) - Quero convidar agora o companheiro José de Ribamar Feitosa Daniel para fazer seu pronunciamento.
O SR. JOSÉ DE RIBAMAR FEITOSA DANIEL - Exmo. Sr. Deputado Zezéu Ribeiro, que ora preside esta sessão comemorativa do centenário do Ilê Axê Opô Afonjá; Sr. Zulu Araújo, Presidente da Fundação Cultural Palmares, que representa o Ministro da Cultura, Sr. Juca Ferreira; Sr. Alexandre Reis, Subsecretário de Políticas Públicas para Comunidades Tradicionais, que representa o Ministro Eloi Ferreira Araújo, da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial; Deputado Estadual Bira Coroa, da Bahia; Deputado Federal Edson Santos, ex-Ministro da Secretaria de Polícias de Promoção da Igualdade Racial; minha querida Mãe Stella, a quem eu peço agô e sua bênção para dar início à minha fala; senhoras ialorixás, senhores babalorixás, ebômis, equedes, aloés, meus senhores e minhas senhoras, é com muita honra que, na qualidade de Presidente da Sociedade Cruz Santa e por designação de nossa Ialorixá Stella de Oxóssi, eu subo a esta tribuna para proferir nosso agradecimento aos Exmos. Srs. Deputados integrantes desta Casa que compõe o Congresso Nacional.
É em nome da comunidade do Ilê Axê Opó Afonjá, integrante de uma outra casa, casa imaterial, protegida pelo Alá de Oxalá, que compreende um outro poder, o poder da religiosidade do povo da Bahia, da religiosidade afrodescendente, da religiosidade do Candomblé — que nos distingue e diferencia —, que eu trago nesta fala nossos mais sinceros agradecimentos pela realização da presente sessão que celebra a passagem do primeiro centenário de existência do nosso terreiro no Bairro de São Gonçalo do Retiro, em Salvador, Bahia. Gostaria de deixar bem claro que friso o ordinal primeiro na certeza de que, com a força, o Axé dos Orixás, por muitos e muitos centenários estaremos nós festejando a perenidade do Candomblé.
Gostaríamos de agradecer àqueles que participaram mais diretamente da condução interna do pleito. Gostaríamos de agradecer ao Deputado Zezéu Ribeiro a indicação. Gostaríamos de agradecer a cada um dos Srs. Deputados integrantes da Mesa Diretora o diligente acolhimento e a consecução, e ao Exmo. Sr. Presidente desta Casa Deputado Michel Temer a finalização. Recebam todos os senhores nossos mais sinceros e afetuosos sentimentos.
Encontramo-nos aqui, hoje, nesta manhã do dia 23 de agosto de 2010, para celebrarmos o centenário de existência de um templo religioso que ao longo destes anos recebeu o reconhecimento e o respeito de todos aqueles que souberam apreciar as virtudes das pessoas da nossa terra, a Bahia, terra mãe do Brasil.
No Brasil nunca foi fácil ser negro, muito menos de Candomblé. Quem é afrodescendente já sentiu isso, e posso dizer que ainda hoje muitos de nós, em muitas circunstâncias, ainda sentimos na pele toda a vicissitude de sermos o que somos. Entretanto, foi pelo Candomblé que os muitos valores religiosos, morais e étnicos dos povos africanos foram não apenas preservados como transmitidos de geração a geração, de geração em geração foram paulatinamente absorvidos, e hoje são reconhecidos como identificadores da sociedade brasileira. Foi graças à persistência e à determinação daqueles filhos e filhas de Orixá responsáveis pela condução das diversas Casas, juntamente com seus seguidores, que esse legado pôde chegar até os dias de hoje, pois no Candomblé estão reunidos os valores culturais mais significativos da herança africana para a cultura brasileira.
Na história do Ilê Axé Opô Afonjá, que nossas primeiras palavras sejam de invocação e de reconhecimento aos nossos ancestrais. Não poderíamos deixar de mencionar as 3 religiosas africanas que aqui chegaram escravizadas, e que se juntaram num determinado momento de suas vidas para efetivar a religação, reativar o culto a Xangô na Bahia, reativar no continente latino-americano a prática religiosa do povo de Ketu, que posteriormente veio a ser conhecida como Candomblé.
Foi graças a Ìyá Detá, Ìyá Kalá e Ìyá Nassôque tudo começou, nos fundos da Igreja da Barroquinha. Lá criou-se o Ilê Ìyá Nassô Oka, hoje mais conhecido como Casa Branca. Não tardou muito, esse terreiro mudou-se para o Engenho Velho da Federação, na Avenida Vasco da Gama, onde permanece até hoje, e sob a proteção do batá de Xangô assim permanecerá por muito mais tempo.
Na liderança da Casa Branca, sucedendo a mítica Ìyá Nassô, vieram sua prima e filha de orixá Marcelina da Silva, Obá Tossi, bisavó biológica de nossa Mãe Senhora e Mãe Espiritual de Obá Biyi, Mãe Aninha, nossa fundadora. Na linha sucessória das lideranças dessa Casa sagrada vêm, pela ordem: Maria Júlia Figueiredo, Omoniquê; Ursulina, Sussú; Maximiniana Maria da Conceição (Massi), Iwin Funqué; Maria Deolinda, Oké; Marieta Vitória Cardoso e atualmente Mãe Tatá, Oxum Tomiwá. Muito Axé para a nossa Casa Mãe, e a essas veneráveis senhoras todo o nosso respeito.
Aproveitamos esta oportunidade para esclarecer mais uma vez a questão envolvendo a data que ora celebramos. Neste ano de 2010 celebramos o primeiro centenário da implantação, do assentamento do Axé de Xangó Afonjá na roça de São Gonçalo do Retiro. Neste ano não estamos celebrando o início do nosso terreiro.
O início do nosso terreiro é anterior. Devemos sempre nos lembrar de que o início do nosso terreiro foi no ano de 1892, quando Mãe Aninha, aos 23 anos de idade, já com todas as obrigações religiosas completadas, deixou sua Casa Mãe e criou o Axé de Xangô Afonjá, que funcionou temporariamente em diversos pontos da cidade: inicialmente na Rua do Camarão, pouco tempo depois na Rua do Curriachito, ambas no Rio Vermelho; depois na Santa Cruz, hoje bairro de Amaralina; e de 1907 a 1910 na Ladeira da Praça.
Não seria da nossa natureza esquecermos esses endereços, porque neles muita gente foi iniciada. Não é da nossa natureza abandonarmos nossos mais velhos. Não poderíamos negligenciar essas circunstâncias do nosso passado porque precárias e transitórias.
No início do Século XX, graças ao seu sucesso como comerciante, Obá Biyi conseguiu comprar uma roça com cerca de 39 mil metros quadrados no Bairro de São Gonçalo do Retiro. Esse houvera de ser o local escolhido para o Axéde Xangô Afonjá ser plantado em definitivo. Era o ano de 1910.
Uma pequena nota para S.Exas., para mostrar que ainda há muito a ser feito para melhorar as condições sociais no Brasil: na Bahia do princípio do Século XX foi possível a uma barraqueirado Mercado Modelo adquirir com recursos próprios terreno com tais dimensões; infelizmente, não podemos assegurar que o mesmo possa acontecer hoje.
Plantar o Axé de um Orixá é uma atitude que requer um comprometimento diferenciado com a continuidade da prática religiosa. Nem toda ebômi tem no seu caminho esse desígnio. Tornar-se ialorixá e liderar todas as práticas religiosas de um terreiro requer um nível de dedicação que apenas poucas têm a capacidade ou o preparo para suportar. Daí todo o nosso agradecimento, pela sabedoria e pela abnegação, às nossas modelares senhoras que, ao longo destes primeiros 100 anos de nossa existência em São Gonçalo, levaram nosso terreiro a ocupar a posição de destaque e reconhecimento de que hoje usufruímos.
Muito mistério envolve as origens de Mãe Aninha, nossa fundadora. Ainda hoje muito pouco é sabido. Sabemos, entretanto, que ela era descendente de africanos falantes de grunci, um povo que não tivera nenhuma relação com os iorubás até o tráfico negreiro. Hoje, os povos falantes da língua grunci ocupam uma área geográfica que compreende o norte do Gana, nas áreas adjacentes de Burkina Fasso, e Togo. Presumivelmente o contingente de falantes de grunci que veio para o Brasil é oriundo das áreas mais afetadas pelo tráfico negreiro para as Américas, que compreende os Bariba e os Logba, no centro-norte do Benim. Mas isso é pura especulação, sem nenhuma materialidade comprobatória de nossa parte.
Sabemos que Mãe Aninha nasceu em 13 de junho de 1869, da união de Sérgio dos Santos, chamado em grunci Aniió, e Lucinha Maria da Conceição, Azambriô. Sabemos também que, embora de ascendência grunci, Mãe Aninha foi iniciada por sacerdotes da nação nagô-iorubá, tradição que ela acolheu como sua, o que entretanto não a impediu de cultuar suas divindades ancestrais grunci, divindades essas que até hoje são cultuadas no Axé Opô Afonjá de maneira discreta, na esperança de não se deixar esvair esse culto, com idioma e identidades diferenciados dos Orixás iorubás. Mãe Aninha foi iniciada no culto aos Orixás Obìnrin, que correspondem à Iemanjá dos Iorubás. Outras divindades grunci são cultuadas na Casa de Ìyá, em um culto à parte, específico.
Mãe Aninha viveu numa constante progressão, cuidando não só do espaço sagrado, mas também de toda a sua população. Atravessando fronteiras no âmbito social, trabalhou com afinco pela sua crença, impondo respeito e adquirindo solidariedade. Deu importantes passos para a libertação do culto aos orixás.
Nossa Mãe Aninha foi a responsável pela liberação do culto afro-brasileiro, bastante perseguido nos primórdios do Século XX pela Polícia. Candomblé era coisa de negros ignorantes, prática fetichista, a vergonha da Bahia, diziam. Obá Biyi não hesitou: no Rio de Janeiro, Capital da República, onde residia na época, foi ter com o Presidente Getúlio Vargas, obtendo a liberdade para a prática da religião dos orixás. Mãe Aninha introduziu no Novo Mundo o Corpo de Obá (ou Mogbà), nos moldes de Oyó. Esses, em número de 12, são considerados Ministros de Xangô. Eles são divididos em 6 Otun, os da direita, e 6 Òsi, os da esquerda. Outra importante inovação realizada por Obá Biyi foi transformar um terreiro de Candomblé em uma espécie de África. Foi ela a primeira a reunir as diversas tribos africanas em um só espaço, criando a noção que hoje temos de terreiro.
Mãe Aninha dedicou uma casa a cada orixá, individualizando assim as práticas religiosas. Foi na Casa de Iemanjá que o Xangô de Mãe Aninha se apresentou pela última vez. Foi também lá que a ialorixá foi vista pela última vez aqui no Àiyê. Mãe Aninha deixou o Axé em 3 de janeiro de 1938, juntando-se a outros dignos ancestrais, levando consigo muito conhecimento que não teve tempo de passar.
Maria da Purificação Lopes, Mãe Bada, Olufan Deiyi, idosa e doente, assumiu então os destinos do Axé Opô Afonjá com a ajuda de Mãezinha Iwin Tona, a iaquequerê da Casa, e Senhora, Oxun Muiwá, a Òsi-Dagan. Mãe Bada entendia profundamente os mistérios dos orixás. Iniciou várias pessoas em outros terreiros da Bahia. Devido ao seu grande conhecimento das questões do Axé, ela muitas vezes foi requisitada para resolver questões litúrgicas conflitantes do Candombléde nossa terra. Ocupou, antes do falecimento da fundadora, o posto de Baró, espécie de conselheira, aquela que medita e aconselha. O reinado de Mãe Bada foi curto, pois a idade avançada e a doença abreviaram seu tempo no Àiyê. Partiu para o Òrun, levando consigo muita força misteriosa e valiosos conhecimentos.
Ascendeu ao posto de ialorixá Maria Bibiana do Espírito Santo, Mãe Senhora, Oxum Muiwá, que conduziu os destinos do Axé Opô Afonjá por mais de 20 anos, com pulso forte e doçura de Oloxum. Mãe Senhora tinha total dedicação a Xangô. Xangô era seu orientador e confidente. Vibrava nas festividades dedicadas ao Senhor Afonjá. Ao assumir o posto de ialorixá, além de outras inovações que serviram para o engrandecimento da casa, Mãe Senhora criou os subcargos de Otun e Òsi para o corpo de Obás. Cada Obá passou a ter, então, seus auxiliares, um Otun e um Òsi. A formação do corpo de Obá passou, assim, de 12 para 36 componentes. Mãe Senhora recebeu o título de Mãe Preta do Brasil na década de 60. Das mãos do Príncipe de Oyó, da Nigéria, recebeu o oyê de Ìyá Naso, a principal líder mulher do culto de Xangô, a primeira de que se tem notícia após a mítica Ìyá Naso, fundadora do Candomblé do Engenho Velho. Vítima de um súbito derrame cerebral, partia para o Òrun uma grande dama do Candomblé da Bahia. Mãe Senhora faleceu no dia 22 de janeiro de 1967, no terreiro.
Mais uma mudança no Axé. Após 1 ano de recesso, Xangô, por intermédio do Olúwo Agenor Miranda, assistido pelo Babalorixá Nezinho de Muritiba (Nezinho de Ogum), foi escolhida para conduzir o destino do Axé Ondina Valéria Pimentel, Iwin Toná, Mãezinha, como sempre fora carinhosamente chamada. Ainda bem moça foi designada por Mãe Aninha para ser a iaquequerê do Egbé. Quiseram os búzios que ela substituísse a falecida Ìyá, passando a conduzir os caminhos do Ilê. Ela nasceu em pleno mar, a bordo de um navio da Bahiana; daí seu nome, Ondina. Mãezinha pertencia à tradicional família de culto a Egúngun: os Pimentel. A Ìyá, dando continuidade aos ensinamentos de Mãe Aninha e valorizando a hierarquia, concedeu o cargo de iaquequerê a Eutrópia Maria dos Santos, Oxum Fumixê, Pinguinho, uma das Olóyè mais marcantes da nossa Casa, de inesquecível memória. Pinguinho foi uma mestre valorosa em questão de hierarquia. Severa, às vezes, ríspida, implacável, muito contribuiu para a preservação dos ritos, preocupada sempre em transmitir ensinamentos.
Mãezinha, misto de doçura e aspereza, temperamento de reações imediatas, herdou dos mais velhos o gesto de conversar com os olhos. Durante 7 anos segurou os destinos do Axé. Filha de Oxalá e Xangô, dedicava-se, em especial, àCasa de Ìyá, pela afinidade decorrente do seu nascimento no mar. Boa mestra, ela orientou muita gente, procurando aprofundar seus conhecimentos religiosos cada vez mais. Por toda essa dedicação, teve de deixar precocemente as práticas da vida civil. Recebera educação aprimorada, principalmente em música, com estudos completos de piano. Em virtude dos compromissos com a religião, fechou o piano, dedicando-se aos orixás de corpo e alma. Inovações positivas foram feitas por Mãezinha, coisas de valor, a exemplo da reforma da Casa de Omolu, do quarto das Àyabas na Casa de Oxalá, e ainda a ideia de reconstrução do Ilê Xangô, que infelizmente não viveu para concretizar. Em 19 de março de 1975, partiu Ìyá Ondina para o Òrun, deixando um grande vácuo para todos os familiares a que tanto ajudou.
Na mesma data, no ano seguinte, em 19 de março de 1976, Maria Stella de Azevedo Santos, Mãe Slella, Odé Kayodê, foi escolhida ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, também em jogo feito pelo Olúwo Agenor Miranda.
Não é uma tarefa fácil falar sobre Mãe Stella, uma que vez que a todo momento ela se renova e nos surpreende. Nestes seus 34 anos de liderança, inúmeras foram e continuam sendo suas contribuições para a nossa religião e para toda a sua família de seguidores.
Todos nós sabemos que a autoridade e respeitabilidade de uma liderança religiosa pode ser medida de muitas maneiras:
- a Mãe-de-Orixá é quem coloca a mão sobre a cabeça dos seus filhos, transmitindo-lhes o Axé da iniciação;
- é ela a intermediária entre a força mística do Orixá com o corpo do seu filho;
- é ela quem interpreta o entendimento entre os Orixás e seus filhos.
Mas a palavra exata de orientação é o critério mais efetivo para que a autoridade e a respeitabilidade de uma ialorixá sejam aferidas.
É importante registrar que as 3 ialorixás que antecederam Mãe Stella foram iniciadas, passaram pela mão de nossa Mãe Aninha, nossa fundadora. Já Mãe Stella foi iniciada pela mão de Mãe Senhora. Nestes seus 34 anos de liderança, inúmeras têm sido as contribuições de Mãe Stella para nossa comunidade:
- depois de retornar de uma viagem à Nigéria, Mãe Stella criou o Museu Ilé Ohun Lailai, para reunir as coisas de valores que estavam guardadas pelos cantos: a memória do Axé, que do contrário seria perdida;
- durante esses anos, construiu e reformou Casa de Orixás; murou a Roça, buscando preservar os limites do terreno, que já era objeto de invasões; consolidou a rede elétrica e o acesso ao centro do terreiro;
- visando manter a proximidade com os jovens, instalou oficinas de trabalho manuais; atualmente, a oficina de confecção do Alaka (pano da costa) serve não só para manter os jovens em atividade como para preservar essa peça de grande importância para o vestuário religioso;
- desenvolveu o Projeto Mocan, que atende a centenas de criança e adolescentes do Axé e da circunvizinhança, e a Escola Fundamental Eugênia Anna dos Santos, que é considerada referência pela Prefeitura Municipal de Salvador.
Em 1999, o llê Axé Opô Afonjá foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional — IPHAN, do Ministério da Cultura, como Patrimônio Cultural, pelo então Ministro Francisco Weffort.
Durante seu período como ialorixá, Mãe StelIa tem atendido às demandas de Xangô, mantendo preenchidos todos os Oloyê do nosso Egbé. Em 29 de junho de 1990, Xangô fez demandas muito específicas. Nessa data ele escolheu a terceira iaquequerê, a nossa sempre lembrada Mãe Georgette, que com tanto carinho, abnegação e devotamento esteve sempre presente para nos fornecer a orientação adequada, a nós todos os seus muitos filhos pequenos; a Sarapegbé ebômi Eurides Ribeiro da Silva, nossa competente mensageira das coisas civis do terreiro; a Akowê Ilê Xangô ebômi Detinha, Obá Gesi, Secretária da Casa de Xangô, responsável pelo zelo daquele llêe das coisas relacionadas com as obrigações para o Rei de Oyó; e criou o cargo de Agbenin Xangô, aquela que divide a mesma causa.
No final da década de 90, mais uma vez Xangô manifestou-se com demandas para a ocupação de outros Oloyê. Foi nessa ocasião que os cargos de Dagan e Ogalá passaram a ser ocupados por ebômi Mundinha de Ogum, Ogum Edê, e por ebômi Tutuca, Oyá Tokí, respectivamente. Mais recentemente, durante a primeira década do Século XXI, com o falecimento de Mãe Honorina, a ebômi Maria de lansã, Oyá Temi, foi indicada para o cargo de Ìyá Efun, e as ebômis Cida de Nana e Jane de Oxum foram indicadas Otum e Òsi Dagan, respectivamente.
No dia 2 de junho próximo passado, para surpresa, alegria e satisfação de toda a comunidade do llê Axé Opô Afonjá, Xangô deu mostras mais uma vez de sua vontade, indicando para ser a quarta iaquequerê do nosso terreiro a Ayabá mais antiga da nossa Casa, a querida Mãe Ditinha de Iemanjá, Ìyá Lanan. Nossos votos são de que ela siga dando-nos o exemplo que nos tem dado, pelas suas qualidades, que foram notadas pelo olhar severo do Rei.
Mas as contribuições de Mãe Stella podem ser constatadas em outras instâncias. A partir de sua ascensão a ialorixá, a vida de Mãe Stella tem sido devotada integralmente à difusão e ao aprofundamento dos princípios religiosos do Candomblé. Na busca de aprofundar seus conhecimentos, Mãe Stella viajou para a África em 1981 pela primeira vez. Essa experiência serviu-lhe para redimensionar o estado de sua religião. A partir do seu retorno, fiel zeladora que é dos fundamentos da religião afro-brasileira, promoveu uma série de medidas que têm servido para transformar o Candomblé. Foi a partir de sua histórica atuação, durante a II Conferência Mundial da Tradição dos Orixás e Cultura, em 1983, que se conseguiu que o Candomblédeixasse de ser referido como seita animista fetichista para ser tratado como religião. Foi também de sua iniciativa demonstrar o equívoco de se persistir com a ideia de sincretismo religioso, dissociando-se assim os orixás dos santos da Igreja Católica.
A partir desses exemplos, constatamos que o perfil da liderança da Ialorixá Stella de Oxóssi proporcionou benefícios que se estenderam, estendem-se, e continuarão a ser assim no futuro, atemporalmente, para orgulho e autoestima detoda a comunidade afrodescendente, não apenas a soteropolitana ou baiana, mas no País inteiro. É como mãe zelosa que tem buscado meios para estar sempre presente, material e imaterialmente, ao lado dos seus filhos, que a contribuição mais significativa de Ìyá Stella ainda está por ser reconhecida. Sua maior contribuição foi a de registrar por escrito, de registrar em livro uma parte da herança milenar ancestral, transformando a maneira pela qual o conhecimento é transferido, possibilitando assim o acesso e a compreensão de um maior número de pessoas ao rico simbolismo da religião dos orixás, servindo de exemplo para que outras ialorixás e babalorixás façam o mesmo.
É importante salientar que, até a publicação do primeiro livro de Mãe Stella, o Candomblé era objeto de estudo de pesquisadores, muitos deles, movidos apenas pela curiosidade científica; sem qualquer tipo de afinidade ou envolvimento com o assunto colhiam depoimentos de terceiros para nutrirem suas pesquisas, o que dificultou a compreensão do Candomblé. Com suas publicações, Mãe Stella torna-se a primeira fonte autêntica a oferecer-nos o conhecimento ancestral sem intermediários. Complementar a isso, só a vivência de iniciado no terreiro.
Sua produção inclui os seguintes livros:
- E daí aconteceu o encanto, lançado em 1988 — ano que marcou os 50 anos da morte de Mãe Aninha — por Mãe Stella, em colaboração com Cléo Martins. Nessa obra elas procuram relembrar fatos e histórias pitorescas de Mãe Aninha em Salvador e em Coelho da Rocha, no Rio de Janeiro. Em alguns dos seus registros, Mãe Stella fala da barraca de Mãe Aninha no Mercado Modelo, de sua amizade com Edison Carneiro e Jorge Amado, dos Governadores do Estado, do pioneirismo na Festa da Lavagem do Bonfim, da Festa da Boa Morte de que foi priora e do caráter fraterno que tinha para com os filhos e filhas, dando-lhes abrigo e ajuda financeira indiscriminadamente. Mãe Stella recorda ainda a criação do Corpo de Obá em 1936, a pregação de união do Povo de Candombléno II Congresso Afro-Brasileiro realizado em Salvador, no qual Mãe Aninha, ao lado de famosos, pontificou, defendendo suas ideias com segurança e personalidade e apresentando inclusive um relatório sobre a culinária do Candomblé. Mãe Stella relembra ainda os inúmeros oriki escritos por Mãe Aninha. É de sua autoria o Hino do Axé Opô Afonjá. No final, Mãe Stella relata as últimas horas da famosa ialorixá, quando então aconteceu o encanto, Oba Kossô! (O Rei não morreu!)
- Meu Tempo é Agora, seu segundo livro, lançado em 15 de setembro de 1993. Nessa obra, Mãe Stella aborda as origens do llê Axé Opô Afonjá, dando ênfase às contribuições das Mães-de-Orixás que a antecederam, aos ocupantes de cargos ou não que contribuíram para a consolidação do llê Axé Opô Afonjá desde a sua fundação. Fala aos seus filhos sobre a maneira correta de como se vestir e se comportar no terreiro, fala de modos e costumes tradicionais do terreiro, além de discorrer sobre os rituais do Candomblé. Na realidade, Meu Tempo é Agora é uma longa conversa em que Mãe StelIa passa informações essenciais, dando seu recado para todos os filhos e interessados. A segunda edição desse livro foi lançada dia 17 de junho próximo passado, com o patrocínio da Assembleia Legislativa da Bahia.
- Oxóssi, O Caçador de Alegrias, seu terceiro livro, foi lançado em 27 de dezembro de 2006 na Casa de Xangô. Nele, Mãe Stella fala de Oxóssi, o seu orixá, o orixá dono da sua cabeça, seu Eledá, dos itans e oriki do orixá Odé. Fala também da Festa de Oxóssi, realizada no dia de corpus Christi, que é precedida de bori dos seus filhos, da alegria que precede a homenagem ao orixá, da alvorada festiva, dos fogos de artifício no grande dia, da movimentação em todo o llê Axé, da proliferação animada da saudação Okê Aro!, pela chegada do orixá, dos atabaques repicando o agueré, do terreiro adornado com bandeirolas azuis e brancas, e a bandeira azul-turquesa de Oxóssi hasteada por ebômi Deuzimar. Descreve-nos como se desenrola o grande dia: as oferendas matinais, as refeições, o café e almoço compartilhados com todos os filhos e convidados, o Padê, por volta das 4h da tarde, e o grande Xirê no barracão à noite.
- OwéProvérbios, o quarto livro de Mãe Stella, foi lançado no Foyer do Teatro Castro Alves, em 2007. Nessa obra, Mãe Stella apresenta uma série de dizeres tradicionais da cultura iorubana que estão presentes no nosso dia a dia e não nos damos conta de que sejam de origem africana. Esses provérbios reúnem a sabedoria existencial acumulada de múltiplas gerações de povos negros que encontraram seu ingresso no português do Brasil na fala das camadas populares. São dizeres, ditados, provérbios que servem como sábia orientação para aqueles momentos de conflito e indecisão, quando desejamos poder contar com a palavra sábia de um mais velho, seus conselhos, mas, por qualquer motivo, não o temos por perto. Nesse livro, podemos contar com a orientação zelosa de nossa Mãe, pois ela os explica um por um, para que tenhamos uma melhor compreensão. Esse livro foi adotado pela Secretaria Municipal de Educação e Cultura como paradidático na Rede Municipal de Ensino Fundamental.
- Epé Làiyé, que significa terra viva, livro no qual Mãe StelIa externa sua preocupação com o tema da preservação ambiental, com o comportamento agressivo do ser humano em sua relação com o meio ambiente. Esse livro é fundamental para a cultura iorubana.
As inúmeras contribuições à religião de matriz africana e àcultura brasileira levaram 2 instituições de ensino superior a outorgarem a Mãe Stella o título de doutora honoris causa: a Universidade Federal da Bahia, em 2005, e a Universidade do Estado da Bahia, em 2009.
Ninguém consegue experimentar a respeitabilidade e o reconhecimento que nosso terreiro possui por vaidades, mesquinharias e arrogâncias. As vidas de nossas Ìyás foram marcadas por muita dedicação e renúncia para que principalmente nós, seus filhos, pudéssemos alcançar a paz de espírito, o equilíbrio, a felicidade que tanto buscamos.
Para compor este breve panorama sobre nossas ialorixás, pinçamos alguns pontos, que esperamos possam esclarecer nossos ilustres Deputados, em referência à relevância cultural do Candomblé para a formação da sociedade brasileira, para chamar a atenção de V.Exas. em relação ao respeito devido ao legado religioso, étnico e cultural que estão presentes nas práticas religiosas de matriz africana.
Neste ponto, gostaríamos de solicitar a V.Exas. que medidas coercitivas sejam tomadas no sentido de inibir as ações perpetradas contra nós por grupos radicais de orientações religiosas questionáveis. Já é tempo de esse comportamento ser tipificado como ilegal, porque marginal ele já é. O candomblé almeja o ser humano. Os orixás querem que os humanos tenham sucesso sempre, desde nas pequenas batalhas do dia a dia, tenham paz de espírito e consigam viver em harmonia com os outros.
Gostaríamos de enaltecer o esforço de Mãe Aninha para nos legar a roça de São Gonçalo, que é um espaço sagrado para o culto aos orixás, e juntamentecom ele todos aqueles que zelaram para que o Axé fosse transmitido durante todo esse tempo, de geração a geração, possibilitando-nos o privilégio de hoje usufruirmos do convívio com os orixás.
Colocamo-nos hoje, seus filhos, para suplicar-lhes, Ìyás, que aceitem a cada um de nós como mais um na multidão daqueles que os seguem. Seus filhos suplicam-lhes perdão e pedem que nos ajudem a fazer com que nossa estada na Terra seja uma missão de valor. Evocamos Obá Biyi, Olufam Deiyi, Oxum Muiwáe Iwin Tonan para que nos movam na direção da união.
Para que uma ialorixá possa desempenhar plenamente sua liderança é preciso que haja esforço coletivo, é preciso que haja um grupo de obás e ogãs dedicados a assegurar as condições do entorno, assegurar que as demandas materiais para a realização das cerimônias religiosas sociais estejam garantidas.
Os obás e ogãs são pessoas da religião que foram distinguidas das demais da comunidade pelos orixás manifestados. São responsáveis pelas coisas civis da roça, homens que têm por dever ajudar a Ìyá na organização social do Ilê Axé. Eles integram a Sociedade Cruz Santa, que tem por finalidade prover a manutenção e a preservação, com absoluto respeito ao legado dos antepassados, do Axé Opô Afonjá, zelando também pela conservação dos seus instrumentos de culto e de seu patrimônio, sendo uma sociedade sem fins lucrativos. Nossas ialorixás formam um grupo de mulheres, todas guerreiras, que souberam, cada uma a seu tempo, responder às demandas sociais que lhes eram impostas.
No tempo de Mãe Aninha, temos a obrigação de registrar a inestimável colaboração do apoio dado por Pai Joaquim, Obá Sanyá, para a fundação do nosso terreiro. Outro nome que vem imediatamente à mente é o do Babalaô Martiniano Eliseu do Bonfim, elo entre o Opô Afonjá e a Nigéria. Foi a partir da sugestão do Pai Martiniano que o corpo de obás foi criado à maneira do reino de Oyó. E como não mencionar o nome de JoséTheodoro Pimentel? Muito ligado ao Axé, ele recebeu das mãos de Ìyá Aninha o oyé de Bãlé Xangô — literalmente, chefe da tribo, aquele que segura o Ilê, uma espécie de administrador, o que implica dizer que, antes da criação do corpo de obás, o Ilê era administrado por ele. Ainda do tempo de Mão Aninha, vem-nos a lembrança do ogã Jorge Manuel da Rocha. Foi graças aos seus esforços e à ajuda de Oswaldo Aranha, então Chefe da Casa Civil e amigo de Mãe Aninha, que o decreto que assegurava a liberdade de culto passou a vigorar. E lembro ainda os irmãos Miguel Santana e Antônio Alberico de Santana, também do tempo de Mãe Aninha e igualmente memoráveis.
Mãe Senhora, com sua peculiar doçura, teceu uma grande rede social, atraindo um número significativo de intelectuais e artistas para o Candomblé. Do seu tempo, destacamos o trio de sustentação da cultura baiana Dorival Caymmi, Jorge Amado e Carybé, os irmãos Sinval da Costa Lima e Vivaldo da Costa lima, Tadeu Alves de Souza e Antônio Olinto, dentre tantos.
A partir de Mãe Stella o corpo de obás e ogãs vem renovando-se. São desse tempo Ildásio Tavares, Muniz Sodré, Gilberto Gil, Antônio Luiz Calmon Teixeira, Luiz Domingos Souza e inúmeros ogãs.
Neste momento em que festejamos o primeiro centenário de nossa Casa, gostaríamos que estes festejos se estendessem e englobassem 2 Casas irmãs: o Ilê Ìyá Omi Axé Yamassê, mais conhecido como Gantois, e o Ilê Axé Opô Afonjá em Coelho da Rocha, no Rio de Janeiro. Esse último foi fundado por Mãe Aninha. Quando teve de permanecer em definitivo à frente do Ilê Axé Opô Afonjá na Bahia, Mãe Aninha deixou então, como sua substituta no Rio de Janeiro, Mãe Agripina, Obá Dehy; na sequência da linha sucessória desse terreiro veio Mãe Cantulina, Aiyrá Tolá, e atualmente o Axé em Coelho da Rocha é liderado por Mãe Regina Lúcia de Iemanjá. E o prévio, o Ilê Ìyá Omi Axé Yamassê, mais conhecido como Gantois, também originou-se na Casa Branca. Maria Júlia Conceição Nazaré, fundadora do Gantois, é também filha de orixá de Obá Tossi. Na genealogia das ialorixás do Gantois estão sua filha biológica Pulchuéria Conceição Nazaré, que substituiu a fundadora, a sobrinha-neta de Pulchuéria, Maria Escolástica da Conceição Nazaré (Mãe Menininha), bisneta da fundadora, e suas filhas, Cleuza e a atual ialorixá Mãe Carmem de Oxaguiã.
Religião é cultura. A religião estática perecerá. Sob a liderança de Mãe Stella, vários eventos passaram a ser realizados no Ilê Axé. Há a necessidade de palestras, debates, viagens e outros movimentos quesacudam o povo do Candomblé, diz-nos ela. Como sinal dos tempos, não é mais possível a prática religiosa dos Orixás sem reflexões, estudos e entrosamentos, torna a nos dizer. Não podemos ficar confinados no Axé, a tradição somente oral é difícil. Os Olorixás têm que se alfabetizar, adquirir instrução, para não passar pelo dissabor de dizer sim à própria sentença.
Que os Orixás olhem por nós.
Muito obrigado. (Palmas.)


CANDOMBLÉ, TERREIRO ILÊ AXÉ OPÓ AFONJÁ, BA, CENTENÁRIO, CRIAÇÃO, HOMENAGEM.
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