CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ

Com reda����o final
Sessão: 164.3.53.O Hora: 16:26 Fase: GE
Orador: EMILIANO JOSÉ, PT-BA Data: 30/06/2009




O SR. PRESIDENTE (Marco Maia) - Concedo a palavra ao Deputado Emiliano José.
O SR. EMILIANO JOSÉ (PT-BA. Pela ordem. Pronuncia o seguinte discurso.) Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, Santa Maria da Vitória, cidade situada no Vale do Rio Corrente, no oeste da Bahia, completou 100 anos no dia 26 de junho, e a comemoração contou com a presença do Governador Jaques Wagner, de Deputados Federais e Estaduais e de boa parte do Secretariado do Estado.
Na oportunidade, o Governador inaugurou a Biblioteca Municipal Maria de Lima Athayde, entregou à cidade a Coordenadoria Regional de Polícia do Interior, uma agência do CREDIBAHIA, a 17ªCircunscrição Regional de Trânsito (CIRETRAN) e assinou ordem de serviço para recuperação de um trecho da BA-172, antiga reivindicação da região, além de entregar 166 títulos de terra a trabalhadores rurais do município.
Devo dizer de meu amor pelo Município de Santa Maria da Vitória. Há muitos anos, eu brincava dizendo que era difícil chegar a Santa Maria devido à deficiência das estradas e muito difícil sair em razão do encantamento de que é tomado quem se relaciona com a cidade e seu povo.
Tenho relações antigas com a cidade. Lembro-me do final da década de 70, quando, chefe de reportagem do Jornal da Bahia, fui tomado de susto pelo assassinato de Eugênio Lyra, advogado, defensor dos posseiros da região, morto à luz do dia por pistoleiros a mando de grileiros.
À época, já me relacionava com a cidade e mandei um repórter, creio que o jornalista José Fernandes, para lá. Principalmente a partir desse episódio, da constituição de um mártir da luta pela terra, procurei manter contatos constantes com Santa Maria. Meu principal interlocutor e companheiro de lutas no município tem sido Kinkas Lisboa Neto, doublê de militante político e agitador cultural. Kinkas conseguiu, entre tantas outras coisas, ser o artífice da maior biblioteca pública não estatal do oeste da Bahia.
Santa Maria da Vitória é uma cidade de impressionante vitalidade cultural. É berço de Osório Alves de Castro, extraordinário romancista. Seus romances, pela ousadia da linguagem e pelo brilho criativo, de alguma forma, antecipam Guimarães Rosa, que, aliás, não por acaso, o elogiou abertamente logo que tomou conhecimento dos seus primeiros passos. Porto Calendário, Maria fecha a porta pro boi não te pegar e Baiano Tietê são seus 3 romances, ambientados principalmente no Vale do Rio Corrente, nas barrancas do São Francisco.
Sem exagero, quem tiver o privilégio de ler Porto Calendário, por exemplo, se verá envolvido por uma clima de realismo fantástico, encontrará antecipações de Gabriel García Marquez, assistirá a lutas contra coronéis, viverá os sonhos e as lutas dos navegadores do Rio Corrente e poderá se assustar ou se embriagar com as carrancas de Francisco Biquiba dy Lafuente Guarany, o mais famoso construtor de carrancas das beiras do Rio Corrente e de todo o São Francisco, homenageado pelo Governador Wagner no dia do centenário. Osório Alves de Castro é um deleite. Pena que os seus livros só se encontrem em sebos. Eu tenho trabalhado para a reedição deles.
Mas, a cidade não pára aí. E nem vou poder listar todos os muitos talentos que produziu. Posso recordar, porque da minha profissão, Jehová de Carvalho, jornalista, escritor, boêmio, que honrou Santa Maria nas páginas de A Tarde. Não bastasse a cultura, caberia lembrar a presença fortemente política de Clodomir Morais, natural de Santa Maria da Vitória, um dos fundadores das Ligas Camponesas, atéhoje, com mais de 80 anos, um ativo militante da reforma agrária. Também ele, no entanto, para não perder a mania, é contista e romancista.
São 100 anos de rica história. Como se vê, com muita cultura, muita criação e muitas lutas, várias delas regadas a sangue. Eugênio Lyra é o exemplo mais impressionante. Obstinado e dedicado defensor dos camponeses da região, ele pagou com a vida essa dedicação e eternamente será lembrado.
Os artistas locais também permanecem eternos. Hoje, outros tantos jovens, escritores, artistas plásticos e trovadores reencantam Santa Maria da Vitória que, neste seu centenário, merece as homenagens do povo brasileiro e, particularmente, do povo da Bahia.
O povo de Santa Maria, de tantas lutas, é também devotado à paz. De paz e de luta. E foi com esse espírito que elegeu o Padre Amário dos Santos Santana como Prefeito na última eleição. Um homem de Deus, devotado ao cristianismo, certo de que o reino de Deus se faz aqui e agora, Padre Amário tem dedicado todas as suas forças para melhorar as condições de vida do povo de Santa Maria da Vitória. Sábio, o povo escolheu ter como Prefeito, no ano do centenário de seu município, um missionário da paz, cheio de energia, de capacidade de trabalho, disposto a construir uma cidade de irmãos, um município que cultive a paz e que, fazendo, assim, possa fruir da extraordinária criação cultural de tantos de seus cidadãos e cidadãs.
Era o que tinha a dizer, Sr. Presidente.