CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ

Com redação final
Sessão: 029.4.54.O Hora: 20h4 Fase: OD
  Data: 25/02/2014


O SR. ANTONIO BULHÕES
(PRB-SP. Pronunciamento encaminhado pelo orador.) - Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, a revista Veja do dia 27 de janeiro passado publicou uma matéria sobre a força das classes C, D e E, cujas famílias têm uma renda mensal média variando entre 2.344 reais, no caso da classe C, e 250 reais, no caso da classe E.
Falamos de 150 milhões de pessoas que gastaram
, no ano passado, 1,27 trilhão de reais. Só os jovens da classe C consumiram, em 2013, algo em torno de 129 bilhões de reais, contra 80 bilhões gastos pelos jovens das classes A e B, e 19,9 bilhões da D. Ou seja, os jovens da classe C, integrantes da chamada nova classe média, consomem mais do que os jovens de todas as outras classes somadas.
Essa força econômica e política promove os rolezinhos — e é bom esclarecer, desde o início, que eles não tiveram nenhuma intenção de fazer protesto social ou baderna. Essas aglomerações são aquilo que sempre existiu: encontros de adolescentes. Nos tempos em que tais encontros eram marcados por telefone, as turmas eram menores. Hoje, porém, com as redes sociais, um convite de algumas linhas pode motivar a reunião de milhares de pessoas.
Grupos políticos e criminosos, ou grupos políticos criminosos, tentaram aproveitar essas reuniões como oportunidade para o crime e a política. Mas não era disso que se tratava. Tratava-se de consumidores alimentados pela facilidade de crédito e pela redução da pobreza, fenômeno ocorrido em todo o mundo, na década passada.
No Brasil, os bons ventos econômicos internacionais somaram-se ao chamado bônus demográfico, isto é, ao período em que mais pessoas estão economicamente ativas (juventude e maturidade) do que inativas (infância e velhice).
Se as classes C, D e E do Brasil formassem um país separado, esse país teria um poder de compra que o colocaria na décima sexta posição no ranking das nações que mais gastam (o Brasil está hoje na sétima posição). A periferia brasileira é mais forte, economicamente, do que a da Holanda ou da Suíça.
Individualmente, os integrantes de nossa nova classe média são muito mais pobres do que os suíços ou holandeses. Mas o poder de compra deles é maior do que o poder de compra de seus antepassados, e isso é motivo de orgulho. O gasto com supérfluos é um indicador desse orgulho. Essas pessoas moram na periferia, têm péssimos serviços de educação, saúde, transporte e segurança pública, mas viajam de avião, compram celulares e roupas de grife.
Para essas pessoas, o poder de consumir chegou antes de que pudessem ter acesso à plena cidadania, ou seja, ao exercício do direito a serviços públicos eficientes. A geração que faz rolezinhos, ou que formava a maioria nos protestos de junho do ano passado, é filha da geração que se inseriu na sociedade por meio do consumo, mesmo sem ver garantidos seus direitos constitucionais básicos.
Entre 2002 e 2012, a renda familiar média dos 25% mais pobres cresceu 45% no Brasil, graças a uma conjunção de fatores históricos nacionais e internacionais. Cerca de 13 milhões desses brasileiros mais pobres não têm água encanada; 37 milhões não têm coleta de lixo; e 77 milhões não têm coleta de esgoto. Mas foram esses brasileiros que compraram 58% dos smartphones vendidos em 2013, e 54% das passagens de avião. Como foi observado na revista Veja
, vive-se na periferia o paradoxo de ter um celular de última geração e ser obrigado a carregar uma lata dágua na cabeça.
Esse descompasso entre o acesso aos serviços privados e o acesso aos serviços públicos esteve por trás dos protestos havidos a partir de junho de 2013. Tais protestos podem novamente surgir neste ano, e sempre haverá quem queira se aproveitar politicamente disso.
O comum, nessa massa que não quer ser manobrada por nenhuma vanguarda, é a aspiração ao consumo e à cidadania, ou seja, ao acesso aos bens e serviços públicos e privados. Uma pesquisa revelou que cerca de 20% dos moradores de favela se sustentam com um negócio próprio, 47% dos quais iniciados há menos de três anos. Ou seja, a taxa de empreendedorismo das classes C, D e E pode até ser maior do que nas classes A e B. Quando são empregados, muitos devem o emprego ao estudo e a outros sacrifícios, e, por isso, não é estranho que 87% dos integrantes das classes mais baixas atribuam a seus próprios esforços a melhora de sua vida.
Isso é muito bom: responsabilizar-se por sua vida é muito melhor do que atribuir essa responsabilidade à sorte ou ao Governo. Apenas 6% dos mais pobres atribuem a melhora havida em sua vida ao Governo. Para os entrevistados, mais importantes do que o Governo foram a família, Deus, a fé, a sorte e até o patrão.
Na avaliação dos serviços públicos, de
0 a 10, as classes baixas dão nota 4 para a segurança e a saúde, 4,5 para o transporte, e 5 para a educação. Dos entrevistados, 54% pensam que Brasil seria melhor sem partidos políticos, embora 81% considerem a política um assunto importante. Apenas 67% desses 150 milhões de brasileiros confiam em que o voto pode mudar o País.
Essa multidão já é parte integrante do mercado de consumo; resta saber como atraí-la para a política. O voto obrigatório é uma resposta muito mambembe. A infiltração de bandeiras partidárias e a cooptação de líderes, como tem ocorrido, apesar de se adequar a algumas cartilhas partidárias do início do século XX, também não parece ser uma boa solução.
No consumo, essas classes têm sua força na juventude, que é muito exigente, e têm um poder de decisão maior do que o de seus pais. Na política, a situação provavelmente é a mesma, e, portanto, não adiantará oferecer a eles uma política de segunda qualidade. Aliás, a julgar pelo consumo, as classes baixas são até mais exigentes do que as classes altas: no ano passado, 73% das mulheres das classes A e B compraram produtos piratas, enquanto entre as da classe C esse número foi menor: 53%.
Senhoras e senhores
, tudo isso é motivo para muita reflexão, e para ficarmos atentos às mudanças ocorridas no Brasil. Precisamos ter em mente que a ascensão social tornou nosso eleitorado mais exigente, e que aqueles que não se adaptarem a essas exigências correm o risco de não estar mais aqui na próxima Legislatura.
Muito obrigado.